Adele escrita por Camélia Bardon


Capítulo 8
VII. Conversas e acordos


Notas iniciais do capítulo

Hello, hello ♥ Tudo bem com vocês, meus anjos? Espero que sim ♥
Hoje foi dia de renovar Adele! Temos agora nomes nos capítulos (que tive que me segurar para não dar spoiler em nenhum xD), e para comemorar hoje tem aesthetic. Escrever que é bom, nada, mas a aesthetic sai. Também tem playlist (essa é dedicada para a enciclopédia da música, vulgo, Ester HEHEHEHEH): https://www.deezer.com/playlist/4785156688
Novidades anunciadas, boa leitura! Hoje são mais diálogos que descrição, espero que não fique cansativo.



O sr. Banks conduziu-me – melhor dizendo, eu o guiei – até a Rue de l'Ancien Courrier. Nada melhor do que abrigar um desconhecido numa rua conhecida, não? De qualquer maneira, sentamo-nos numa das mesinhas ao ar livre do bistrô que levava o nome de Bonheur Sucré. Harvey pediu dois pedaços de torta de maçã com canela, e devo confessar que meu coração deu pulinhos de alegria com sua decisão. Retirou sua cartola, bem como eu retirei meu chapéu, e colocou sua carta sob a mesa.

— Procurarei ser o mais breve possível, senhorita, pois não quero tomar muito de seu tempo, apenas o necessário. Já notei que a senhorita gosta de ser direta — começou ele, em meio a um pedaço de torta. Assenti com a cabeça, achando graça do comentário. — Como bem sabes, sou inventor, numa linguagem mais chula. Estudo na Academia de Londres.

— Qual a área, se me permite perguntar?

— Física — sorriu ele, orgulhoso. —Bem como química. Todavia, a química não conquistou a este estudante tanto quanto a física. Esta, senhorita Adele, é minha paixão.

— Física! — exclamei, talvez um pouco alto demais. — Na casa onde trabalho, há um livro sobre física. O li e penso ser uma matéria deveras interessante. É claro que só entendi a parte teórica, contudo, me parece ser revolucionária.

— A senhorita leu um... livro de física?

— Sim, senhor. O Princípio Elétrico, do senhor Michael Faraday. Acaso o conhece?

E então a cor fugiu do rosto de Harvey. Ele arregalou os olhos e levou uma mão ao coração, arquejando, me fazendo levantar com o susto.

— O senhor está se sentindo bem? — coloquei uma mão sobre seu ombro, já pronta para pedir ajuda.

— Sim, perdoe-me, foi... apenas o susto — em resposta, ele pousou a mão esquerda sobre a minha, o que me fez suspirar e voltar a sentar-me. Harvey ainda me olhava com assombro. — A senhorita leu o Princípio Elétrico? Está certa disso, não está pregando-me uma peça?

— Mas é claro que não, senhor! Por que estaria eu a brincar com isto?

Harvey engoliu em seco e respirou fundo antes de prosseguir. Baixou o tom da voz:

— A eletricidade, senhorita, é o motivo pelo qual tenho viajado. É, igualmente, o tipo de calor o qual mencionei em minha carta. Veja bem, estudei na Academia junto... junto ao senhor Faraday. Posso dizer que sou seu discípulo.

— Não é possível! — levei uma mão à minha boca, assombrada.

Harvey soltou uma risada nervosa, e buscou algo nos bolsos do paletó. Pouco depois, tirou de lá uma espécie de livrete, abriu-o e entregou-o a mim, acenando com a cabeça para instigar-me a olhar. Tratava-se de uma carta de apresentação, reconhecendo os estudos de Harvey Banks na Academia Real de Londres com o senhor Michael Faraday, já falecido. Sendo assim, podia-se afirmar que o sr. Banks era seu aprendiz.

— Não apenas possível, como levo à mão minhas credenciais.

— Valha-me Nosso Deus — devolvi o livrete. Franzi a testa e o encarei. — O senhor acredita em destino, sr. Banks?

— Acredito que a ciência tome rumos um tanto quanto cômicos para ser escutada, senhorita. A senhorita, uma camareira, lendo um livro de física! O livro! — riu ele. Balançou a cabeça negativamente, ainda tão desacreditado quanto eu. Logo em seguida, ergueu as mãos em defesa e sua expressão tornou-se séria. — Não pense que subjugo a profissão, senhorita, és tão digna de honrarias quanto a um soldado.

Corei com o comentário e não pude evitar de imaginar-me com uma coroa de louros e uma medalha dourada no peito. Sorri instantaneamente. Acenei com uma mão para indicar que ele continuasse.

— Afinal, como eu ia dizendo... o senhor Faraday deixou-nos com o Princípio Elétrico, e não pretendo que a eletricidade se transforme em algo obsoleto. Ao longo dos últimos meses tenho buscado auxílio de outros companheiros estudantes, mas os ingleses apenas fazem troça de meus estudos e do sr. Faraday — e então ele faz uma careta. — Tive um pouco mais de receptibilidade com os franceses, mas ainda sim quase nenhum avanço. E então me aparece a senhorita! Isto é fantástico, pois eu tinha uma chance em um milhão.

— Ora, senhor. Sou apenas uma leitora ávida — desviei o olhar. — Qual a espécie do projeto que o senhor planeja?

— Aí é que entram as camareiras. Sei que o serviço de mão é deveras árduo, e, por isso, tanto pelo bem da ciência quanto pelo bom-senso, decidi colocar-me na pele de uma para planejar este arquétipo ainda sem nome e formato. Tudo ia bem, até que descobri ter certa intolerância ao calor gerado por fricção — Harvey mostrou suas mãos, que eram donas de calos e feridas recém curadas. Um calafrio subiu por minha espinha. — Então, procuro... hum... cobaia não é a palavra... procuro assistentes que já possuem experiência para me auxiliarem neste projeto. Nada mais seria do que já fazer o que faz normalmente, e eu observaria e tomaria notas.

— Só isso? — arqueei as sobrancelhas. — Apenas... trabalhar?

— Exatamente. Apenas trabalhar.

— E por qual motivo as outras camareiras consultadas não aceitaram o serviço, senhor?

— Isso implicaria mudar-se para minha casa, em Bordeaux. Todas elas preferiram seus serviços atuais, por não terem a certeza da confiabilidade do projeto. E olhe que eu as ofereci uma alta quantia em salário. Mas creio que não era o salário colocado em cheque.

— Não — concordei. — Algumas famílias são dignas de apego, senhor.

— É o seu caso?

Fiz que sim com a cabeça, com um sorriso triste.

— Então declinas o convite?

— Decerto que não. Apenas encontro-me em uma situação delicada. O senhor se lembra de minhas condições para a proposta?

— É claro. Não foi clara, mas se bem lembro, pediu auxílio mútuo.

— Sim, senhor. Agora que o senhor já me forneceu detalhes o suficiente, creio que já posso fazer o mesmo. Bem, trabalho já a nove anos na mesma casa, por indicação da Abadessa Josephine. Pulando estes nove anos, temo que meu emprego não seja mantido. Isto se dá ao fato de que o herdeiro da família casar-se-á em breve, em meados de maio. A senhorita sua noiva não parece gostar da minha pessoa, e, visto que ao casar-se as posses serão do herdeiro, ela tem o direito de demitir-me se quiser.

— Ah... — ele me ofereceu um olhar um tanto triste. — Compreendo.

Dei de ombros, e saboreei o último pedaço de minha torta. Suspirei em deleite antes de prosseguir.

— Se parasse por aí eu até poderia aceitar minha sina, senhor — ri com certa ironia. — A questão é que se trata de um casamento por conveniência. E o herdeiro sempre repudiou casamentos. Meu senhor, Thierry, alega que seu pai o obriga a fazer isso pelo bem da propriedade, mas... lorde Victor não é cruel a tal ponto. E a sua noiva não faz o tipo casamenteira. Ambos se detestam.

— Então a senhorita supõe que haja um motivo para que ambos se casem?

— Sim. Mas meus recursos são muito limitados para descobrir se há mesmo algo por trás disso. Estou disposta a trocar meus serviços pelas suas... hum, pesquisas masculinas. Mas saiba que estarei disponível apenas durante meu período de recesso ou... se for demitida.

Harvey assentiu com a cabeça e ponderou sobre o assunto. Apoiou um cotovelo na mesa, e a cabeça na palma da mão. Pude imaginar com facilidade as engrenagens maquinando em sua cabeça. De repente, após alguns segundos, ergueu a cabeça e derrubou a cartola da mesa. Desceu para resgatá-la na mesma rapidez, e na volta bateu a cabeça. Abafei meu riso enquanto ele praguejava.

— Malditos projetos modernistas... tão resistentes... — e esfregou a cabeça, doído.

— O que ia dizer antes de bater a cabeça, senhor?

— Eu ia dizendo que... sim, sim! Senhorita, permita-me perguntar... qual o período exato de suas férias?

— Do dia 20 de dezembro até o dia 10 de janeiro.

— Totalizam três semanas exatas... pois bem, senhorita Adele, tenho algo a propor-lhe.

Recostei-me sob a cadeira e estreitei os olhos.

— Sou toda ouvidos, senhor.

— Imagino que passará o Natal com a Abadessa Josephine e as freiras restantes em Avignon — comentou ele, e eu afirmei com a cabeça. Se, porventura, a senhorita permitir, eu... gostaria muito de juntar-me a vós na festa.

— Não vejo problema, senhor, mas... perdoe-me a pergunta indelicada, e não julgues que estou sendo mexeriqueira, longe disso. Todavia o senhor não traze convosco família? Pais, esposa ou filhos?

— Decerto que não. Somente eu e a ciência.

— Então, nesse caso, tens meu convite formal para juntar-se a nós no Natal, senhor Banks — gracejei. — Sempre somos apenas nós cinco, garanto que ficarão felizes em tê-lo como participante também.

E então Harvey abriu um enorme sorriso, tomou minhas mãos delicadamente e depositou um beijo nas costas delas. Senti o rubor preencher minhas bochechas. Ergui o olhar timidamente e ofereci um sorriso mínimo.

Je suis enchantée, Adele. Se acaso quiseres, também está convidada a ir em minha casa para, senão ajudar-me, apenas visitar-me antes de expormos o invento em Paris.

— Paris? — bambeei na cadeira, e segurei-me na mesa. — A Paris?

Oui, ma chère. A Paris. É onde há a feira científica. E não há necessidade de preocupar-se com o pagamento da passagem, considere como um presente.

Ele tinha razão. Thierry não perdia uma. Mordi o lábio e enfim estendi minha mão para ele, que a apertou em tom de acordo. Terminou de comer sua torta e me levou de volta à Catedral. Combinamos de continuar nos falando por cartas, onde eu lhe contaria detalhadamente sobre os hábitos de Thierry e Lilian – coisa que eu já observava naturalmente – e ele, por sua parte, tentaria ajudar-me. Despedimo-nos, ele com um repetido beijo em minha mão e, de minha parte, uma simples mesura.

Remy e eu retornamos para a Casa Chevalier, e ele, como bom cocheiro, não comentou sobre nada. Mas, como mau amigo, lançou-me um olhar malicioso. Ergui as mãos em sinal defensivo e pus-me a rir. Ele empurrou meu corpo de brincadeira, e adentramos a Casa para finalizar o dia.



Notas finais do capítulo

Aproveitando a deixa: hoje meu agente literário (vulgo, meu namorado que coloco de agente literário porque ele assinou essa linha ao me pedir em namoro) me perguntou quantos capítulos planejo ao todo. Olha, eu planejo que sejam por volta de 17, sem contar o prólogo e o epílogo.

O que acharam do Harvey? (eu, particularmente, amo ele sz) Acham que esse plano dos dois vai dar certo?
Então, é isso ♥ Digam pra mim o que vocês acharam, e se há algo que precise ser melhorado. Vocês são tops, obrigada pelo carinho como sempre e até o próximo!



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