Observado pela morte escrita por Anne P


Capítulo 1
Capítulo Único


Notas iniciais do capítulo

História escrita com base na lenda de Catxuréu, a deusa da morte, para o desafio sobre folclore brasileiro.

"Catxuréu - Deusa da morte, a quem os índios fazem suas preces na perda de um ente querido. Diz-se que ela acompanha-os na travessia entre a vida e a morte."



Este capítulo também está disponível no +Fiction: plusfiction.com/book/767896/chapter/1

 Catxuréu era chamada de Deusa da morte desde o momento em que Tupã soprou vida sob as formas humanas, era ela a responsável por guiá-los para Guajupiá no momento em que seu sopro de vida se esvaia. Acompanhava-os na travessia à Terra sem males, onde encontrariam seus ancestrais.

 Para si, aquilo era um trabalho que não a incomodava. Todos os bons encontravam o paraíso, enquanto os maus sofriam ainda naquela vida para pagarem por seus erros. Se seus espíritos estivessem arrependidos no momento de sua partida, os guiaria sem rancor até a Terra prometida. Eles eram destinados a um paraíso sem doenças, fome e guerras, já ela, passaria o resto da eternidade vagando pela terra, guiando e recolhendo espíritos que deixavam este plano.

 Era algo injusto a certo ponto. Cultuavam Jaci e a Ceuci, mas recorriam somente a Catxuréu, quando lhe pediam para não levar alguém que estava a beira da morte ou para pedirem que acompanhasse um ente morto a Guajupiá. Contudo, ela não se importava, seu coração era grande demais para guardar rancor das criações de Tupã.

 Observou as escondidas a humanidade, vagava de aldeia em aldeia e levava consigo os que já não pertenciam mais àquelas terras.

 Viu quando os homens brancos invadiram seu território e sujaram suas mãos com o sangue de seu povo. Viu Tupã se revoltando, provocando chuvas fortes e lançando raios assustadores. Viu Iara tentar expulsá-los, agitando os mares e destruindo várias caravelas. Entretanto, Catxuréu não podia fazer nada além de sua função, então, continuava apenas a guiar os espíritos daqueles que morriam durante este processo.

 Vagava por suas terras e viu tudo!

 Viu os anos passarem correndo. Viu doenças, guerras e destruição. Viu amor, carinho e compaixão.

 Nesse processo seu coração se alegrou, entristeceu, partiu-se e recompôs-se.

 E durante um dia, depois de muitas coisas vistas e revistas. Deparou-se com algo que partiu, novamente, seu coração em pedaços. Viu uma família de fazendeiros sendo mortos por bandidos. Eles levaram tudo de precioso que encontraram no local, mas deixaram um bebê sem os pais para trás.

 Recolheu as almas dos falecidos. Viu o desespero passar por eles ao perceberem que não pertenciam mais ao mundo dos vivos, depois a dor ao se lembrarem do filho e aos poucos a consciência foi deixando seus espíritos. As lembranças da vida passada sendo apagadas e esquecidas, seguindo Catxuréu sem relutâncias até o seu destino.

 Ela fez o seu trabalho e voltou para observar o bebê, que chorava em seu berço com o corpo de sua mãe morta ao chão, contornada pelo seu sangue.

 Ficou triste ao pensar que logo ele morreria de fome e seria obrigada a levá-lo junto de si.

 Ela odiava levar espíritos de crianças. Criaturas tão jovens que ainda tinham tanto a viver. Mas, era a sua função! Tinha que manter a ordem natural, e infelizmente, levar consigo as almas que àquele plano já não mais pertenciam.

 Com o coração entristecido, deixou a cabana que os fazendeiros viviam e voltou a andar pelas terras. Voltou a sua tarefa consciente que logo voltaria àquele local, para recolher mais uma alma.

 Mas, para a sua felicidade, nunca tivera de voltar àquele local.

 Passou por cidades superpopulosas e por pequenos municípios, visitou aldeias em lugares remotos e viu ainda, a pequena parcela de seu povo que ainda tinha fé em si.

 Quando foi a vez de visitar novamente, uma cidadezinha no interior de São Paulo, viu algo que a fez sorrir.

 Pela janela do primeiro andar de um velho casarão, observou uma senhora ensinando um garotinho de 7 anos sobre os deuses, a criança tinha os olhos arregalados e atentos na senhora. A boca às vezes se abria em um ‘O’ quando ela contava algo que o impressionava. Ouviu como ele tinha admiração em falar sobre Anhangá e isso a fez entortar a face em uma careta, havia tantos deuses para se admirar e ele escolhia justo aquele que trazia desgraça e cuidava do submundo, o lugar no qual só os perversos iriam após a morte.

 Desviou a atenção do menino e seguiu até outro cômodo do casarão, onde um senhor doente dormia em uma cama de casal. Seu sopro de vida chegava ao fim e ela sentia que logo levaria sua alma.

 Voltou à criança e viu a senhora colocá-lo em uma cama para dormir, ela beijou sua testa e disse antes de deixar o cômodo:

— Reze para que Catxuréu antes de dormir, peça a ela para levar seu pai para o paraíso quando a hora dele chegar.

 Balançou a cabeça algumas vezes, então fechou os olhos e pediu baixinho para a Deusa da morte levar seu pai para um lugar bom e com muita felicidade. Catxuréu escutou a prece com alegria e quando o menino já estava a cochilar, respondeu ao seu pedido:

— Levarei o à Guajupiá em segurança.

 Dirigiu-se ao outro cômodo e sentiu que era aquele o momento, e levou consigo a alma do senhor.

 Voltou a caminhar por cada canto daquela terra que lhe pertencia. Anos passaram, vidas levou e o ciclo da vida continuou.

 Estava a andar por um bairro perigoso de uma cidade, quando viu um carro cheio de jovens, que conversavam alto e sorriam. Não precisava olhar muito para perceber que estavam bêbados.

 Ela ficou algum tempo olhando para o veículo e quando ele se pôs em movimento, seguiu-o. Ele não percorreu uma grande distância até que batesse em uma árvore.

 Com um suspiro, levou consigo o espírito de um casal de jovens e perguntou-se porque eles desperdiçavam o sopro de vida de Tupã com tanta casualidade. Havia tanto a ver e conhecer e mesmo assim, perdiam suas vidas com futilidades perigosas, que machucavam não só a si próprios como aos outros ao seu redor.

 Fez seu trabalho e de tempos em tempos, ia ao hospital ver o único jovem que sobreviveu ao acidente, contudo não tinha tanta certeza se ele continuaria a viver depois de tanto tempo em coma. Ficava em dúvida se levava-o agora e poupava seu espírito de sofrer ou se deixava sua vida acabar por conta própria.

 A senhora que estava ao lado da cama do rapaz já se encontrava tão abatida, que talvez ela mesma já esperasse pelo momento do fim.

 Observou aquilo por mais um tempo, mas quando estava a partir, escutou uma prece a si sendo feita.

 A senhora como se sentisse que a própria Deusa da morte estava a abandonar seu filho, começou uma reza já tão antiga para si, mas que não usava desde o falecimento do marido. Implorou com todas as forças para que Catxuréu não levasse seu único filho de si.

 Ela ficou a observar a mulher por mais algum tempo até se retirar do hospital, levando consigo os espíritos de um homem velho e de um bebê recém-nascido. Não levaria o jovem, deixaria que seu sopro de vida durasse o quanto fosse antes de levá-lo.

 Para sua sorte, ou do rapaz, seus passos não a guiaram novamente para aquele hospital, então continuou a andar pelas terras asfaltadas e pelas matas inexploradas.

 Levava todos consigo. Ninguém escapava da Deusa da morte, todos teriam seu momento de acompanhá-la um dia. Já havia levado doutores e prostitutas, crianças e adultos, pobres e ricos. Não adiantava sacrificar tudo durante a vida, pois no final todos eram iguais aos olhos da morte, todos possuíam o mesmo destino: um paraíso cheio de amor ou um submundo com muita dor.

 Um dia vagava por um cemitério. Andava em passos largos, contudo lentos. Catxuréu evitava passar por cemitérios, todos os corpos que ali jaziam já tinham tido seus espíritos levados por si.

 Mas, seus passos a guiaram para uma lápide específica, onde um adulto estava ajoelhado à sua frente e uma mulher com uma criança no colo estava em pé atrás dele.

— Está na hora de ir, querido. Vai chover em breve.

— Só mais um instante. Faz tempo que não venho visitar a mamãe.

 Ele ficou mais um tempo a observar a foto da lápide, quando fez menção de levantar-se, mudou de ideia e sentou-se no chão com as pernas cruzadas. Catxuréu ficou atrás de uma árvore, observando com atenção.

— Ela não era minha mãe biológica, mas nunca passou um dia sem dizer que me amava. Ela tinha uma cultura estranha, acreditava em Deuses de nomes esquisitos e sabia de cor todas as lendas que você possa imaginar. Uma vez ela me contou sobre uma Deusa específica que levava os mortos para um lugar melhor, e no dia em que meu pai faleceu me fez fazer uma reza a ela. Não me lembro de seu nome agora, mas eu sinto que tive minha resposta. Gostaria de me lembrar seu nome agora, para pedir-lhe que cuide bem de minha mãe.

 A mulher sorriu com os devaneios do marido e apertou seu ombro em demonstração de afeto.

 Catxuréu sorriu com a cena. Andou lado a lado junto com o casal rumo à saída daquele local, era uma pena que eles não conseguissem enxergá-la andando bem ao seu lado. Mas, ela não se importou e saiu do local ainda com sorrindo.

 Vagou por mais vários anos, até parar em uma casa grande, porém bagunçada. Vagou entre os quartos da casa até se deparar com um senhor doente, com os filhos e a esposa ao lado de sua cama.

 Eles conversavam alto e riam com entusiasmo, tentavam ignorar o fato do velho estar em seu leito de morte. Pareciam não acreditar que logo ele os deixaria.

 Contudo, ela sabia que seus pés não a tinham levado ali sem um motivo. Então aguardou e quando o último sopro de vida saiu de seus pulmões, Catxuréu se aproximou da cama, ignorando os choros ao seu redor e apanhou a alma que aquele mundo já não pertenciam.

 Olhou para aquele fragmento de alma que já foi humano e viu passar por seus olhos, as imagens de todas as vezes que se encontrou com aquele homem. Esbarrou consigo tantas vezes durante sua jornada de vida e agora, ela chegava finalmente ao fim.

 Antes que a consciência enfim o abandonasse, João Paulo viu algo que jamais acreditaria se não visse com seus próprios olhos.

 Viu a morte sorrir para si.

 Quando já não tinha mais nada a lembrar, acompanhou-a até Guajupiá sem rodeios. Encontrou lá rostos conhecidos, não se lembrava donde, mas eram conhecidos para si, lhe traziam paz.

 Enquanto saia de Guajupiá, Catxuréu olhou uma última vez para trás e viu o bebê que perdeu os pais, o menino que admirava Anhangá, o jovem que sofreu acidente e o adulto que perdeu a mãe. Todos eles juntos reunidos em um só espírito, que foi recebido com muito amor por seus entes que já haviam partido.

 Sorriu uma última vez antes de voltar ao seu trabalho.

 Antes de voltar a andar por suas terras, levando consigo todos que já não pertencia mais àquele mundo.


Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no Nyah e em seu sucessor, o +Fiction, durante 1 ano!

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!




Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Observado pela morte" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.