Quando chegar a hora escrita por Love Whisper


Capítulo 13
Desconhecido


Notas iniciais do capítulo

Quase que esse capitulo não sai hoje, hein? Mais um capitulo voltado pra infância deles, espero que gostem, apesar de ter ficado um pouco mais curto que o normal!



Miguel

Eu ainda me lembro de quando éramos só eu e Rafael. Fomos colocados pra adoção quando tínhamos apenas um ano de idade, então todo tipo de lembrança da infância que tenho até os 11 anos são no orfanato. E, apesar das outras crianças de lá serem, de certa forma, como irmãos, Rafael era minha única família de verdade. Eu nunca tive que passar por nada sozinho, ao contrário das outras crianças. Quando algo acontecia, sempre tinha a quem contar. Sempre tinha duplas nos trabalhos da escola e uma companhia no intervalo.

Foi por isso que, quando quiseram me adotar sem ele, eu disse não. Ela era uma moça simpática, e aquela foi a primeira vez que alguém nos levou pra casa. A primeira das três vezes em que fomos rejeitados. Ainda me lembro dela me chamando em um canto, de noite, enquanto Rafael dormia:

—Miguel, querido, eu estava querendo conversar com você.

Eu tinha apenas seis anos, mas já entendia que aquele tom não significava boa coisa.

—O quê?

—Sabe, a tia quer ficar com você.

Eu senti uma sensação esquisita, quase felicidade passando pelo meu corpo. Abri um sorriso, os olhos brilhando.

—Mas adotar duas crianças é muito difícil – ela continuou. Meu sorriso sumiu, e eu franzi a testa, tentando entender. – Você não acha? Eu sei que você ama seu irmão, por isso, seria melhor pra ele ser adotado por outra família que pudesse dar pra ele tudo que eu posso dar pra você. Seria melhor pros dois. Não é?

Ela estava com a mão no meu braço, a qual eu rapidamente tirei.

—Não! – falei. – Eu não quero ficar longe do Rafael. Não tem como... nós dois...? – minhas palavras se perderam e eu senti que ia chorar. Era informação demais pra uma criança.

—Você ainda vai ser irmão dele – ela me consolou. – Só não vão morar juntos mais. Isso é, se você quiser.

Olhei para a mulher na minha frente, com os olhos simpáticos e o tom de voz doce. É claro que eu queria ficar. É claro que queria uma família, mais que tudo no mundo. Mas eu já tinha Rafael, não poderia abandoná-lo. Não, eu nunca faria isso.

Foi naquele exato momento que entendi que Rafa era parte de mim. Minha outra metade.

Comecei a chorar, com raiva tanto da situação quanto de mim mesmo.

—Eu quero ir pra casa! – gritei, soluçando. Não queria ficar ali nem mais um minuto observando a vida que eu teria que rejeitar.

—Querido, vamos te levar amanhã à tarde, como o combinado.

Bati o pé no chão.

—Não! Não, eu quero ir agora!

Eu tinha uma sensação esquisita em mim, que me compelia a gritar e socar coisas.

Rafael foi andando até a sala e eu não sabia se ele tinha ouvido a conversa. Quando o vi, me escondi atrás dele, chorando. Aquele era um gesto tipicamente do Rafael, mas era minha vez de se esconder. Ele pareceu assustado, mas não falou nada.

Depois de algumas horas de muito choro, ela pegou o carro, nossas malas, e nos deixou no orfanato novamente.

Aquele foi o primeiro trauma. Depois daquilo, Rafa se retraiu mais e mais. E, mais tarde, quando Rosa me colocou em uma psicóloga, eu descobri que aquela foi minha primeira crise de raiva. Mas, ao mesmo tempo, fortaleceu nossa amizade. As circunstâncias eram horríveis, mas tínhamos um ao outro. E eu permaneci com esse pensamento até os dias de hoje.

Por isso, era tão difícil aceitar que ele estava doente. Só a ideia de perdê-lo me fez ficar completamente desamparado. Perder Rosa foi como se tivessem arrancado uma parte de mim, me virado ao avesso. Eu não aguentaria perder Rafael também. Não, não sou forte o suficiente pra isso.

Eu não tive coragem de contar pra ele que as crises de raiva voltaram. De noite, olhando pra cama dele vazia, eu sentia raiva. Eloá normalmente passava as noites com Rafael no hospital pra que eu pudesse ir para a faculdade de manhã, mas eu mal dormia. Me revirava de um lado para o outro, me perguntando se ele tava bem, o que estava acontecendo no momento e quando ele iria voltar pra casa.

Eu só queria que tudo voltasse ao normal.

E o pior era que, por mais que eu quisesse desabar, deixar tudo de lado, não podia. Precisava ser presente pra Helena.  Precisava estar lá para ela e o bebê. Tentei meu máximo pra não deixar as preocupações transparecem quando estava com ela, mas foi inevitável.

—o que foi? – perguntou, enquanto lanchávamos depois da faculdade.

—Hã?— falei, distraído.

—Você tá meio distante esses dias.

—Ah... não é nada.

—Miguel, a gente combinou de se conhecer melhor por causa do bebê, certo? Isso significa que você pode me contar as coisas – ela chamou minha atenção. – Além do mais, não é muito agradável conversar com alguém que não ta me ouvindo – Lena pensou por uns segundos – Tem a ver com o bebê?

Olhei de relance pra barriga dela, que estava começando a dar indícios que tinha algo crescendo ali dentro. Parando pra pensar, apesar de ser uma situação estressante, eu estava começando a me apegar a ideia de ter um filho. Não parecia mais a coisa mais horrível do mundo.

—Não, não tem a ver com o bebê – afirmei. – É meu irmão.

—O que aconteceu?

Respirei fundo, me preparando pra dizer as palavras alto pela primeira vez.

—Ele ta com leucemia. Acabou de descobrir.

Helena parecia sem reação, me encarando como se quisesse me decifrar.

—Eu sinto muito.

—Eu tenho ficado... bastante frustrado com essa situação – mostrei a ela as marcas de unha que eu havia feito nos braços quando estava com raiva. — Me desculpa se não to conseguindo te dar atenção.

Ela balançou a cabeça.

—Não, tá tudo bem. Eu to aqui se você precisar de alguém pra conversar.

Fiquei em silêncio, mas me senti um pouco aliviado. Se tem algo que eu precisava era alguém pra conversar sobre aquilo.

Geralmente Yuri é a pessoa que eu converso sobre tudo. Mas Rafael implorou pra eu não contar, e eu, contra minha vontade, fiquei quieto. Deixei tudo me sufocar e ir se transformando em sentimentos ruins. Faz um tempo que minhas crises de raiva estavam controladas, e eu não estava esperando que elas voltassem com toda a força. Talvez devesse procurar um psicólogo novamente, por enquanto o bebê não nasce e todo meu dinheiro seja gasto com fraldas e coisas de bebê.

Mas, por mínimo que tivesse sido o desabafo com Helena, já ajudou. E, quando fui ver Rafael, ele parecia melhor, menos sonolento e não reclamando muito das dores. E estranhamente feliz.

— O que foi? – perguntei. Ele abriu um sorriso e eu percebi que fazia alguns dias que eu não o via sorrir.

—Eles disseram que eu vou pra casa hoje mais tarde.

O olhei, espantado. Parecia bom demais pra ser verdade.

—Sério?

Rafa balançou a cabeça, assentindo.

Tentei esconder minha felicidade, mas o sorriso estampado no meu rosto deixou bem claro. Andei até ele e passei um braço pelo seu ombro.

—Finalmente! Ah, não acredito que não vou ter mais que ficar sozinho naquele quarto!

Baguncei seu cabelo e Rafa riu, se afastando.

—Para, você vai me machucar! – falou, rindo.

 Estávamos os dois felizes, e o clima estava agradável.

—Ei, — Rafa disse  – eu marquei de sair com o Yuri.

—Como? Ele estava bastante chateado com você.

Rafael deu de ombros.

—Eu disse pra ele que estava no hospital. Que explicava melhor pessoalmente. Marcamos de se ver amanhã à noite.

—Mas já?

Rafael soltou um suspiro um pouco triste.

—Cheguei à conclusão de que não tenho tempo a perder.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, então ele disse:

—Segunda-feira começa a quimioterapia.

Eu sentia o medo na voz dele. Ele estava bem no momento, mas ainda havia muitas coisas a resolver. Muitas coisas a se pensar.

Tínhamos um desconhecido todo pela frente.





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