Oblivion escrita por Camélia Bardon


Capítulo 7
Capítulo seis, ano um


Notas iniciais do capítulo

Bom dia, boa tarde e boa noite ❀ novamente, peço mil perdões pela demora. Juro que sempre tento escrever nas minhas brechas de criatividade, mas mesmo assim comecei a escrever logo que postei o anterior e só consegui terminá-lo agora. Talvez porque esse seja um divisor para, surpresa, o próximo ano!

Sim, esse é o último capítulo que se passa em 2016. No próximo entraremos em 2017, então não estranhem, procurarei situar vocês bem. Deixo vocês com o outro lado do esquecimento. Tenham uma boa leitura!



 

Permaneço com o toque dos seus lábios nos meus pelo resto da noite. Trocamos telefones e tudo parece perfeito, visto da minha perspectiva. Cada vez que fecho os olhos, posso enxergar com facilidade os dele, castanhos, junto aos cachos bem delineados. Invejo aqueles cachos, por que os meus não são assim também? Maldita genética…

De qualquer maneira, a noite é um divisor de águas ⎻ como eu viria a descobrir no dia seguinte. Ao ouvir O Carro, Pietr me recepciona com um sorriso nada sugestivo, e até mesmo Chantilily parece lançar-me um sorriso malicioso de gato.

⏤ Ah, parem com isso, vocês dois! ⏤ ralho, de brincadeira, para depois sentar-me na cama e tirar os sapatos.

⏤ Correu tudo bem, Lou? Ninguém saiu ferido?

⏤ No máximo, só o orgulho dele.

⏤ Deixe-me adivinhar, foi O Carro.

Assinto com a cabeça. Mal tenho tempo para continuar a falar, pois bem naquele minuto recebo uma mensagem de texto de Adrien. Busco o celular na bolsa, e desbloqueio-o para lê-la inteira.

 

O dia hoje foi divertido ;) Quando nos vemos de novo?

A.T. xoxo

 

⏤ Minha nossa, ele te quer nua numa bandeja de prata ⏤ Pietr comenta, por cima do meu ombro.

⏤ Ei! ⏤ falo, corando violentamente e escondendo o celular. ⏤ Não olhe as minhas conversas! Quem te ensinou a falar esse tipo de coisas, foi a Marla?

⏤ Não, mas estou com saudades dela, por falar nisso.

⏤ Saudades dela ou da boca dela, Pietr Benoit?

Ele dá de ombros e se senta ao meu lado. Em seguida, repousa a cabeça sob meu colo, gesto esse que compartilhamos desde sempre. Suas madeixas laranjas espalham-se pelas minhas coxas, e Pietr me olha com expectativa.

⏤ Um pouco dos dois, mas isso não vem ao caso. Vai, cadê a foto da beldade?

Rio com o comentário, e após salvar o contato de Adrien mostro-o a Pietr que, por sua vez, arqueia as sobrancelhas, surpreso.

⏤ Olha só… se não estivesse interessada nele, eu pegava sem dó.

⏤ Ai, Pietr ⏤ rio com ele. ⏤ É, eu sei, ele é lindo. E é super meigo, mas…

⏤ Sempre tem um mas ⏤ Pietr protesta, revoltado. ⏤ Qual é o dessa vez, Lou?

Suspiro, frustrada. Como explicar para ele o que sequer faz sentido na minha cabeça? A fim de evitar mais contratempos, apenas lhe oferto um sorriso triste.

⏤ Digamos que há alguns empecilhos que não estão ao alcance de nenhum dos dois a serem resolvidos.

Pietr parece aceitar isso como resposta e me devolve o celular para que eu responda a mensagem de Adrien. Ainda atordoada, digito:

 

Quando puder! Se não me esquecer de novo -p

Lou

 

Pietr e eu conversamos um pouco mais, e ele me conta as novidades da faculdade. Fico feliz por ele estar se divertindo, coisa que aqui em casa era uma realidade utópica. Depois, decidimos ir dormir, e Chantilily  se aconchega no meio das minhas pernas. Tenho certeza de que passarei a noite sonhando com Adrien, mas… não é bem isso que acontece.

 

Na manhã de domingo, acordo resmungando, como de praxe. Preparo uma xícara de café, tirando forças de um buraco negro para me mexer pela casa. Retorno para o quarto e me sento na cama, fazendo a gata bufar em seu canto.

De início, penso tratar-se apenas de uma peça pregada pelo meu cérebro. Afinal, não é nada excêntrico esquecer-se do acabou de sonhar, certo? No entanto, mesmo acordada, algo falta. Fecho a cara ao perceber que não me lembro de quase nada da noite anterior.

Não estou com dor de cabeça, então a ressaca está descartada. Ouço meu irmão remexer-se na cama e reclamar algo do gênero “não acredito que estou acordando cedo num domingo”, e pretendo não incomodá-lo, mas já estou tomada pelo pânico.

⏤ Pietr? ⏤ sussurro. ⏤ Acordado?

⏤ Infelizmente, sim. Que foi?

⏤ Eu tomei algum calmante ontem antes de dormir?

⏤ Não ⏤ grunhiu ele, esfregando os olhos. ⏤ Tá tudo bem? Você tá meio pálida.

Creio que obriguei tanto meu cérebro a retomar as lembranças que toda minha fronte começou a arder em dor. Solto um gemido e busco pelo celular perdido entre os lençóis. Por que quando queremos encontrar algo rápido, esse algo some da face do universo?

Nessa agitação toda, acabo encontrando-o da pior maneira: voando magnificamente em um grand jeté metálico em frente aos meus olhos e indo parar no chão. Pietr solta um arquejo sufocado, e eu viro sua tela para cima de olhos fechados.

⏤ Quebrou? ⏤ pergunto, com medo da resposta.

⏤ Por sorte não…

⏤ Que ótimo.

Abro os olhos e, novamente, deslizo o dedo pela senha errada duas vezes antes de acertar a combinação e procurar pela conversa que lembro de ter tido ontem à noite. Engulo em seco ao não encontrar nada.

⏤ Isso é alguma brincadeira de mau gosto, Pietr Oscar? ⏤ falo, utilizando o nome do meio que ele detesta. Em resposta, ele fecha a cara. ⏤ Você apagou a mensagem que eu recebi ontem?

⏤ Mas é claro que não! Quem você acha que eu sou? Eu sequer sei a senha do seu celular!

Respiro fundo, tentando reparar minha explosão de grosseria gratuita.

⏤ Desculpa, Pietr. Eu não quis ofender ⏤ falo, sentindo as lágrimas acumularem-se no canto dos olhos.

⏤ Eu sei ⏤ Pietr me tranquiliza, vindo sentar-se ao meu lado. ⏤ Me conta direito o que aconteceu, só quero ajudar…

Faço que sim com a cabeça, buscando algum fôlego.

⏤ Tive um encontro ontem. Fomos à Big Top, ao Lago Travis, eu o deixei em casa ⏤ a esta altura as lágrimas já estão correndo deliberadamente pelo rosto. ⏤ Mas eu… não me lembro de seu nome, do seu rosto, muito menos de sua rua. Pietr, não… não tem nada! É como se tivessem roubado minhas memórias, eu não sei o que fazer!

⏤ O nome dele não era Daniel?

⏤ Não! Não, não era!

⏤ Gabriel…? Dmitri!

Agito a mão em frente ao rosto, enxugando as lágrimas e levantando de supetão.

⏤ Não está ajudando, Pietr. Se troque, vamos sair.

Não permito que ele tenha tempo para uma resposta negativa. Ele é meu irmão, não tem escolha. Pego a primeira roupa que vejo pela frente e parto para o banheiro, junto ao meu coração acelerado.

Quanto mais tento reviver as memórias de ontem, mais ansiosa e frustrada fico. Torço para tratar-se apenas de um sonho terrível que se resolverá assim que acordar, mas minha mente nunca tinha sido tão criativa… não poderia começar agora, poderia?

Pietr adianta-se e pega comida na cozinha, enquanto brinco nervosamente com a chave do Carro por entre os dedos. Ele me oferece salgadinhos, contudo nego com a cabeça. Giro a ignição e Pietr, como o bom copiloto que é, já se prepara para ligar o rádio, mas o impeço.

⏤ Negando comida, negando música… percebe-se a gravidade da situação. Quem é você e o que fez com a minha irmã, ser abominável?

Ele consegue me arrancar um sorriso, apesar das circunstâncias ⎻ essas, que ele também está envolvido.

⏤ Como pode estar tão calmo numa hora dessas? Estou surtando ⏤ questiono.

⏤ Ah, você sabe ⏤ ele faz um gesto com a mão como quem diz “nah, não é nada”. ⏤ Eu fiz um trato com o Professor Xavier para sempre esquecer das minhas preocupações. Brincadeiras à parte, eu prefiro fingir que elas não existem do que ficar as remoendo.

⏤ E funciona?

⏤ Na maioria das vezes, sim ⏤ ele dá de ombros. ⏤ Nas outras… bem, somos obrigados a bater com o problema de frente, mas se isso acontece ele bate de volta.

Dou uma risada nervosa e contorno o caminho de Allandale para Northwest Hills em sentido ao Lago Travis. Pietr ergue uma sobrancelha para mim, mas é isso que faço quando me esqueço de algo ⎻ retorno para o local de onde estava e obrigo minha mente a se lembrar. Isso deve funcionar se voltar para o Lago Travis.

Agradeço às forças do universo pelo trânsito estar livre. Não aguentaria tanta carga mental mais um engarrafamento inconveniente.

Ao chegarmos, Pietr e eu saltamos dO Carro tropeçando nos próprios pés. Atravessamos o shopping novamente, seguindo o pequeno contingente que se aglomerava no píer. É domingo de manhã, então o pôr-do-sol não é o motivo de elas estarem ali. Pietr me encara, provavelmente avaliando que outro significado eu poderia enxergar além do que ele conhecia.

Quando nosso avô era vivo, trazia-nos aqui para observarmos o pôr-do-sol. Sentávamos os três, cada um com um sorvete em mãos ⎻ baunilha para mim, pistache para Pietr e creme com nozes para o vovô ⎻ e balançávamos os pés na ponta do píer, admirando o festival de cores que presenteava Austin. E então, vinham os morcegos.

Não há motivo para os temerem, explicava o vovô. São frugívoros. Eles têm tanto medo de nós quanto temos deles.

⏤ Se o trouxe aqui, é porque o julgou importante ⏤ murmurou Pietr, encabulado. ⏤ Conseguiu… se lembrar de algo?

⏤ Só do vovô. Ah, Pietr ⏤ o abraço, tentando focar na nossa diferença de altura ao invés da melancolia que me abala. Não dá certo. Mesmo com ele me envolvendo e acariciando meu cabelo, minha ansiedade me consome. Meus pulmões comprimem no peito, e sou capaz de jurar que vou infartar.

Não por… pelo garoto. Pelo vazio que ele deixa em mim sem pedir desculpas. Ele só sumiu. E levou consigo a felicidade que representou por um dia. Fecho os olhos com força, e Pietr me segura pelos ombros antes que comece a chorar compulsivamente no píer.

⏤ Respire. Vamos resolver isso juntos.

⏤ Devo estar louca ⏤ gaguejo. ⏤ Louca ou… ou pior! Como resolver isso, Pietr? Me internar, ou o que?

⏤ Não diga bobagens. O que é pior que estar louca?

Pietr morde o lábio. Mais tarde, viria a entender o que significaria aquele gesto. Já comentei anteriormente o que ocorreu, mas não vejo problema em repetir.

Depois disso, Pietr pega O Carro e dirige de volta para casa, e parecemos ter saído de um enterro. Se formos levar ao sentido literal, é o que acontece. Ele requisita para que eu vá para cima, e Chantilily me acompanha no resto de crise. Ouço seu ronronar e seu pelo macio me esquenta, enquanto no andar de baixo as coisas não estão tão bem.

Me esgueiro pelo corredor até decidir ouvir o que estão dizendo. Suas vozes estão abafadas, mas distingo o tom de Pietr quando ele sentencia:

⏤ Deveríamos ligar para a tia Mathilda. Ela saberia o que fazer. Não pode realizar a consulta por ser parente, mas poderia encaminhar para outro psiquiatra, e tudo o mais ⏤ e nesse ponto, ele pigarreia e imagino que tenha mudado de posição. Talvez tenha encostado na pia. ⏤ Quer dizer, sei que vocês não dão a mínima, mas gostaria de comunicar antes de tomar esse passo. Não posso ver minha irmã definhar desse jeito.

E aí, vem o estopim: agora eu sei o que é pior do que ser louca. Ser desacreditada.

É quase como uma acusação ou obrigação para eu realmente me torne. Que diagnóstico aquilo levaria? “Ela finge que não é louca”. Engulo em seco e puxo Chantilily para o meu colo, na tentativa de adiar o inevitável.

Que fim levaria quando toda aquela loucura infundada provasse ser verídica, afinal? Eu voltaria a procurar pelo garoto perdido ou cobriria o buraco que ele deixara com qualquer outra pessoa?

Pelo visto, só o tempo diria. Uma pena não ser paciente.



Notas finais do capítulo

É isso. Terminamos o primeiro ano. Críticas, sapatadas? Palpites para o próximo ano? Pedidos? Estou aceitando tudo xD e como sempre quero agradecer a força que sempre me dão. Vocês são demais ♡



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