Eu Ainda Estou Aqui escrita por Isah, WSUniverse


Capítulo 2
Eu Ainda Estou Aqui


Notas iniciais do capítulo

Aviso: esse capítulo contém uma cena que insinua um abuso sexual, se de alguma forma isso te afeta ou você não se sente confortável lendo, siga por sua conta e risco



Uma de minhas memórias mais antigas é de um trágico incidente, ou que poderia ter sido trágico.

Estou prestes a cair, tento segurar em algumas telhas. Prendo-me ali, se me solto, caio para uma coluna quebrada, ou a morte, considerando como aquela casa era alta. Nessa lembrança tenho cinco anos. Em cima das telhas está meu irmão mais velho, ele tem treze.

Sou fraca demais para continuar segurando, acabo soltando e caindo. Ao invés de atingir o chão, algo me segura antes desse trágico destino. Meu pai consegue evitar que eu atinja o chão, me segurando em pleno ar. Assim que percebo que estou salva, o abraço firmemente.

Olhamos para cima e meu irmão ainda está lá. Papai me solta e me coloca ao lado de minha irmã, na época com onze anos. Vinicius tenta descer, mas ao ver papai subindo a escada ele volta correndo para cima das telhas, mesmo assim, ele não consegue fugir do nosso pai, que o segura pela camiseta e ameaça joga-lo lá de cima.

— Você acha engraçado quase matar a sua irmã?

Ele ameaça jogar meu irmão de lá de cima, que chora desesperado e tenta se segurar. Minha avó tenta suplicar.

— Sérgio, pelo amor de deus, não faz isso, vai machucar o menino!

Desde que me lembro, minha avó sempre pareceu bastante maternal com Vinicius, não como uma avó, mas como uma mãe mesmo. Talvez isso esteja relacionado a um trauma do passado, as pessoas tendem a projetar quem perderam em outra pessoa. Isso é história para outra hora. Meu irmão chora e tenta se justificar.

— Foi um acidente, papai, eu juro!

— Se colocar qualquer uma das suas irmãs em risco de novo, eu te mato!

 

 

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Ano Novo é sempre a mesma coisa, pelo menos para mim que nunca tenho dinheiro para viajar, no caso, meus parentes, considerando que não tenho idade para pagar uma passagem ou para viajar sozinha sem autorização.

Minha mãe costuma passar o Ano Novo com os amigos dela. Eu não sei exatamente o que eles fazem porque eu nunca vou junto. Minha mãe perto dos amigos dela fica parecendo uma adolescente maluca, e acredite, como adolescente, entendo bem do assunto.

Quanto a mim e a minha irmã, Mayara, nós vamos para a casa dos meus avós, aonde sempre vão também o meu pai, a minha madrasta e a minha meia-irmã, a Ludmila. Além deles, tenho um irmão mais velho chamado Vinicius. Até o começo do ano, o idiota morava com os meus avós.

É sempre a mesma coisa, todos comem um churrasco. Meia-noite vão até a praça soltar os fogos enquanto eu fico na casa dos meus avós com algo tampando meus ouvidos, porque o barulho dos fogos me incomoda. Quando digo que o barulho me incomoda, não digo do tipo “odeio fogos de artifício”. Realmente incomoda, o barulho faz meu coração disparar, uma agonia, como se tudo fosse explodir, barulhos muito altos têm esse efeito para mim.

E nesse Ano-Novo não foi diferente.

Perto de dar meia-noite, minha avó me levou para um dos quartos, me deu um protetor de ouvido e deixou que eu me escondesse sentada dentro do guarda-roupa, tudo para que o barulho que eu ouvisse fosse o menor possível. Depois disso, ela fechou a porta do guarda-roupas e saiu do quarto. Ela e os outros foram para a praça que fica alguns metros perto dali, onde provavelmente soltaram os fogos.

Essa é a tradição de Ano-Novo deles. Quer saber da minha?

Dentro do guarda-roupa fiquei mexendo no celular apenas esperando dar meia-noite. Meia-noite, Ano Novo. Bloqueio a tela do celular e o guardo no bolso. Pressiono o protetor no meu ouvido, fecho os olhos e faço um pedido em silêncio.

“Faça esse maldito barulho parar.”

 

 

 


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Essa longa noite que passei no hospital foram vários barulhos que quase me causaram o mesmo efeito, exceto que não estou acordada para surtar. Mas continuo por aqui, um fantasma vivo, ou algo assim. Ainda não encontrei alguém que possa me dar respostas, os vivos não me vêem e ainda não vi ninguém na mesma condição que eu.

Mayara e a minha mãe passaram a noite aqui, mas já é de manhã. Minha irmã tem que ir para a faculdade e mamãe tem que trabalhar. E tem outro problema, sou menor de idade, um adulto precisa ficar no hospital. É Mayara quem toma tal decisão.

— Eu vou para a faculdade e você fica, vou falar para o Vinicius trazer comida na hora do almoço. E de noite, a gente troca de lugar e você vai para casa.

Duvido que o idiota do Vinicius tenha coragem de vir aqui. Seria muita cara de pau depois do que ele fez. Não apenas cara de pau, seria um completo psicopata sem remorso.

A minha mãe concorda e, em seguida, aparece um desconhecido enxerido.

— Vocês são Mayara Santoro e Cláudia Martins?

Minha irmã se vira e o encara antes de responder:

— Sim, somos nós.

O enxerido lê alguns papéis e volta a olhar para elas.

— Sou o investigador responsável pelo caso, quero fazer algumas perguntas sobre o que aconteceu a Emily.

Ambas as minhas responsáveis concordam.

— Quais de vocês encontraram a garota?

— Eu.

Minha irmã aponta para si mesma, respondendo em voz baixa.

— Pode relatar melhor o que viu?

Ela respira fundo.

— Eu cheguei em casa e bati no portão, a luz estava ligada então deduzi que o Vinicius ou a Emily estavam em casa. Ninguém atendeu, então peguei minha chave e tentei abrir, foi quando notei que já estava destrancado.

— Então, você entrou?

— Sim, entrei e chamei pelos meus irmãos, mas nenhum deles respondeu. A casa estava vazia, as luzes ligadas, achei estranho.

— Onde estava a mãe de vocês?

— Eu estava no culto.

— Entendi – O detetive anota algo. — Por favor, continue, Mayara.

— Continuei procurando eles, ouvi o gato miar e segui, acabei saindo no quintal nos fundos da minha casa... foi quando...

Mayara não consegue continuar, um nó na garganta com um choro contido, acho que nem eu conseguiria. O detetive para de anotar.

— Eu sinto muito.

Lágrimas escorrem pelo rosto da minha irmã.

— Ela estava lá... o gato... batia as patas... miava.

Minha irmã desata a chorar e é abraçada pela mamãe.

— Desculpe.

— Vá pra casa e descansa — Minha mãe pede. — Você não tem condições de ir pra aula hoje.

 

 

 


Janeiro de 2017

 

Logo no começo do ano uma notícia que muda a vida de todos nós, especialmente a minha, embora eu não possa dizer que tenha sido para melhor. É como a Teoria do Caos, exceto que nesse caso, não foi apenas uma batida de borboleta que mudou tudo, mas várias borboletas batendo suas asas em momentos e direções diferentes. Essas batidas de asas causaram ventos que eventualmente se encontraram, transformaram-se em um furacão desastroso e agora eu estou aqui.

Meu irmão vem morar na minha casa, comigo, minha irmã e minha mãe. As escolhas por trás de tal mudança, claro, não são tão convencionais.
Se dependesse da minha vó, o anjinho moraria ali para sempre, mesmo que ele a deixe exausta por ser um folgado que nem pra lavar a própria cueca serve. Nunca entendi a lógica disso, meninas tem oito anos e precisam aprender a lavar a louça, limpar a casa e cozinhar, enquanto é aceitável o cara ter 22 anos e não saber fritar um ovo.

Claro, como minha avó é casada, não depende só dela. Meu avô tem problemas pulmonares, o que torna impossível que ele conviva com um fumante. E adivinha? Meu irmão é um fumante, ele vive prometendo que vai parar, a promessa que ele nunca cumpre.

Vovô tentou resolver isso sem ter que ser de uma maneira que o Vinicius fosse embora. Meu irmão prometeu que só fumaria no quarto ou na rua, mais uma vez, ele não cumpriu a promessa.

Meu avô continua sofrendo com a fumaça e a única solução final para que não acontecesse a batalha mais épica entre meus familiares, já que Vinicius é o filho em forma de neto que minha avó usa para a lidar com a longa dor do passado, foi meu irmão vir morar aqui em casa, o que, aparentemente, é um desejo antigo dele já que não é a primeira vez que planos assim são feitos, embora dessa vez a ideia tenha partido do meu avô e não do meu irmão. Nas outras vezes, eu não entendia bem o porquê dele querer vir, ele e mamãe não são exatamente próximos e na casa da vovó ele tem tudo o que quer, todo o amor, atenção e cuidados que jamais tive sequer da mamãe. Mas dessa vez, é meu avô quem não quer mais ele lá.

Mesmo assim, fiquei feliz quando soube, teria quase todos os meus irmãos morando comigo, o meu antigo sonho de ter uma família. Não que não fossemos uma família antes, afinal, não existe uma estrutura correta de família, mas minha mãe não é exatamente a figura materna, romantizada e estereotipada que as pessoas tem de uma mãe. As vezes ela é legal, as vezes age como uma adolescente irresponsável. Então, no final, somos eu e a Mayara tentando nos virar. Mas agora, eu pensei, teremos o Vinicius, não estamos mais sozinhas.

Como diria o ditado: antes só do que mal acompanhada.
A menininha dentro de mim que sonhava em morar com uma família feliz e unida via seu sonho virar realidade. Mas o sonho dela virou meu pesadelo.

 

 

 

Dias atuais

 

Senhor Detetive Enxerido continua no hospital. Ele está lendo os meus prontuários, fazendo comentários e com um amigo ao lado dele anotando. Para mim, tudo o que ele deduz parece muito óbvio, é claro que é óbvio, eu estava lá quando aconteceu.

— As pancadas parecem ter sido violentas, provavelmente o agressor deveria estar com raiva – comenta o detetive.

— Sou eu quem deveria ter raiva — digo para mim mesma, não tem ninguém ouvindo mesmo.

Garota boa fica má? — Uma estranha voz comenta em deboche. A voz é grave, por vezes, soa distorcida.

Olho em volta procurando pela origem daquilo, nada.

— Ele bateu bem forte na cabeça, talvez por impulso ou para conter a garota — O detetive continua, com o amigo anotando tudo.

— Não parece ter sido suficiente.

— Não, não parece.

— Ela não está ficando má, ela é só uma criança.

Essa voz é diferente, mesmo assim não consigo achar quem está falando. Essa voz parece mais normal, ela parece jovem.

— Não foi o suficiente — diz o detetive. — Ele tentou sufocá-la em seguida.

— Temos um Xeroque Rolmes aqui — debocho.

— Nesse hospital tem um monte desse tipo, acostume-se.

A voz distorcida de novo.

Podem parar? — Surge uma nova voz, essa é mais séria que as outras, adulta, embora nem se compare a voz grave.

Lá vem o chato. Um mês e já se acha o experiente.

— Ela é só uma criança, vão confundi-la se continuarem com esse circo.

Tem alguém me observando.

 

 

 

Na hora do almoço vem a surpresa mais decepcionante do dia. A cara de pau é tão grande que nem consigo descrever em palavras. O idiota do meu irmão aparece trazendo almoço para minha mãe.

— Como ela está?

Eu realmente não acredito que alguém seja tão sem caráter! Como ele ousa perguntar? Logo ele.

— O médico disse que ela não está fora de perigo, que as próximas horas serão decisivas.

— Deus queira que ela melhore logo.

Eu vomitaria se ainda estivesse no meu corpo.

Podia ser pior.

É uma daquelas vozes de novo. A voz grave.
Finalmente o cara de pau vai embora devolvendo a tranquilidade ao hospital, ou quase isso.

Será que eles são parentes? — A voz jovem pergunta.

Provavelmente.

Me sinto cansada dessas vozes tentando me deixar maluca. Decido falar algo.

— Que tal vocês pararem de tentar me enlouquecer e dizer logo o que são?

Por que somos nós quem devemos explicação? Você é a novata aqui!

— Porque sou eu quem estou tendo que escutar vocês o dia todo e estou cansada desse joguinho idiota!

— Eu disse que essa brincadeira não tinha graça.

— Cala a boca, ex-novato.

— Vão me dar respostas ou não?

— Acho que isso já é o suficiente como boas vindas.

— Droga, vocês sempre estragam os trotes.

De repente, vejo três figuras na minha frente. A primeira é um rapaz, vestido com roupas sociais, cabelo levemente bagunçado. Ele vem em minha direção e recuo alguns passos, hesitante.

— Oi, meu nome é Diego e também estou em coma.

— Coma?

Sim, sabe... dirigi bêbado, bati em um caminhão. Meu corpo está em algum leito e ninguém sabe se algum dia vou acordar.

— Mas você está aqui.

— Minha alma saiu do meu corpo e fico vagando por aqui.

Então é isso o que está acontecendo comigo?

— Assim como eu?

Ela entendeu rápido — diz uma das outras duas figuras.

— E quem são eles? — aponto para os outros.

Uma segunda figura dá um passo à frente. Ele é pálido, há um machucado profundo em seu pescoço e hematomas nos braços, ele parece jovem entretanto, apenas um pouco mais velho, no máximo tem ou teve 17 anos.

Meu nome é Marcelo — diz em voz baixa, como se estivesse envergonhado por eu estar ali. — Estou morto há dez anos.

Ele é um fantasma.

— E ele? — aponto para a misteriosa terceira figura.

Ele é diferente dos outros, seu rosto é coberto pelo capuz, a única coisa que vejo são seus olhos vermelhos. Ele é muito alto, tem a coluna um pouco curvada.

Ele é o Zé — explica Marcelo. — Ele é um poltergeist.

Ama pregar peças.

E sou muito ocupado se quer saber, madame — Zé dá dois passos para a frente e faz uma reverência debochada. — Só estou aqui até achar um novo agente e fiquei entediado, mas esses dois — aponta para os outros —, acabaram com a minha diversão. Então, se não se importa, vou procurar alguma criança desequilibrada na ala psiquiátrica.

Assim, ele some deixando como rastro luzes piscando e raios. Marcelo continua parecendo envergonhado, será que é alguma coisa comigo?

— Aconteceu alguma coisa?

O quê? — Diego parece confuso.

— Ele está estranho — aponto para Marcelo.

Ah, é que o Marcelo não está acostumado a ver garotas em coma por aqui, especialmente uma tão jovem.

Nenhum de nós está — Marcelo parece tentar contornar a situação.

— E não existem fantasmas garotas?

Existe um monte, mas a maioria é esquisita — Ele faz uma careta.

— Então a surpresa é eu ser “normal”?

Normal não é bem uma palavra que eu usaria para me descrever, mas, para o Marcelo, eu pareço normal.

Por aí.

Explicamos para ela das regras? — Diego pergunta para Marcelo.

É esse o padrão.

— Quais regras?

Primeiro temos que te explicar dos tipos — diz Marcelo. — São cinco, mas só deve se preocupar com dois, entidades e polteirgeists.

— Entidades e polteirgeist?

— Entidades são divididas em três, passado, presente e futuro. As do passado são as que morreram, mas estão aqui, tipo eu.

— As do presente são as que estão vivas, mas fora do corpo — Diego continua. — Seja por viagem astral, ou em nosso caso, estamos quase morrendo.

— E as do futuro?

— É quando alguém que não é desse plano vem do nada para te alertar de algo e depois some e nunca mais aparece.

Isso lembra Os Fantasmas de Scrooge.

— E os polteirgeists?

Eles também estão mortos, são entidades que seguem outro rumo.

— Que rumo?

Eles gostam de ver o circo pegar fogo, são brincalhões, atraídos por caos. Eles se alimentam da energia de um agente, liberada por seus sentimentos, por isso preferem adolescentes, porque têm muitas emoções, eles usam essa energia para causar confusões em volta, pânico — explica com naturalidade, da mesma maneira que se explicaria como se monta uma televisão.

— E o tal Zé é isso?

Nunca o chame de tal, ele se acha “o Zé” — Marcelo adverte. — E sim, ele é.

Vejo um dos médicos andar apressado pelo corredor.

— Acho que é sobre você — Diego fala me deixando confusa.

— Sobre mim?

— Sim. É o Doutor Ruben, ele está responsável por você.

Penso em perguntar como ele sabe o nome do doutor, mas decido seguir o médico para ter certeza do que é.

Ele vai até minha mãe e lhe dá uma noticia:

— Não conseguiremos realizar nenhum procedimento enquanto não resolvermos a anemia.

— Anemia? — Minha mãe se surpreende.

— Sim. Há uma falta enorme de ferro no sangue dela, além de vários outros nutrientes essenciais.

— Mas eu não entendo, ela não estava doente.

— Ela estava comendo apropriadamente?

— Até agora eu achava que sim.

— Sabe de algum histórico de distúrbio alimentar?

— Distúrbio?

— Já ouviu sobre Anorexia ou Bulimia?

— Sim, mas não acho que a minha filha tenha uma dessas coisas.

— Certeza?

— Sim — ouço sua resposta duvidosa. — Ela estava em uma de fazer dietas, mas não acho que ela seja doente por isso.

— Doente ou não, essa anemia apenas agrava o estado dela.

Anemia?

Me assusto e olho para o lado rapidamente, vendo Diego ali.

— Parece que sim.

Você não parece o tipo que passa fome.

Aquilo me incomoda. Quem esse metade-fantasma pensa que é para saber que tipo eu sou ou deixo de ser?

— Você não parece ser do tipo que dirige bêbado.

Afasto-me irritada e vou para outro canto do hospital.

 

 

 

Janeiro de 2017

 

Meu irmão se muda para minha casa. Meu avô traz as coisas dele na carreta e descarrega com a ajuda do Vinicius e de um primo meu (filho de um tio paterno, sempre que o vejo ele está bêbado). Também ajudo a descarregar as coisas, mesmo com meu avô falando que sou fraca demais para isso.

Minha irmã também nos auxilia. O primo entrega um espelho para ela, mas não antes de lançar-lhe um sorriso e ser correspondido.

— Sol quente, não? — Ele comenta.

— Sim.

Eles param de conversar quando Vinicius aparece. Meu primo desce com uma cadeira e a leva para dentro, assim como minha irmã leva o espelho. Meu irmão apenas continua parado no mesmo lugar, encarando eles entrando.

— Zé Droguinha — consigo ouvi-lo resmungar.

De fato, sempre existiram boatos e rumores sobre meu primo ser um viciado, se é verdade ou não, deixo a seu critério analisar isso.

Meu irmão pega algo em cima da carreta e entra. Tento segui-lo, mas sou impedida por meu avô saindo pelo portão.

— Seu irmão vem morar aqui, não está feliz? — Ele me abraça pela cintura com as mãos abaixando demais para o meu gosto.

Odeio abraços, odeio pessoas me tocando, mas os do meu avô conseguem me incomodar ainda mais do que qualquer abraço comum, embora não entenda direito o porquê. De qualquer forma, não entendo a necessidade das pessoas de ficarem passando a mão em mim. Incomodada, me solto assim que consigo.

— Sim, eu estou feliz — respondo baixo.

Vou para dentro ver se precisam de mim e evitar ao máximo outro abraço.

 

 

 

Dias Atuais

 

Mais tarde, quando está escurecendo, fico próxima à uma janela que se localiza no terceiro andar, nela consigo ver um terreno baldio e, ao lado dele, a quadra da escola do quarteirão, que deveria estar vazia nesse horário. Tem uma criança vestida com roupas de outra época, mas com aparência mórbida. Há cortes em todo o corpo dela, ela apenas anda para a saída da quadra. E então ela some, reaparece dentro da quadra, anda para a saída e some novamente.

Isso apenas fica se repetindo. Eu fico observando aquilo, atônita. Não parece fazer sentido, é como se eu estivesse assistindo uma cena de filme em um loop sem fim. Ou tem alguma coisa errada com aquele menino ou estou ficando louca.

— O que falou para o Diego não foi legal.

Olho para trás e vejo Marcelo.

— Não gosto de fantasmas se metendo na minha vida.

Ele só estava tentando ser gentil.

— Não preciso da gentileza de nenhum de vocês.

Viro-me e volto a olhar para a quadra, onde vejo o menino novamente.

— Todo dia nesse horário ele fica fazendo isso.

— Por quê?

Porque ele é uma projeção.

— O que é uma projeção?

São fantasmas que não sabem que estão mortos. Eles passam o resto da eternidade repetindo o que estavam fazendo antes de morrer, sem nenhuma consciência do que está realmente acontecendo.

— Ninguém tentou “acordá-lo”?

— Sim, mas eles nem olham. Estão tão presos dentro de uma ilusão que mal são capazes de interagir com a realidade.

Antes que eu possa responder, uma estranha força me joga no chão, nem achava que isso era possível nesse estado. Ainda caída, olho para cima e vejo a tenebrosa figura de Zé, o poltergeist. Ele me encara enfurecido e consigo ver não só sua face, a coisa mais sombria que já vi, mas também seus olhos vermelhos.

Você nunca mais trate o Diego daquele jeito, está me ouvindo? Sua vadiazinha novata!

Zé tenta avançar contra mim, mas Marcelo o segura.

— O que está fazendo?

— Dando uma lição nessa mal-educada.

 

Pois não preciso que dê lição nenhuma em ninguém — Uma terceira voz interfere.

Olho para o final do corredor e vejo Diego.

— Estou fazendo ela pagar pelo que fez — Zé tenta justificar.

— Ela é só uma criança — Diego se aproxima.

— Ela não é uma criança!

O poltergeist me encara de forma tão tenebrosa, que me forço a desviar o olhar.

Mas não tem direito nenhum de machucá-la.

Zé me olha pela última vez antes de sair revoltado.

Novata maldita!





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