Jennifer escrita por Camélia Bardon


Capítulo 6
Epílogo: Todas essas coisas que eu fiz


Notas iniciais do capítulo

Eu não planejava um epílogo, mas terminar a história daquele jeito também não ia ficar legal. Então escrevi essa parte beeeem breve para dar um final ao menos tolerável.
A música de hoje, embora não tenha relação com o texto diretamente (só achei que combinou) é All These Things That I've Done: https://m.youtube.com/watch?v=sZTpLvsYYHw



Quando termino, demorando mais que minhas sessões de meia hora, o dr. Martinez ainda está com as pernas descruzadas e sua expressão inexpressiva tinha sido alterada para brevemente atônita. Eu não sei exatamente o que o atordoa mais; um homem de 42 anos choramingando sobre a quase ex-namorada ou um homem de 42 anos falando coerentemente pela primeira vez após 20 anos. Creio eu que ele esperasse detalhes mais explícitos, shows com facas, vísceras para fora ou algo mais Hannibal. Entretanto devo ser o assassino mais patético que ele tenha “entrevistado”.

— Isso foi realmente bom, Christopher — elogia ele, recostando-se na cadeira. Tanto tempo deitado no divã fazem minhas costas doerem igual a um velho na casa dos oitenta, então recobro minha postura e me sento decentemente. — O que o fez sentir-se confortável para falar sobre Jennifer?

— Acho que o último dia como preso. Não sou mais o garoto caipira com grandes sonhos, dr. Cecil deve estar morto e a oficina mecânica deve estar soterrada a esta altura, mas não estou realmente interessado em voltar ao mundo exterior.

— Pensei que estivesse ansioso para ver o 2024 lá fora, sr. Woolf — o dr. Martinez ergueu uma sobrancelha, surpreso.

— Não, não mesmo. Não estou ansioso para ser olhado como o assassino da bailarina-prodígio Jennifer Atkins. E não estou nem um pouco ansioso para ser o Woolf que trouxe desgosto para a família. Não é como se eu estivesse voltando de um intercâmbio.

O psiquiatra assente e recoloca os óculos, anotando uma última informação em sua prancheta. O som da caneta que imita uma caneta-tinteiro soa por toda a sala, preenchendo nossos silêncios.

— Como eu volto a ser um homem normal, dr.? Como eu posso viver depois de todas estas coisas que eu fiz?

— Você não é normal, Christopher. O que pode tentar fazer é tentar conviver com o seu passado e viver um dia após o outro. Pode ser difícil, mas não é impossível.

Ergo uma sobrancelha ironicamente.

— Não estou brincando com você, eu falo sério — ele retira os óculos uma vez mais. — Há programas que reinstalam presidiários na vida social, eu posso inscrever você, se assim desejar.

Dou de ombros e nego com a cabeça.

— Eu prefiro esperar, dr. Passar um tempo do lado de fora, ver como estão as coisas e... quem sabe, não é mesmo?

O dr. Martinez faz que sim e finalmente dispensa-me da sessão. Pela última vez, caminho pelos corredores da prisão e despeço-me de meus colegas civilizados. Engulo em seco ao ter meus pertences devolvidos e algumas pratas para pegar um ônibus até a cidade. Encaro a jaqueta de couro e as calças jeans que certamente não me servem e as jogo fora na primeira lata de lixo.

Minha sorte é ter ainda os óculos escuros. É claro que óculos escuros não esconderiam a culpa de vinte anos, assim como a maré que quebrou não pôde esconder uma garota culpada.

Mesmo assim, eu ainda sou o Sr. Otimista. Meu destino me encara, e o primeiro passo é anotar tudo num bloco de notas mental:

1. Procurar Jennifer

2. Encontrá-la e levá-la para sair

3. Dizer que a amo

4. Matá-la por asfixia e atirá-la ao mar

5. Aguardar a punição

6. Recomeçar (?)



Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado. Mesmo que não tenham, estou abertas a críticas (construtivas, viu?)

No mais, Jennifer tem um easter egg: todos os personagens têm sobrenomes inspirados em autoras que gosto muito. Jennifer leva o sobrenome de Dani Atkins (autora de "A História de Nós Dois", "Nossa Música" e "Uma Curva no Tempo"). Kit carrega a grande Virginia Woolf (cuja qual minha obra preferida é "O sol e o peixe"), a detetive Atwood deriva da sensacional Margaret Atwood (dona das obras "O Conto da Aia" e "Vulgo Grace") e Daniel Adler tem sua exceção, pois foi tirado de Irene Adler, presente em Um Escândalo na Boêmia, conto de Sir Arthur Conan Doyle.

Então, é isso. Creio eu que não tenha acréscimos, fora dizer obrigada para você que chegou até aqui, mesmo que tenha sido de passagem. Namastê ♥



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