Adele escrita por Camélia Bardon


Capítulo 12
XI. Bordeaux e o início de uma invenção


Notas iniciais do capítulo

Oi, gente! Tem alguém aí? *desvia do tomate podre da plateia* Sei que foram quatro longos meses de espera, mas Adele e Harvey voltaram para vocês ♡ Contem-me das novidades, porque vocês sabem que eu amo interagir com vocês!

O que me lembra, leitores novos: sejam muito bem-vindos! Espero que gostem desse cantinho ♡ E, aos meus amores antigos, muito obrigada pelo apoio, como sempre. E mais: menina Sariinha, MUITO OBRIGADA pela recomendação ♡ ♡ ♡ ♡ Ainda não terminei de morrer de amor com ela! Sua linda!

Esse é pra vocês, com muito carinho. Sintam-se à vontade. Vamos lá? Boa leitura (ノ◕ヮ◕)ノ*:・゚✧



Após a missa, subimos para cear e agradecer ao Salvador pelas bênçãos trazidas no ano. Demos as mãos, entramos em comunhão e serenidade. Eu e Harvey permanecemos em Avignon até o final do dia 29. Na manhãzinha do dia 30, tomamos o trem para Bordeaux, o mais longe que eu já fora até o momento. As freiras preferiram não nos acompanhar até a estação, por conta da neve, mas tomamos uma carruagem-trenó e prosseguimos viagem. Foi menos duradoura que a de Montpellier até Avignon, no entanto eu me sentia uma intrusa na cidade.

Apenas Harvey me parecia familiar por ali, e isso fez com que meus músculos enrijecessem e eu me encostasse no vagão, apreensiva. Até meus dedos do pé estavam congelando. Em breve eles iriam formigar e...

— Adele? — Harvey chamou, me fazendo resmungar.

— Sim, senhor Banks?

— Tem a certeza absoluta de que está confortável com...?

— Decerto que sim — ergui uma sobrancelha. — Por que razão não estaria?

Harvey fechou o Le Monde que comprara na estação e voltou seu olhar para mim. Trazia junto ao par de olhos azuis inquietação, premeditando o que diria a seguir.

— Sinto que se sente pressionada, e uma parcela da culpa é de minha pessoa. Sair de sua terra natal, junto às pessoas que ama para uma aventura, cuja qual sequer sabe que rumo tomará. Parece assustador para mim, imaginei que pareceria para a senhorita também.

— Em partes, o senhor está certo — sorri. — É realmente assustador. Entretanto, não passa de um risco a se correr. Meus sentimentos condenam-me, mas... meu lado racional, o curioso, impele-me a ir em frente e superar meus medos.

— Folgo em saber, neste caso — e então ele abriu um enorme sorriso. — Falas como a uma verdadeira cientista, sabes? A senhorita já ouviu falar no Método da Ciência?

— Por obséquio, tenha a gentileza de explicar-me — arrumei minha postura, curvando-me para frente.

— O Método da Ciência consiste em questionar. Nunca aceitar uma informação que lhe é dada sem que antes se prove a sua veracidade. Antes se acreditava que as estrelas brilhavam no mesmo momento que as víamos, hoje sabemos que a maior parte das estrelas dos céus está morta há muito tempo, e a sua luz nada mais é do que um vestígio.

— Funciona como a fofoca, então?

Harvey riu com o meu comentário, sem maldade – presumi, ao menos. Depois, assentiu com a cabeça.

— Como a fofoca, bem colocado. Suas comparações são simples e objetivas.

— A propósito, as estrelas foram novidades para a minha pessoa — afirmei, com certa timidez. Harvey tinha completa ciência de que meu conhecimento era limitado, mas eu teria de escolher as palavras para que não pensasse que era mais ignorante do que realmente era.

— Vejo que teremos muito a conversar, nesse caso.

Sorri para ele, como uma criança que acabara de ganhar um doce. Pelo restante do caminho até o chalé, Harvey iniciou a história como viera parar na França.

Como eu viria a descobrir, em um país nas Américas chamado Canadá, um senhor chamado Tesla já iniciara seus experimentos envolvendo os princípios elétricos. Harvey queria seu papel igualmente – não pelo reconhecimento ou pelo júbilo, mas sim pela fuga da estagnação de ser herdeiro de um baronete. Segundo o que me contou, era filho único, e pediu ao pai um punhado de dinheiro para viajar e “aprofundar suas pesquisas”, quando sua maior intenção era conhecer a França.

— Não estou vagabundeando, mas a senhorita deve admitir que passar pela França e não admirar as paisagens seria estupidez de minha parte — acrescentou ele, pândego.

Recorrera à estadia com uma velha amiga da família, a governanta Ève Lambert. Viúva e sem filhos, mudara-se para a terra natal após a morte do marido. Com ela, aprendeu o idioma francês aos seus dezesseis anos, o que se mostrou útil anos depois. Segundo Harvey, ela ficou “deveras feliz com o retorno do menino que mais lhe dera trabalho na vida”.

Harvey lamentou o tempo rígido, pois queria me apresentar aos famosos vinhedos de Bordeaux, mas pareceu esquecer sobre o assunto quando chegamos ao chalé, já que a sra. Lambert – junto às galinhas – veio nos recepcionar com uma dose extra de afeto.

— Olá, crianças! — exclamou ela, com os braços abertos. — Harvey, querido, as coisas não deram certo em Avignon?

— Por que diz isso, Ève? — Harvey franziu o cenho e me encarou, confuso.

Todos nós trocamos olhares perdidos. A sra. Lambert aproximou-se de mim e me mediu por inteiro.

— Esta não é sua noiva? Oras, ela é muito bonita e franzina para uma camareira!

Meu rosto corou de imediato. Abri a boca para replicar o comentário, mas Harvey foi mais rápido.

— N-não! Esta é Adele, a camareira. Não se trata de minha noiva, Ève.

— E por que não? — a governanta acolheu-nos cada um com um braço, puxando-nos para dentro do chalé. — Harvey é um rapaz tão formoso. Se eu fosse a senhorita, não perderia tempo.

— Há algo para comer? Estamos famintos  — Harvey riu, sem graça.

Minha primeira reação foi rir. No entanto, a situação permaneceu em minha cabeça pelo resto da manhã. Harvey, eu e a sra. Lambert desfrutamos de um desjejum tipicamente britânico – feijões, ovo pochê, pão e chá preto com leite. Harvey não economizava quando o assunto era comida, ainda mais sendo de sua terra natal.

Após lavarmos as louças e nos estabelecermos em nossos respectivos quartos, eu me esgueirei até a “sala de estudos” de Harvey. Bati à porta, torcendo não incomodá-lo em demasia. Ele, por sua vez, ergueu os olhos claros para mim e abriu um meio-sorriso.

— Adele! Há algum problema com o quarto? — e levantou-se em alarde.

— Nenhum problema, senhor. O quarto é perfeito. Gostaria apenas de conversar. Incomodo?

Ele visivelmente aliviou-se. Seus ombros caíram, e ele voltou a sentar-se na cadeira. Apontou para a cama, e eu me sentei na beirada, solícita.

— De modo algum. O que deseja? A propósito, terminei Um Conto de Natal. Apreciei sobremaneira o recado, tanto quanto o livro. Foi uma ótima leitura.

— Ah, é? Folgo em saber. Não sou uma leitora ávida, mas percebi o quanto gostou de ler no trem para Avignon — subitamente, meus pés pareceram muito interessantes de serem analisados.

— Mas não foi por isso que veio aqui, foi?

Neguei com a cabeça e hesitei antes de iniciar. Não fazia ideia de como Harvey reagiria à minha intromissão, porém de nada adiantaria se eu ficasse quieta.

— Perdoe-me pela minha intromissão, senhor, mas… por qual motivo a sra. Lambert pensou que eu fosse sua… noiva?

E então, uma sombra tomou seu olhar. Ao invés de ruborizar, Harvey apenas voltou a cabeça para a cartola que repousava sob suas anotações. Ouviu-se um longo suspiro.

— Cada dia mais surpreendo-me com sua atenção aos detalhes — murmurou ele, com certa ironia triste.

— As maravilhas que se aprendem servindo grandes senhores…

Harvey voltou-se para mim, procurando as palavras.

— Talvez… talvez eu não tenha sido totalmente sincero com a senhorita acerca dos motivos que me trouxeram até a França. Pensei que pudesse escondê-los, contudo fostes mais esperta.

Mesmo em um momento delicado, Harvey elogiava-me. Se ele ainda surpreendia-se com minha inédita sagacidade, eu nunca deixaria de apreciar sua gentileza desmedida. Sorri, indicando que poderia prosseguir sem interrupções. Ele assentiu com a cabeça e continuou:

— Antes de terminar meus estudos em Londres, morava em Brighton. Lá, eu havia pedido uma mulher em casamento. Eu não a amava, contudo pensei ser o certo a se fazer. Nada ocorreu de muito sério entre nós, de fato, mas sua família era um tanto rígida e pressionou-me a realizar o pedido. Então, eu o fiz.

Ele fez uma pausa, pigarreando.

— Tínhamos 25 anos, e meus estudos na capital estavam quase concluídos. Retornei após dois anos, contornando todas as convenções sociais, e… encontrei-a grávida. Do primo dela.

— Misericórdia! — arqueei as sobrancelhas, atônita.

— Em outras circunstâncias, eu não iria julgar o relacionamento, é claro — Harvey franziu o cenho. — No entanto, mesmo que eu não a amasse, ela ainda era minha noiva. E casar-se com uma mulher grávida de outro homem? Definitivamente não me faria feliz. De qualquer maneira, a traição foi suficiente para desmanchar o noivado.

— Então retornou a Londres e dedicou-se ao estudo — conclui por ele, que assentiu com a cabeça.

— Precisamente. Além do estudo, procurei a França por refúgio da vida amorosa frustrada — ele riu com escárnio. — Talvez eu tenha esquecido de mencionar à Ève que não estava atrelado a mais ninguém.

Nos entreolhamos e caímos no riso. Harvey parecia mais leve, tanto que permaneceu sorrindo.

— Céus, eu estava sufocando por conta disso. Obrigado por ouvir, Adele.

— Sou eu quem agradece por ter tido a confiança para contar-me, senhor.

Harvey negou com a cabeça e levantou-se da cadeira, alongando o corpo. Acompanhei-o com o olhar, intrigada. Ele revirou alguns materiais em sua mesa até que encontrasse o que procurava: seu exemplar do Princípio Elétrico. Entregou-o em minhas mãos e sentou-se ao meu lado na cama.

Analisei o livro. Diferente do que se encontrava na Casa Chevalier, o de Harvey continha as mais diversas anotações e rabiscos, mas, contraditoriamente, seu estado de conservação era tão impecável que poderia ser comparado à uma Bíblia para um clérigo. Encarei-o, curiosa.

— Se vamos trabalhar juntos, gostaria que parasse de me chamar de senhor. Sou tão subordinado a ti como és para mim, pois seremos parceiros. Iguais. Sem títulos sociais. Estamos de acordo?

— Sim, sen… — Interrompi-me junto com sua sobrancelha erguida. — Sim, Harvey.

— Assim está perfeito.

— Agora seria uma ótima ocasião para contar à sra. Lambert que não é mais noivo, Harvey.

Ele suspirou dramaticamente e retirou-se do quarto, deixando-me ali sorrindo com meus botões.

 

x-x-x-x-x

 

Dez dias. Eu viria a descobrir que trabalhar com prazos era algo detestável, principalmente se fosse algo do qual eu não estivesse habituada.

Harvey era uma criatura peculiar. Poderia pedir chá, café, brandy e água para a sra. Lambert, poderia passar meia hora tagarelando e meia hora em completo silêncio, poderia fazer do quarto à sala de estar como ambiente de estudos; gradativamente acostumei-me a isso.

No segundo dia em Bordeaux, véspera de Ano Novo, trabalhamos sentados no chão de frente à lareira. A sra. Lambert tricotava em sua cadeira de balanço, aproveitando a luz – e é claro que ouvíamos ocasionalmente alguns roncos.

— Como já relatei, penso em desenvolver algo que ajude nos serviços domésticos — dizia ele. — Há algum utensílio que passe pela sua cabeça?

— Inúmeros — suspirei.

— Vamos por partes, neste caso.

Ele esticou-se no chão para alcançar seus papéis de rascunho, a pena e a tinta. Pigarreou e apoiou-se no chão para escrever. Anotou diversas informações em tabelas e voltou-se para mim.

— Cozinha?

— Esta era uma questão que Melina poderia responder melhor — franzi a testa, mas esforcei-me em lembrar das queixas da governanta. — Melina sempre diz que seria ótimo se alguém cortasse e amassasse as batatas para ela.

— Justo — riu ele. — Roupas e banho?

Ponderei sobre a questão. Lamentei por não conseguir pensar em nada genial de imediato, mas se Harvey aborreceu-se com isto, não deixou transparecer. Após alguns instantes, anunciei com certa dúvida:

— Gostaria de que os ferros de passar não fossem à base de carvão. Perdi as contas de quantas vezes queimei tanto minhas roupas quanto minhas mãos. A eletricidade consegue fazer algo a respeito?

— É bem provável — ele comentou, entre o entusiasmo e a hesitação.

Harvey gastou mais alguns minutos murmurando coisas que a mim soavam sem nexo. Depois do que pareceu uma eternidade, seu relógio de bolso emitiu diversos estalidos. Como quem retoma à realidade, ele abriu-o e suspirou.

— Bem… parece que passamos o ano! Pretendia dedicar-me mais ao projeto, mas estou ciente de que os galos nos acordarão antes das quatro horas. Portanto… feliz 1890, Adele.

— Feliz 1890, Harvey — sorri, em meio a um bocejo. — Que ele seja produtivo e maravilhoso em todos seus espectros.

— Eu não diria melhor, my dear. Irá dormir agora?

Assenti com a cabeça e preparei-me para levantar, no entanto Harvey pôs-se de pé em toda sua hiperatividade (e, mesmo assim, não acordando a sra. Lambert) e falou em voz baixa:

— Deixe-me ajudá-la, sim?

Ele estendeu sua mão, que eu aceitei sem muitas opções. Antes que eu percebesse o que acontecia, meu coração resolveu palpitar intensamente quando sua mão alcançou a minha, firme. A esta altura do campeonato, eu não dava vazão alguma para nenhum outro regente que não fosse meu intelecto. Contudo… Harvey vinha se tornando tão próximo a mim. Seria inconcebível negar que sentia por ele ao mínimo carinho.

De qualquer maneira, ele puxou-me para cima com tamanha firmeza e, ainda assim, de modo brando. Com a mesma rapidez nos afastamos, consumidos pela timidez súbita e incômoda que pairou no ar. Harvey coçou a nuca, e eu apressei-me em dizer:

— Gostaria que eu o auxiliasse em recolher esses papéis?

— Não há a necessidade, porém... obrigado. Ficarei mais um tempo aqui, a sra. Lambert já irá acordar.

— Está bem — sussurrei. — Boas-noites, então.

Harvey fez que sim com a cabeça e adiantou-se a recolher os papéis. Observei-o por breves instantes antes de tomar o rumo do quarto de hóspedes, com um sorriso bobo estampado no rosto.

Minha cabeça girava devido à tontura provocada pelo sono, então cambaleei sem sequer tirar o roupão. Puxei minhas cobertas até o pescoço, e estava prestes a dormir quando um grito irrompeu o silêncio do chalé.

Ao que tudo indicava, Harvey finalmente alcançara sua epifania criativa.



Notas finais do capítulo

Eita que agora vai HEHEHEHEH Depois da choradeira que foi o capítulo passado, temos um aqui bem gracinha.

Muitas revelações! *inserir aqui o Pikachu chocado* Parece que todos aqui têm algo a esconder, não? Vocês suspeitavam de algo assim vindo do Harvey?

E qual será essa invenção? Nem deixei óbvio KKKKKK

É isso por hoje, pessoas lindas do meu coração ♡ nos vemos novamente em menos de quatro meses xD



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