Eu Ainda Estou Aqui escrita por Isah, WSUniverse


Capítulo 5
Sempre ao seu lado


Notas iniciais do capítulo

Aviso: esse capítulo toca em assuntos como abuso sexual



 


Abril de 2017

 

Manhã. Já estou pronta, mas antes de sair, tenho que colocar ração para Arcanjo. Ele não desgruda de mim. A noite dorme comigo e de dia me segue pela casa. Sempre ao meu lado.

Coloco ração e água para ele. Em seguida, pego minha mochila e vou para o portão.

— Emily — Mayara me chama e eu olho para ela. — Vem comer.

— Eu já comi — minto antes de ir.

 

 

Dias Atuais

 

Minha mãe chega ao hospital. Está em jejum, como manda o procedimento já que irá participar de uma transfusão de sangue. Ela é preparada para o momento, assim como eu, que logo receberei o sangue.

É estranho falar sobre isso, nunca imaginei que precisaria de um transplante tão cedo, mais inacreditável, que eu estou consciente e ninguém sabe.

— Ter medo de agulhas em um transplante deve ser um pesadelo — comenta Zé.

E ele não poderia estar mais certo.

 

 

Abril de 2017

 

Final do primeiro bimestre. Todos recebem suas notas, incluindo eu. Fui bem em todas as matérias, não tirei o total em nenhum, mas não houve notas vermelhas. Não sou o tipo de aluna que tira notas ruins, pelo menos, eu não costumava ser no início desse ano.

Claro, minhas notas nem se comparam as da Brenda, que como sempre, tirou as melhores notas da sala, até mesmo tirou a nota total em ciências, a única da sala a conseguir isso. A Duda tirou notas parecidas com as minhas, eu realmente achei que ela tiraria uma nota bem maior, considerando que ela é muito mais inteligente do que eu, pelo menos, na minha visão.

Mas as notas não seriam o único aviso do dia.

Na aula de artes, logo que entrou e conseguiu que a sala fizesse silêncio, o que levou dez minutos porque a minha sala é a própria carreta furacão, claro, não são que nem a sala do ano passado, que explodiu um ventilador e um aluno quase caiu de uma janela do segundo andar (pode parecer grande coisa mas nem se compara ao incidente da festa junina de 2014) um dia falo sobre ela). Enfim, ao conseguir o desejado silêncio, a professora faz um anúncio.

— A escola está organizando um passeio para os alunos do nono ano para a Universidade Federal de Campo Verde. Para ir, cada aluno deve trazer uma autorização assinada e cinco reais no dia. Passaremos todo o horário das aulas nos campus, assistindo a várias palestras e aprendendo um pouco sobre as coisas que não se aprendem dentro dos muros da escola.

 

 

Dias Atuais

 

Detetive Enxerido mais uma vez está vagando pelo hospital, investigando, como detetives fazem, o amigo dele está junto, como sempre.

— O que acha? — O amigo pergunta.

— Não houve arrombamento, nenhuma movimentação estranha.

— Então?

— O assassino tinha acesso a casa, era alguém próximo.

— Sério que você é um detetive?

Encaro o idiota, ainda o odiando por suas conclusões óbvias e estúpidas.

— Né? Isso é de matar — Zé ri um tanto irônico.

 

 

Abril de 2017

 

Espero minha mãe chegar para pedir que ela assine a autorização, além do dinheiro. Ela reclama de ter que pagar 5 reais, mas contra minhas boas notas não há discussão.

Não sei onde guardei a autorização, mas o dinheiro deixei em cima da geladeira, tendo em mente que tenho que guarda-lo logo na mochila para não perdê-lo.

E antes que me repreenda pela minha falta de organização, eu tenho 14 anos. Isso não torna o que eu fiz menos estúpido, mas ajuda a compreender a razão por trás das minhas idiotices, não?

 

 

Dias Atuais 

 

Meus parentes aguardam no corredor...

Parente é uma praga — Zé comenta.

Sinto saudade dos meus — Diego diz depois dele.

— Podem não interromper minha linha de raciocínio por favor?

Linha de raciocínio? — Marcelo parece confuso.

— Apenas fiquem quietos.

Meus parentes aguardam no hospital por notícias, acabei de passar pelo transplante e nenhum médico avisa nada.

Você está narrando na sua cabeça? — Zé interrompe meu raciocínio de novo.

— Cala a boca.

Então o médico chega e rapidamente meus parentes se aglomeram perto dele.

Eu também narro na minha cabeça, não é literalmente uma cabeça — Zé maldito interrompe de novo.

— FICA QUIETO!

 

— E então, doutor? — pergunta minha mãe.

— Ela está respondendo bem ao transplante — diz o médico. — Se continuar assim logo poderá ser transferida para um quarto e receber visitas.

 

 

Abril de 2017

 

Na manhã do passeio da escola, fico procurando o que preciso pela casa. Acho a autorização em cima do armário, mas nada do dinheiro. Olho em cima da geladeira e ele simplesmente sumiu.

— Mãe, você viu o dinheiro?

— Não, eu avisei para não deixar jogado, olha o que aconteceu.

— Mayara — chamo ao vê-la passar pela cozinha.

— Também não vi.

— Droga — resmungo. Sem aquilo não consigo ir no passeio da escola.

— Que dinheiro é esse? — Meu irmão pergunta, nem tinha notado que ele estava acordado.

— Cinco reais, tinha certeza que estava em cima da geladeira.

— Geladeira?

— Sim.

Ele abaixa a cabeça, parece culpado. Ele é culpado, droga!

— Desculpa — Ele diz.

— O quê?

Olho confusa para ele, torço tanto no  fundo da minha alma para que ele não tenha feito o que penso que fez.

— Achei o dinheiro jogado em cima da geladeira e comprei cigarro.
Droga!

— Espera, você pegou um dinheiro que não era seu e gastou sem nem ao menos pensar em perguntar se não era de nenhuma de nós? — uuço minha irmã perguntar.

— O dinheiro estava jogado.

— Mas não era seu.

— Por que ela deixou o dinheiro jogado? — Ele aponta para mim.

— Ela errou e você também — Minha irmã diz. — Nunca tivemos problemas de roubo entre nós, não até você aparecer.

— Eu não roubei nada, estava jogado.

— Você pegou algo que não era seu, isso é roubar.

— Chega! — Minha mãe intervém e olha para mim. — Nada disso teria acontecido se tivesse guardado na sua mochila e não deixado jogado.

— Eu sei — resmungo.

Minha mãe olha para meu irmão.

— Existem outras três pessoas nessa casa além de você, se tem um dinheiro jogado e ele não é seu, não pegue!

— Sim, senhora — Meu irmão soa debochado.

E finalmente, minha mãe olha para Mayara.

— Precisa deixar a sua irmã arcar com as consequências das irresponsabilidades dela.

 

 

Dias Atuais

 

Estão me movendo. Consigo sentir o balanço causado pelas rodinhas da maca. Maca. É esse o nome?

Estão me levando para um leito. Um leito de verdade, com uma cama mais confortável, e outros pacientes no mesmo quarto. Bom ou ruim, adeus isolamento.

Ah sim, isso também significa que posso receber visitas. Não que eu estivesse isolada. Zé, Marcelo e Diego não me fazem me sentir assim.

Gostei do quarto — comenta Zé. — O cheiro é melhor que o que eu fiquei.

Pelo menos ficaram em um quarto — Marcelo diz.

— Ei, um dia podem ver o meu — Diego diz.

Apenas os observo em silêncio, ouvindo tudo.

Não vai dizer nada? — Marcelo pergunta, acho que está falando comigo.

— Vou receber visitas.

Não está feliz? — Diego pergunta.

— Eu vou receber visitas.

 

 

Abril de 2017

 

Voltando ao dia do passeio, ainda há um problema. Sem o dinheiro não posso ir.

— Mãe, você tem cinco reais?

— Não daria nem se tivesse, que isso te ensine a ser responsável.

Me dou por vencida. Não vou ao passeio, minha mãe não vai me deixar faltar então provavelmente vou ficar cinco horas copiando alguma coisa aleatória na sala de aula enquanto o resto da turma se diverte.
Estou saindo de casa quando ouço Mayara me chamar.

— Está com a autorização aí? — Ela pergunta.

— Sim, mas é inútil.

De repente, ela me entrega uma nota de cinco reais.

— Vê se não perde  dessa vez — Ela me dá um abraço. — Boa aula e não se desgrude do grupo.

 

Dias Atuais

 

Logo vou poder receber visitas. Visitas. Pessoas. Reunião de família. Barulho. Discussão. Hipocrisia. Por que não um pesadelo junto?

— Os horários de visitas são das onze as meio dia e das oito as nove da noite — anuncia o médico.

Uma hora inteira com minha família no hospital. Tudo o que eu preciso para decidir nunca mais acordar.

 

 

Abril de 2017

 

Chego na escola e vou para a minha sala, onde me reúno com Brenda e Duda. Lá, entrego a autorização e os cinco reais. Não demora para sermos levadas até a fachada da escola, onde os ônibus nos esperam. Cada turma é contada e é feita uma chamada.

Enfim, finalmente entramos no ônibus,  que leva algum tempo até chegar a universidade, uma das mais conceituadas do país, com certeza Brenda ainda estudará aqui.

Quando o ônibus chega a universidade, saímos e uma chamada é feita novamente, antes de entrarmos, cada um recebe um adesivo para grudar no uniforme, no adesivo está escrito “visitante”.

Finalmente, entramos. Nossa primeira parada é uma exposição artística sobre a cultura brasileira, cada canto do estande tem algo que remete a uma região, o que inclui fotos e algumas peças como pinturas, artesanato. A professora de artes explica, alguns prestam atenção, a maioria fica fazendo palhaçada, por incrível que pareça, Luis Felipe faz parte do grupo que presta atenção, mesmo andando com os bagunceiros. Vai ver todo grupo tem uma ovelha negra.

Depois, vamos a uma palestra sobre o que queremos ser quando crescer. Por um momento, pensei que aquilo iria me iluminar com alguma vocação futura, mas tudo o que ouço é a mesma merda genérica “faça o que ama, estude, pense sobre isso”, não querem que a gente pense, querem que produzimos dinheiro e apenas isso.

Voltando, após essa palestra, assistimos uma aula da turma de teatro (que suspeito que estavam tentando nos recrutar para as aulas comunitárias dele).

— Certo, vamos fazer o exercício — diz a moça do teatro. Ela vem até mim. — Qual o seu nome?

O que foi que eu fiz de tão ruim para você, Deus? Por que todo passeio escolar sou eu quem acabo me ferrando?

— Emily.

— Pode se levantar, Emily.

Me levanto tentando não mostrar que aquele monte de gente me encarando me faz querer vomitar. Eu realmente odeio falar em público, especialmente quando esse público pode passar o resto do ano zoando de mim por causa de mim.

— Então, Emily, você vai incorporar um personagem e responder às perguntas como se fosse ele, entendeu?

— Sim.

— Você vai ser um gato.

Os outros alunos riem, tenho a impressão que essa moça é uma sem noção. Queria ser um gato, que nem o Arcanjo, só pra sair arranhando todo mundo.

— Eu sou um gato — digo de maneira robótica.

Os idiotas da minha sala começam a rir, eu só queria sair correndo e fugir para bem longe.

— No que está pensando, gato?

Quero te matar.

— Quero arranhar o sofá.

Mais risos, até consigo ouvir um “miau” vindo de algum lugar.

Depois da vergonha alheia que foi isso, finalmente, pausa para um lanche, que é pão com carne e suco de laranja. Eu não como o pão porque a carne parece gordurosa. Apenas tomo o suco.

Após o lanche, estamos indo para a próxima palestra quando vejo minha irmã de longe, ela parece estar acompanhada de um primo, o que foi chamado de Zé droguinha por meu irmão  (a propósito, o primo se chama Gabriel). Não sabia que ele estudava aqui, não sabia nem que ele estudava.

— Oi — grito e aceno, minha irmã faz o mesmo.

Vamos para a próxima palestra, sobre assédio e estupro. Logo que entramos alguns garotos começam a fazer piada do tema, como os garotos idiotas que são.

Nos sentamos no auditório, Duda e Brenda se sentam ao meu lado. Vejo que Luis e alguns garotos se sentam atrás da gente.

— Aí meu deus, ele esbarrou em mim, estupro! — Um garoto comenta atrás de mim e os amigos deles riem.

— Nossa, você é tão engraçado — Duda debocha. — Devia escrever um livro de comédia.

— Posso mostrar mais coisas que sou bom — O garoto é saudado pelos amigos, exceto por Luis que parece quieto.

— Dispenso.

— Ah sim, esqueci que você curte garotas.

Duda paralisa por alguns instantes e olha para Luis, ela não é a única decepcionada com ele. Por que garotos são tão idiotas?

— Você contou para seus amigos?

— Eu...

— Então, Brenda, Emily, vocês também curtem garotas? — Outro garoto pergunta. — Vocês tem tipo, uma relação de três? Aceitam mais um?

Reviro meus olhos com muito nojo, garotos são ridículos e nenhum deles se salva, nem mesmo o Luis. Duda se levanta claramente exaltada.

— Quer saber por que nenhuma garota te quer virjão? — Ela pergunta e o auditório inteiro a ouve. — Se olhe no espelho!

— Uuuuh, virjão — Eles começam a rir de Luis, que se encolhe envergonhado na cadeira. Bem feito!

— Mais uma dessa e esse passeio acaba aqui — Minha professora repreende. — Entenderam? Maria Eduarda e Henrique.

Assim, eu, Duda e Brenda nos sentamos em outro canto, longe daqueles garotos. Melhor eu esquecer o Luis, ele parece ser idiota que nem os outros.

Não prestei atenção em muito da palestra, mas uma parte me chama a atenção.

— Se alguém toca você de maneira inapropriada, em lugar inapropriado, sem sua permissão e você se sente desconfortável, você estar sofrendo um assédio.

Como se sabe que um toque é inapropriado quando todos os toques te incomodam? Como saber a diferença entre um abraço e algo errado?

E finalmente, lembro do meu avô. Ele realmente deveria me abraçar pela cintura e tocar na parte inferior das minhas pernas? Quando ele toca minha bunda, é um acidente ou é intencional? Tantas vezes... seria mesmo acidente?

Ao fim da palestra, estamos andando pelos corredores de um bloco do campus, quando uma gritaria nos tira do nosso caminho. Só descobrimos a causa dela quando entramos em uma sala e vemos Jesus, um aluno que mais falta do que vem as aulas e decidiu vir logo no dia do passeio, quase sendo jogado pela janela por alguns amigos do Luis. Jesus grita desesperado se segurando com todas as forças enquanto os meninos dão alguns socos tentando fazê-lo cair, Luis observa aquilo do canto, ele parece estar em choque com o que os amiguinhos dele são capazes de fazer. A briga só para quando alguns professores conseguem segurar os moleques e Jesus é puxado de volta para dentro.

 

 

Dias Atuais

 

Manhã de sexta feira. Sou praticamente arrastada pelo hospital, mais um exame. Eu odeio isso.

Qual vai ser? — Zé parece curioso.

— Acho que raio X.

Que sem graça!

— Sua ideia de diversão as vezes me confunde.

Não apenas você  — Diego ri.

Nunca fiz um raio X na vida e esse já me faz querer pular pela janela. Maldita condição de coma. 

 

 

 

Abril de 2017

 

Ao fim do passeio, uma nova chamada, depois, entramos o ônibus e voltamos para a escola. Lá, ao dar o horário de saída, somos autorizados a ir embora. Exceto Jesus e os garotos que tentaram empurrá-lo pela janela, esses vão ter que esperar os pais. Caso queira saber a resolução, depois eu descobri que dos meninos, dois levaram uma suspensão, um foi suspenso e o Luis levou uma advertência.

Vou para casa, coloco ração para o Arcanjo e tenho que esquentar o almoço para mim e meu irmão. Enquanto as panelas estão no fogo, meu irmão me chama.

— Oi, eu queria pedir desculpa — Ele me entrega uma nota de cinco reais, eu nem me lembrava do que aconteceu mais cedo. — Eu não sabia que era seu.

— Não tem problema — devolvo o dinheiro para ele que parece contrariado.

— Mas...

— Eu não preciso, mas obrigada.

Tento sorrir para ver se isso o faz se sentir melhor, mas me olha com certa raiva e vai para o quarto. Por que ele sempre leva tudo no pior sentido?

 

 

 

Dias Atuais

 

Mal me recupero do Raio X e estão me levando para outro exame. Odeio hospitais, realmente odeio.

Qual o exame? — Diego pergunta.

— Eu não sei.

Não leu o prontuário? — Marcelo pergunta.

— Não consegui.

Ela vai fazer ressonância — Zé aparece ao nosso lado.

Legal, vão me colocar em um ambiente fechado e barulhento. Desespero para pular pela janela não falta.

Passo uma longa hora naquela sala fazendo o maldito exame até ser levada de volta ao leito e ter algum descanso. Não demora para a Mayara chegar e o médico já tem noticias, acho que está relacionado aos malditos exames.

— Ela deverá passar por uma cirurgia pela manhã, por causa de uma lesão na coluna. A noite servirá para prepará-la.

A primeira cirurgia a gente nunca esquece — diz Diego.

— Essa é a segunda.

— E como foi a primeira? — pergunta Zé.

— Eu não fiquei para assistir.

Pois devia — diz Zé. — Se você morrer por erro médico vai saber quem você vai ter que puxar o pé de noite.

 

 

Abril de 2017

 

É noite. Já jantamos, minha mãe está dormindo e não sei o que meu irmão está fazendo, mas estou no quarto de Mayara com ela organizando as roupas. Arcanjo está com a gente, deitado em cima da cama ronronando tão alto que parece uma máquina.

— O Gabriel foi visitar um amigo dele lá — explicou. — Acabei encontrando ele e a gente ficou conversando.

— Legal — comento sem prestar atenção.

— Você está bem?

— Acho que sim — Ainda estou pensando na palestra.

— Como assim acha?

— É uma dúvida que eu tenho.

— Que dúvida?  — Ela senta na cama e olha para mim.

— Como a gente sabe se um toque é normal ou é um assédio?

Ela parece ficar pensativa.

— Um toque que te deixe desconfortável — Ela diz.

— Mas todo toque me deixa desconfortável.

— Bom... — Fica pensativa. — Você tem algo para me contar?

— E se o toque for aqui? — aponto para a parte inferior das pernas.

— Você precisa me contar o que está acontecendo, Emily.

— Sabe o vovô? — pergunto e ela confirma. — Toda vez que o vejo ele me toca da cintura pra baixo e sempre me incomoda.

— Por que nunca me falou nada?

— Eu não sabia que era errado, só que me incomodava — respondo. — Por favor, não fala para ninguém, não quero arrumar confusão.

— Eu não vou, mas não quero mais você indo na casa da vovó.

— Entendi.

— E se ele vier aqui, não fica perto dele, gruda em mim — Ela segura as minhas mãos.

— Sim.

— E se ele forçar alguma coisa, qualquer coisa, grite, grite bem alto, não tenha medo.

— Entendi.

Ela me surpreende com um abraço.

— Qualquer coisa que acontecer você me conta, entendeu?

— Sim.

 

 

Dias Atuais

 

É noite, Mayara é quem está aqui comigo. Ela está ao lado do leito, sentada em uma cadeira, consigo senti-la segurar minhas mãos.

— Amanhã vai ser um grande dia, não? — Ela diz, acho que está falando Comigo, no caso, a parte de mim que ela consegue ver, meu corpo.

— Amanhã vai ser um grande dia — repito.

— Você sempre odiou hospitais, ainda bem que não está acordada pra ver isso.

Não diria isso tão cedo — Zé comenta e olho para ele.

— Pode me deixar sozinha com ela?

Isso é um hospital, nunca estará sozinha.

— Por favor.

Vejo Zé e Marcelo deixarem o local, não vejo Diego há algumas horas.

— Eu queria... desculpas... — A voz dela falha. — Eu não pude te proteger.

Coloco minha mão no ombro dela, queria que ela pudesse me ver, me ouvir.

— Não foi culpa sua — digo.

Ela passa a noite toda ali comigo, isso é reconfortante e angustiante. Ter ela aqui me faz me sentir segura, ao mesmo tempo que me deixa triste, afinal, ainda estou morrendo.

Pela manhã, pouco depois da minha mãe chegar, o médico aparece para me levar ao centro cirúrgico.

O vejo colocar meu corpo em uma maca e me levar pelos corredores. Quando entro no centro cirúrgico, vejo Marcelo e Diego ao lado da minha mãe, eles acenam para mim e aceno de volta.

Antes do procedimento começar, eles me injetam algo, não sei o que é, mas me sinto ainda mais desconectada do meu corpo do que o normal.

Enfim, com todo um cuidado, me viram de costas na mesa cirúrgica,  mais uma injeção. Aparelhos estão conectados em mim, servem para me monitorar.

Então vem o bisturi e não consigo olhar. Já é agonizante ver o corte ser feito e o sangue, é pior ainda por ser em mim.

É assim por toda a cirurgia, passo todo o tempo olhando para a porta, apenas ouvindo o que os médicos dizem. Por sorte, é uma cirurgia tranquila.

Sinto eles fechando o corte, até agora deu tudo certo.

Sou movida novamente para o isolamento, acabo de passar por uma cirurgia, toda atenção é pouca.

Enfim, o médico vai dar as notícias para minha mãe.

— A cirurgia foi um sucesso, ela está em observação, os próximos dias serão cruciais para ela.
     





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