O Inverno Sem Fim escrita por ThayLOliveira


Capítulo 11
Memories About Distant Time


Notas iniciais do capítulo

Deixo aqui um aviso: esse capítulo contém muitos trechos dos capítulos anteriores.
Só peço para não abandonar o acompanhamento por causa disso xD juro que foi necessário fazer isso.
Agradeço quem compreender.



 

Inicialmente, Rias havia caído num sono tranquilo e aparentemente sem sonhar com algo. Não demorou muito, para começar o que poderia ser o seu pior pesadelo. Uma insegurança criando uma forma maior, em sua mente. Algo que ela tentava evitar pensar, imaginar. Mas quando se trata de sonhos, não se pode escapar facilmente. Não se é forçado aquela imagem, e nem sempre é algum desejo do seu inconsciente.

 

 

 

Estavam em uma festa à fantasia, aniversário de sua melhor amiga Lexi. A mesma estava usando a fantasia da personagem Mulher Gato, Phelipe estava usando a fantasia de um pirata e Rias estava usando uma fantasia de feiticeira. Algo que podia ser bem a cara dela, já que não fugia muito de seu estilo visual. Estavam em seu último ano do ensino médio, Rias ainda gostava “secretamente” de Phelipe, e Lexi já sabia do fato. Assim como seus amigos, de só observarem o modo de como a Rias olhava para ele, era bastante diferente do modo como ela olhava os outros. Era um olhar que tinha uma mistura de carinho e desejo.

Depois de um tempo na festa, Rias andou até a mesa onde se via várias opções de bebidas. Pegou uma das garrafas de vinho suave e encheu uma taça. Ficou no canto e observou as pessoas dançarem enquanto terminava sua bebida. Ao longe, na pista de dança, pôde ver Lexi e Phelipe dançando juntos, rindo e conversando sobre alguma coisa. Desejou, naquele momento, ter algum tipo de poder, para ouvir a conversa deles. Respirou fundo e sentiu um aperto no coração, e uma onda de tristeza invadir seu peito. Ficou agoniada e terminou o vinho, que estava em sua taça, em apenas um gole.

Após algumas músicas dançadas por outros convidados, e poucas por Rias, fora alertada de que já era meia noite, e que tinha que chamar a Lexi para poder todos cantarem os parabéns a ela. Procurou por um tempo, até chegar em uma porta que estava apenas encostada. Se aproximou da pequena fresta e reconheceu a voz da Lexi e abriu um sorriso, comemorando por ter encontrado ela. Mas o sorriso se desfez aos poucos quando ouviu a voz de Phelipe, e um pequeno gemido saindo as boca de Lexi em seguida.

— Você tem certeza que ela não está desconfiando? – ouviu Lexi perguntar para Phelipe, enquanto tentava reprimir um gemido.

— Quem, a Rias? – soltou uma risada. – Ela é ingênua demais para perceber alguma coisa. – ambos começaram a rir. Ao ouvir aquilo, queria se convencer de que não era real, que era uma peça pregada por sua mente. Sentiu as lágrimas descerem de seus olhos, e molhando seu rosto, borrando um pouco a maquiagem de seus olhos. Levantou o capuz da capa da fantasia, e cobriu sua cabeça, escondendo um pouco o seu rosto. Saiu de perto da porta e sentiu vontade de procurar por Charlie e lhe contar o que acabara de ver, mas não sabia se era uma boa ideia. Sentiu uma mão pousar em seu ombro direito, secou as lágrimas de seu rosto, virou para olhar quem havia interrompido seus pensamentos, e tentou forçar um sorriso.

— Tá tudo bem? – perguntou Charlie, ao perceber – com um pouco de dificuldade, devido ao capuz que estava escondendo parte de seu rosto – que os olhos de Rias estavam vermelhos.

— Não muito. – sentiu uma lágrima solitária descer sobre sua bochecha. – Acho que tô precisando conversar um pouco...

— Tá, ahn... vamos pra ali. – apontou para uma área aberta, um pouco distante da música e das pessoas. Ao chegarem a área aberta, Rias continuou escondida debaixo do capuz, mas retornara a chorar. – O que houve, Kath? – Charlie a observou por um momento, enquanto esperava o choro dela amenizar um pouco.

— Quando fui procurar a Lexi, eu até cheguei a encontrá-la. Mas o que eu vi e ouvi, lá naquele cômodo, eu realmente quero que seja mentira. Tá doendo muito, Charlie. Eu não sei o que faço. – retornou a chorar mais ainda.

— Rias, eu quero te ajudar, mas se você não falar tudo, não posso fazer muita coisa. – passou a mão no ombro de Rias, como se fizesse um carinho de consolo. Ela respirou fundo, tentando se acalmar uma vez mais.

— Eu vi a Lexi e o Phelipe, juntos. Ela perguntando se eu não estou desconfiando de nada, e ele me chamou de ingênua, que nunca descobriria algo. – fez uma pequena pausa, para segurar as lágrimas. – Charlie, eu realmente quero que isso seja uma mentira. A Lexi sabe o quanto eu gosto dele... – Charlie a puxou para perto de si e deu um abraço, fazendo um carinho em sua costa.

— Vai ficar tudo bem, você verá. – respirou fundo. – Você pode ter se enganado, ela podia estar com outra pessoa. Sei lá. Tenta conversar com um deles, pra ter certeza disso. – Rias mexeu a cabeça, dizendo que sim. – Eu vou estar aqui para te ajudar. – deu um beijo na cabeça dela.

— Obrigada, Charlie. – soltou-se do abraço, secou seu rosto e passou os dedos debaixo dos olhos, tentando tirar um pouco da maquiagem borrada. Mostrou um sorriso simples.

— Vamos voltar pra lá, já devem ter atacado a mesa do bolo.

— Tudo bem.

Voltaram para dentro do salão e todo mundo já estava finalizando sua fatia de bolo. Rias sentiu seu estômago revirar, ao pensar em comer algo doce. Decidiu apenas ir até a mesa de bebidas e pegar uma dose de whisky. O que para ela, seria uma dose de coragem, para procurar por Phelipe ou Lexi e tirar aquela situação a limpo. Antes de se desesperar, ou se torturar mais ainda com pensamentos negativos. Quando terminou a dose de whisky, todos já estavam na pista de dança e a música retornara a ficar alta. Correu os olhos pelo espaço, procurando um dos dois, ou os dois juntos, mas não os achou. Decidiu tentar a sorte – ou o azar – e foi até ao cômodo onde tinha ouvido a conversa de ambos.

Ao chegar perto, viu outra vez uma pequena fresta da porta. Virou o rosto, aproximando seu ouvido, para tentar ouvir algo. E conseguiu. Ouviu pequenas risadas da Lexi e um gemido baixo e rouco saindo da boca de Phelipe. Sentiu seu coração ficar apertado e começar a bater cada vez mais rápido. Uma sensação agonizante, que fazia com que ela tivesse vontade de arrancar seu coração para não sentir aquilo. Ouviu pequenos estalos, que se assemelhavam a beijos. Engoliu em seco, e não aguentou se segurar mais. Abriu a porta com força, respirando ofegantemente.

— Então é verdade... – cerrou os punhos. Lexi e Phelipe a encararam, surpresos por terem sido pegos no flagra.

— Kath... – Phelipe tentou.

— NÃO! Não me chame de Kath, não diga meu nome nunca mais... Por um momento eu quis que isso fosse mentira, que fosse ilusão da bebida que ingeri. – ouviu a risada debochada de Lexi.

— Você até que demorou, hein? – revirou os olhos.

— Me diz que isso não é verdade, por favor... – suplicou, em voz baixa.

— É verdade sim, Rias. – abriu um sorriso. – Você é uma idiota, mesmo. – Rias encolheu ao ouvir seu nome sair da boca dele, e encolheu ainda mais ao ser chamada de idiota.

— Mas... porque? Porque fizeram isso comigo?

— É uma resposta muito simples. – ouviu o tom de maldade carregado nas palavras ditas por àquele que ela dizia amar. – Quem vai querer alguém como você? Não liga para a aparência, se esconde debaixo de roupas que são o triplo de seu tamanho. – Rias sentiu seus olhos arderem e ficarem marejados. – Você não tem nem um corpo bonito! – puxou a Lexi pela cintura, aproximando os seus corpos, enquanto ela soltava outra risada. – Diferente da Lexi, que tem tudo e mais um pouco. – sorriu maliciosamente e deu um beijo no canto da boca dela. – Ninguém vai te querer, ou te desejar, Rias. Ninguém. – virou o rosto de Lexi e deu um beijo na boca da mesma. Um beijo quente e extremamente intenso.

Rias ao ver aquela cena, sentiu-se triste, vazia. Quis sumir, apagar tudo aquilo que estivesse vivendo. Permitiu-se chorar mais ainda, de um modo que nunca chegara a chorar antes. Saiu correndo daquele cômodo, e o ar ficou quase inexistente em seu pulmão. A sensação agonizante apenas piorou, deixando-a na dúvida se iria morrer ali mesmo ou não.

 

 

 

Thomas havia pegado no sono e estava dormindo tranquilamente. Até sentir alguém se mexer demais perto de si, e murmurar algumas coisas que chegavam perto de ser inaudíveis. Abriu os olhos, os coçou com os dedos, tentando focalizar a cena em sua frente. Viu uma Rias se mexendo de maneira agoniante, em sua cama. Estava chorando e repetia sem parar “Não, por favor, não. Diz que é mentira...”.  Tentou acordá-la, cutucando seu braço, sua cintura. Mas sem sucesso. Até que chegou o momento em que ela começou a falar mais alto “Não”. Via seu peito subir e descer numa velocidade perigosa, parecia que iria ter um ataque cardíaco a qualquer momento.

— NÃO! – ouviu ela gritar pela última vez. Rias sentou em sua cama, com os olhos arregalados, assustada e triste. Não conseguia parar de chorar e sentia um pingo de alívio ao perceber que não passara de um sonho.

— Kath? O que houve? – perguntou preocupado. Sentou na beira da cama dela, e segurou uma de suas mãos.

— Eu... – tentou responder, com a respiração ofegante. – Um sonho muito horrível. Só. – tentou controlar a respiração, começando a se acalmar aos poucos.

— Vem cá. – a puxou para um abraço. – Seja lá o que você tenha visto, já passou. – Passou a mão sobre sua costa, permitindo que Rias se sentisse um pouco mais calma e segura. – Se quiser conversar sobre o sonho, sou todo ouvidos.

— Melhor não. Deixe pra lá isso. – falou com a voz abafada pelo ombro de Thomas.

— Então deve ter sido muito ruim, pra você não querer falar.

— É... – afundou seu rosto um pouco mais no peitoral de Thomas, que a envolvia num abraço confortante e caloroso. Aquilo amenizava aos poucos a sensação de que tudo que vira em seu sonho, fosse real. Chorou mais um pouco, até cair no sono novamente, nos braços de Thomas.

Ao perceber que ela havia caído no sono uma vez mais, acariciou um pouco a costa e a cabeça dela, até a ajeitar, deitando-a em sua cama. Pegou seu celular, que estava no bolso de sua calça, desbloqueou a tela vendo que tinha várias mensagens e o relógio marcava 10h, concluindo que estava atrasado para sua reunião com os integrantes da banda. Procurou a bolsa de Rias, pegando o celular que estava dentro, assim que encontrou. Desbloqueou a tela e procurou o contato de Samantha, ligando em seguida.

— Oi, Kath. Tá tudo bem?

— Ahn... então, quem tá falando é o Thomas. Preciso te pedir algo.

— O que você fez com ela? – pôde sentir a raiva que estava carregada na voz de Samantha.

— Nada! – começou a rir. – Só preciso que você venha cuidar dela. Saímos ontem e ela exagerou na bebida.

— Você fez sim! Acabou de confessar que embebedou ela! E o que você ainda está fazendo na casa dela?

— Escuta... – revirou os olhos. – Ela não queria ficar sozinha, quando eu a trouxe de volta. Ela caiu no sono, e eu também, logo depois. Agora de manhã ela acordou assustada por algum tipo de sonho que teve. Acordou chorando muito. Não quero deixa-la sozinha, mas estou atrasado para uma reunião com o pessoal da banda. Será que, por favor, você pode vir?

— Tudo bem. Estarei aí em cinco minutos.

— Ok. Irei logo, deixarei a porta de entrada destrancada. Tchau.

— Obrigada, Thomas.

— Está agradecendo o quê?

— Por ter cuidado dela. A Kath poderia ter feito alguma besteira se tivesse sozinha.

— É. Eu sei. – franziu o cenho, ao lembrar sobre a tentativa de suicídio de Rias, quando o Phelipe contou. Se contentou em sorrir, mesmo que Samantha não pudesse ver. Deixou o celular de Rias sobre uma das cômodas do quarto dela, procurou um pedaço de papel e uma caneta, na intenção de deixar um recado para ela.

Sinto muito em não poder ser a melhor companhia para você hoje. Fiquei agoniado ao te ver acordando daquela forma. Queria fazer algo, mas não sabia o quê. Sinto muito por não poder me despedir direito. Acabei esquecendo do horário de uma reunião que tinha com o pessoal da banda. Então chamei a Samantha para cuidar de você. Não sei o que foi que você sonhou, mas deve ter sido ruim. Espero que você fique bem logo. Me liga, se precisar de algo. – T.B.

Deixou o pequeno pedaço de papel debaixo do celular de Rias, olhou para ela por um pequeno momento, sorriu e saiu do quarto. Desceu a escada e deixou a porta destrancada, como prometeu para Samantha.

Não demorou muito para a mesma chegar, não demorando para subir a escada e direto para o quarto da amiga. Ao entrar, encontrou uma Rias em pé, perto da cômoda que ficava abaixo da janela de seu quarto. Rias ainda usava o vestido vermelho vinho, Samantha deduziu que a amiga chegou da festa e dormiu assim que deitou em sua cama. Reprimiu uma risada. Estava aliviada de ver sua amiga viva. Se tivesse perdido Rias, jamais se perdoaria. Uma vez que se afastaram logo depois de Samantha ter se mudado, com os pais, antes do ensino médio. Acabando com qualquer planejamento e sonho das amigas.

 – Acho que seria uma boa você tomar um banho e colocar uma roupa mais confortável. – sorriu. Rias virou-se para olhar a amiga, que a mesma percebeu seu rosto levemente inchado por causa do choro.

— Estava lendo o recado que o Tom deixou. – balançou o pequeno pedaço de papel que estava segurando, enquanto tentava sorrir. – Eu, sinceramente, não faço ideia de como tive coragem de pedir pra ele me fazer companhia ontem, quando chegamos da Rubye Skye.

— Primeiramente, Kath: Por que diabos não me falou que tinha voltado a falar com ele? – colocou as mãos na cintura, e fez uma expressão no rosto de como estivesse ofendida. – E o pior! Não me contou que estava saindo com ele!

— Se te serve de consolo: contei a quase ninguém. – revirou os olhos e riu com a atitude da amiga. – Só contei ao Charlie, quando eu ainda estava no hospital. – deixou o pedaço de papel que estava o recado de Thomas sobre a cômoda. – E eu não estou saindo com ele. Só fomos à Rubye Skye duas vezes.

— Mesmo assim! Você devia ter me contado. Somos amigas há tanto tempo...

O sentimento de tristeza invadiu, uma vez mais, o peito de Rias. Fazendo-a ter vontade de chorar, ao se lembrar do sonho, das fotos. Coisas tão similares, uma real e outra não. Uma coisa inventada por sua mente, e outra que aconteceu de uma maneira cruel vindo da sua ex-amiga.

Ex-amiga. Algo que Rias não esperava chamar alguém. Sentia falta dos momentos divertidos que tinha com Lexi. Chegava a sorrir quando se lembrava deles. Mas sentia-se vazia ao pensar que poderia ser tudo uma mentira. Decidiu parar de se torturar com aqueles pensamentos, naquele momento. Balançou a cabeça de leve e sorriu para Samantha.

— Desculpa, Sam! Prometo que vou te contar tudo. Ainda não me acostumei com a realidade de que voltamos a ter contato e que você está morando perto da minha casa novamente!

— Ai, tudo bem, eu te desculpo. – começaram a rir. – Agora vai lá tomar um banho. Te espero aqui para me contar tudo. T-U-D-O. – Rias soltou uma gargalhada.

 

 

O sinal da escola Marin Waldorf tocou, anunciando o fim das aulas do horário da manhã. Rias guardou suas coisas dentro da mochila com certa pressa, querendo almoçar e ir para a biblioteca o quanto antes para estudar para as provas finais. Afinal, o fim do ano estava chegando. Não demoraria muito para entrar no ensino médio e sentia-se ansiosa por isso.

— Kath... – ouviu a voz de sua melhor amiga, Samantha. Estava ao seu lado, com a mochila pendurada no ombro e alguns livros nos braços também. – Preciso falar contigo.

— Ai, Sam. Preciso também. Vamos para o refeitório. – fechou a mochila, pendurando-a em seu ombro esquerdo logo em seguida. – Quero comer o quanto antes, e ir para biblioteca. Tenho certeza que a Sra. Schmitz vai acabar com a gente nessa última prova.

— Isso é verdade. – tentou forçar um sorriso. Começou a seguir Rias pelos corredores de Marin Waldorf até chegarem no refeitório. Pegaram o que iriam comer, e sentaram-se na mesa mais distante, que estava vazia.

— E então? – deu a primeira garfada na comida. – O que você queria falar?

— Te conto depois. Aqui não é o melhor lugar.

— Hm... – encarou a amiga, estranhando pela primeira vez o comportamento dela.

Mas afinal, qual a maneira menos pior de contar para sua melhor amiga que terá de se mudar para outra cidade com seus pais, assim que terminar seu ano letivo? Samantha chegou a conclusão de que não tinha. Mas estava determinada de que iria fazer de tudo para manterem contato. Iria voltar em dois anos. Passaria rápido. Respirou fundo e terminou de comer no mesmo tempo em que Rias terminou.

— Podemos passar no banheiro antes de irmos para a biblioteca? – perguntou, já determinada em contar para ela, lá. Para assim, caso quisessem chorar, não iria ter tanto problema. Não seriam incomodadas por gente curiosas.

— Claro! – sorriu. Andaram uma ao lado da outra, conversando sobre coisas aleatórias. E cada vez que estavam mais perto do banheiro, Samantha ficava nervosa e Rias ficava curiosa com o comportamento da amiga. – Vai falar agora? – perguntou assim que entraram no banheiro.

— Ok. – respirou fundo. – Primeiro, tenho que te pedir para não ficar triste, ou chateada ou qualquer coisa do tipo. – Rias assentiu, engolindo em seco. – Meu pai foi chamado para gerenciar uma filial do escritório que ele trabalha, por dois anos. Ele e a mamãe decidiram se mudar, e vamos ficar aqui até o fim do ano...

— O quê?! – ficou assustada. – Você tá brincando, né? – Samantha balançou a cabeça negativamente. – Mas, Sam... E nossos planos para o ensino médio?

— Me desculpa, Kath. – suspirou. – Você sabe que nesse caso eu não tenho escolha. Mas prometo que vamos continuar nos falando. E farei de tudo para nos encontrarmos no terceiro ano. – tentou sorrir.

 

 

Mas infelizmente não foi desta forma. Samantha se mudou no final daquele ano, e mantiveram contato por seis meses. Nos outros seis meses, se falavam uma vez por mês. E pararam de conversar totalmente no segundo ano. Rias suspirou, triste, com a lembrança que invadira sua mente.

Claro, sentiu falta de sua melhor amiga no tempo que ficaram distantes uma da outra. E no tempo que Samantha esteve fora, Rias conheceu Lexi. Foi algo bom, pois quase não conversava com os outros alunos da escola. Rias focava 100% nos estudos e quase não tinha tempo de conversar ou fazer qualquer coisa. E quando tinha tempo, era pra ler algum livro ou para trocar mensagens com a Samantha.

 

 

Rias havia chegado cedo na escola, mais uma vez naquela semana. Seria a segunda ou terceira vez. Havia perdido a conta. Decidiu sentar no chão, ao ver que os bancos da área aberta já estavam ocupados. Jogou a mochila ao seu lado, pegando o celular com o fone de ouvido e o livro que estava lendo naquela semana. Colocou o fone, dando play no aleatório, abriu o livro e começou a ler.

Pensou um pouco em Samantha, e que já fazia uns dias que não conversava com ela. Tinha certeza de que a amiga iria rir dela, quando a encontrasse. Iria rir da nova maneira de vestir e dizer que estava bancando a rebelde. Adotar o estilo grunge? Só as mais ousadas fariam isso. Quando Rias ainda andava com Samantha, ela se vestia de um jeito mais simples. Não chegava a ser patricinha. Mas usava umas coisas mais delicadas. E agora, no ensino médio, passara a usar roupas mais largas e sempre no preto ou no cinza. Vermelho, nos dias bons.

— Ah, eu amo esse livro! – Rias tirou um dos lados do fone, olhando para a garota parada em sua frente. – Você tem todos dessa saga? – olhou para Rias e ficou constrangida no mesmo momento. – Desculpa! Me chamo Lexi. – estendeu a mão, na intenção de um cumprimento.

— Ahn... Katherine. – apertou a mão de Lexi. – Não tenho todos. – balançou o livro nas mãos. – Só tenho esse e o segundo. – sorriu.

— Se quiser posso te emprestar o restante, quando terminar de ler os seus! – abriu um sorriso grande. – sentou-se ao lado de Rias, que a observou de maneira curiosa. A garota usava roupas que chamavam atenção. Um short de cintura alta azul, uma blusa roxa larga, que estava dentro do short e uma bota de salto alto. A garota tinha o cabelo preto, que chegava perto da altura de seus ombros. Usava uma maquiagem que destacava seus cílios e a boca carnuda que tinha.

— Claro. – tentou sorrir. Pensando no motivo real da garota ter ido falar com ela.

— Você é nova aqui? Nunca te vi.

— Na verdade, não. Estudo aqui desde o ensino fundamental. Só não tenho o costume de chegar tão cedo. Esse ano que isso se tornou frequente.

— Ah! Deve ser por isso, então. Eu entrei esse ano. E ainda estou meio perdida. Procurando uma amizade certa, sabe? – Rias observou seu comportamento e sabia exatamente como era passar por aquilo.

— Sim, eu sei. – mostrou um sorriso triste. – Posso te fazer companhia em alguns momentos, se quiser.

— Sério? Será perfeito! – juntou as mãos na frente, e sorriu ainda mais. Ficaram sentadas no chão da área aberta, conversando sobre o livro que Rias estava lendo e gostos musicais, até o sinal da escola tocar, anunciando que os alunos deviam entrar em suas respectivas salas de aula.

 

 

Saiu do banho, enrolando-se na toalha. Chegou a uma conclusão que a amizade dela com Lexi, no início, havia sido boa e verdadeira. Mas com um certo tempo, Rias havia se tornado uma pessoa diferente. Uma pessoa quase intolerante à piadas de si, uma pessoa que guardava tudo dentro de si. E uma pessoa que estava se dedicando ainda mais aos estudos. Se antes reclamava que não tinha tempo para nada, dessa vez não tinha tempo nem para trocar mensagens com alguém ou para ler um livro por diversão. Chegava em casa praticamente de noite, jantava e dormia. Para sair de manhã cedo no dia seguinte, de novo. Respirou fundo e se perguntou o porquê de aquelas memórias estarem invadindo sua mente sem sua permissão.

Terminou de se secar e pegou a calça moletom, que estava dobrada sobre um pequeno banco no canto do banheiro, e a vestiu. Pegou a blusa grande, que gostava de usar para dormir, e a vestiu deixando-a ficar sobre a calça moletom. Saiu do banheiro e retornou para o quarto, encontrando Samantha de cabeça para baixo em sua cama. Soltou uma risada ao ver a cena, da amiga distraída.

— O que você quer saber? – andou pelo quarto e passou o desodorante e o perfume. – Vamos lá na cozinha, quer tomar um café. Preciso de um café. – começou a sair do quarto, sabendo que Samantha iria logo depois.

— Espera! – saiu da cama, quase tropeçando nos próprios pés. – Tá, pode começar a me dizer das coisas desde que você saiu do hospital. Mesmo morando perto uma da outra, a gente quase não conversa, Kath!

— Ah, isso. – entraram na cozinha, e Rias começou a preparar o café. – Bem, eu descobri uma coisa que me deixou muito mal. Ainda estou, na verdade. Mas tentando me recuperar. – começou a se lembrar do dia que vira a foto de Phelipe e Lexi, e contou a ela.

 

 

 

Cada um andou até a cama de Rias e deu um beijo na testa dela. Desejaram que ela melhorasse logo e que tivesse uma boa noite de sono. Rias agradeceu e quando eles foram embora, tentou pegar seu celular. Com um pouco de dificuldade, mas conseguiu. Decidiu se atualizar um pouco e abriu a rede social mais usada. O primeiro perfil que pesquisou foi o de sua melhor amiga. Não tinha notícias dela, nada mais justo que ser o primeiro perfil. Queria saber se Lexi estava bem, se estava ao menos viva. E estava. Viva, continuava linda e mostrando no seu perfil uma vida perfeita. Nem sempre era assim, mas ela preferia mostrar apenas o lado positivo.

Rolou a página do perfil para ver umas postagens mais antigas. Aquilo não foi uma das melhores ideias que Rias já teve em sua vida. Fotos de dois meses atrás. Lexi estava usando uma roupa bastante provocante. Uma saia de cintura aula, curta e de cor preta. Uma blusa cropped branca sem mangas. Na foto não aparecia, mas certamente ela estaria usando sapatos de salto alto. Lexi amava usar sapatos assim. Segurava em uma das mãos um copo de bebida, estava visivelmente alterada, então aquele não seria o seu primeiro copo. O outro braço estava passado pelo pescoço de um garoto, que estava visivelmente alterado pela bebida também. Nessa foto não conseguiu reconhecer o garoto. Mas quando passou para a segunda, reconheceu. Era Phelipe. Sentiu uma enorme onda de tristeza invadir seu peito. Passou para a terceira foto, e desejou – mais do que nunca – morrer. Era Phelipe e Lexi se beijando. Um beijo bem quente, por sinal. Não era duvidoso se tivessem ido para cama depois de começar um beijo daqueles.

 

 

— Phelipe? O garoto que você me falava nas mensagens que gostava tanto? – Rias assentiu, engolindo o primeiro gole de café. – Mas que filho da puta! E então o que ele disse?

— A gente teve uma briga, até por que antes de eu ver isso, nós tínhamos nos beijado. Ele havia se declarado pra mim... Ah, Sam! Eu tinha ficado tão feliz quando ele se declarou! Enfim. – respirou fundo e tomou outro gole de café. – No final da briga ele apenas disse: “Espero que isso passe, um dia. Eu realmente gosto de ti, sei que fui um idiota de ter ficado com sua amiga, mas me arrependi na mesma hora em que ela me puxou pra esse beijo. Espero também, que me perdoe. Até outro dia.”

— Se eu não estivesse sentido raiva pelo que ele fez, iria dizer que isso foi fofo da parte dele. Mas e então? O que aconteceu depois?

— Ele me deixou em paz por um tempo. E depois da briga com ele, uns dias, tinha recuperado o contato com o Thomas. Ele foi até no hospital me visitar uma vez! Ele tem me ajudado muito, – fez uma pausa para ingerir mais um gole. – Depois da primeira visita dele, Charlie prometeu me visitar logo depois. E quando ele me visitou, acabamos nos beijando.

— Olha só! Kath arrasando corações... – começou a rir. Rias revirou os olhos com a piada da amiga. – Mas como foi para isso acontecer?

— Então...

 

 

— Você chegou mais cedo dessa vez. Aconteceu algo? – perguntou preocupada.

— Não, tá tudo bem. Relaxa. – forçou um sorriso. – Tinha esquecido que sua sessão da fisioterapia seria mais longa hoje.

— Eu te falei isso ontem de noite, Charlie. – riu. – Mas tudo bem. Acontece. – deu de ombros. – Você está bem? – perguntou enquanto entravam no quarto 221.

— Estou, Kath-gótica. – sentou no sofá. – Você é uma chata que se preocupa demais. Já te falei isso?

— Hm... – fez uma careta pensativa. – Já, mas não hoje. – ambos começaram a rir.

— Só vim te falar uma coisa. – falou com uma expressão meio séria.

— Tudo bem... – arqueou uma sobrancelha. – Espera só eu tomar um banho e trocar de roupa?

— Claro! Quer que eu saia do quarto por um tempo? – perguntou já se levantando do sofá.

— Por favor. – sorriu.

Charlie saiu do quarto deixando-a ter seu momento de privacidade.

Enquanto Rias sentia a água morna do chuveiro encostar na sua pele, pensava no que Charlie queria lhe dizer. Aparentemente ele estava nervoso. Parecia ser algo grave. Pensou também no drama que sua vida havia se tornado. Parecia uma trama de novela, ou um dos livros que ela costumava ler. Riu com o pensamento bobo. Porém, seu sorriso se desfez ao lembrar-se de ter perdido duas amizades de uma forma horrível. Se perguntou se Lexi sempre fora daquele jeito – o jeito que ela não demonstrava a Rias. Tentou encontrar um motivo para aquilo ter acontecido, mas não tinha explicações. Nada justificaria o ato dela, o ato impensado de Phelipe. Sentiu a raiva começar a crescer dentro do peito, e lembrou-se do conselho de seu psicólogo. Não se permitiria a se abalar por aquilo, não valiam a pena. Sabia que Phelipe não merecia suas lágrimas, mas era inevitável. A dor era grande. Insuportável. Durante o banho se permitia chorar. Afinal não distinguiria com facilidade as lágrimas da água que saía do chuveiro. Não iria surtar por estar pensando nisso novamente. Não agora. Estava perto de receber a alta, estava quase totalmente recuperada. Ao menos fisicamente.

Saiu do banho, secou-se e trocou de roupa. Vestiu uma calça moletom preta, e uma blusa cinza escrito “Not Today”. Penteou o cabelo recém lavado, respirou fundo e voltou para o quarto. Abriu a porta e chamou Charlie, que estava distraído lendo alguma coisa em seu celular.

— Estava quase cogitando a ideia de ir embora. – Charlie brincou.

— Agora você que está sendo um chato. – começou a rir.

Sentaram-se no sofá. Quase de frente para o outro. Rias esperou Charlie começar a falar, mas o mesmo procurava as palavras certas para dizer o que estava guardando há um tempo. E iria falar a ela quando veio visita-la na primeira vez. Mas o clima estava tenso demais para aquilo. Na sua mente ele repetia “Você consegue”. Engoliu em seco, respirou fundo, soltou o ar todo de uma vez, se agarrou ao pequeno resquício de coragem que habitava no seu corpo e começou a falar:

— Tem uma coisa que eu tô querendo te falar há um tempo. – suspirou. Fez uma longa pausa. – Eu gosto de você, Galbraith. Sei que você gosta do Phelipe, mas eu precisava dizer. Não aguentava mais guardar isso pra mim. – se aproximou um pouco mais dela. – Eu não sei como as coisas estão na sua cabeça no assunto sentimentos. – Rias apenas o observava. Não conseguia se afastar. Seu corpo estava paralisado. Tentava processar cada palavra que Charlie dizia. – Não forçaria nada contigo. Mas vou acabar tomando esse seu silêncio como um “não tem problema”. Pois está me matando.

Rias abriu a boca algumas vezes, tentando falar algo. Mas nada saía, nenhum pensamento invadia sua mente. Estava surpresa. Desistiu de tentar falar algo, fechou a boca no mesmo momento em que Charlie se aproximou ainda mais de seu rosto e selou seus lábios. Era algo que ele desejava fazer algum tempo. Era algo que ela nunca pensou em fazer. Levantou sua mão, e segurou a blusa de Charlie, na intenção de afasta-lo. Mas fez o oposto. O puxou para mais perto, intensificando o beijo. Charlie segurou a nuca de Rias com uma de suas mãos e com a outra, apertava levemente sua cintura. Inclinava seu corpo para cima do dela aos poucos. Ao fundo, podia-se ouvir o celular de Rias tocar.

 

 

 

— Garota, sua vida é cheia de um drama! Parece até um daqueles livros que você costuma ler.

— Sabe que eu penso na mesma coisa? – franziu o cenho e deu de ombros. Finalizou seu café em um último gole. – Vamos voltar para meu quarto.

— Pode continuar a contar sua história, tá mais interessante que a novela que tem passado na televisão. – caíram na risada.

— Tá. – pensou por um segundo. – Phelipe me ligou querendo falar comigo de novo, mas eu ainda não conseguia, sabe? – Samantha assentiu. – Senti muito a falta dele, da companhia dele no hospital, mas apenas não dava pra ignorar aquela situação. Eu estava muito magoada.

— Já disse que tô com raiva dele? Você deixa eu socar a cara dele?

— Sim. – soltou uma risada. – Enfim. Quando ganhei alta e vocês fizeram aquela festa surpresa pra mim – estreitou os olhos, para a amiga. – eu o encontrei no meu quarto. E tivemos uma conversa.

— Oi, Kath. – Phelipe falou com uma voz meio rouca. Rias abriu a boca algumas vezes, na tentativa de falar algo, mas não saía nada. Tinha certeza que não sentia mais raiva por ele. Mas era inevitável negar que ainda estava magoada. Não se sentia totalmente preparada para aquele momento. Se ele estava ali, no seu quarto, então isso queria dizer que todos sabiam que ele estava ali. Sentiu uma pontada de raiva quanto a isso, mas não podia fazer algo. No fundo, sabia que eles precisavam daquele encontro, daquela conversa. Respirou fundo e tentou falar algo mais uma vez.

— Oi. – foi tudo que saiu, e ainda num tom baixo.

— Acho que já está na hora de conversarmos. – tentou incentivar, para não deixar cair num silêncio torturante.

— É, pode ser. – falou dando de ombros, sentando-se em sua cama logo em seguida. Respirou fundo e sentiu o aroma do seu quarto, que era uma mistura da neve, com o perfume que ela sempre usava. Que não era tão doce e nem tão forte. Um de seus preferidos. Phelipe sentia o mesmo aroma, e ele amava. Uma enorme saudade e um sentimento nostálgico invadiu seu peito. Era algo impensável o tamanho da saudade que ele tinha dela.

Out of all the things you’ve ever done, this time I can’t hold back. [Fora de todas as coisas que você já fez, desta vez eu não posso segurar.]

— Quer começar por onde? – perguntou, sentando-se ao lado dela em seguida.

— Você me explicando como aconteceu aquilo, como você percebeu que eu gostava de ti, e como descobriu que gostava de mim. Que tal por aí? – perguntou em tom de ironia, enquanto encarava o chão. Ouviu Phelipe suspirar.

When a heart gets broke this many times, It’s easy to lose track. Taking all this pain, and you know I can’t regain the flame. [Quando um coração se quebrou todas essas vezes, é fácil perder o controle. Sentindo toda esta dor, e você sabe que eu não posso recuperar a chama.]

— Bem, eu percebi que gostava de ti, quando recebi a ligação de madrugada, avisando que você tinha sido encaminhada para o hospital, e a situação era grave. – lembrou. – Eu senti uma enorme tristeza, e ter a probabilidade de te perder era quase insuportável. Não me perdoaria se você tivesse morrido no início do atendimento. Quando o médico apareceu, para nos informar que você tinha sobrevivido, mas tinha entrado em coma, eu me senti aliviado e triste. E nesse momento eu percebi que o que eu sentia, ia bem mais além do que uma simples amizade. E prometi a mim mesmo que nunca mais iria sair do seu lado. Que não iria permitir que aquilo se repetisse com você. Mas acho que quebrei essa promessa duas vezes. – sorriu nervoso.

I can dream the mean time with you, so unreal. Maybe another lie left for me, is what you feel. Takin all this pain, and you know I can’t regain the flame. [Eu consigo imaginar a media de tempo com você, tão irreal. Talvez você tenha deixado outra mentira para mim, é o que você sente. Sentindo toda esta dor, e você sabe que eu não posso recuperar a chama.]

— Olha, jamais irei te culpar pelos dois surtos que eu tive. Qualquer pessoa pode sofrer por depressão. Aprendi a entender melhor isso com meu psicólogo e em alguns livros que passei a ler. - Suspirou e deixou Phelipe terminar de falar.

— Depois que você entrou em coma, Wattson me falou sobre o que você sentia. Lembrando do dia em que jogamos verdade ou desafio, que você beijou minha testa. – apontou para sua testa e soltou uma pequena risada. – Agora faz sentido aquele seu nervosismo na hora da foto. – deu de ombros. Rias apenas sorriu. – Então quando vi que era recíproco, prometi que um dia iria me declarar pra você. Essa eu consegui cumprir, pelo menos, né? – tentou sorrir. – Eu iria te contar sobre a Lexi, sobre aquele dia... mas não queria te contar enquanto você estivesse lá. Aquilo foi um erro. Foi um dia em que eu devia ter saído sozinho, ou apenas ter bebido sozinho em casa. – soltou um suspiro pesado. – Eu realmente sinto muito por isso.

— Não vou negar que ainda dói bastante aqui – apontou para seu coração. – quando lembro das fotos. Mas não sinto raiva, sabe? Apenas dói. Eu errei em não ter percebido o verdadeiro modo que a Lexi era. Quer dizer, olhe pra mim! – apontou para seu corpo, com as mãos. - Nem sou bonita. Não quando comparada a ela. Ela usa aquelas roupas que destacam bem seu corpo, sem medo. E eu aqui, usando blusas largas, e um allstar surrado. – suspirou. – Talvez por isso eu não sinta raiva. Por, no fundo, saber que as pessoas vão me deixar e ficar com outras. – disse triste.

— Já lhe disse muitas vezes, Kath. – segurou uma de suas mãos. – Você. Não. É. Feia. – disse pausadamente. – Tire essa ideia de sua cabeça. – Phelipe começou a brincar com uma pequena mecha do cabelo dela. – Só queria dizer, também, que não esqueci de ti nenhum dia sequer. Todos os dias, o dia todo, era basicamente só você na minha mente. Eu gosto muito de ti. Isso é tudo muito novo pra mim. Não estou sabendo lidar muito bem. – Rias tentou sorrir. Respirou fundo e pensou por um tempo.

Greater men have made it here only to turn back. So cut me loose if you want, or tighten up the slack. Takin all this pain, and you know we can’t regain the flame. [Grandes homens fizeram isso aqui, apenas para voltar atrás. Então, deixe-me solto se quiser, ou aperte o arreio. Sentindo toda esta dor, e você sabe que não podemos recuperar a chama.]

— Naquele dia, no telefone, quando eu disse que ainda gostava de ti, não era mentira. Mas eu realmente ainda não posso confiar totalmente. Em ninguém, basicamente. – fez uma pequena pausa. – Nós até podemos voltar a conversar, mas ainda não será como antes. – Phelipe assentiu, engolindo em seco. – Para chegar pelo menos perto do que era antes, precisamos começar essa amizade do zero. Sem forçar qualquer coisa. – Rias conseguiu respirar normalmente, novamente. Não sabia dizer em que momento havia prendido o ar. Talvez quando tivesse visto o Phelipe assim que entrou no quarto.

— Tudo bem. – abriu um pequeno sorriso.

— Se você não se importar, tenho mais coisas a trazer de volta para o quarto. – levantou-se da cama.

 

 

— Uau! – Samantha carregava uma expressão de surpresa em seu rosto. – Eu não teria essa coragem de dar outra chance a ele. Não tão cedo.

— Eu sei, Sam. – suspirou. – Mas é quase inevitável, sabe? Eu ainda o amo. Mesmo tendo feito algumas besteiras recentemente. – soltou uma risada nervosa.

— Que besteiras? – estreitou os olhos. – Kath! – abriu a boca, totalmente surpresa.

— Quê? – olhou para a amiga. – NÃO! Garota, não é isso que você tá pensando. – revirou os olhos. – Tá, é quase. – sorriu.

— O QUE?! Olha aqui, VOCÊ NÃO BRINCA COMIGO RIAS KATHERINE.

— Ai mana, relaxa aí. Sem drama.

— Do jeito que sua vida está, não tem como não ter drama. – riu.

— Enfim. Foi num dia que decidi sair um pouco. Encontrei o Thomas no caminho e ele me deu carona de volta pra casa. No caminho, me chamou para sair. Ele me levou à Rubye Skye no mesmo dia que nos encontramos e ficamos no fim da noite.

— Ah, eu vou quebrar a cara dele também. E você, como teve coragem de ficar logo com ele?

— Eu tava bêbada, é meu único argumento. – levantou as mãos na frente do seu corpo, em modo de defesa.

 

 

It hurts but I remember every scar. And I’ve learned, but living is the hardest part. I can’t believe what I did for love.

Quando sentiu alguém se aproximar dela novamente, pensou que seria outro homem, na tentativa de ficar com ela. Continuou a requebrar o quadril e virou-se para quem estava dançando tão colado às costas dela. Apenas sorriu e continuou a dançar com o Thomas. Aproximaram seus corpos lentamente, até não existir espaço entre eles. Dançavam como se fossem um só. Rias levantou seu rosto e olhou no fundo dos olhos castanhos de Thomas. Viu seu rosto iluminado pelas luzes neon da casa noturna, e ele estava sorrindo.

I can’t believe what I did for us. Crash and we burn into flames. Stitch myself up and we do it again.

Thomas levou sua mão até o rosto de Rias, acariciou a bochecha dela, passou a mecha de cabelo, que estava grudado em seu rosto devido ao suor, para trás de sua orelha, segurou seu pescoço de leve, aproximou o rosto do dela e selou seus lábios. Rias arregalou os olhos com aquele ato, mas não quis se afastar. Não quis ir embora, não quis brigar com ele por ter feito isso. A Rias insegura certamente o faria. Levou suas mãos até a jaqueta dele e segurou com força, enquanto aprofundava o beijo. Ele mordeu levemente o lábio inferior dela, segurou sua cintura e a apertou gentilmente. Rias levou uma de suas mãos até a nuca de Thomas e entrelaçou seus dedos nos fios de cabelo dele, puxando-os levemente algumas vezes. Só pararam de se beijar quando já não se tinha ar nos pulmões de ambos. Separaram os rostos e estavam arfando. Encostaram suas testas uma na outra e sorriram. Rias, no fundo, sabia que aquilo não era uma boa ideia. Mas se deixou levar pelo momento. Estava bêbada, e confiava em Thomas, de certa forma. Sem dizer uma palavra para tentar justificar o beijo, apenas voltaram a dançar. Depois de algumas músicas dançadas e beijos, da mesma intensidade, trocados, voltaram para o bar, começando a sentir dor nas pernas de tanto dançarem.

— E agora vem a parte em que você vai realmente ficar chocada.

Voltaram para o carro de Thomas, bastante alterados pelo consumo de bebida. Ao entrarem no carro, começaram a rir. Por não conseguirem se manter em pé. Rias ligou o aparelho de música e deu o play.

I’ve gotta say I’m feeling better than I should. Don’t got a lot but I know life is always good. [Eu tenho que dizer que estou me sentindo melhor do que eu deveria. Não tenho muito, mas eu sei que a vida é sempre boa.]

Inclinou seu corpo e beijou uma última vez os lábios de Thomas. O mesmo a segurou pela cintura e a colocou em seu colo. Ela olhou em seus olhos, que estavam com um brilho especial, que não via há tempos. Estavam se olhando com tanta intensidade, que pareciam estar lendo suas almas.

Don’t got a lot but right now I’m feeling fine. [Não tenho muito, mas agora estou me sentindo bem.]

Começaram a se beijar vorazmente, como se necessitassem daquilo para viver. Thomas tirou a jaqueta de couro do corpo de Rias, enquanto a beijava. Rias não protestou e continuou o beijo. Sentiu sua cintura ser apertada pela mão dele e um de seus seios ser coberto pela outra mão dele, que o massageava levemente.

We got tonight. Forever yours, forever mine. I’m feeling good, I’m feeling high. I’m feeling like I’m never coming down. So tell me now, are you in or are you not? [Nós temos essa noite. Para sempre sua, minha para sempre. Estou me sentindo bem, estou me sentindo alto. Estou me sentindo como se eu nunca fosse descer. Então me diga agora, você está dentro ou não?]

Passou sua perna para o outro lado dele e se ajeitou em seu colo. Começou a tirar a jaqueta dele e mordiscou a ponta de sua orelha.

Now everyone’s leaving. It’s only me and you. You leave your clothes and whispered somethin’ in my ear. [Agora todo mundo está indo embora, é só eu e você. Você deixa suas roupas e sussurra algo no meu ouvido.]

Enquanto ele apertava suas coxas e mordia seu ombro de leve. Rias pegou a barra da camisa dele e pediu licença – sem ter dito algo – para tirá-la. Voltaram a se beijar com urgência. Rias arranhou levemente a barriga dele e o viu abrir um sorriso carregado de malícia e desejo.

When I’m with you, my girl, I don’t know any fear. [Quando eu estou com você, minha garota, eu não conheço nenhum medo.]

Ao sentir um aperto em sua coxa e em sua bunda, mordeu o lábio inferior reprimindo um gemido. Interromperam o beijo apenas quando não conseguiam mais respirar. Rias percebeu a situação em que estava e achou melhor parar por ali. Estavam bêbados e certamente iriam se arrepender daquilo quando acordassem na manhã seguinte. Pousou suas mãos no peitoral nu de Thomas e se afastou um pouco. Ele segurava sua costa com uma mão e sustentava no rosto uma expressão confusa.

— É melhor... – tentou falar, com dificuldade. – Pararmos por aqui... podemos nos arrepender amanhã.

 

 

— Caralho, Kath! Eu não acredito que você quase transou com ele, e no carro dele!

— É, eu sei. – mordeu o lábio inferior. – Eu sinto falta dessas coisas, sabe? Acho que se fosse outro cara, eu teria ido até ao fim.

— Eu pensei que você ainda fosse virgem.

— Samantha. – encarou a amiga. – Eu vou fazer 20 anos em dois meses. Você jura? – Samantha deu de ombros.

— Sei lá, ué. Vai que você tenha decidido esperar a pessoa certa?

— A pessoa que parecia certa, está parecendo bem errada, no momento. – falou com tristeza, ao pensar em Phelipe. – Mas enfim.

— AH! O Thomas me falou por telefone que você tinha sonhado com alguma coisa ruim. Você quer conversar sobre?

— Sobre isso... Vou apenas dizer por agora que envolve Phelipe, Lexi e uma cena um pouco parecida com a da foto. – segurou as lágrimas ao se lembrar das palavras que Phelipe dissera no sonho. Sabia que era algo montado na sua mente, mas não deixava de doer. – Sabe, Sam... logo depois que você foi embora com seus pais, foi muito difícil. Eu mudei de estilo, foquei mais no livros da escola e nos que eu lia por prazer. E quando eu conheci a Lexi, pensei que ia mudar, sabe? Pensei por um momento que seria igual como quando as coisas eram eu e você. – suspirou. – Não consigo parar de me culpar por ter permitido que parássemos de conversar, ter permitido a Lexi entrar na minha vida achando que seria do mesmo jeito para sempre. – começou a chorar. – Eu queria voltar pra época que estudávamos juntas, parecia tão mais fácil em todos os sentidos.

— Kath...

 

 

— Eu desejei muito que esse dia chegasse logo, pois planejava comemorar nossa entrada no ensino médio contigo, da nossa maneira. Mas depois que você disse que iria embora, passei a desejar que esse dia nunca chegasse. – Rias confessou, quase chorando.

— Queria muito que as coisas fossem diferentes, Kath. Você sabe disso. – abraçou a amiga. – Vai ficar tudo bem, você verá. Vai conhecer uma amiga tão incrível quanto eu. – tentou brincar.

— Eu não quero isso, Sam. – abraçou a amiga com força. – Me sinto perdida, com essa mudança repentina. – suspirou.

Ao fundo, ouviram a buzina de um carro. Samantha e Rias olharam para o mesmo e suspiraram completamente tristes. Era o último dia de aula, as provas já tinham passado. Uma semana depois a escola Marin Waldorf faria uma pequena comemoração para os alunos que iriam começar o ensino médio no ano seguinte. E os pais de Samantha acharam melhor a filha não participar da festa, para não ser mais difícil a despedida. Até então, a única pessoa que sabia de sua partida, era Rias. Sua única melhor amiga no tempo que ficara ali.

— Obrigada por tudo, Kath. Prometo te avisar assim que chegarmos à casa nova. – balançou o celular.

— Acho bom.

Abraçaram-se mais uma vez, e seguraram as lágrimas, que teimavam em querer descer. Soltaram-se do abraço e Samantha se afastou, indo em direção ao carro dos pais e acenou de longe para sua melhor amiga.

 

 

 

— Fico muito feliz em te ter de volta. – sorriu, enquanto secava seu rosto.

— Eu também, Kath. – sorriu de volta.

— Sam?

— Hm?

— Você acha errado eu querer mudar meu jeito? E dar outro voto de confiança para o Phelipe? – franziu o cenho.

— Na sinceridade? – arqueou uma sobrancelha.

— Sim.

— Depende do jeito que você quer passar a ser. Se você se sentir bem, vá em frente. – sorriu. – E sobre Phelipe, eu não sei. Tá certo que quando estamos bêbados, não sabemos o que fazemos. Prova disso, quando você ficou com o Thomas. Mas se ele se diz arrependido, assim como você se arrependeu de ficar com seu ex, então pode valer a pena sim, um segundo voto de confiança. – sorriu. Ao ouvir aquilo, Rias abriu um sorriso também.





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