Celestial escrita por Kori Hime


Capítulo 1
Vazio


Notas iniciais do capítulo

Dean e Cass sentem o mesmo vazio.



Olhou para o céu azul, observando as estrelas. Bebeu um gole da cerveja quente que encontrara no porta malas do carro. As últimas cervejas compradas por Sam.

Passou ali algumas horas de olho nas estrelas. Parecia que faltavam algumas. Ou era sua visão que estava mais cansada? Seu corpo mais dolorido. Enfraquecido de tanto lutar.

Entrou no carro e parou. Para onde iria agora? Sim, havia feito uma promessa para Sam, mas não havia muitas chances daquilo ser realizado. Fechou os olhos e bateu a testa no volante. Estava sozinho. A solidão lhe consumia o corpo. Seu corpo oco por dentro.

Ligou o carro, e nada. Dean balançou a cabeça, achando que tava muito bêbado e fazendo algo errado. Virou a chave novamente, mas nada.
Olhou o painel do carro e esboçou um sorriso sarcástico:

— Só pode ser brincadeira.— abriu a porta do carro resmungando algum palavrão. — Qual é? Eu abasteci hoje o carro. — Levantou as mãos pro céu. Tentando se lembrar com certeza quando fora que abasteceu o carro. — Merda!

Chutou o pneu do carro.

Mexeu as mãos na cabeça. O cabelo estava maior do que costumava deixar. A barba por fazer e já fazia uns três dias que não tomava um banho, nem se hospedava mais nos hotéis vagabundos.

Passava os dias e noites em seu carro, na companhia de alguma bebida, da solidão. Do seu triste destino que era ser um abandonado por todos.
Não via porque manter aquela aparência de antes se sua vida era um nada.

Não havia mais lágrimas para soltar, era um poço sem fundo para elas. Para a dor, para a tristeza.

Sofrera tanto que mais nada seria pior do que tudo que passou na vida.

Se arrastou até a beira da estrada, jogando seu corpo no que era pra ser uma guia. Ali não passava carros, não muitos. Ali era um lugar esquecido por Deus, como diziam.

Deus...

O que levou tudo que Dean mais amava no mundo todo. E porque não levou sua alma também? Porque ele tinha que ficar e ser o único a sofrer mais? Preferia tanto estar morto.

Até pensou em suicídio. Mas isso seria um salto sem volta para o inferno. E a última coisa que desejava era ir pra um lugar onde todos seus inimigos estavam.

Mas espera! E o céu?

Ali também habitava alguns de seus inimigos, ou habitou.

Onde será que Sam estaria?

Junto de seus pais?

Que inveja Dean sentia do irmão nesse momento.

Estremeceu com o vento que tomou conta do lugar. A sua jaqueta tão surrada pelo tempo e batalhas, já não era mais suficiente para mantê-lo aquecido.

Levantou-se devagar, cansado, com fome e frio. Com um sono que não era mais normal.

Se aproximou do carro com uma dificuldade intensa. Como se seu corpo fosse de um homem na beira dos seus noventa anos.

Chegou ao lado do impala, escorando-se até conseguir ficar de pé. Cada dia estava pior a sua dor. Ouviu um ruido que se alastrou, aumentando o volume, como se milhões de caixas estivessem no último volume, como num show de rock. Seus tímpanos estouraram, enquanto seu corpo caía no chão, quase esmagado por aquele barulho ensurdecedor.

Aquilo poderia matá-lo, então Dean sorriu.

***

O aconchego parecia ser um paraíso para suas costas antes maltratadas, sentiu o cheiro de hambúrguer, o que mais gostava: com bacon, molho especial e queijo, muito queijo. Engraçado era que também sentiu o cheiro da cerveja, a cevada que deveria ter acabado de ser destilada e devidamente esfriada na temperatura certa. Ao fundo, a música What Is and What Should Never Be, do Led Zeppelin.

Dean sorriu, de olhos fechados. Aquele era o seu paraíso perfeito. Só faltava uma coisa...

— Dean? Acorde! – Não faltava mais.

Abriu os olhos assim que ouviu aquela tão conhecida voz. Mas porque fora pensar justamente nele? Realmente, tudo aquilo estava mais do que estranho para o Winchester.

— Cass... o que... como? Que diabos ta fazendo aqui no meu paraíso? Esse céu é meu, não pode invadir assim não. – Dean estava sentado na cama, suando e gaguejando. Achou estranho demais pensar naquele ser e ele aparecer.

— Paraíso? – O homem … o anjo, em sua tradicional capa de chuva bege, com um olhar sem emoção ou sinal de brilho, encarava o outro que ainda estava assustado. – Você está em Kansas. Não no céu.

— O que? Eu não morri?

— Não!

— Merda!!!

— Porque está tão nervoso, Dean? – Castiel colocou as mãos no bolso, e recostou-se numa mesa.

— Porque? Porque eu to puto contigo! Era pra deixar eu morrer lá na estrada. – Dean se levantou, andando de um lado para o outro. Não sentia mais dores no corpo. Mas ainda sentia o vazio. – Eu queria morrer cara! E você me trás de volta.

— Você não ia morrer, eu estava tentando me comunicar, mas tava difícil...

— Difícil? Eu vou te falar o que é difícil. Viver! Isso sim é difícil. Depois que toda essa porcaria de apocalipse aconteceu, a minha vida se tornou um inferno. E não é literal não, é o inferno de verdade. Mas sem o diabo, aquele ali nem conta mais. – Sentou na cama, cruzando os braços.

— Sei, entendo.

— Não! Você não entende Castiel! – Dean voltou a se levantar, sentindo um incomodo no estômago. Antes de continuar a falar, pegou um hambúrguer, abriu uma garrafa de cerveja com a boca. – Olha, você é o anjo mais safado sortudo que eu conheci. Ta aí de boa, enquanto seu amigo aqui ta todo fudido.

— Eu também. Eu também me sinto assim.

— Fodido? Que nem eu? Na miséria? No inferno? Ou com fome?

— Não sei. Mas eu sinto que falta algo. Algo aqui dentro de mim. Está vazio. – Castiel se levantou, aproximando-se de Dean, que mastigava e bebia. – Consegue sentir isso? Dói.

O anjo pegou a mão de Dean, tirando a cerveja e levando até o peito.

— Que papo é esse?

— Aqui, dói. Você sente? – A mão de Dean estava aberta em cima do peito de Castiel. Sentiu o coração do anjo acelerar. – Como se tudo o que aconteceu, no final, não foi o bastante.

— Não foi... não foi mesmo Cass. – Dean tirou a mão do peito do anjo. Recuando alguns passos. Fitou-o curioso por um instante. – Porque está aqui Cass? Porque me tirou daquela estrada? Achei que você havia recebido uma promoção e não tivesse mais tempo pra um pé rapado como eu.

— Eu... eu não sei. Queria fazer algo que preenchesse meu vazio. E me lembrei de você.

— Ah! Então agora eu sou um passatempo pra você? – Dean se sentiu ofendido. Ofendido por que não queria que Cass estivesse ali por culpa.

— Não! Não é isso. – Castiel não sabia porque, nem como, mas passatempo realmente não era. Nem sabia o que era isso. – Eu queria fazer algo, algo para você.

— Eu não quero mais a sua ajuda! – Dean jogou a garrafa contra a parede. – Da ajuda de anjos eu já estou farto.

Gritou, apontando o dedo no peito de Castiel.

— Dean, eu... eu …. me desculpa. – Um nó na garganta se formou. Castiel não sabia como reagir aquilo. O peito parecia incomodar com aquela dor. Não era uma dor comum. Os olhos se irritaram, e a boca estremeceu. Suspirou, engolindo algo como o ar para que continuasse em pé.

Dean jurou estar delirando, aquilo nos olhos de Castiel não eram lágrima, porque seria? Como um anjo iria chorar? Mas sentiu aquele aperto no coração quando a primeira lágrima escorreu. Aproximou-se do anjo e estendeu a mão, querendo se certificar de que aquilo era real.

Castiel deu um passo para trás, aquelo movimento de Dean o fez tremer dos pés a cabeça. O corpo estava fazendo uma brincadeira de muito mal gosto com ele. A lágrima que escorreu parecia queimar-lhe a face. E a mão de Dean era a água que esfriava o fogo.

— Cass, o que esta acontecendo? – Dean tão próximo, fazia o anjo se arrepiar. – Você, está chorando.

Se aproximou mais, até que conseguiu alcançar a pele e conter a lágrima. Secando depois o rosto de Castiel com o canto da mão.

O anjo podia sentir o coração palpitar rápido, desesperado. Como se fosse pular pela boca.

Crispou os lábios e tentou dizer alguma coisa, mas saiu apenas sussurros. Dean chegou mais perto para entender melhor, e mais perto. Até estarem um de frente para o outro. Quase um dedo de distância.

— Está quase Dean...

— Quase o que Cass? – Perguntou contendo a respiração forte.

— O vazio, está quase sumindo.

— O meu também, Cass.

A sua vida já estava toda ferrada, solitário e perdido, não havia como piorar. Então não haviam mais certo e errado. O que acontecesse agora com Dean, seria lucro.

Não sabia porque, mas Castiel fechou os olhos. Sentiu seu corpo ser preenchi por uma onda de emoções novas, quente, feliz. Era novidade. Era um novo passo. Ele era um anjo com sentimentos. Quem sabe o único?

Não... não era o único, pois Lúcifer fora um anjo egoísta, Miguel manipulador, e outros tantos com seus defeitos. Ora essa, divindades celestiais com erros, como os mortais.

Era até cômico.

Sem pensar muito, ele o beijou. Assim rápido. Tão ligeiro que era para não pensar em uma segunda opção. Segurou-o no rosto, e despejou naquele beijo toda a frustração e carência que sentia. Que se dane o que poderia pensar daquele momento, não sabia se estava bêbado, não sabia se era loucura. Só fazia aquilo que veio a mente, pois somente dessa forma, seu coração se encheu novamente.

Foi como voltar a ter cinco anos, quando sua mãe lhe fazia torradas pela manhã com chocolate. Quando um vento tomou conta do quarto, Dean abriu os olhos. Estava ali sozinho.

Sozinho no quarto. Chamou por Castiel algumas vezes, procurou no armário, no banheiro, do lado de fora do quarto. Mas não havia nada ali. Estava sozinho novamente.

Chutou a cama, machucando a canela. Soltou vários palavrões, sentando-se na cama. Largou seu corpo ali, passando a mão no rosto. Estava ficando maluco, sentiu isso. Mas naquele momento, sentiu outra coisa também. Não estava mais oco. Seu coração não estava mais vazio.

Levou a mão esquerda ao peito. Apertando os lábios. Aquela loucura o fez ser novamente um homem? Seria mais do que irônico isso.


***

Estava no banco de trás do carro, tomando uma cerveja, deitado. Havia passado um ano. Um ano inteiro sozinho, mas não sentia isso. Era como se algo o fizesse crer que sua vida tinha sentido. E isso vinha do coração, isso veio a partir das lágrimas de um anjo.

Um milagre celestial, diria Dean, mas ele não acredita em milagres.

Ouviu um barulho do lado de fora, alguém batia no capô de seu bebê. Levantou-se furioso, pronto para acertar o engraçadinho, quando se deparou com o anjo que tirara seu coração da solidão.

— Cass!!! – Castiel sorriu, desajeitado, esperando as próximas palavras de Dean. – Seu filho da puta! Como me deixa sozinho daquele jeito? Tava me usando é?

— Dean, calma! Eu não podia ficar. Eu tinha que ir embora.

— Não sabe dizer tchau? É simples. Porque não usa a educação que sei lá quem te deu?

— Tudo bem, eu to aqui agora.

— Não me interessa. – virou as costas nervoso. Mais nervoso do que deveria estar. – Você me abandonou duas vezes. Ta ficando pior que o Sam. – Cruzou os braços na frente do corpo, ouvindo a risada de Castiel aumentar. – Ta rindo de que? Ô seu anjo molestador.

— Dean, não é tão simples assim fazer o que fiz.]

— Claro que é. Você pode sair batendo asas enquanto deixa os outros falando sozinho.

— Não! Não é isso que eu quero dizer. Estou falando disso. – Castiel tirou o cordão de dentro da capa de chuva bege. Mostrando para Dean o que ele fizera.

— Esse treco aí! Eu já vi antes, igual o de Ana.

— Sim.

— Cass, essa é a sua graça? Então você...

— É eu achei que fosse entender. – Castiel voltou a guardar o cordão pra dentro da roupa. – Ainda é esperto.

— Mas porque?

— Retiro o que disse. – O ex-anjo, se recostou no capô do impala.

— Epa! Epa! Epa! Agora que não é mais um anjo, posso muito bem te socar por amassar meu carro.

— É só um carro.

— Só um carro?!?! – Dean mexeu os braços nervoso. – Ta vendo só porque não tem carro no céu?

— Eu nem sei dirigir. – Castiel caminhou para longe do impala, não queria ofender Dean logo no primeiro dia como humano.

— É outra coisa que precisamos resolver rapidamente. Vai aprender a dirigir. Mas antes, vamos comer alguma coisa, eu estou morrendo de fome, e você?

— Não sei! – Dean o olhou com cara de dúvida. – Bem, eu sinto um vazio aqui dentro.

— Lá vem você com essa história de vazio. Da última vez me largou sozinho todo excitado no meio de um quarto de motel barato.

— Desculpe. – Castiel se desculpava mas nem sabia porque. E Dean sabia disso.

— Certo, vou arrumar um jeito pra você se desculpar melhor. – Ele entrou no carro, abrindo a porta lateral. – Vamos comer, depois a gente vê o que faz.

— Tá! – Castiel não tinha a menor ideia do porque, mas estava sentindo não somente um vazio no estômago barulhento. Ele sentia também o tal balanço das borboletas que ouvira uma vez na Terra.

Dean ligou o carro, escolhendo uma música, virou-se pra Castiel, e não se importava como, mas estava feliz por não ser mais sozinho, nem por sentir aquela tristeza em seu peito. Agora havia por quem viver.

— Gosta de Poison?

— Hã?

— Você tem muito o que aprender Cass. – Ele sorriu, recebendo em troca o mesmo, mas aquele era o sorriso mais verdadeiro de todos que vira antes na sua vida.



Notas finais do capítulo

Eu queria muito ter desenvolvido mais essa história, mas minha filha Serena não deixa, ela gruda em mim e não larga mais Own, meu bebê Mas eu estou aqui para falar de outro bebê lindo que tenho.Letícia, a rainha dos Gnometz!!!Eu amo você, e ainda irei te abraçar com todas as minhas forças e fazer você sufocar nos meus peitos. Ui!*Beijos,Kori Mamacita