Eu Ainda Estou Aqui escrita por Isah, WSUniverse


Capítulo 4
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Notas iniciais do capítulo

Eu sei que demorei uns cem anos para postar e quero pedir um milhão de desculpas, aconteceram muitos imprevistos e realmente só consegui postar esse capítulo agora

Aviso: esse capítulo toca em assuntos como distúrbios alimentares e abuso sexual



 

Março de 2017

 

Eis a minha rotina diária, acordo, me arrumo, coloco ração para o Arcanjo, vou tomar café da manhã e então, finalmente, pego meus materiais e vou para a escola. É uma rotina simples, até um pouco comum. Melhor parte do dia porque o idiota do meu irmão não está acordado, embora só tenha percebido isso agora. Nem sei se conseguirei voltar a essa rotina algum dia. Tudo por causa dele.

Talvez eu nunca mais escute uma bronca da minha mãe, talvez nunca mais abrace a Mayara ou a Ludmila, converse com a Brenda e a Duda. Nem ao menos dizer adeus ao meu pai eu posso.

 

 

 

Dias Atuais

 

Estamos em uma delegacia. A menina está aqui, esperando por algum responsável. Comigo estão Zé, Marcelo e Diego, que não param de falar. Antes fossem só eles os únicos tagarelas nesse lugar.

Conseguimos ouvir os comentários dos policiais.

—... dá em cima do pastor e depois se faz de vítima.

— Essas novinhas são tudo iguais.

A menina também parece ter escutado, ela se afasta um pouco, visivelmente incomodada. Idiotas. Por que a culpa tem que ser da garota?

— E o pastor?

— No hospital.

— Será que foi a garota?

— Pode ter sido apenas um curto.

Agora eles estão desconfiados. Está feliz, Zé? — questiona Diego.

Só mais um dia normal.

— É isso que incomoda vocês? — questiono sem tirar os olhos da menina que está um pouco afastada.

 

Março de 2017

Sabe o que é pior que um trabalho em grupo? Apresentar um trabalho em grupo.

Veja, meu problema não é com trabalho em dupla, geralmente quando é em dupla eu faço com a Brenda e tudo da certo, mas quando é em grupo precisamos fazer com mais colegas e algo sempre dá errado. Claro que isso não importa para a professora de português.

— Trabalho em grupo, vocês deverão fazer uma revista. Cada grupo deve ter pelo menos 4 alunos, então montem seus grupos e juntem as mesas.

Por obviedade, eu, Brenda e Duda juntamos nossas mesas, mas ainda falta um quarto integrante.

— Posso fazer o trabalho com vocês? — Luis Felipe pergunta.

— Claro.

Ele junta a mesa dele com as nossas. Tento não encará-lo, não posso dar bandeira, ele está interessado na Duda, eu nunca teria chance.

 

 

 

Dias Atuais

O dia amanhece, a menina está com os pais, eles não parecem acreditar nela. Coitada.

— Wallison!

Me assusto com o grito e olho para a porta, vendo o detetive Enxerido entrar. O nome dele é Wallison, nome muito bosta esse.

— Bom dia — Ele diz.

— Tem um caso novo aí pra você — O policial aponta para a garota.

Então entendo, Detetive Enxerido vai ficar responsável pelo caso da garota. Espero que ele cuide do caso dela melhor do que cuida do meu.

 

 

Março de 2017

 

Sala de aula, cada grupo reunido em seu canto, assim como o meu. Estamos discutindo sobre o que cada um fará no trabalho, sabe, a boa e velha organização.

— Eu faço a pesquisa — Brenda diz.

— Eu escrevo as matérias — Duda também diz.

— Também quero escrever — Dessa vez é Luis.

— Eu cuido do design — digo em voz baixa, o importante é que eles escutam. — Incluindo a capa? — questiona Luis.

Aceno de maneira afirmativa com a cabeça.

— Mas qual vai ser o nome da revista? — Duda pergunta.

— Gente, são 11:20, por que a gente não marca de se encontrar e resolver tudo? — Luis intervém. Não consigo deixar de notar como ele é bonitinho.

— Ótima ideia — Duda concorda. — Onde?

— Pode ser lá em casa — Brenda diz. — Aí a gente já aproveita para Imprimir lá.

 

 

 

Dias Atuais

 

Continuamos na delegacia. O detetive está prestes a fazer algumas perguntas para a garota, que, talvez atingida pelo medo, parece mudar de ideia.

— Não teve abuso, não teve estupro, eu estava lá por livre e espontânea vontade.

Não acredito que ela está fazendo isso, entendo as motivações dela, e mesmo assim não acredito.

— Estava mesmo? — questiona detetive Enxerido.

— Sim.

Então banquei o herói por nada? — Zé parece frustrado. — Parece até que essa idiota gostou de ser abusada.

— Você claramente nunca foi uma garota.

— Por quê? Todas vocês são malucas?

— Porque se tivesse sido saberia que ela está com medo, medo do julgamento, dos olhares, de que no final, o veredito público será que ela é a culpada.

Se nem os pais dela acreditam, por que o resto do mundo acreditaria? Decido sair dali, mais um frustrante dia em coma.

 

Março de 2017

 

Após o fim de mais um longo dia de aula, vou para casa. Como sempre, eu deveria esquentar comida para nós, mas não tem nada para esquentar o que me deixa com duas alternativas:

1: Preparar o almoço, da última vez explodi a panela de pressão.

2: Fazer macarrão instantâneo.

Vou pela opção mais segura e fervo dois pacotes de macarrão instantâneo (um para cada). Para que não seja só isso, decido ferver também duas salsichas.

Quando o almoço fica pronto, chamo o meu irmão, que ainda está dormindo. Guloso como é, ele rapidamente se levanta e coloca macarrão instantâneo e salsicha no prato dele.

— Como foi a aula? — pergunta de boca cheia.

— Tenho um trabalho de português.

— Que trabalho?

— Temos que fazer uma revista e eu vou cuidar da parte do design.

— Design? Realmente é a sua praia, não é?

— Acho que sim — respondo de boca cheia.

— Cuidado, você é uma garota, não pode falar de boca cheia.

Esse é um privilégio para rapazes hipócritas. Garotas precisam ter boas maneiras, enquanto garotos podem mastigar de boca aberta e cuspirem a vontade.

— Desculpa — peço em tom baixo, sem contestar.

— Também precisa tomar cuidado com o que come, você está ficando cheinha.

Com isso, afasto o prato incomodada.

— O que foi? - Ele pergunta.

Não acredito que alguém possa ser tão cínico.

— Perdi a fome.

Então, guardo o prato na geladeira, minha mãe não gosta que desperdiçamos comida. Decido colocar ração para Arcanjo, alguém que vai comer em paz nessa casa. Com certeza um sortudo.

 

 

 

Dias Atuais

 

Detetive Enxerido decide voltar ao hospital, decido ir com ele, fantasma ou não, não quero fazer todo este caminho de novo e não sei me teleportar como o Zé e o Marcelo.

Caralho, como esse filho de vó consegue acordar tão cedo — Zé questiona, ele e os outros fantasmas estão aqui no carro comigo.

A necessidade faz isso com a gente — Diego comenta. — A necessidade e o desespero.

Ele não está desesperado o suficiente para pentear o cabelo — Marcelo diz em tom calmo.

Vai ver ele pensa que é algum penteado da moda .

Zé passa uma das mãos pelo cabelo do detetive que sente uma leve brisa. Marcelo apenas dá um leve tapa na própria testa.

O quê? — Zé questiona em deboche.

Você precisa ser discreto — Marcelo diz receoso. — Não quero que chamem um exorcista de novo. — Vocês foram exorcizados?


Eles tentaram — Zé ri.


 

Março de 2017

 

Me encaro em frente ao espelho, mais especificamente, encaro minha barriga. O Vinicius não poderia estar certo, poderia? Eu não consigo ver nenhum traço de beleza em mim mesma, nem no meu rosto, nem no meu corpo.

— O que está fazendo?

Tomo um susto, olho para a porta e vejo Mayara. Como não a ouvi chegar?

— Ah... nada — gaguejo insegura. Não quero incomodar ela com as minhas besteiras.

— Nada mesmo?

— É — Não fui convincente. — Acha que eu tô gorda?

— Claro que não. Não acho que a Mayara diria se eu estivesse. Ninguém diria isso para a irmãzinha, só se a odiasse.

 

 

 

Dias Atuais

 

Chegamos no hospital e logo na entrada encontro o que minha avó chamaria de "zona de narquia", uma discussão, uma bagunça. Quase toda a minha família está ali discutindo. Minha mãe, minha madrasta, minha irmã mais velha, meu irmão, minha meia-irmã mais nova, meus avós paternos.

O que estão fazendo? — Diego questiona tão confuso quanto eu.

Não percebeu? Brigando — Zé dá uma ênfase no tom de obviedade da resposta.

— O que está acontecendo? — Detetive Enxerido pergunta e é ignorado.

— Parem com isso! — Um médico intervém. — Se continuarem serão todos expulsos, ouviram?

Finalmente o bando de arruaceiros que chamo de família decide parar de brigar.

— Qual era a razão da discussão? — Enxerido pergunta para minha irmã, Mayara.

— Os testes de compatibilidade para saber quem vai poder doar sangue para a Emily.

— Ei Sueli, papai não quis vir não? — Vinicius questiona provocativo, hipócrita idiota.

— Ele ainda não sabe — Sueli diz.

— E não pode saber — Minha avó completa.

Por que seu pai não pode saber? — Zé questiona e me assusta com a maneira repentina que fala.

— Porque ele está doente — digo, mas não parece suficiente para ele, que me encara esperando por uma resposta mais elaborada. — Ele não pode sofrer estresse ou emoções fortes, ver sua filha em coma, é uma emoção forte.

 

 

 

Março de 2017

 

Mais tarde naquele dia, consigo ouvir meus irmãos discutindo, acho que a causa sou eu. Estou no canto ouvindo tudo, ainda não me viram.

Que história é essa de comentar que a Emily está cheinha? — Minha irmã parece brava.

É verdade.

Ela está crescendo, isso não tem nada a ver com ganhar peso — grita. — Você é a última pessoa que pode chamar alguém de gordo, balofo.

Puta merda, não foi nada demais.

E finalmente, eles me veem ali.

— Você já foi bater tudo para ela, não? — Meu irmão parece bravo, ele se aproxima me assustando. — Fofoqueirazinha desgraçada.

Ele se prepara para me dar um tapa, mas Arcanjo se coloca entre nós e começa a rosnar para ele.

— Toca um dedo nela e eu te mato — Minha irmã também se coloca entre nós e me envolve com seus braços, uma forma de proteção.

 

 

 

Dias Atuais

 

No hospital, de todos os que estão aqui para a bagunça, apenas três estão aptos para fazer o teste. Lista dos meus familiares próximos que podem ou não fazer o teste:

Minha mãe: razões óbvias, ela está saudável, nenhuma doença, apta para o teste.

Meu pai: Não está apto porque está gravemente doente e não pode nem fazer ideia de que estou aqui.

Meu irmão: Está apto, mas prefiro morrer do que receber sangue logo dele.

Minha irmã: Em teoria ela pode, exceto por um segredo que só eu e ela sabemos.

Minha meia irmã, Ludmila: ela tem só nove anos então não pode.

Meus avos: Idade avançada, não estão aptos.

Agora, minha vida provavelmente está nas mãos de uma das três pessoas aptas, só espero que essa pessoa não seja o idiota culpado por me mandar para cá.

 

 

Março de 2017

 

Um novo dia. Depois da aula, almoço na casa de Brenda, o almoço lá é sempre uma coisa incrível, e nesse dia não é diferente porque a mãe dela fez feijoada. Mesmo assim, como pouco, afinal, estou tentando perder peso.
Após o almoço, chegam Duda e Luis Felipe para fazer o trabalho da revista. Sim, vai ser uma tarde e tanto.

 

 

 

Dias Atuais

 

Aqui no hospital, está na hora de fazer o teste. Minha mãe será a primeira e é evidente que ela está nervosa, e quem não estaria? Ela está em jejum há horas, todos eles estão.

O nome dela é chamado. Ela é levada até uma sala onde é deixada sozinha por alguns instantes. Logo, uma enfermeira chega e minha mãe tem que se sentar em uma cadeira.

A enfermeira enrola uma borracha estranha que eu não sei o nome no braço da minha mãe e procura por uma veia, e logo a acha. O que vem a seguir é rápido, mas agoniante, pelo menos para mim.

A enfermeira perfura uma área do braço e o sangue logo sai para um vidrinho. Desvio o olhar durante quase todo o processo. Agulhas me dão agonia, assim como sangue.

Ao fim daquilo, a moça tira a agulha e a borracha e entrega um algodão para minha mãe pressionar em cima do furo.

Medo de sangue ou agulha? — Zé me assusta com sua maneira repentina de me abordar.

— Os dois.

Acabo fazendo uma careta involuntária, isso é nauseante.

E você está em um hospital, que azar — Diego comenta.

Azar pouco é bobagem para essa aí — Vejo Zé rir, não sei porque, mas acabo rindo também. Acho que é porque é verdade.

 

 

 

Março de 2017

 

Estamos a fazer o trabalho de português, que anda, mas não anda. Já decidimos as matérias, já tenho uma ideia de design, só tem um problema, a revista não tem nome, apenas sugestões.

Sugestões de nome:

Maximus (sugestão do Luis, ele é fã de heróis e vigilantes, essa coisa toda).

Revista do Trabalho de Português (sugestão da Duda, ela tá sem ideias).

Radioactive (sugestão da Brenda porque ela estava ouvindo uma música com mesmo nome).

Footstep (significa pegada, não lembro quem sugeriu isso).

Fazemos uma votação, acontece um empate entre Maximus e Footstep. Como não conseguimos decidir entre eles, é sugerido que eu faça duas capas com os dois nomes e veja qual fica melhor.

O esquema fica assim, Brenda pesquisa e manda para a Duda e o Luis, que fazem as matérias e depois me mandam para que eu arrume os design no computador e depois mando tudo para a Brenda imprimir na casa dela. Quanto a capa, vou fazer um esboço das duas capas e mandar para os outros escolherem.

Bem no meio da nossa "discussão de ideias", a Brenda precisa ir atender o telefone da sala e me deixa sozinha com o Luis e a Duda. E ficar sozinha com o garoto que gosta e a garota que ele gosta é muito estranho.

 

 

 

Dias Atuais

 

E o segundo a fazer o teste é o meu irmão, nem o sigo, não quero olhar para ele, não quero o sangue dele, prefiro morrer.

Qual é a treta com seu irmão —

Diego me pergunta, ele parece receoso.

— Só não quero receber o sangue do meu assassino.

— Isso é que é ironia dramática — Zé comenta de maneira repentina e Diego lança-lhe um olhar repreensivo.

Podia ser pior — diz Marcelo. — Meu assassino ajudou nas minhas buscas. Então todos o encaram em silêncio.

Você nunca fala do seu assassino — Diego parece surpreso.

Nenhum de nós fala — Marcelo responde.

Eu não fui assassinado — Zé comenta. — Não diretamente.

Fico confusa quanto ao que ele quer dizer, mas não creio que entrará em detalhes, especialmente sobre algo tão pessoal. A pergunta é: Como alguém pode causar a morte de outra pessoa de maneira indireta?

 

 

 

Março de 2017

 

Sabe quando você está em um lugar com uma galera, mas não deveria estar? Eles estão entretidos com algo e você está apenas ali, existindo, sobrando.

Pois é, é assim que me senti naquele momento com Duda e Luis. Tá na cara que ele é à fim dela, e o fato de eu gostar dele e estar aqui vendo ele passar cantadas disfarçadas para a Duda só torna isso tudo mais estranho.

— Eu vou ver como a Brenda está — digo.

Me levanto e saio dali, deixando o "casal" sozinho. Eu nunca tive chances mesmo.

 

Dias Atuais

 

Agora é a vez de Mayara, ela está muito apreensiva, e não é para menos, mais cedo ou mais tarde ela terá que revelar o inevitável. Já é uns milagre ninguém ter descoberto, geralmente a barriga da pessoa cresce bastante, mas a da Mayara não cresceu tanto até agora e as roupas largas estão escondendo bem.

Ela é levada pelos enfermeiros até uma salinha, antes que a enfermeira possa amarrar a borracha, Mayara a pode.

— Não posso fazer isso — diz Mayara de maneira repentina.

— Aconteceu alguma coisa, senhora?

— Eu... — hesitou, não tem mais jeito, eles vão ter que saber. — ... estou grávida.

Grávida? — Zé me encara surpreso. — Isso tá melhor que novela mexicana.

Desvio o olhar incomodada, é mesmo necessário esse comentário logo agora?

 

Março de 2017

 

Vou até a sala para tentar espairecer a cabeça, vejo que a Brenda está completamente exaltada no telefone então com certeza não serei bem vinda ali naquele momento. Deve ser algo com o pai dele, ele está sempre voltando para a reabilitação, e sempre deixando a Brenda assim.

Infelizmente, hora de voltar para o quarto.

Ainda estou no corredor quando escuto uma conversa entre o Luis e a Duda.

Cara, você não faz meu tipo.

— É por que eu sou muito magro?

— Não, cara — Duda respira fundo. — É que eu não curto garotos.

— Não curte... ah, entendi, você é lésbica.

 

Dias Atuais

Finalmente, o médico vai anunciar os resultados, todos estão ansiosos.

— A única apta para a doação é a mãe, Cláudia. — diz o médico.

— Como assim, única? — Minha mãe fica confusa.

— Foram encontradas substâncias estranhas no sangue do Vinicius — Então o médico olha para Mayara. — Quanto a você, terá que contar a verdade mais cedo ou mais tarde.

— Que verdade? — questiona Vinicius.

— Que história é essa de substâncias estranhas? — Minha mãe também pergunta.

Minha irmã apenas deixa o local, sem falar nada e eu a sigo.

— No próximo capítulo desse drama brasileiro a moda mexicana — Zé imita um narrador. — A irmã da novata vai revelar que está grávida? E o irmão assassino? Esta usando drogas?

Encaro Zé em descrença. É sério mesmo? Esse é o melhor momento para piadas?

 

 

 

Março de 2017

 

Ao final do dia, volto para casa e logo me deparo com meu irmão prestes a chutar Arcanjo.

— Deixa ele em paz! — grito e pego Arcanjo no colo.

— Ele rosnou para mim — Meu irmão diz como se isso justificasse, se eu fosse um gato também rosnaria para esse idiota.

— Deixa ele em paz — grito novamente e me tranco no quarto levando Arcanjo comigo.

 

 

 

Dias Atuais

 

No hospital, minha mãe e meu irmão vão atrás de Mayara, que parece tentar evitá-los.

— Mayara, do que o médico estava falando? — Minha mãe questiona. Mayara respira fundo, pensativa.

— Se quiserem mesmo saber, me encontrem lá em casa, e chamem o resto da família.

Então ela sai, deixando os outros. Incrível como toda reunião de família dá treta. Ou é só a minha?

Decido seguir a minha irmã, e como sempre, Diego, Zé e Marcelo me seguem.

Para onde vamos?— pergunta Marcelo.

— Para onde a minha irmã está indo respondo.

— É uma pena fantasmas não serem capazes de comer — comenta Zé. — Porque adoraria um balde de pipoca.

 

Março de 2018

 

Em casa, ainda estou trancada no meu quarto quando ouço um barulho de armário abrindo. O armário de ferramentas.

Saio do quarto e vejo meu irmão mexendo no armário de ferramentas e tirando algumas caixas.

— O que está fazendo? — pergunto.

— Arrumando espaço.

— Não pode tirar nada daí.

— Mas preciso de espaço.

— Então arruma espaço em outro lugar!

Ele suspira frustrado e se afasta dali resmungando:

— Odeio essa casa.

Fico morrendo de vontade de questionar o que ele faz aqui então, mas fico em silêncio.

 

 

Dias Atuais

 

Vejo minha irmã em seu quarto encarando o espelho. Não sei o que ela pensa, mas posso imaginar. Agora é a hora, não dá mais para adiar. A única certeza é que nada mais será como antes, crianças mudam nossas vidas, se nada muda é porque estamos fazendo algo errado.

Como se sente sendo tia em uma idade tão jovem? — Zé pergunta e o encaro.

— Pode por favor ficar em silêncio? — peço e para a minha surpresa, ele se cala. Ainda olhando para o espelho, minha irmã respira fundo e encara o vazio.

— Queria tanto que você estivesse aqui, Emily.

— Eu estou.

Coloco uma mão sobre o ombro dela, mas não acho que ela tenha sentido. É cruel estar tão perto dela e não ser vista, não poder fazer nada.

 

Março de 2017

 

Hora do jantar, família reunida, um pesadelo, um terror. Já sei que não acabará bem, eu sempre sei.

Naquela noite a comida é arroz, feijão, suã (um tipo de carne muito boa), salada de alface com tomate e para acompanhar refrigerante.

Eu já tinha terminado de comer quando comecei a sugar um pequeno pedaço de carne de dentro da suã (acredite, as melhores partes de uma suã estão sempre muito escondidas).

— Não sei como espera emagrecer assim — Meu irmão diz e imediatamente largo a suã no prato.

— Você realmente ama ser inconveniente, não? — Minha irmã questiona.

— Só estou tentando ajudar.

Quando foi que esse idiota realmente ajudou?

— Deixem a menina comer em paz — Minha mãe intervém. — Com o preço da carne do jeito que está, é melhor que ela aproveite a suã, sabe-se lá quando vamos poder comprar uma assim de novo.

— Só quero que ela termine melhor do que nós — Ele justifica.

Irônico vindo do meu assassino.

Incomodada, deixo a mesa e vou para o meu quarto, sendo seguida por Arcanjo, que está sempre do meu lado, como um anjo da guarda de quatro patas.

No quarto, fico apenas vendo Arcanjo tentando lamber meus dedos sujos de gordura enquanto ouço o resto da discussão.

— Antes de chamar alguém de gordo, olhe para o próprio umbigo... isso é, se ainda conseguir vê-lo. — Parece ser a voz da minha irmã.

— Chega! — Minha mãe grita. — Vocês já são adultos, não tem mais idade para ficarem de picuinha na mesa.

Arcanjo continua lambendo meus dedos, ele olha para mim ronronando e fica passando a cabeça pelas minhas mãos, como se estivesse pedindo carinho. Sem muitas escolhas, uso uma das mãos para fazer carinho nele, que ronrona e lambe a outra mão. É nesses momentos que eu queria ser o Arcanjo.

 

 

Dias Atuais

 

Estão todos aqui em casa. Minha mãe, meu pai, minha madrasta, minha meia-irmã, meus avós, meu irmão. Todos esperando para ouvir o que Mayara tem para dizer. Como se a pressão de estar grávida nessa idade não fosse grande o suficiente.

— Espero que expliquem logo essa bagunça — Meu pai diz impaciente. — E cadê a Emily? Ela tá sumida.

— Ela está na casa de uma amiga — Minha avó mente e olha para minha mãe, que parece contrariada em ter que manter a mentira.

— Sim, acho que o nome da menina é Maria Eduarda.

— Espero que ela volte logo, tô morrendo de saudade daquela pequena — Meu pai diz.

Não sei por quanto tempo todos vão conseguir levar essa mentira adiante, mas ela pode cair a qualquer momento, vai depender de quanto tempo eu ficar em coma.

Minha irmã surge pela porta da sala, pronta para contar a todos, ou pelo menos, ela tenta estar pronta.

Eis uma dica de alguém que foi uma criança que vivia se machucando: quando se tem um machucado, é menos doloroso arrancar o band-aid de uma vez do que fazer isso aos poucos. Quando se arranca de uma vez dói, mas é uma dor do momento, que logo termina. Enquanto quando tentamos arrancar aos poucos, pensamos que estamos fazendo doer menos, quando na verdade estamos apenas prolongando a dor e aumentando o sofrimento.

Não sei se fez sentido, mas em algum momento você vai entender. Mayara os encara e respira fundo.

— Eu estou grávida.

 

Março de 2017

 

Dia de apresentar o trabalho em grupo. Caso queira saber, o nome da revista ficou como Maximus. A capa foi desenhada a mão por mim mesma. Um M estilizado com raios e traços coloridos, um tanto cartunescos.

Ficamos lá na frente, explicando tudo sobre a revista, as matérias, o porque de cada design.

Caso queira saber, tiramos a nota total, 6 pontos. Isso foi na época em que minhas notas ainda eram boas.

 

Dias Atuais

 

Desculpem a interrupção anticlimática, eu realmente queria contar a conclusão daquele trabalho da escola.

Mas voltando ao que interessa, todos ficam atônitos com a noticia. E quem não ficaria? Para eles foi tudo tão de repente. Ninguém notou nenhum dos sinais.

— Então eu vou ser avô? — Meu pai pergunta. — Porra, vou ser avô, vou ficar vivo para conhecer um neto. — gritou animado. — Posso escolher o nome? Não consegui escolher o nome de um filho, posso escolher o de um neto?

— Eu vou ser tia! — Ludmila grita animada.

Crianças, amo crianças — Consigo sentir uma ponta de ironia no tom de Zé.

— Grávida? - Meu irmão questiona.

Ele faz aquele olhar de desdém, aquele olhar hipócrita de quem se acha superior.

— Quantos meses? — Ele pergunta.

— Está indo para cinco.

— Cinco? — Meu irmão fica incrédulo. — Isso foi tão irresponsável. E a sua faculdade? Quem é o pai dessa criança?

— Isso eu vou levar para o meu túmulo — Minha irmã diz.

É bem melhor que o pai não saiba mesmo, quanto menos ele souber mais seguro para todo mundo.

— Isso é uma irresponsabilidade enorme — diz minha avó. — Vai criar essa criança sem pai? Sozinha?

— Sim.

— Acho isso de uma loucura sem tamanho — diz minha mãe. — Mas agora já foi, já está feito, eu vou ajudar a minha filha e o meu neto.

Não sei se minha mãe disso isso com sinceridade ou se apenas queria contrariar a minha avó, elas nunca se deram bem, especialmente na época em que meus pais eram casados.

— Neta — Minha irmã corrige.

— Neta —Minha mãe sorri. — Vocês me fazem me sentir velha.

— Tô feliz que vou conseguir conhecer pelo menos uma neta — Meu pai diz.

E é isso, a família vai aumentar, seja bem vinda a bagunça, pequena.

 

Março de 2017

 

Hora do recreio, a fila está maior que o normal, e não poderia ser diferente, o lanche é tiras de frango empanado, essa raridade só acontece uma vez por bimestre então é praticamente um evento.

Fico na fila gigante por alguns instantes até me dar conta de algo. Isso é fritura, fritura tem óleo, óleo tem gordura e gordura engorda.

Desanimada, saio da fila, não preciso comer isso mesmo, eu não preciso comer nada, se pudesse viveria apenas de ar. Acho que é isso que vou fazer.





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