A Dama e o Vagabundo escrita por Sensei Oji Mestre Nyah Fanfic


Capítulo 1
A Dama e o Vagabundo


Notas iniciais do capítulo

Faz tempo que queria escrever sobre esses dois, mas eu só adiava. Adoro eles porque foi o único casal que teve desenvolvimento em toda a série. Enfim, espero que gostem.



Minha vida sempre foi conturbada. Desde quando eu era adolescente até depois dos trinta. A minha vida daria um livro daqueles bem clichês, tirando a parte colegial.

Estou divorciada, faz um mês que levei um chifre gostoso do meu ex. O cretino me traiu com a secretária dele do escritório. Mas como sou um ser humaninho evoluído, esqueci todo o meu ônus e me foquei no trabalho.

Há quase um ano trabalho na penitenciária de segurança máxima Oswald. Os funcionários e prisioneiros apelidaram carinhosamente de Oz. O que uma mulher, médica, delicada como eu faz entre as piores escórias da sociedade americana? Muitos são ladrões e traficantes, mas há assassinos e até estupradores. Logo eu que fui estuprada anos atrás resolvi conviver com homens iguais aos meus algozes. Talvez seja um tipo de terapia que impus a mim mesma.

Saí de casa, dirigi meu carro, aproveitando o sol da manhã, cheguei no estacionamento da prisão. Encontrei Leo Glynn, diretor da prisão, no meu consultório. Um moreno muito conservador e linha dura, mas de coração mole.

— Glynn? O que faz aqui na enfermaria tão cedo?

— É que semana passada chegou uma nova leva de prisioneiros. Lembrei do desfalque de ajuda na enfermaria e fiz uma seleção. Três deles resolveram se voluntariar nos trabalhos daqui.

— Que bom. Estava precisando de uma ajuda.

— Não se preocupe, pois os homens têm em suas fichas crimes medianos. O mais pesado é uma tentativa de homicídio e só.

Desde que os ajudantes foram mortos pela rebelião em Oz, o hospital da prisão ficou sobrecarregado. Pedi a Leo que me indicasse pelo menos três nomes para as vagas.

Horas depois, a irmã Peter Marie trouxe os três sujeitos até mim.

— Doutora Nathan, eu os trouxe como pediu. Temos aqui Sam Fischer. Ele cometeu crime fiscal, já foi deputado. Temos aqui Daniel William. Membro de uma gangue. E tem o Ryan O'Reily. Já foi comerciante e membro de uma gangue irlandesa. Bom, já apresentei todos. Espero que não decepcionem minha amiga Gloria.

Esperei Peter sair do meu consultório para analisar o trio. O tal Fischer era um senhor de uns cinquenta e tantos anos e branco, cara de policial. O William é negro e meio roliço. Olhei o tal Ryan, e olhe... chama o bombeiro, porque o cara é bonito demais. Um irlandês muito charmoso, diga-se de passagem.

— O que faremos?

— Oi?

— O que faremos? Vai nos designar as tarefas? — disse ele, eloquentemente.

— Ah sim. Vamos dar as suas funções.

 

Perto do horário do almoço, a enfermaria ficou agitada. Um dos prisioneiros levou uma facada nas costas e sofria de hemorragia. Se fosse outra pessoa, estaria incrédula, mas quando se trabalha em Oz, certas coisas hediondas ficam mais comuns. É como o cheiro de um corpo em putrefação, no começo é horrível, mas com o tempo se acostuma.

— Coloquem-no imediatamente ali. Não podemos tirar a faca pois pode ampliar a hemorragia.

— Precisamos do anestésico — disse a enfermeira.

Fui imediatamente ao depósito onde guardo as caixas com medicamentos. Vi Ryan em pé, segurando o vidro com a morfina. Olhei para os lados, com medo como que ele poderia fazer. Já sofri abuso na adolescência e sofri um estupro. Meu último casamento foi um fiasco, não confio em homens tão facilmente como antes.

— Doutora Nathan, aqui está o remédio. Eu estava limpando o depósito quando ouvi sobre o pobre Miles e a sua facada. Espero que o cure logo.

O irlandês pôs o vidro da morfina sobre uma mesa de plástico e logo saiu dali. Respirei muito rápido, fiquei sem ar. O'Reily era educado demais para o meu gosto.

A cirurgia nas costas de Miles foi um sucesso. Consegui retirar a faca sem causar mais hemorragia.

O dia foi intenso porque ainda tive que resolver alguns problemas de detentos que sofreram com infecções intestinais por causa de comida estragada. Realmente foi um dia cheio.

— Posso entrar?

— Peter, olha o fiasco que você me meteu. Um homem como Ryan O'Reily perto de mim. Que maldade.

— Eu sabia que você gostaria dele. Até parece que estamos lidando com um lorde inglês, não com um detento. Ele não está dando trabalho, não?

— Não. Ele se mostrou prestativo até mais que os outros dois. Por que um homem bonito como ele tem que ser um prisioneiro?

— Interessou foi?

— Claro que não! Apenas estou comprovando que o boy é prestativo.

A irmã Marie brincava com os interesses alheios. Era de se esperar de uma psicóloga.

 

E os dias foram passando, a sombra do Ryan começou a me rondar, me sufocar. O ápice foi uma conversa nada profissional que tivemos no meu consultório. O cara era um convencido, apesar de eu o achar fofo.

— Oxe, por que está fazendo isso? — perguntou indignado.

— É procedimento padrão, Ryan. Os prisioneiros ficam certos dias trabalhando num canto e depois são transferidos para outro.

— Gloria, se for o que eu disse antes... Eu te acho bonita, mas não quero forçar...

— Não tem nada a ver com isso.

Com muita dor no coração, eu transferi aquele homem charmoso para um outro setor da prisão. Não posso me envolver com homens neste momento, sobretudo homens com uma ficha criminal a cumprir em Oz.

 

Meses trabalhando normalmente na enfermaria e desde então nunca mais me aproximei de Ryan. Até que o vi com o padre Mukada. A situação era excepcional: Ryan O'Reily estava com câncer de mama. Olhei para o irlandês que demonstrou vergonha em seu semblante.

— Quer dizer que você tem câncer de mama? Bom, não é novidade homens ter isso, mas é curioso que seja logo você.

— Que é isso, Gloria. Não me trate assim. Estou muito mal. Meu peito está sangrando, sinto tonturas.

— Como disse, é câncer de mama em estágio inicial.

— Sinceramente eu não acredito. Como pode um homem ter uma doença dessa? Escute, doutora Nathan, não conte para ninguém do meu pavilhão, principalmente em Emerald City. Os caras vão me trucidar se souberem.

— Eu sou um túmulo.

Iniciamos a consulta e o tratamento logo em seguida. Só o fato de ter Ryan perto de mim me deixava desconcertada. Com o tempo, foi preciso iniciar a quimioterapia, assim os cabelos do vagabundo caíram rapidamente.

— Não é algo de que eu me orgulho, mas até que gostei de ficar careca. Pareço membro de alguma gangue.

— Tá. Você tem que vir amanhã mais cedo para a continuidade do tratament...

Ele se aproximou de mim perigosamente. Eu estava sentada na cadeira, atrás da mesa. Ryan se apoiou com as duas mãos e aproximou o seu rosto perto de mim. Fiquei um pouco desconfortável, mas ao mesmo tempo gostando daquela situação.

— Puxa vida, eu me odeio.

— Por quê?

— Porque estou preso aqui e não posso convidar uma certa mulher para um jantar romântico.

— Ryan...

— Não precisa dizer mais nada, doutora. Gosto muito de ficar aqui na sua presença.

Senti a sua respiração quente perto de mim. Acredita que o vagabundo sequer tem mau-hálito?

— Mesmo que você fosse o homem mais correto do mundo, eu não daria certeza de sair contigo. Sou muito exigente com homens. Tanto que hoje sou divorciada.

Tentou passar a mão nos meus cabelos, mas me afastei um pouco. Ele entendeu o recado e se afastou. Fiquei sozinha com os meus devaneios.

— Hahahaha. Esta situação é bastante fortuita, Gloria. Já pensei no título do romance: a dama e o vagabundo.

— Não ria, irmã Pete. A senhora que me colocou nessa situação vexatória quando trouxe-o meses atrás. Agora ele acha que está rolando um clima entre nós.

— E não está?

— Não! Eu acho que não.

— Não seja tão dura consigo, Gloria. Quem disse que não pode haver romance com um detento? Você precisa apenas descobrir o que ele quer? Se ele quiser algo sério, dê alguma chance, se for apenas brincadeira, porém, se afaste.

— Acontece que o problema está em mim. Fui traída pelo meu ex. Como acha que vou confiar num cara que está preso aqui?

— Isso só você mesma pode responder.

Recebi o conselho, desconfiada. Ainda tenho um certo receio com os homens, especialmente aquele cara.

 

Dias se passaram, Ryan passou mal quando retornou da quimio. Ajudei-o a se locomover pois estava muito fraco. Vomitou muito desde então. Fiquei quase integralmente ao seu lado. Incrivelmente gosto da companhia do Ryan.

— Doutora, se eu morrer, pode ir ao meu velório?

— Não fale assim, Ryan. Eu nunca deixarei que morra.

Ajudei-o a ir para a maca e o deitei. Consegui uma permissão do diretor para não colocar algemas em seu pulso. Fiquei sentada ao lado dele, observando-o dormir. Ele fica tão bonito indefeso. Beijei sua testa e fui ver meus outros pacientes.

 

Recentemente fui designada para testemunhar a execução de um detento condenado à morte. Vi o homem sentar na cadeira elétrica e torrar durante um minuto. Nunca pensei que uma médica como eu chegaria ao ponto de ser cúmplice da pena de morte. Fiquei tão mal. Vomitei horrores no banheiro da enfermaria. Ryan, um pouco debilitado, me consolou. Fui levada para o meu consultório e mimada pelo irlandês.

— Minha vida já não é tão boa, não é?

— Discordo. Eu te acho forte, a mulher mais forte do mundo. Até mais que a minha mãe adotiva.

Ele se aproximou de mim e encostou seu lábio no meu. Fiquei reticente a princípio, mas deixei rolar. Eu já estava na lama mesmo, namorar um prisioneiro era o menor dos meus males.

 

O tratamento de Ryan deu muito certo. As náuseas pararam com o tempo, ganhou peso e sua palidez sumiu. Seus cabelos começaram a crescer normalmente pois já não precisava fazer a quimioterapia. Seu câncer de mama estava curado.

— Obrigado pelo meu tratamento, Gloria. Sem você, eu estava morto.

— Eu só fiz o procedimento padrão. O oncologista do hospital estadual que teve o maior trabalho.

Estávamos sentados na beirada da maca, sozinhos. Ryan me puxou para perto e me deu um beijo. Eu permiti aquilo, mas fui rápida justamente para um guarda não nos pegar.

 

O tempo foi passando, a situação amorosa entre mime Ryan foi ficando mais evidente. Depois que ele descobriu que o seu irmão Cyril não é o seu irmão por parte de mãe, ficou arrasado. Sua mãe o deixou ainda criança com o seu pai facínora. Eu vi o sofrimento estampado no rosto dele.

Meses depois, o trabalho me ocupou tanto que quase nunca o via. Soube que a sua mãe havia encontrado com ele e seu irmão. Foram momentos difíceis.

— Sabe o que eu gosto numa pessoa? Que ela esteja disposta a perdoar.

— Ela nos abandonou quando crianças. Como posso perdoar alguém assim?

— Mãe nenhuma deixa o filho com um pai opressor sem um motivo. Ela tem um motivo e quer te contar. Promete pra mim que vai dar uma chance a ela?

Pela primeira vez eu vi o cara chorar feito uma criança. Abracei Ryan com todas as minhas forças. Como eu o amo! 

 

A conversa entre mãe e filho rendeu frutos positivos. Ryan disse que sua mãe apanhava do seu pai e que era uma ativista polítuca nos anos setenta. Quis voltar, porém o velho O'Reily sempre rechaçava essa ideia. Ryan entendeu que o seu pai era o causador do sofrimento de sua infância. Vê-lo mais feliz foi um alívio.

 

Cyril O'Reily é o meio-irmão de Ryan, e portador de um retardo mental. Por agir e pensar como uma criança, e consequentemente com violência, ele foi preso diversas vezes na solitária. Matou alguns de seus parceiros de cela, por isso pegou a pena máxima.

— Tenho que apelar para a suprema corte para revogar a decisão. Tenho que fazer isso. Droga, Cyril.

— Vai dar tudo certo.

Os dias foram passando e o resultado de Cyril foi se complicando. Eu o beijei com gosto. O meu presidiário. Ficamos namorando por algum tempo escondidos no depósito dos medicamentos. Ele ficou sentado no chão, arrasado pela sentença da pena demorte do irmão. As apelações recusadas e faltando apenas uma semana para a execução. Eu o abracei com todas as minhas forças. Não o deixaria na mão nesse momento tão triste.





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