Por favor, não se esqueça... 1948 escrita por Sarah Virtanen


Capítulo 1
Capítulo 1 — Por favor, não se esqueça... Alex


Notas iniciais do capítulo

Leia 'Por favor, não se esqueça...' para entender melhor o que se passa aqui.

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Boa leitura ;)



 

1948 – Carolina do Norte

Os olhos azuis de Alexander se estreitaram, concentrados na neve que gentilmente beijava o verde da grama lá fora.

Dezembro tinha chegado muito rápido aquele ano, trouxe neve e um pouco de chuva antes dos flocos delicados.

Tragou o cigarro preso entre os dedos e soprou a fumaça para longe, pensando que depois que o inverno se fosse talvez começasse a construir um canteiro de rosas para sua esposa, atrás da casa parecia um bom lugar, era uma boa ideia.

Coçou o canto dos olhos, apoiado na parede da janela.

Sua Nessie gostava de flores coloridas e whisky, mas se eles tivessem rosas vermelhas e suco de laranja por um tempo ela ficaria feliz também.

Se lembrou de terem secado duas garrafas de whisky no chão da sala numa noite quente, uma comemoração por sua volta da Itália, a vitória da 92ª divisão americana sobre as linhas alemãs o tinha levado para casa, de volta para sua linda menina. Pareceu uma vida atrás.

Precisavam fazer de novo, um dia.

Sorriu sozinho, a maluca o tinha ajudado a destilar moonshine entre as folhas, ela própria tratava de despistar a polícia quando eles chegavam perto demais. Renesmee era, com certeza, única.

Que sorte grande a sua, era um soldadinho ralé com sorriso bonito e arrogante e ela o quis. Ou Deus lhe sorriu ou o diabo o abraçou, estava feliz com qualquer das possibilidades.

Respirou fundo, colocando a fumaça para fora, acima de sua cabeça de cabelos castanhos escuros e boina.

Remexeu as moedas no bolso da calça, a expectativa o fazendo silencioso.

— Aqui.

Olhou para baixo, o copo de whisky estendido em sua direção.

— Obrigado. — Bebericou, sentindo a leve ardência na garganta. Passou o cigarro para o cunhado.

Edward tragou, encostado na parede ao lado da janela. Riu de Alec, se divertindo em cima da sua agonia.

— Bastardo. — Gargalhou, balançando a cabeça.

— É só o primeiro, vai ser logo.

Alec olhou para cima, como se pudesse ver sua esposa, suada, descabelada e muito dolorida enquanto gritava e xingava alguém, ele, muito provavelmente.

— Você se lembra? De como foi com Bella.

O Cullen sorriu, assentindo.

— Todas as vezes. Quando você olha para o rostinho deles, tudo de que se lembra é da felicidade, mas essa parte da expectativa e da agonia nunca vão embora da sua mente.

Alec sorriu de lado, desviando os olhos de volta para a macieira encoberta de branco.

— Semana passada ela quis maçã com mostarda. — Edward riu alto, sua irmã fazia de propósito, tinha certeza.

— Pelo menos ela não te pediu caramelo com feijão. — Começaram a rir juntos, perdidos com suas esposas.

Alexander passou a mão no rosto, a barba bem feita naquela manhã, seus olhos correram para longe, para outro tempo.

— Você achou que voltaríamos para estar aqui hoje? — Edward suspirou, correndo sua memória na mesma linha que ele.

— Não. Eu queria, eu precisava, mas não achei que aconteceria. Eu tinha medo, não parecia justo.

— Eu tinha medo também, ainda é muito vivo na minha memória, nunca vou me esquecer da sensação da incerteza. Mas gostava do nosso trabalho, de alguma maneira.

O Cullen apertou a bituca na janela ao lado do copo vazio, puxando outro do bolso, Alec acendeu.

— No começo eu via uma criança órfã sentada sobre cada soldado que deixávamos morto pelos campos. Mas então eu entendi que eram eles ou eu, e eu tinha uma esposa esperando por mim, eu tinha filhas que precisavam que eu voltasse pra casa.

Alec maneou a cabeça, também voltou por alguém, e sua Nessie o buscaria no inferno se ele não pousasse vivo.

Abandonou a janela e a vista monocromática quando ficou branco demais.

Se sentou na poltrona, esperando. Olhou para cima, tentou ouvir alguma coisa.

— Bella podia vir me dar notícias. — Edward encheu outra dose, virando um gole na boca.

— Vai ser rápido, daqui a pouco ela desce.

— Como é? — O Volturi o olhou cheio de curiosidade.

— Ser pai?

— Sim. — Ele sorriu atrás do gole.

— Não tem como explicar, pelo menos eu não sei explicar. Quero dizer, eu tenho um coração, dois pulmões, meu fígado, e entregaria para cada uma se elas precisassem, não pensaria duas vezes.

— É grande assim?

— É surreal. Você sabe, num campo de batalha nós nos escondemos debaixo de homens mortos pra sobreviver, mas pelos filhos nós seríamos esses homens mortos sobre eles, imediatamente.

Alec fechou os olhos, pensando no tamanho daquele sentimento.

— Às vezes penso se sou bom o bastante para esse bebê. Minhas mãos estão cheias de sangue. — Olhou para as próprias mãos, grandes e culpadas.

— Volturi, nós fizemos o que precisávamos fazer. Eles não eram melhores do que nós, e gosto de me iludir de que nosso trabalho sujo serviu de alguma coisa, me deixa dormir à noite.

Edward deu de ombros, apagando o cigarro entre os dedos no cinzeiro da mesinha.

— Sim, tem razão.

Alec se levantou, caminhou até a porta e a abriu, querendo escutar mais do que o silêncio.

Bufou impaciente.

— Que merda, por que ninguém vem aqui me dizer alguma coisa?

— Senta a bunda na cadeira, Volturi, e espera.

Ele mostrou o dedo para Edward, o Cullen levantou os dois de volta, rindo da sua expressão azeda.

— Eu deveria ter deixado aquele alemão montar em você, bastardo.

— Eu tinha que voltar intacto pra casa, Bella mataria você se minha honra fosse pra lama. — Alec se sentou ao seu lado, se lembrando de um rio de situações desesperadoras que os fazia rir agora.

— Tenho certeza de o que Stankowski ainda tem as bolas daquele soldado num pote em conserva.

Eles gargalharam juntos, Edward virou a garrafa na boca, dividindo com o amigo.

— Como ele disse mesmo? — Tentou se lembrar, puxando na memória.

“Ele vai lembrar pra sempre de nunca mais tentar entrar nas minhas calças, ou na minha bunda”.

Alec riu muito alto, gargalhou com Edward.

— Adoro aquele russo.

— James me mandou uma carta. — Edward contou, deixando a garrafa de lado. — Ele vai ser pai também.

— Viva!

— O Halstead pai, e de um filho da Calliatto, essa eu pago pra ver. — O Cullen riu, de repente riu mais alto. — “Mulher idiota! Quem ela acha que é?”

“Fica desfilando com essa bunda bonita por aí, estúpida, metida, sabichona arrogante. O dia que eu beijar essa daí mudo de nome”. — Alec imitou a voz de James, gargalhando sobre como ele comeu na mão daquela brasileira por todo o tempo em que estiveram pisando no mesmo país.

— Bem-feito pra ele, queimou a língua.

— Acho que ele adorou queimar a língua. Só não mudou de nome.

O pigarro os fez olhar em direção a porta, Alec se levantou num pulo.

— Bella.

Isabella sorriu, aliviou seu coração, mas também o fez bater mais rápido, muito mais rápido.

— Nasceu.

— Isso!

Alec gritou, seus olhos brilhantes e enormes. Tinha um sorriso que não cabia no rosto, riu sozinho.

— Meu filho nasceu! Ele nasceu! — Abraçou o cunhado, Edward riu, batendo em suas costas.

— Ele nasceu!

— Nós não ouvimos.

— Claro, estavam rindo como idiotas aí.

— É o que? É uma menina? Um menino?

Perguntou, ansioso.

— É um menino. Vai lá, Nessie está com a parteira.

Ele correu da sala e subiu as escadas pulando os degraus que pareciam intermináveis para a sua ansiedade.

Abriu a porta do quarto.

A cena encheu seu coração, foi ternura e amor inundando seu peito.

Os olhos verdes de Nessie se voltaram pra ele, marejados.

Tirou a boina, a apertando entre as mãos. Se aproximou vagaroso, engoliu seco.

— Vem, bonitão. — Ela esticou a mão, ele agarrou seus dedos macios e se sentou ao seu lado.

— É ele. — Emocionado sua voz não passou de um sussurro, não querendo perturbar a paz de seu filhinho.

— Olha, papai, eu sou Alexander também. Pode me chamar de Alex. — Riu, encontrando a mãozinha minúscula.

— Ele é tão… ruivo. — Nessie riu, olhando para o bebê enrolado em seus braços. Ele tinha dado trabalho para nascer, mas estava ali, finalmente. Passou os dedos em seus cabelos fininhos e vermelhos.

— Ele é lindo.

— Ele é. — Alec beijou sua testa, a fazendo sorrir.

— Amo você.

— Amo você também, linda.

— Pode pegar. — Desajeitado, ele recebeu o filho nos braços pela primeira vez.

Sentiu seu peso, seu tamanho diminuto, o cheirinho de vida nova e esperança.

O embalou levemente, de pé.

Olhou para todo pequeno traço do seu rostinho redondo, querendo gravar cada detalhe para nunca se esquecer.

Passou os dedos em sua bochecha rosada, a boquinha era como uma delicada rosa vermelha, a mãozinha mal conseguia fechar ao redor do seu dedo, riu baixinho, ouviu a própria voz embargada.

— Ele é nosso. É perfeito. — Beijou sua testa pequena, emanava calor dele, a sensação o fez flutuar.

Alec fechou os olhos, agradecendo a Deus.

Uma lágrima escorreu do seus olhos bonitos, jurou a si mesmo nunca se esquecer daquele momento.

Jamais se esqueceria.

 





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