Adele escrita por Camélia Bardon


Capítulo 13
XII. Todo começo deve ter um meio


Notas iniciais do capítulo

Prometi que voltaria mais cedo, hein? Cá estou ♡ Hoje o capítulo é mais curtinho, mas não quis deixar tudo acumulado e muito corrido. Boa leitura, amores!



A partir da epifania de Harvey, eu e ele trabalhamos no rascunho de sua mais nova obra de arte, apelidada por ele de “dispositivo limpador de tecidos”.

⏤ Por que não a chamamos apenas de “máquina de lavar roupas”? ⏤ sugeri, mesmo leiga ao assunto.

⏤ A palavra máquina remete-me a um equipamento inteiramente automático, que não é o caso de nosso protótipo ⏤ ele franziu a testa e suspirou. ⏤ Podemos chamá-lo de dispositivo até que ele se torne uma máquina, que pensas disso?

⏤ Está propondo um desafio, sr. Banks? ⏤ sorri, com certo brilho de competitividade no olhar.

⏤ Pode apostar que sim, srta. Adele. Qual a graça da pressão do prazo de dias se não podemos sequer desafiarmos neste meio período?

Assenti com a cabeça, e observei-o escrever e desenhar com tamanha velocidade que gotículas de suor acumulavam-se em sua testa, escorrendo pelas têmporas, apesar do frio. Levantei-me de prontidão e busquei uma flanela com a sra. Lambert, junto a um copo de água fresco. Harvey agradeceu-me com um murmúrio, esfregando grosseiramente o pano úmido sob a testa.

Tomei a liberdade de espiar o protótipo por cima de seu ombro e dar meu parecer silencioso a ele. Ao que entendi, Harvey projetava uma espécie de recipiente grande de madeira, que contava com uma manivela acoplada a um motor elétrico. Parecia haver também um pedal e uma espécie de rolo. Fiquei de perguntar mais tarde, pois Harvey pôs-se a resmungar e trancou-se em seu quarto, levando consigo as ferramentas que julgou necessárias.

Eu já havia acostumado-me com seus surtos de euforia e calmaria súbitos, então sentei-me e pus-me a escutar as ocasionais marteladas, serradas e pedidos de chá provenientes do quarto. Após um dia inteiro de silêncio e uma noite inteira de ruídos indefinidos, na manhã seguinte Harvey anunciou, com a voz sonolenta e bolsas abaixo dos olhos da noite em claro:

⏤ Podemos testá-lo.

Assenti com a cabeça solenemente e segui-o casa adentro. Observei-o tomar a flanela que lhe dei no dia anterior, pegar a chávena de chá e despejá-la sobre a flanela. Franzi a testa vendo o líquido escuro tomar conta do tecido delicado, mas ele apenas sorriu, cansado.

⏤ Prometo lhe ressarcir caso não consiga lavá-lo.

⏤ Confio na sua pessoa ⏤ tranquilizei-o… ou tranquilizei a mim mesma.

Parecendo ser o comentário que necessitava para prosseguir, Harvey fez algo que demorei a processar. Circulou a cozinha até que encontrasse algo de que se apetecesse: comida. A sra. Lambert já preparava o almoço, e o cheiro de cozido deveria estar matando o pobre coitado. Ao menos, foi o que pensei. Até que ele mergulhasse a flanela no cozido.

Como engasguei com tal ato, Harvey colocou-se a rir impertinentemente.

⏤ É de uma coragem desmedida confiar num homem munido de sono e de uma flanela. Venha, vamos alimentar o monstro.

 

Mesmo com a ausência de mais materiais, Harvey montou o que chamou de “pré-protótipo”. De frente para mim encontrava-se um barril, revestido com algumas barras de metal à sua volta. Dentro dele, Harvey surpreendeu-me com uma tigela de metal hasteada com uma espécie de gancho de aço. Quando agachei-me para olhar sua parte inferior, encontrei o pedal que ele havia mencionado anteriormente, mas feito provisoriamente de madeira.

Como uma criança orgulhosa de alguma artimanha, ele virou-se para mim ansiosamente com um sorriso de orelha a orelha. E é claro que eu não poderia deixar de encará-lo, embasbacada.

⏤ Fez isso em uma noite?

⏤ Sim, senhorita. O que acha dele?

⏤ É… curioso, mas vejo algum sentido em sua estrutura ⏤ comentei, sentando-me na ponta de sua cama. ⏤ Como funciona?

Harvey pigarreou e puxou um banquinho, de frente para o barril.

⏤ O pedal serve para erguer o limpador ⏤ disse ele, demonstrando. Observei a tigela subir conforme o pedal era abaixado. ⏤ A cada ciclo, espera-se que realize os movimentos que seriam realizados pelas mãos.

⏤ Muito esperto de sua parte, Harvey!

Ele sorriu, contente com o elogio. Por um breve momento, suas bochechas coraram, mas logo ele retomou a empolgação. Buscou na escrivaninha um jarro cheio d’água, depositando-a no barril.

⏤ No entanto, há um problema, e para isso conto com a senhorita.

⏤ Em que posso ser útil? ⏤ coloquei-me em pé, ao seu lado.

⏤ Ève contou-me que nem tudo se resolve tão fácil tratando-se de roupas. Por tal motivo mergulhei a flanela no cozido ⏤ ele admitiu, fazendo-me rir. ⏤ Um pouco extremista, contudo deve ser o sono. De qualquer maneira, gostaria que me contasse um pouco mais a respeito disso.

Fiz que sim com a cabeça.

⏤ Bem, para a lavagem de roupas utilizamos sabão de soda cáustica, em determinados casos. Como por exemplo o de manchas de molho de tomate, sangue e tinta para pena. Para manchas de gordura, lavá-la o mais breve possível é o recomendado, mas caso não seja possível, a remoção da sujeira se dá através de um punhado de vinagre e água morna.

⏤ Vinagre e água morna… ⏤ murmurou ele. ⏤ Não é uma má ideia. Quanto ao limpador, acha que seu movimento é satisfatório? É possível uma limpeza eficaz com ele?

Ponderei acerca da questão. Pedi licença para ele, e mergulhei a mão dentro do barril. A água gelada provocou-me calafrios por conta do tempo frio, mas avaliei o movimento.

⏤ Está bom, no entanto sou da opinião de que se houvesse uma ou duas a mais dessas tigelas, seria melhor ainda. Há algum modo de fazê-las… girar?

⏤ Girar? ⏤ ele franziu a testa. ⏤ Por que?

⏤ Para as roupas não ficarem presas sob o limpador. Se eles girarem, isso não será um empecilho. Mas, Harvey, procure fazer isso amanhã, sim? Descanse um pouco.

Ele assentiu com a cabeça, ainda sonolento.

⏤ Irei, após pensar numa maneira de…

⏤ Harvey ⏤ disse, em tom de reproche. ⏤ Nada de pensar. Vá dormir. Quer um chá? Encontrei camomila no armário da cozinha.

Dando-se por vencido, Harvey suspirou e dramaticamente recostou-se sobre a bancada de trabalho. Quase esbarrou no barril.

⏤ Está bem, está bem. Mas, que é camomila? ⏤ perguntou-me confuso.

⏤ Não sabe o que… bem, vou prepará-la e sentir-se-á melhor, pode ser?

⏤ Claro, sinta-se à vontade. Questione Ève, caso tenha dúvidas. Irei para a sala de estar em breve.

Com um sorriso, deixei o quarto, ainda com as mãos congelando. Dirigi-me à cozinha e preparei o chá, cantarolando uma das melodias que escutava na Casa Chevalier. Não podia negar que encontrava-me morrendo de saudades de Thierry e miss Sienna. Para ser sincera, até as implicâncias de miss Lilian faziam falta. Atribuí isso unicamente à convivência com ela, já que, quanto à afeto…

Enquanto coava as pequeninas flores, a sra. Lambert aproximou-se em silêncio. Colocou-se ao meu lado e pôs-se a dar continuidade no preparo do cozido.

⏤ Ele não dormiu, estou correta? ⏤ comentou ela, despretensiosa.

Neguei com a cabeça, oferecendo-a olhar triste.

⏤ A senhorita sabe que Harvey sempre foi assim? Conheço-o desde menino, e mesmo já sendo um homem formado não perde seu ar de menino. Nunca descansa até que seu próprio corpo obrigue-o a parar.

⏤ Julgo tal trejeito como uma qualidade, senhora ⏤ falei, lançando um olhar de soslaio para a sala de estar. Um sorriso brincalhão escapou por entre meus lábios, sincero.

⏤ E é, de fato. O próprio Jesus disse que seu Reino pertence àqueles que são como crianças. Não na imprudência, mas no bom modo de enxergar o mundo.

Escutei-a com atenção. No pouco tempo de convívio com ela, entendi que a sra. Lambert esbanjava sabedoria ⎻ não apenas em questão de anos vividos, mas também por sempre estar aberta a novos conhecimentos, como os que eu e Harvey trazíamos.

⏤ A senhorita não difere muito dele, sabe? ⏤ a sra. Lambert sorriu, com um quê sugestivo. É claro que tal fala me faz corar até a raiz dos cabelos. ⏤ Gostaria que pudesse ficar mais, filha. Você faz bem para ele. É uma pena que tenha que voltar.

⏤ Tenho. Minha vida está lá. Ou… pelo menos a vida que me foi ofertada.

A sra. Lambert olhou para mim, como quem diz “vê só?”, ato que me fez suspirar pesadamente e calar-me. Adocei o chá e equilibrei as chávenas numa bandeja improvisada. Caminhei até a sala e depositei-a na mesinha de centro, sentando-me no tapete logo em seguida. Harvey logo serviu-se de chá, agradecendo-me em voz baixa. Acompanhei-o, ainda em silêncio.

Todo aquele questionamento que fora levantado pela sra. Lambert não se dissipou com uma xícara de chá, como bem diriam os britânicos. Pelo contrário, minhas dúvidas deram um jeito de se amontoarem ainda mais num canto nublado de minha mente. E, pelo visto, elas não sairiam dali tão facilmente quanto haviam chegado.



Notas finais do capítulo

Vou mostrar o projeto final só no próximo capítulo, mas deu pra dar mais uma iluminada, né? HEHEHEHEH Será se o nome alternativo do capítulo é "Como lavar roupa de forma eficiente e amadora"? xD

Essa Ève não é nada bobinha, né? A gente sente o climão daqui! E como ficam as expectativas pro próximo? Nos vemos lá ♡



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