O Colonizador de Mundos escrita por Lua Chan


Capítulo 1
O Colonizador de Mundos




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O ambiente fúnebre era de esfriar a alma, o ar úmido apenas ajudava a lembrá-lo do lugar que um dia foi o lar de seu povo. Um frio que seu mórbido coração já havia experimentado, há alguns anos. A sensação era que todos estavam lá e ao mesmo tempo, ninguém. "O que é essa imensidão?", pensava constantemente, enquanto contemplava aquele paraíso vazio. O céu laranja espelhava em seus olhos pálidos - tão pálidos quanto o momento que sua vida fora brutalmente arrancada por um ser que possuía o poder do Universo. Não havia eco, não havia dor.

Não havia esperanças.

Ele só se permitiu caminhar por mais um tempo, carregando consigo a leve e egocêntrica sensação de que fora o primeiro a chegar no Paraíso Vulcânico, como ironicamente passou a apelidar o lugar. Ele se autodeclarava Colonizador, e, pela primeira vez na vida, não queria saborear uma palavra que remetia tanto ao poder que antes almejava. Afinal, qual o conquistador que gostaria de ser dono de uma terra abandonada? O que um colonizador tão ávido quanto ele tiraria daquele território vazio?

"Será que estou mesmo sozinho?"

Ele se perguntou pela décima vez, ainda caminhando pelo chão que se assemelhava a uma vasta passarela d'água. Vendo seu reflexo pelo espelho, pôde notar o quão derrotado estava. O homem sentiu um peso se formar em seu peito, mas não se permitiu abalar por isso. O orgulho era maior. Sempre foi.

Após vários minutos andando pelo literal nada, o estranho homem finalmente encontra uma forma pequena a sua frente. Uma menina, pelo que conseguiu reconhecer. Uma criança possivelmente perdida (tanto quanto ele). De imediato, ele se aproxima dela, como se a garota fosse sua própria casa. Talvez uma família que nunca teve. A pequena curiosamente transmitia uma leve sensação de paz e calmaria. Ele, por fim, fica a poucos passos dela, o que a obriga virar para encará-lo.

A menina tinha uma coloração diferente, seus cabelos curtos e ondulados terminavam com uma tintura cor de rosa. Era um radiante contraste, assim como sua presença no local sombrio. Ela era bonita, apesar da estranhesa.

— Quem é você? - a garota questiona, deixando o homem surpreso. Essa era a primeira vez, depois de muito tempo, que escutara alguém falar.

Ele limpa a garganta, como se estivesse tentando se acostumar com a própria voz e se pronuncia, estufando o peito como uma verdadeira autoridade.

— Sou Colonizador. Quem é você?

— Me chame de Escolhida. - diz ela, em toda sua inocência (apesar de parecer bem confiante) - Você é diferente dos que vieram aqui.

Colonizador entorta a sobrancelha, analisando mentalmente o comentário da garota. Deveria aceitá-lo como um elogio? Bem... levando em conta que ele já fora um grande homem certa vez, a resposta beirou para um sim.

— Bom... olá, cara Escolhida. - disse, soando um pouco incomodado - Como eu posso vê-la?

— Porque, Colonizador, você não é o único a viver aqui. Você pode até ter sido um dos primeiros a chegar, mas eu sou a alma oferecida.

Percebendo que a conversa estava assumindo um lado mais preocupante, Colonizador resolve continuar com os questionamentos. Ele sentiu-se ofendido, dessa vez. O tom esnobe da menina o fez pensar se ela poderia ser alguém realmente importante, como uma princesa ou futura imperatriz.

— Onde nós estamos? - pergunta, simples - mas nem tanto - mente. Sua mente o levava para outro lugar - Isso tudo me parece familiar.

Escolhida fez uma careta estranha, muito parecida com um olhar de tristeza. Colonizador queria fingir que ela apenas estava devagando assim como ele, mas no fundo, sabia que a garota tinha pena. E, seja lá por qual razão, era por ele que o tal sentimento se manifestava.

— Estamos na Joia da Alma, não é óbvio? - disse ela, quebrando a linha de calma que antes existia no lugar - Você é um dos milhares, assim como eu. Somos parecidos em algo, aparentemente.

O fato de o homem ter sido comparado a Escolhida o fez estremecer. Não, ele era mais importante do que ela, pelo menos era o que seu coração inflamado o dizia. O homem fica em silêncio, sem saber se a presença da pequena teria tornado sua estadia no Paraíso Vulcânico melhor (se isso era realmente possível). Escolhida observava em Colonizador o rosto semi-delicado, marcado por algumas cicatrizes. Ela imaginava o que cada uma delas poderia representar. O quanto aquele homem viveu, por mais que não aparentasse ser muito velho.

Mas as aparências enganam. Foi assim - da pior maneira - que descobriu quem verdadeiramente era seu pai, o homem que tanto cuidou dela durante parte de sua vida. Que esteve presente em seus momentos de tristeza, de conquista. De luta. Era por causa dele que a garota estava na Joia. Porque ela cumpriu seu papel como "a alma oferecida". Agora, o termo pelo qual se apresentou a Colonizador se dissolvia amargamente em sua boca.

— Você disse que não estamos sós, não é? - Colonizador questiona, um pouco esperançoso - Onde estão os outros?

— Não sei. Já encontrei um ou outro por aqui, mas eles sumiram de imediato. Estava falando com um garoto perdido e confuso agora há pouco. Ele se chamava Peter e me falou que não sabia o que estava havendo no mundo de fora.

Colonizador não compreendia, mas sabia que compartilhava da mesma ignorância que o tal Peter. O Paraíso Vulcânico exercia esse poder estranho sobre ele.

— Sabe... não sei por quanto tempo iremos ficar aqui ou se você irá apenas sumir assim como os outros, então posso te dizer algo?

O homem assentiu, por mais que não soubesse o porquê de Escolhida querer falar algo importante para ele. A sensação de paz, pelo menos, ainda se fazia presente nela.

— Estou a ouvidos.

Ela suspirou pesadamente, mas logo depois olhou para o homem.

— Meu verdadeiro nome é Gamora. Meu pai é o responsável por tudo isso, por mais que eu não concorde com ele. Sinto muito pelo seu destino tê-lo trazido até aqui.

— Wow... eu não esperava por isso. - disse ele - Você disse que temos algo em comum, não é? Algo me diz que compartilhamos de uma semelhança maior do que apenas sermos "um dos milhares".

Ambos olharam pensativos para o chão, sem saber o que dizer um ao outro. Antes que o silêncio pudesse progredir, Gamora fala algo.

— Já que ficaremos aqui por mais um tempo, posso saber seu nome, Colonizador?

O homem ficou em dúvida, sem saber se deveria falar mesmo, mas não achou que nenhuma informação seria comprometedora demais. Afinal, Gamora já havia dito muitas coisas sobre si. Ele suspirou para a menina e sentou-se ao seu lado, ficando um pouco menor do que ela. A água presente no chão agora o molhava, mas ele não se incomodou. Nem mesmo a menina parecia se incomodar.

— Loki. - diz ele, sem escrúpulos ou excentricidade, como normalmente se comunicava com as pessoas quando ainda estava vivo - Eles me chamavam de Loki.

A menina sorri pela primeira vez e Loki continua apreciando a sensação de conforto que Gamora transmitia. Finalmente, ele estava satisfeito em não usar seu nome fictício. Pela primeira vez na vida, ele não se sentiu como um deus, muito menos como um colonizador de mundos.


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