Série Tempo e Amor - Parte V - Felizes Para Sempre escrita por Valdie Black


Capítulo 3
Bill - Presentes




Um vestido. Nem lembrava a última vez em que eu tinha usado um vestido, mas surpreendentemente não estava sendo desconfortável. Talvez porque era mais uma saia longa do que exatamente um vestido. Peter disse que não precisava de nada muito formal, mas como a coisa toda ia ser num castelo achei melhor não arriscar.

Claro que já estive em castelos antes, mas eram tipo museus e coisas assim. Nunca fui a uma festa em um castelo. Deve ser lindo.

— Bill, querida, você está pronta? - Donna Noble perguntou batendo na porta.

— Sim, já estou indo.

Rapidamente apanhei o presente em cima da cama e sai do quarto. Não queria me atrasar, esse era o papel da noiva.

— Donna, minha querida, eu não me incomodo em levar vocês. - Wilfred, o avô da Donna, ofereceu mais uma vez.

— Você mal consegue se levantar da cadeira, vovô. Como é que vai dirigir um carro?

— Então espere seu marido voltar do trabalho…

— Se eu esperar vamos chegar atrasadas!

— Eu fico tão preocupado às vezes, querida. Você dirige feito uma doida.

Escondi meu rosto atrás do presente para Donna não ver que eu estava rindo. Wilfred soava tão sincero, ele estava mesmo preocupado.

— Ora, mas que besteira, homem! Se eu não dirigir rápido como é que vamos chegar em qualquer lugar nessa cidade? Aqui é cada um por si! Além disso, nunca tive nenhum acidente.

Wilfred ia falar alguma coisa, mas Donna o interrompeu.

— Aquela vez não conta. Nós dois sabemos que foi tudo uma farsa.

— Você atropelou aquela senhora, Donna.

— Não seja dramático. Ela levantou do chão rapidinho, não foi? Aposto que não precisou de cirurgia nenhuma, só queria o meu dinheiro. Bem, ela tentou roubar a pessoa errada!

— Donna…

— Vamos, Bill. O trânsito vai estar uma loucura e é melhor não chegarmos atrasadas.

Acompanhei Donna até a porta enquanto Wilfred ainda tentava impedi-la, mas era inútil. Era verdade que Donna dirigia feito uma doida, descobri isso quando ela foi me apanhar no aeroporto, mas a mulher era eficiente. Ninguém mexia com ela. Gostaria que desse uns gritos na Lucy qualquer dia desses.

— Um castelo, dá pra acreditar? - ela comentou quando entramos no seu carro e fechamos as portas. Só vamos conseguir chegar lá amanhã, isso sendo otimista. Mas eu entendo porque a Clara escolheu um castelo, se eu tivesse dinheiro de sobra também teria me casado em um. Ora, até morava em um… ah, não, deve ser assustador à noite. Você já esteve num castelo à noite?

— Não…

— Deve ser horrível. Eu tenho medo até de igreja. Todos aqueles vitrais e estátuas… parece algo saído de um romance gótico ou coisa assim, tipo “Drácula” e… SAIAM DA MINHA FRENTE, SUAS PESTES!

Tomei um susto com o grito dela. Donna tirava o carro da garagem quando algumas crianças apareceram na nossa frente.

— VÃO BRINCAR NO QUINTAL DA CASA DOS SEUS PAIS! - berrou, apertando a buzina. Eu não saberia dizer qual dos dois era mais barulhento. - Está vendo só, Bill? Se eu fosse desatenta e atropelasse um desses pirralhos os pais deles iam querer roubar meu dinheiro também, mas a culpa é toda deles por deixarem os filhos soltos feito animais na floresta.

— É…

As crianças saíram da frente do carro (algumas mostraram o dedo do meio para nós, fazendo a Donna reclamar da falta de educação dos jovens de hoje em dia) e finalmente pegamos a estrada.

— Aposto que Nova York também é assim, não é? Cheio de gente e agitado.

— Sim.

Nova York era difícil de explicar. Não era só agitado, era quase um estado de espírito totalmente novo. Agora que eu estava de volta ao lugar em que morei durante quase toda minha vida me sentia estranha, percebi que tinha me desacostumado com ele.

— Eu nunca fui nos Estados Unidos. Uma amiga minha mora em Las Vegas e ela diz que é insano, e quando a Veena diz que algo é insano então é porque é mesmo. Aquela mulher é uma doida varrida. Uma vez no aniversário dela, nós…

— Donna, obrigada por ter me apanhado no aeroporto e por ter me deixado ficar na sua casa. - eu tive de interromper porque não conseguia arrumar uma brecha para falar quando conversava com a Donna. - Você não me conhecia então foi muito gentil mesmo da sua parte.

— Ora, querida, não tem de quê. Peter me falou muito bem de você, e sei que ninguém gostaria de se hospedar na casa dele porque só iria ficar segurando vela com a Clara por lá.

Dei uma risada. Foi exatamente por isso que não quis ficar na casa do Peter.

— Nem muito menos com o David porque aquele palhaço não tem mais uma casa aqui então estão todos amontoados na casa da Jackie. Ele, a Rose, a filha deles…

— Sim...

Tinha memórias não muito boas de estar sob o mesmo teto com um casal e sua filha.

— Aquele Christopher ninguém sabe onde se meteu e a Amy Pond é toda escandalosa, então eu quis ajudar você, querida. Ninguém merece ficar na companhia dessa gente sem noção. EI, OLHA POR ANDA, IMBECIL!

Dessa vez ela gritava com um rapaz numa bicicleta que cortou na nossa frente.

— SE VOCÊ SE JOGAR NO MEU CARRO EU NÃO VOU PAGAR POR UMA BICICLETA NOVA, OUVIU?!

— Ninguém sabe onde o Christopher está? - perguntei, surpresa. Pensei que ele e a família tinham se acertado... mais ou menos.

— Ah, não. Eu disse ao David que aquele lá era um caso perdido. Eu disse a ele: “David, seu irmão parece um adolescente que se recusa a crescer.” e parece mesmo, não é? Todo revoltado com o pai por causa de uma coisa que aconteceu há não sei quantos anos. Olhe, foi muita sorte ele ter acordado de bom humor no dia que fez o acordo porque aquele foi o caso mais complicado da minha carreira. Pensei que aquele idiota do Mickey ia ganhar tudo e…

— Peter não me disse que tinha perdido contato com o filho de novo.

Não sei porque eu esperava que ele me dissesse essas coisas, na verdade. Eu não era parte da família. Ainda nos falávamos mas ele geralmente só queria conversar sobre as coisas da minha vida.

— Ele só está concentrado na Clara agora. Meu Deus do céu, nem David e Rose são tão melosos quanto aqueles dois! Você já reparou como eles ficam se comendo com os olhos toda vez que estão juntos no mesmo lugar?

— Sim…

— Mas eu estou feliz por eles. É tão difícil achar a pessoa certa… e a Clara tem muita sorte. Não porque ele é rico, mas porque ele realmente faria tudo por ela. É raro encontrar um homem assim, sabe?

— Hum…

— Embora que a riqueza também é um agrado… e ele é até bonito, né? Está inteiro ainda. Quer dizer, não é nenhum galã de cinema mas eu também não o chutaria da cama.

Eu me mexi no assento, levemente desconfortável com aquele assunto, mas felizmente Donna não passou muito tempo falando sobre isso. Na verdade ela mudou o tópico da conversa pelo menos umas quinhentas vezes antes de chegarmos no nosso destino.

Eu achava Donna divertida mesmo com seus gritos, ou talvez exatamente por causa dos seus gritos. Quando a viagem ficou muito longa eu coloquei o novo álbum dos Carters para tocar no meu celular e ela gostou bastante, o que prova que é uma boa pessoa.

Finalmente avistamos o castelo ao longe. Depois que Donna estacionou o carro perto dos outros, nós ainda tivemos de andar por um caminho íngreme, o que fez Donna reclamar de dor porque ela usava salto alto. Foi então que nos deparamos com Peter, Rose e David na subida.

— Donna, aí está você! - disse David, sorrindo. - Pensei que não ia chegar nunca.

— Esse lugar fica no fim do mundo! Eu me perdi umas três vezes antes de encontrar. Aqui não tem nem internet!

— Você podia ter me ligado, eu ajudaria a encontrar o lugar.

— Eu sei me virar, David! Não sou nenhuma idiota.

— Nunca pensei que fosse.

— Bill, como vai você? - Rose perguntou. - Faz muito tempo que não nos vemos.

— Verdade. Estou bem, obrigada.

— Peter nos disse que você tem uma banda agora. - David falou.

— Ah, sim. Nós tocamos em bares e coisas assim.

— Vocês deviam ter vindo tocar aqui. - disse Rose. - Não que as gaitas de foles sejam ruins…

— Rose odeia as gaitas de foles. - seu marido disse, rindo-se dela.

— Não é verdade, David! As gaitas são ótimas. Muito… escocesas.

— Aham… no nosso primeiro casamento você só deixou eles tocarem porque eu insisti, e no segundo você proibiu tudo que era escocês menos o noivo e a família dele.

— Não! É só que... tínhamos pouco tempo pra arrumar as coisas… com o julgamento e tudo acontecendo…

— Está vendo só, Bill? Sou casado com uma mentirosa.

Rose lhe deu um tapa de leve no braço, David estava rindo muito.

— Ah, Rose, minha querida… por que você não me contou que esse castelo ficava num lugar tão alto? - Donna perguntou, tinha se apoiado em mim e massageava as pernas.

— Donna, me desculpe! Esqueci de lhe avisar que eu ia usar sapatilhas por esse motivo. Venha, vamos até o castelo, acho que posso encontrar um par de sapatos melhor pra você.

— Eu também vou. - disse David. - Já deixei a Jenny com a Jackie por tempo demais. Não quero que minha filha enlouqueça.

— Vou ficar aqui com a Bill. Quero lhe mostrar o lugar. - disse Peter, quebrando seu silêncio.

Donna saiu com David e Rose, mas eu ainda conseguia ouvir sua voz. Agora estava reclamando do vento que era muito forte e estragava seu penteado.

— É muito bom vê-la, Bill. - Peter falou.

— Também acho, Peter. Você fica bonito de kilt.

— Obrigado. Você fica bonita de vestido.

— Acho que é mais uma saia do que um vestido.

— Esses nomes são arbitrários. Meu kilt também se parece com uma saia.

— Senti falta das nossas conversas profundas.

Ele achou graça.

— Sempre me senti bem conversando com você.

— Eu sentia raiva. Você conheceu tanta gente impressionante e age como se não fosse nada.

— Acho que você é mais impressionante do que a maioria das pessoas.

— Sempre tão cavalheiro!

— Vamos, quero lhe mostrar o local. - ele deu o braço para que eu segurasse.

Andamos pelos jardins ao redor do castelo. Peter falava sobre a História do lugar, mas eu notei que ele estava com a mente distante.

—… então o Lorde Patrick foi decapitado e o castelo invadido.

— Que encantador!

— Realmente é, Bill, porque eles não destruíram o castelo. Séculos se passaram e a família do sobrinho-neto dele acabou herdando a propriedade. A atual dona às vezes aluga o castelo para eventos como… um casamento.

— Qual era o nome do castelo mesmo?

— Castelo de Troughton.

— Hum… e por que você está tão preocupado?

Ele parou.

— Perdão?

— Peter, eu conheço sua cara. Você está preocupado com alguma coisa.

Peter olhou para o castelo e de volta para mim.

— Christopher ainda não chegou.

— Ele vai chegar. Eu e a Donna também nos atrasamos um pouco, não foi?

— Bill, vocês atrasaram duas horas.

— Ah… mas eu te trouxe um presente super legal, então não fique chateado!

Mostrei o pacote que eu carregava.

— Não me incomodo com seu atraso. Sabia que você viria e isso bastava.

— Que bom, porque o presente é só um liquidificador.

Ele franziu o cenho.

— Um liquidificador?

— O quê? Eu não sei o que os casais querem!

— Eu esperava um outro CD.

— Faça uma lista de presentes então.

Peter sorriu.

— Acho que você não está só preocupado com o Christopher. - falei. - É o nervosismo antes do casamento?

— Não. Eu… nossa, Bill, quando foi que você ficou tão perceptiva?

Encolhi os ombros.

— Eu te conheço, Peter.

— Sabe… eu sempre me perguntei como seria ter uma filha.

— Talvez um dia você tenha uma com a Clara.

Ele balançou a cabeça, negando.

— Meus dias de paternidade acabaram. Talvez seja melhor assim, eu já estraguei a vida de três garotos brilhantes.

— Não é verdade, Peter. Olha só o David, ele está tão feliz, e o Christopher superou os vícios. Não conheci o Matt, mas acho que ele foi feliz também fazendo o que gosta.

— Tudo isso foi a Clara, Bill. Foi a Clara quem uniu David e Rose, procurou pelo Christopher, conviveu com o Matthew… sim, eles fizeram coisas sozinhos mas a Clara se esforçou para consertar os erros que eu cometi porque nunca tive coragem de consertá-los eu mesmo.

Meus olhos arderam. Achei doloroso ouvi-lo falar aquelas coisas.

— Escute, Peter, não posso falar pelo que você era antes mas o Peter que eu conheci era paciente comigo, compreensivo, sempre me apoiou e acreditou em mim. Ele era duro às vezes, mas só quando eu precisava. Você me salvou. Você, não a Clara. Gosto muito dela, mas foi você quem me acordou daquele pesadelo que eu chamava de vida.

— Bill… eu não sabia que você sentia-se assim.

Tomei coragem e dei-lhe um beijo na bochecha.

— Eu realmente te amo, velhinho.

Ele colocou a mão no local onde eu havia beijado, estava um pouco em choque.

— Eu também amo você, Bill.

— Então sou a melhor assistente que você já teve?

— Não, você é a melhor amiga que eu já tive.

Senti alguma coisa quente nas minhas bochechas, eram lágrimas.

— Desculpe. - falei, limpando-as depressa. - Sempre choro em casamentos.

Peter não respondeu, ele olhava para alguma coisa atrás de mim. Eu me virei para ver o que era.

— Olá, pai.

Era o Christopher.



Notas finais do capítulo

N/A: Usei o nome do Patrick Troughton para o castelo que foi o ator que interpretou o Segundo Doutor (também não sei pronunciar, acho que é "Trouton").

Bill está um pouco diferente aqui porque em Vinyl ela estava deprimida. Gosto muito dessa personagem e é interessante a relação dela com o Peter, que não tem esse gene altruísta da Clara mas que acabou ajudando-a desse jeitinho dele. Espero que tenham gostado de revê-la.

E a Donna também!

O Chris finalmente deu as caras, não foi?

=***



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