O Inverno Sem Fim escrita por ThayLOliveira


Capítulo 10
Unbreakable




 

Após alguns dias, Rias decidira fazer uma caminhada na praia que tinha perto de sua casa. Estava se tornando rotina ela sair para pensar, de manhã ou no fim da tarde, para apreciar o pôr-do-sol. Tirou o allstar e afundou seus pés na areia úmida e fria. Sentou-se num pedaço de madeira, que estava abandonado em meio àquela praia quase vazia, escondeu um pouco seu rosto no cachecol eu estava usando e afundou as mãos no bolso de seu sobretudo. Olhou para o horizonte, sem um ponto fixo.

Lembrou-se da noite que tivera com Thomas, e se sentiu arrependida. Errou bastante ao ter se permitido ficar com ele. Não podia negar que ele sempre fora um grande amigo, mas não dava mais certo esse tipo de relacionamento entre eles. Rias era uma pessoa bastante diferente naquele momento, se comparada ao que era quando começaram a namorar. Soltou um suspiro. Não sabia o que fazer. Thomas tentou falar com ela muitas vezes depois daquela noite, mas ela sempre dava uma desculpa para não terem um diálogo longo. Estava insegura. Talvez tenha sido um erro fazer todas aquelas ousadias, ter tentado ser alguém diferente. Devia ter pensado nas pequenas consequências de seus atos. Mas por algum motivo, ela ignorou todo e qualquer pensamento e raciocínio lógico naquela noite.

When you lose your way and the fight is gone, your heart starts to break, and you need someone around now.

— Se você veio até aqui para pensar, então a situação está grave. – ouviu a voz de Charlie, que estava atrás dela. Em seguida, o viu sentar ao lado dela.

— É... tipo isso. – falou com um tom de voz triste.

— Quer contar o que aconteceu? – Charlie olhou para o horizonte também. Conseguia sentir a necessidade dela de desabafar sobre algo. Precisava demonstrar a ela que ele estaria ao lado dela sempre que precisasse. Não iria cometer o mesmo erro. Não iria se permitir correr o risco de perde-la novamente.

She stands in the rain just to hide it all. If you ever turn around, I won’t let you fall down now.

— Pode ser. – engoliu em seco, se perguntando uma última vez se devia contar a ele o que tinha acontecido.

— Sou todo ouvidos. – sorriu discretamente ao perceber que ela estava o observando. Rias respirou fundo e retornou a olhar para o horizonte.

— Bom, como você sabe, algumas noites atrás, eu fui a uma festa. Creio que o Phelipe tenha falado a você, ele me pareceu preocupado. – fez uma pausa. – Eu menti pra ele. Eu não fui sozinha. O Thomas que tinha me convidado e eu aceitei ir. Achei que me faria bem... E fez, de certa forma. Me permiti fazer coisas que normalmente eu não faria, agir de um modo que normalmente eu não agiria. E foi divertido. – sorriu ao se lembrar de como havia dançado. – Eu dancei de um jeito que nunca havia feito antes. Mas... quando eu estava dançando, Thomas se aproximou, para dançar junto comigo. Nossa, eu estava tão bêbada nessa hora... – soltou uma risada. – Ele acabou me beijando. – Charlie arregalou os olhos com o relato da amiga. Não sabia dizer se estava irritado ou frustrado com aquilo. – Eu não sei o motivo, mas eu não consegui evitar, me afastar ou brigar com ele.

— Você ainda gosta dele? – era visível o quanto ele estava surpreso.

— Não, não é isso.  Se eu gostasse dele, não estaria me sentindo arrependida. E culpada, principalmente pelo o que aconteceu depois. – engoliu em seco ao se lembrar do momento um pouco mais quente que tivera com Thomas no carro dele.

— O que aconteceu? – perguntou, receoso do que poderia ouvir.

— Depois de a gente ter bebido muito e ter dançado outras músicas, voltamos para o carro, na intenção de ir embora da festa. A gente acabou se beijando outra vez e as coisas ficaram um pouco mais quentes... quase transamos. – pôde ver Charlie arregalar os olhos outra vez. Apenas mostrou um sorriso que dizia “É, eu sei que errei”. – Mas teve um momento que percebi que era errado, que eu estava errando feio. E que certamente iria me arrepender se fosse além. Assim como o namoro que tive com ele, chegou um momento que percebi que não dava mais certo. Eu tinha mudado, mas não sei dizer se pra melhor ou pior.

I swear I’ll find your smile, then put my arms above you and make you unbreakable.

— Vocês são o oposto um do outro, por isso você achou que não estava dando certo. Ele é do tipo que está sempre em busca de algum tipo de aventura. E você é um pouco mais na sua. Claro, tem os momentos que você decide surpreender. Mas não é sempre. – fez uma pausa, pensativo. Rias encarou seus pés, que estavam parcialmente afundados na areia, enquanto ouvia calmamente cada palavra dita por Charlie. – Ele não é uma boa pessoa, Kath. Não para você. – um silêncio grande, pesado e torturante se estabeleceu entre os dois. – Escuta – olhou para ela. – sobre aquele dia no hospital... me desculpa. Eu realmente não queria te forçar a algo. Sei que você não gosta de mim dessa forma.

You need to know that somebody’s there all the time.

— Tá tudo bem, Charlie. – apoiou seus pés na madeira e abraçou suas pernas. – Você não tem culpa por eu ser indecisa e confusa.

— Você é uma chata, Rias. – encarou o horizonte uma vez mais.

— Odeio quando você me chama assim. – apoiou o rosto em seus joelhos.

— Eu sei. – sorriu. – O que você pretende fazer agora?

— Não sei. – pressionou os dedos em suas pernas. – Estou triste, sinto como se faltasse algo...

— Você já conversou com o Phelipe? Se acertaram de vez?

— A gente teve uma conversa quando vocês fizeram aquela surpresa pra mim. Creio que você já sabia disso, já que ele ficou até o fim da festa. Mas não me sinto pronta para me acertar 100% com ele, sabe? Preciso voltar a confiar nele antes. Mas não é algo muito fácil. Não sei nem como eu consegui permitir que voltássemos a conversar. Tenho medo.

— Medo do quê? – olhou para ela.

— Medo de confiar nele de novo e no final repetir tudo. De me machucar. Eu preciso de um tempo para me reerguer. E de algum modo, o Thomas estava me ajudando. Me incentivava, dizia que era algo bom eu tentar fazer as coisas que eu não faria. – respirou fundo, e viu mais uma vez o ar que saiu da sua boca, virar uma pequena fumaça branca. – É nesses momentos que eu desejo não existir. Só faço bagunçar a vida das outras pessoas. Mas isso chega a ser um pensamento egoísta, né? Desde aquela noite eu tenho pensado em agir daquela forma. Por que de alguma maneira, eu me senti bem. Feliz, animada.

When you lose your way and the fight is gone, your heart starts to break and you need someone now. Just close your eyes while I’ll put my arms above you and make you unbreakable.

— Não pense desse jeito, Kath. Você é importante pra mim, pra nós, seus amigos. Quase entramos em desespero quando aquilo aconteceu contigo. Você apenas sumir não vai resolver os problemas, e todos iriam sofrer. – fez uma pequena pausa. – E se você se sentiu bem agindo daquela forma, então adote esses comportamentos. Não se sinta na obrigação de mudar seu jeito por achar que vai ser mais recebida de outra maneira. As pessoas vão dar um jeito de julgar qualquer comportamento. Mude apenas se você achar que for necessário.

— Valeu, Charlie. – sorriu. – Você não tem ideia do quanto isso é importante pra mim.

— Posso ter uma vaga noção. – retornou a observar o horizonte.

— Charlie... – olhou para ela assim que ela disse seu nome. – Se eu tivesse morrido e não ter entrado em coma, o que teria acontecido?

— Não sei. Provavelmente eu e Phelipe iríamos sofrer muito mais com o peso da culpa nas costas, e sua mãe... Bem, você pode ter uma ideia de como ela ficaria.

— É... – Rias tentou sorrir, mas falhou. Apenas sentiu uma lágrima solitária descer de seu olho e deslizar sobre sua bochecha.

 

 

 

Enquanto Rias aproveitava a presença de Charlie e desabafava todas as suas incertezas e mágoas, Phelipe decidira sair de sua casa um pouco. Estava inquieto, querendo saber de Rias, querendo conversar com ela do jeito que conversavam antes de todo esse drama. Estava andando na calçada da Fillmore St, pensando no que deveria fazer para mudar aquela situação, quando viu Thomas do outro lado da rua, saindo de uma das lojas. Sentiu uma raiva crescer em seu peito, mas tentou disfarçar. Atravessou a rua e andou em direção a ele. Era a oportunidade perfeita de saber o porquê de ele ter voltado a conversar com Rias.

— E aí, Thomas. – tentou sorrir. Ficou parado em frente a ele. – Quanto tempo.

— Grande Phelipe! – abriu os braços, sorrindo. – E aí, cara. Qual a boa?

— Soube que a Rias saiu do hospital? Acho que sim, né. Charlie me falou que vocês voltaram a conversar. – tentou provocar. Thomas soltou uma risada sarcástica.

— Fê, meu caro... você está certíssimo. Inclusive, saí com ela outra noite. Acho que ela deve ter comentado contigo que iria a uma festa. – Thomas provocou. Phelipe sentiu a raiva crescer cada vez mais. – É uma pena que você tenha preferido ficar com a Lexi do que com a Kath. Bom, está certo que a Lexi sabe valorizar seu corpo usando aquelas roupas, não tiro tua razão... mas você ficaria de queixo caído se visse como a Kath estava quando saiu comigo. – Phelipe cerrou os punhos. Thomas estava indo longe demais. – Estava tão linda... um verdadeiro pedaço de mal caminho. Se é que você me entende. – abriu um sorriso malicioso, arqueando uma sobrancelha.

— O que é que você fez com ela? –  avançou um passo em direção de Thomas, segurando a enorme vontade de encher a cara dele de socos.

— Eu? Nada. – deu de ombros. – Talvez eu tenha ido um pouco rápido demais, mas até que ela teve bastante iniciativa. Ela desenvolveu um belo corpo se comparado ao da época que namorávamos. – Phelipe estava com os punhos cerrados com tanta força, que era possível sentir as unhas começando a marcar as palmas de suas mãos. – Sabe, Phelipe... eu sempre fui do tipo que gosta de uma bela aventura. Mas acho que tá na hora de eu aquietar um pouco, sabe? Fiquei um tempo procurando uma garota para firmar um relacionamento, mas não deu certo. E então me lembrei da Kath. – sorriu. Phelipe avançou mais um passo e socou a cara de Thomas. O mesmo recuou um passo e encarou o chão com o rosto virado para o lado, devido a pequena força do golpe.

— A Kath não merece um cara como você. – cuspiu.

— E por um acaso ela merece um cara como você? – passou a mão no rosto a procura de alguma gota de sangue. – Um cara em que ela confiou tanto, e acabou pegando a melhor amiga dela enquanto ela estava em coma?

— Foi a Lexi! Ela que roubou o beijo. – disse entre dentes.

— Ah... é tão fácil roubar um beijo, não é mesmo? – abriu um sorriso.

— Fique longe da Rias.

— Não irei. Até porque, até este momento, a Kath só está conseguindo confiar em mim. Você errou feio com ela. E eu estou apenas ajudando-a.

— Ajudando? Levando ela pra casas noturnas? Bebendo a noite toda? – perguntou incrédulo.

— Calma aí. Não tô forçando ela a nada. Eu fiz o convite, e ela aceitou. E ela mesma disse que estava querendo experimentar coisas novas, coisas que normalmente ela não faria. Ir pra balada e beber a noite toda é um belo exemplo.

— Você não sabe nada do que ela passou desde que vocês terminaram, Thomas! Quase ninguém sabe! Você quer saber como foi pra ela parar no hospital e entrar em coma? – Thomas balançou a cabeça dizendo que sim e engoliu em seco. – Tentativa de suicídio! Ela exagerou na bebida, numa noite que estava sozinha, e marcou seu corpo! Perdeu muito sangue... – fechou os olhos com força ao se lembrar dela chegando ao hospital, balançou a cabeça e retornou a encarar o rosto de Thomas. – A mãe dela encontrou o corpo dela quase sem vida, jogado no chão do quarto dela! E você acha que está ajudando ela, levando-a em festas e enchendo a cara? Pois não está!

— Escuta, cara. Como eu disse: não estou forçando ela a fazer nada que ela não queira. Diferente de você, não pretendo trair a confiança dela.

— Mas pretende usá-la. Você nem ama ela!

— Já amei. E muito. E ainda a amo. Mas ela preferiu acabar com o relacionamento. Achava que não era mais a mesma coisa. – cuspiu.

— Não era mais a mesma coisa porque ela não te amava mais. Ela estava gostando de outro. – tentou conter o sorriso ao se lembrar que tinham falado para ele que Rias havia terminado o namoro por saber que estava gostando dele e não de Thomas.

— Não vou desistir dela tão fácil. Não adianta tentar me ameaçar com esses seus socos. Agora tenho que ir. Preciso arranjar outro encontro com a Kath. – sorriu.

— Você é um babaca. – disse entre dentes.

— Não para a Kath. O único babaca aqui é você. E sabe bem o motivo. Agora, se me der licença. ­– afastou-se dando alguns passos para trás, abriu a porta do carro, entrou e deu a partida, deixando um Phelipe irritado para trás.

Precisaria arranjar um jeito de mostrar à Rias que precisaria se afastar de Thomas o quanto antes. Não queria que ela caísse na depressão novamente. Dessa vez iria fazer de tudo para ajudá-la.

 

 

 

Depois de algumas horas na praia, Rias decidira voltar para casa. Se sentiu envergonhada por ter tomado tanto o tempo de Charlie, com choradeiras e indagando suas inseguranças. Decidiu então, deixar enterrado o fato de ter ficado com Thomas. Iria conversar com ele e pedir o mesmo. Não estava arrependida por ter ficado com alguém por uma noite, longe disso. Apenas achava que Thomas não era a melhor pessoa para isso. Afinal, era seu ex. Queria apenas manter a amizade. Por que seu círculo social estava abalado. Já que, aparentemente, todos os seus amigos sabiam do que o Phelipe tinha feito com Lexi. Jogou-se em sua cama, ainda com as roupas que tinha ido à praia. Tirando apenas o cachecol. Sentiu os olhos arderem e a vontade chorar outra vez só aumentou. Mas ela se sentia cansada daquilo. Toda vez que tentava pensar numa solução para sair daquilo, sentia-se sufocada. Não conseguia respirar direito, os batimentos cardíacos aumentavam numa velocidade que parecia que sairia de seu peito a qualquer momento. Suas mãos tremiam de nervosismo e por mais que ela tentasse manter um ritmo de respiração, parecia apenas piorar. Nada fazia efeito. Então ela começava a se desesperar a ponto de chorar, a ponto de soluçar de tanto chorar. Era uma situação que ela não desejava a ninguém. Nem mesmo à pessoa que mais odiava. E por se sentir assim, era cada vez mais frequente o desejo de colocar um fim naquela agonia, naquela dor. Era mais frequente o desejo pela morte.

Naquele fim de tarde, sentiu uma enorme necessidade de ligar para alguém, só para se distrair um pouco. Mas também não queria incomodar outra pessoa com suas dores. Decidiu, então, levantar-se de sua cama e tomar um longo banho. Estava cansada de sofrer. Cansada de se lamentar. Cansada de se martirizar com a memória da foto em que Lexi e Phelipe se beijavam, com memórias de momentos que, talvez, estivessem perdidos para sempre. Sentia-se revoltada, naquele momento, por ter ficado o dia todo se lamentando por suas dores. Ela pegou sua revolta e saiu do banho determinada. Pegou seu celular, abriu o chat de conversa com Thomas e mandou a mensagem: “Vamos sair hoje. Vamos à Rubye Skye”.

Iria vestir sua fantasia de garota determinada e ousada uma vez mais.

 

 

 

Enquanto Rias ainda decidia se iria para a casa noturna com Thomas, Phelipe pediu para Charlie o encontrar na Fillmore St, em uma lanchonete. Ainda estava irritado pelas coisas que ouvira de Thomas, e preocupado com Rias. Não queria vê-la magoada novamente. Ainda mais por alguém que realmente não valia a pena. Por alguém que a magoaria de propósito. Sabia que Charlie não gostava de Thomas, então pediria ajuda a ele. Contando o que Thomas planejava. Afirmando apenas a pequena teoria de Charlie.

— E então? O que é tão importante que você precisa me falar? – perguntou Charlie, sentando-se em seguida na mesma mesa em que Phelipe estava.

— Encontrei o Thomas hoje. Aqui perto. – tomou um gole do refrigerante que havia pedido. Encarou a bebida por um segundo. – Você tinha razão quanto a ele.

— De que ele não era uma boa pessoa? – arqueou uma sobrancelha.

— É. Estou preocupado com a Rias. Ela precisa se afastar dele o quanto antes. – suspirou, triste.

— Me encontrei com ela hoje... Ela me falou que naquela noite, tinha saído com o Thomas.

— Eu já sei disso. Ele fez questão de “esfregar” na minha cara. – gesticulou as aspas com as mãos. – Queria entender o motivo de ela ter voltado a falar com ele, de estar confiando nele, de não ter contado pra mim...

— Sabe, hoje eu e ela conversamos muito. Ela falou que se sente arrependida de ter ficado com ele naquela noite. Ela sabe que foi errado ter ficado com ele e isso está a atormentando de alguma forma. E ela sente muito tua falta. Só não se sente pronta para confiar em ti de novo. Ela sente medo. Precisamos estar ao lado dela, o tempo todo, dessa vez. Ela está com aqueles pensamentos de novo.

— Droga! – socou a mesa.

— Calma, cara. Sem escândalo aqui, por favor. – pediu, nervoso.

— Não tem como ficar calmo, Charlie! Eu fiz a maior burrada da minha vida! Estou quase perdendo a pessoa que mais amo por um filho da puta chamado Thomas! – Charlie não sabia o que responder. Mas se sentia agoniado e impotente da mesma forma que Phelipe estava se sentindo. Phelipe respirou fundo, na tentativa de se acalmar. – Na conversa que tive com ele hoje, ele disse que não iria desistir dela e que pretendia voltar a namorar com ela.

— O que a gente pode fazer? – perguntou um Charlie irritado.

— Não sei. Eu realmente não sei. – fechou os olhos com força e os abriu em seguida. – Só não quero que a Rias fique magoada novamente.

 

 

 

Rias aproveitou que estava sozinha na sua casa e decidiu acender um cigarro enquanto se arrumava para a festa. Pegou seu vestido de alcinha da cor vermelho vinho e vestiu. O vestido marcava bastante sua cintura e era solto na parte de baixo. Passou sua gargantilha, em formato de um laço, em volta do seu pescoço e prendeu. Fechou o zíper na lateral do vestido, passou as meias ¾ em suas pernas e foi ao banheiro se maquiar. Usou a mesma maquiagem simples que usara na outra noite, mudando apenas a cor do batom. Que era roxo, quase preto. Pegou o par de salto alto fino e os colocou em seus pés. Pegou o seu celular e o relógio marcava 22h. Thomas possivelmente já estaria perto. Ignorou as ligações perdidas de Charlie e Phelipe. Iria falar com eles apenas no dia seguinte. Guardou o celular, a carteira de cigarro e o dinheiro, que ela havia economizado antes de ir para o hospital, dentro da pequena bolsa. Pegou o casaco cinza e o vestiu. Era apenas um pouco maior do que o vestido que estava usando. Se o fechasse, podia ser facilmente confundido com um vestido. Era bastante justo, permitindo ter uma ideia do quanto sua cintura era fina. Desceu a escada, conseguindo ouvir os pocs abafados, que saiam do seu salto, conforme ela pisava nos degraus. Andou até a porta de entrada. Antes que chegasse a segurar a maçaneta, ouviu a campainha ecoar pelo corredor da entrada. Sorriu e abriu a porta. Deu o primeiro passo para fora de sua casa, encarando o chão inicialmente. Uma mexa de cabelo saiu do lugar, ao abaixar a cabeça e entrou no seu campo de visão. Revirou os olhos, não aguentava mais a cor de seu cabelo natural.

— Você consegue surpreender quando quer. – ouviu a voz de Thomas. – Gostou tanto da outra noite que quis uma segunda dose? – arqueou uma sobrancelha.

— Se você se refere à bebedeira, sim. – olhou para Thomas dos pés à cabeça. Estava usando uma camisa social preta, com os botões brancos e estava até o segundo botão da camisa aberto. Uma jaqueta preta, uma calça preta e o par de allstar nos pés. Pousou os olhos no rosto de Thomas, notando o pequeno hematoma que se encontrava logo abaixo de seu olho esquerdo. – O que foi isso no seu rosto?

— Nada demais. – deu de ombros. – Vamos? – abriu a porta para Rias entrar no carro. Rias apenas assentiu e entrou, fechando a porta em seguida. Thomas deu a volta no carro, entrou e deu a partida. Olhou rapidamente para Rias, que estava com uma expressão indecifrável. – Então... Vermelho de novo? Devo entender que é sua cor favorita?

— Quase. – soltou uma risada. – Escuta, Tom... Antes de chegarmos lá, preciso te dizer umas coisas.

— Pode falar, Kit-Kath.

— Eu sinto como se meus amigos estivessem escondendo algo de mim. Então eu tô com um pé atrás, principalmente com aquela história do Phelipe. – soltou um pequeno e rápido suspiro. – Foi muito bacana termos saído na outra noite. Mas a gente não devia ter se beijado. Então espero que não pense que vá rolar algo do tipo, de novo. E eu mandei aquela mensagem, pedindo pra irmos hoje lá, foi por eu estar quase enlouquecendo em casa. Tenho pensado demais, e a maior parte dos pensamentos é sobre as fotos que vi do Phelipe com a Lexi.

— Ei, Kath. Relaxa. Tá tudo bem. – sorriu. – Nós estávamos bêbados demais na outra noite. – estendeu a mão na direção dela, esperando segurar a mão dela. – Conte comigo pra tudo, tá bom? Não vou te decepcionar, nem magoar. Diferente deles. – olhou rapidamente para ela e sorriu.

— Obrigada, Tom. – sorriu timidamente. Thomas estacionou o carro mais próximo da Rubye Skye dessa vez. Rias começou a tirar o casaco antes de sair do carro.

— O que você tá fazendo?

— Vou deixar meu casaco aqui. – deu de ombros.

— Mas você vai aguentar esse frio até entrarmos lá? – ela o encarou, estreitando os olhos.

— Não é como se eu fosse morrer por isso, Tom. – revirou os olhos. Terminou de tirar o casaco, pendurou sua bolsa pequena no ombro esquerdo, abriu a porta e saiu do carro. Assim que pousou os pés na calçada, sentiu o corpo estremecer com o frio daquela noite. Andou em direção a Thomas e tentou disfarçar o enorme frio que sentia. Depois de alguns passos, sentiu um tecido pesado em sua costa e duas mãos apertarem levemente seus ombros. – O quê? Tom, não precisa. – levantou os braços na intenção de tirar a jaqueta de Thomas.

— Lá dentro você me devolve. – deu uma piscadela para ela. – Vamos entrar.

Andaram em direção à entrada da casa noturna, e antes mesmo de entrar, já dava para ouvir a música animada que estava tocando no lado de dentro. Ao entrar, observou por um momento, a decoração do local, que estava diferente da última vez que esteve lá. Não tinha mais as estrelas e os globos brilhantes pendurados no teto. No lugar deles, tinha apenas muitas fitas, colocadas uma ao lado da outra. Não tinha mais as luzes neon, dessa vez eram vários jogos luz, fazendo uma mistura de cores na pista de dança e nas pessoas. Tirou a jaqueta de sua costa e entregou para o Thomas. Agradeceu e andou em direção ao bar, pedindo em seguinte uma dose dupla de whisky. Tomou metade do conteúdo do copo no primeiro gole, sorrindo ao sentir sua garganta queimar levemente, quando a bebida desceu.

— Percebi agora que fui meio mandona na mensagem. Você tinha algum plano para hoje? – perguntou enquanto batia os dedos levemente no copo, junto do ritmo da música eletrônica que estava tocando.

— Não. – sorriu. Bebeu um gole da caipirinha que ele havia pedido. – E mesmo que eu tivesse, desmarcaria por você, gata. – piscou para ela. Rias soltou uma risada nasalada.

— Sei. – bebeu mais um gole, finalizando o conteúdo de seu copo. Pediu outra dose de whisky para o barman.

— Não acha melhor pegar um pouco mais leve na bebida? – perguntou ao se lembrar das palavras de Phelipe.

— Não. Na verdade, não pretendo ter algum tipo de limite hoje. – tomo outro gole.

— Tipo? – franziu o cenho.

— Do tipo beber bastante, dançar mais do que dancei na última vez e quem sabe... ficar com algum cara. – sorriu maliciosamente. Thomas arregalou os olhos.

— O quê?! Por que tudo isso, Kath?

— Eu tô cansada de ficar me martirizando com o momento que vi as fotos, ficar relembrando das brigas que tive com Phelipe, e colocar o peso da insegurança e do medo em cima de mim. Eu sei que consigo sair dessa, tenho como prova aquela noite. Aliás, obrigado por ter me chamado. – bebeu mais um gole do whisky.

— Não precisa agradecer. – sorriu e terminou a caipirinha. Pediu outra em seguida. – Mas não vou deixar você ficar com outro cara. – apoiou os cotovelos no balcão do bar.

— Quê? Por quê? – ficou surpresa com a fala de Thomas, quase se engasgando com o whisky.

— Podem querer fazer algo que você não queira, simples. – arqueou uma sobrancelha.

— Acho que você não entendeu bem o que eu disse. Vou deixar claro. – bebeu o restante do whisky que estava no copo, em apenas um gole. Desceu do banco, se aproximou do Thomas, ficando com seu rosto a poucos centímetros perto do dele. – Não vou ter limites, hoje. Não quero. A Rias insegura está enterrada 100% esta noite. – piscou para ele. – Toma, segura pra mim. – entregou sua bolsinha para ele, se afastou e andou até a pista de dança. Estava tocando uma música bastante animada. Uma música que ela conhecia bem, e que era perfeita para aquele momento. Começou a balançar seu corpo no ritmo da música. Mexeu seu cabelo para os lados e fez uma coreografia improvisada. Estava chamando bastante atenção, olhares de homens que estavam sedentos por uma bela foda. Ou por mais uma foda da noite. Estava ciente disso. Estava provocando-os de propósito. Em pouco tempo, a música foi trocada por uma mais animada, com batidas eletrônicas. Continuou a dançar, e chegava ir até ao chão algumas vezes. Mexia o quadril para os lados, arrastava os pés junto. Passou a mão direita sobre a cabeça, tirando as mechas de cabelo que estavam na frente do seu rosto. Em pouco tempo, um homem que ela não conhecia, se aproximou e começou a dançar com ela. Colou os corpos e dançavam de modo bem sensual. O homem pegou o cabelo de Rias e passou totalmente para o lado esquerdo de seu pescoço, e cheirou o lado exposto. Dando um beijo em seguida, causando um pequeno arrepio na pele dela. Ele sorriu maliciosamente e colocou a mão na cintura dela, apertando-a em seguida. Rias mordeu o lábio inferior. Balançavam seus corpos para os lados, para frente e para trás. Tão colados, que chegavam a dançar como uma pessoa só.

Thomas observou o show que Rias estava fazendo e ficou incomodado. Sentiu vontade de ir até lá e dar um soco na cara do homem que estava se esfregando nela. Terminou num gole só o resto de vodca que tinha no seu copo. Quando a música trocou, conseguiu reconhecer no mesmo momento qual era. A mesma em que eles dançaram juntos na primeira noite, a mesma em que ele beijou ela, ali, na pista de dança. Ficou irritado. Entregou para o barman, a bolsinha de Rias, pedindo para que ele guardasse até que um dos dois retornassem para lá. Thomas não estava perdendo para Rias. Várias mulheres o observavam de longe, comendo-o pelos olhos. Ele avistou a primeira e foi para cima. Puxou a morena pela cintura e começaram a dançar juntos. Quase da mesma forma que fizera com Rias. Segurou o pescoço da mulher e a beijou. Não teve calma ou delicadeza. Foi um beijo quente, urgente. Sentiu o gosto do coquetel de frutas que a mulher estava tomando, e ficou misturado com a vodca pura que ele havia ingerido momentos antes.

 

 

O homem segurou o pescoço de Rias, aproximou seus rostos e a beijou. Enquanto a outra mão que antes estava em sua cintura, desceu até a barra de seu vestido, levantando-o um pouco e apertou a bunda de Rias. Ela enlaçou seus braços envolta do pescoço do homem, o beijando mais um pouco. Momentos depois, ela quebrou o beijo e empurrou o cara, fazendo com que ele se afastasse dela um pouco. Ele a olhou com uma expressão confusa no rosto e ela apenas sorriu. Não seria com ele que iria aprofundar as coisas. Voltou para o balcão e pediu outra dose de Whisky, terminando em um gole. Passou os olhos pela casa noturna, tentando achar Thomas, mas não conseguiu. O barman entregou a bolsa para ela, como Thomas havia pedido. Ela abriu a bolsa e pegou seu celular, vendo inúmeras ligações perdidas de Phelipe. Desbloqueou a tela e discou o número dele enquanto andava até o banheiro.

— KATH! – gritou Phelipe do outro lado da linha. – Por onde você tava?

— Ahn... Eu não ouvi o celular tocar, desculpa. – falou com a língua meio enrolada pela bebida. – Aconteceu alguma coisa? Não estou em casa.

— Percebo. O volume da música está bastante alto... Não me diga que você foi para a casa noturna de novo?!

— É, sim. Por que?

— Você está sozinha? Se quiser, posso ir aí. – ignorou a pergunta dela.

— É... Não. Eu vim com um amigo. Não se preocupe, tá tudo bem. Já que não aconteceu nada, vou voltar pra festa. Tchau. – finalizou a chamada, soltando um suspiro. Olhou-se no espelho e lamentou o batom ter sido desperdiçado com aquele homem, que nem beijava tão bem. Pegou o batom dentro da sua bolsa e o passou novamente. Sorriu e guardou o batom e o celular, saindo do banheiro em seguida. Voltou para o balcão e encontrou Thomas lá. – Onde você foi?

— Me divertir também. – sorriu.

— Sei. – revirou os olhos, rindo.

Passaram-se algumas horas, e eles ainda estavam na casa noturna. Rias dançou mais da metade das músicas que tocaram, bebeu demasiadamente e Thomas a acompanhou em tudo. Nas danças, inclusive. Riram bastante, dividiram entre si momentos engraçados que haviam passado depois que pararam de se falar. Em alguns momentos, Rias contou o quanto estava frustrada com Phelipe, e que ele havia ligado algumas horas antes, perguntando onde estava. E agradeceu várias vezes por ele estar ao lado dela, naquele momento. Apoiou sua cabeça no ombro esquerdo dele, já não aguentando sentir sua cabeça rodar, de tão alterada que estava.

— Ai, Toooommm. – disse entre risadas. – Minha cabeça tá girando taaaaaaaaaaanto. – soltou uma gargalhada e quase caiu do banco. Thomas riu da situação que ela estava e a segurou, para evitar uma cena constrangedora para ela.

— Vamos embora? – Thomas estava um pouco mais sóbrio. Tinha parado de beber, para dirigir e cuidar dela depois. Ela apenas mexeu a cabeça dizendo que sim, rindo. Saíram da casa noturna e andaram até o carro. Ou quase. Rias não conseguia se manter em pé, então Thomas teve que ajudá-la, quase a carregando. Dirigiu até a casa de Rias, ouvindo o tempo todo ela dizer que estava tonta e ria por estar vendo as coisas girarem. – Onde está a chave da sua casa?

— Naaaaa... minha booooolsa! – e retornou a cair na risada. Thomas pegou a bolsa dela, a abriu e pegou a chave. Destrancou a porta, e retornou para ajudar Rias a sair do carro.

— Quer que eu te leve até seu quarto?

— hm... Queeeeee? Você já vai? – fez uma careta triste.

— Vou considerar isso como um sim. – a carregou em sua costa e começou a subir os degraus da escada. Entrou no quarto de Rias e a colocou sobre a cama. Deu um beijo na testa dela. – Tchau, Kit-Kath. – virou-se para ir embora, mas antes de se afastar, sentiu ela segurar sua mão.

— Não vai... Não quero ficar sozinha. – sentiu os olhos começaram arder.

— Tudo bem. – se sentou no chão, ao lado da cama dela e sorriu. – Vou ficar bem aqui. – observou-a sorrir e cair no sono em seguida. Tirou sua jaqueta e se aconchegou no chão, olhando para o rosto dela por alguns minutos, até adormecer.





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