Ametista escrita por Karina A de Souza


Capítulo 22
Parece que os carinhas verdes são mais insistentes que eu


Notas iniciais do capítulo

Olá. Eu gostei bastante de escrever esse capítulo e espero que gostem também.
TIREM AS CRIANÇAS DA SALA, AMETISTA HOJE TÁ MAIS MALUCA QUE NUNCA.



—Você é espaçoso demais. -Reclamei, tentando me ajeitar na cama. Um pouco de luz do sol passava pela janela e batia no meu rosto. -Jack.
—Sua cama é pequena.
—Não tem nada de errado com a minha cama. Você é grande e espaçoso. -Riu, virando pra mim.
—Isso devia dar certo, você é pequena e magra. A cama devia servir bem.
—A cama serve bem, você é o problema.
—Pensando em me trocar por alguém menor?-Fingi pensar.
—Não é má ideia.
—Como é?-Ri
—Você não devia estar fazendo café? -Bocejei.
—Por que eu?
—Seu café é melhor que o meu. E nós temos que ir trabalhar.
—A gente não pode só ficar aqui e fingir que o resto do mundo não existe?
—Gostei da ideia, vamos ficar aqui. Mesmo se ligarem e disserem que tem um monstro de seis metros no centro da cidade. -Fechei os olhos, deitando a cabeça no ombro dele.
—Por que teria um monstro de seis metros no centro da cidade?
—Somos da Torchwood, esse tipo de coisa sempre acontece com a gente.
—O pior de tudo é que você tem razão.
Ficamos em silêncio, apenas ouvindo os sons da cidade e os habituais barulhos dos outros moradores do prédio.
—Bom dia!-Me sentei, pegando a arma e apontando na direção da voz. O Doutor pulou no lugar, erguendo os braços em gesto de rendição. -Sou só eu, não atire!
—O que pensa que está fazendo, tentando me matar de susto? Não pode sair entrando assim!
—Não?
—Não!
—Doutor?-Jack se sentou, encarando-o atentamente de cima abaixo.
—Como adivinhou?-Ele perguntou, animado.
—As roupas totalmente entregaram você. -O Senhor do Tempo riu.
—Meu estilo?
—A falta dele. -Murmurei.
—Já posso abaixar as mãos?-Assenti, abaixando a arma. -Obrigado. -Sorriu, olhando para Jack e eu. -Eu interrompi “coisas”? Amy e Rory faziam muito essa cara quando eu entrava sem bater.
—Estávamos apenas dormindo. Sabe, quando as pessoas deitam, fecham os olhos e apagam?
—Isso não se chama desmaio?-Suspirei, deixando a arma no criado mudo.
—Não, não é a mesma coisa.
—Ah... Certo. Então... Vocês vão sair daí logo?
—Parece que não temos escolha.
—Eu devo cobrir meus olhos?-Olhei para Jack, que pareceu ter entendido minha expressão.
—Acho melhor você sair antes que seja agredido. -Avisou. O Doutor assentiu de novo.
—Vejo vocês na cozinha. Eu trouxe rosquinhas!
***
—Aí estão vocês... Vestidos, felizmente. -Sorriu, mexendo as mãos daquele jeito levemente irritante. Ele tinha energia demais e precisava gastá-la de alguma forma.
—Onde conseguiu isso?-Perguntei, rasgando o pacote e pegando uma rosquinha.
—A garota do andar de baixo me deu. -Ergui uma sobrancelha.
—A universitária que fala sozinha? Por que ela te daria isso?
—Ela me pediu ajuda para abrir a janela emperrada e eu ajudei. -Comecei a rir, quase engasgando e caindo da cadeira. -O que foi?
—Acho que ela está rindo do truque. -Jack explicou, fazendo o café.
—Truque?
—É. Chamar alguém pra “abrir a janela emperrada”. Acho que alguém está interessada em você.
—Eu?-Apontou para si mesmo.
—Você vive pra cima e pra baixo no meu prédio. -Lembrei-o. -Uma hora a garota ia te notar. E ela notou.
—Vocês estão exagerando. Eu a ajudei e ela foi gentil, só isso.
—E vocês conversaram?
—Um pouco. -Troquei um olhar divertido com Jack.
—E ela tentou te beijar?
—Ametista!-Se sentou, envergonhado. Ri de novo.
—Não tem nada de errado nisso. Você é jovem... Ou nem tanto, mas pode se divertir.
—Eu me divirto. -Cruzei as pernas.
—É? Quando foi a última vez que...
Tis. -Jack advertiu.
—Tudo bem, parei. Não vamos constranger ainda mais nosso amiguinho inocente. Eu só queria saber se ele é vir...
Ametista.
—Já parei. -Passei um zíper imaginário na frente da boca e sorri inocentemente. O Doutor parecia confuso.
—Às vezes você é mais estranha do que o normal. -Avisou.
—Bem vindo ao mundo das mulheres. -Jack murmurou. Atirei um pano de prato nele.
Nós três tomamos café, conversando sobre coisas que não envolvessem a vida sexual do Doutor, nem nada do tipo.
No fim, fiz os dois cuidarem da louça, enquanto pintava as unhas.
—Tenho uma coisa para perguntar. -O Doutor disse, terminando de secar um prato.
—Estamos ouvindo. -Avisei.
—Você já viaja comigo... Jack, o que acha de ir com a gente?-Ergui a cabeça, encarando os dois.
—Ir com vocês?-Jack perguntou. -Com vocês dois? Nós três, na TARDIS, atrás de aventuras?-Riu. -É claro que eu aceito!-Abraçou o Doutor, fiquei preocupada com ele esmagar o Senhor do Tempo. Essa regeneração tinha um corpo magro como a anterior. -Eu não teria largado tão fácil a vida na TARDIS se você não tivesse me jogado pra fora há dois anos.
—Eu precisava de um tempo sozinho... Depois do que houve. -Depois de perder uma companheira para a morte, era o que aquilo significava.
—Eu entendo. Às vezes as pessoas tem que passar um tempo sozinhas.
—Quando eu fiz isso você não foi tão compreensivo. -Alfinetei.
—Você deu férias a si mesma e sumiu sem avisar. -Dei de ombros.
—Eu precisava de um tempo sozinha. -Revirou os olhos e virou para o Doutor.
—Quando partimos?
***
—E então... Onde estamos?-Perguntei.
—Nenhuma ideia?-Esse foi o Doutor, tirando os olhos da tela para olhar pra mim.
Corri para as portas da TARDIS, abrindo-as e vendo o local do lado de fora.
—Ah!-Fechei as portas, me encostando nelas. -Estamos na época que eu acho que estamos?
—Depende. Onde acha que estamos?-Sorriu.
—Velho Oeste.
—Exatamente!-Soltei um grito animado, comemorando.
—É minha época favorita da Terra. Preciso de uma roupa apropriada!
Corri para o guarda roupa da TARDIS e saí de lá minutos depois pronta para o Velho Oeste: um vestido xadrez, vermelho e preto; minhas botas comuns e pretas; o cabelo, que já tinha voltado a cor original, preso em cima e solto em baixo.
—Você está de vestido. -Jack comentou.
—Gosto vestidos dessa época. Eu tinha um assim, mas ele pegou fogo numa confusão em que eu me meti quando... -Apontei para o Doutor. -Ele está mesmo com um chapéu de caubói?
—Estou!-Sorriu, apontando para sua cabeça. -Não é legal?
—Doutor...
—Você fica com seu vestido e eu com meu chapéu. -Suspirei.
—Que seja.
Saímos da TARDIS. A placa ao lado nos dava boas vindas à Cidade do Sol, uma típica cidadezinha do Velho Oeste.
—Por que é sua época favorita? -O Doutor perguntou, caminhando ao meu lado.
—Não sei exatamente. É apenas... Essa coisa desconhecida que eu sinto, e me faz querer ficar e viver nessa época.
—Qualquer um poderia pensar que uma época mais avançada seria sua favorita. Sinceramente, estou surpreso. -Algumas mulheres acenaram quando passávamos, assoviando e mandando beijos. Jack retribuiu os gestos, mas o Doutor fingiu não notar, um pouco vermelho.
—Que timidez é essa? Agora eu estou surpresa.
—Acho que essa regeneração não... Hum... Não lida bem com atenção desse tipo. -Segurei o riso.
—Talvez. -Paramos na frente de um bar. Jack se separou de nós, indo até um grupo chamativo de garotas que estava do outro lado.
—Isso é ruim de alguma forma?
—Está interessado em alguém?-Pareceu espantado.
—Não. Pareço estar?-Dei de ombros e o puxei para dentro do bar. Nos sentamos na frente do balcão. -Você não me respondeu.
—Você é um cara estranho, não sei tudo sobre você. -Fiz um gesto para o homem atrás do balcão, que colocou dois copos na nossa frente e os encheu. -Por que estamos tendo essa conversa bizarra?
—Eu honestamente não sei. -Pegou o copo, bebendo o conteúdo e em seguida cuspiu tudo, fazendo parte voar no atendente. Comecei a rir. -Oh... Desculpe. Tem algo sem álcool?-O homem trouxe água pra ele. -Obrigado.
—Você é totalmente pirado. Por que demorou tanto pra me procurar? Eu precisava muito me divertir assim no tempo em que estive sem você.
—Você está rindo de mim.
—Claro que estou. Como não riria? Você é engraçado.
Uma mulher se aproximou do balcão, parando ao lado do Doutor de um modo que seu decote ficasse bem na linha de visão dele. O Senhor do Tempo não sabia pra onde olhar. Segurei o riso de novo.
—Olá. -A mulher saudou. -Precisando de companhia, querido? -Como o Doutor parecia totalmente perdido, achei que devia dar uma ajudinha.
—Sinto muito, colega, ele já tem companhia. -Me apoiei no ombro dele.
—Eu não me importaria em dividir.
—Eu, sim.
—Tudo bem. -Se afastou. -Se mudarem de ideia, estarei por aí. -E voltou a circular pelo bar. Me afastei do Doutor, finalmente rindo.
—Isso aconteceu mesmo?
—O que exatamente foi isso?-O Doutor perguntou, confuso.
—Você não pode ser tão inocente. Como é que se casou?
—Casando. Era isso ou... Coisas ruins.
—Você é um cara legal, bonito, engraçado e levemente atrapalhado, mas um desastre em algumas coisas.
—Que coisas?-Sorri. -Oh. Acho que entendi. Por que está tão interessada nisso?
—Por que você fica incomodado e eu adoro pegar no seu pé.
—Percebeu que o Jack sumiu?-Dei um gole na minha bebida.
—Ele deve estar se agarrando com aquelas cinco garotas que vimos lá fora.
—Belo decote. -Um homem comentou, ao meu lado. Sorri pra ele.
—Aprecie bem a vista... É a única coisa que poderá fazer. -O homem riu e voltou para sua mesa nos fundos.
—Ele não fez um comentário apropriado. -O Doutor disse. -Não devia... Falar sobre... Hum...
—Decotes te deixam nervoso?
—Por que me deixariam nervoso?-Sorri travessamente.
—Você não olhou pro meu decote. -Arregalou os olhos, espantado.
—Você é minha amiga. Por que eu olharia? Não que você seja feia... Você não é. É bem bonita... -Ficou vermelho. -Tem essa coisa de rainha das trevas e tudo mais... -Fez alguns gestos na minha direção. -Mas você é muito... Você tem um rosto muito bom e...
Contendo outra risada, o agarrei pelo casaco, beijando-o. Quando o soltei, ele parecia totalmente chocado. Não consegui mais me segurar e comecei a rir, batendo a mão no balcão.
—Eu saio por alguns minutos e vocês estão se beijando quando volto?-Jack perguntou, sentando ao meu lado direito. -Doutor, parece que você viu um fantasma.
—Ela me beijou!
—E você tinha que ver a sua cara!-Comentei, sem conseguir parar de rir. -Se você ficou assim com um beijo, imagine se eu...
—Tudo bem, tudo bem, você pode parar por aí. -Ajeitou a gravata borboleta. -Você pode até tentar, mas seremos apenas bons amigos... -Minha risada se tornou mais alta.
—Você vai me matar de rir!-Respirei fundo, tentando parar de rir. -Doutor, desculpe, mas você não faz meu tipo. Bem... Eu poderia reconsiderar, caso você...
—Ametista!
—É brincadeira!-Fiz gesto de rendição. -Mas se você quiser, eu quero.
—Ametista!-Abaixei a cabeça nos braços, não aguentando mais rir.
—Um conselho, Doutor. -Jack começou. -Se esquentar com isso, é aí que ela não para mais.
—Tudo bem, desculpa!-Pedi, parando de rir e erguendo a cabeça para encarar o Senhor do Tempo. -É só brincadeira, eu juro.
—Eu sei que é. -Avisou, então sorriu. -E, para constar... Eu não estou interessado em você.
—Se você diz... -Segurei o riso. -Que assim seja.
De repentes, gritos histéricos fizeram todo mundo se assustar, e a música parar de tocar. O Doutor saiu correndo para fora do bar, Jack e eu trocamos olhares e fomos atrás dele.
Havia uma mulher na rua, gritando e chorando. Alguns homens pareciam estar tentando contê-la, o que estava a deixando mais nervosa.
—Parem com isso, idiotas. -Mandei, me colocando entre eles e a mulher. -Se afastem!-Os homens recuaram. -Tudo bem. Qual é o seu nome?-Me virei para a mulher.
—Anastácia.
—Eu sou Ametista. Quer me contar o que houve?-Fungou, assentindo.
—Meu irmão, Peter, desapareceu. O xerife insiste em dizer que ele fugiu, mas sei que não. Sumiram com ele. Sumiram com meu irmão. -Cobriu o rosto com as mãos, chorando de novo. Olhei para Jack e o Doutor, atrás de mim, e voltei a encarar Anastácia.
—Nós vamos ajudar você. Vamos te ajudar a achar seu irmão. Quando o viu pela última vez?
—Ontem. Ele estava agitado por perder o trabalho da mina, que o maldito xerife mandou fechar. Então saiu e não o vi mais.
—Certo. Vamos falar com o xerife... Depois vemos o que fazer a seguir.
***
—Talvez deva deixar o Doutor ou eu falar. -Jack sugeriu, caminhando ao meu lado, enquanto o Senhor do Tempo estava atrás de nós, com Anastácia. -Você não lida bem com figuras de autoridade.
—Está tudo sob controle.
Empurrei a porta da delegacia. O xerife, quase tão largo quanto sua mesa, guardou uns papéis e olhou pra nós, irritado.
—Mas o que é...
—O irmão dessa mulher sumiu. -Interrompi. -Queremos reportar o desaparecimento.
—O caso foi encerrado. -Ergui uma sobrancelha.
—Foi? E a conclusão é...?
—Peter Stane fugiu, certamente envergonhado com a irmã que tinha. -Anastácia correu para fora.
—Envergonhado?
—Qualquer um se envergonharia tendo uma prostituta como irmã.
—Como é que é?-Me apoiei na mesa dele, me inclinando em sua direção.- Pegue essa estrela dourada e bem polida no seu peito e enfie ela bem no seu...
—Como ousa?- Ficou de pé. Jack me puxou para trás.
—Sinto muito, xerife. -Pediu, tentando me segurar, no mínimo sabendo que eu ia partir para a violência em segundos. -Ela é de um povo nada civilizado. -E saiu me puxando para fora. -Está tentando ser presa?
—Você ouviu o que ele disse?
O Doutor foi o último sair, ficando um tempo na porta e lançando alguns olhares para dentro da delegacia e quando saiu, pegou a chave de fenda sônica, scaneando em volta.
—Alerta alienígena?-Perguntei.
—Ainda não.
—Acho que devíamos nos dividir. -Jack disse. -Vocês falam com Anastácia. Vou dar uma olhada na mina. Nos encontramos no bar há uma hora.
—Tome cuidado. -Pedi. Ele assentiu.
—Vocês também.
Nos separamos. O Doutor e eu seguimos com Anastácia até a casa dela. A garota nos pediu para sentar e foi atrás de algo para bebermos. O Senhor do Tempo, agitado, ficou andando pela sala.
—Desculpem pela bagunça. –Anastácia pediu, deixando os copos e a jarra na mesinha entre nós, então se sentou. -Eu... Trabalho a noite toda e com o que houve não tive tempo de arrumar a casa.
—Se importa se eu olhar o quarto do seu irmão?-O Doutor perguntou.
—Ah... Tudo bem. É a última porta, por ali. -Apontou. O Senhor do Tempo olhou pra mim e sumiu pelo corredor.
—Anastácia, você e seu irmão brigaram?-Perguntei.
—Não. De jeito nenhum. –Afastou o cabelo loiro do rosto. -Sempre nos demos bem. E ele nunca ligou para o meu... Trabalho.
—Não precisa se envergonhar. Ninguém pode julgar você.
—O que mais fazem nessa cidade é julgar. Só tenho meu irmão, mais ninguém. Se... Se algo aconteceu com Peter... Eu vou ficar sozinha.
—Você acha que ele ia até a mina?
—Não seria impossível. É proibido ir até lá agora, mas meu irmão estava tão irritado...
—Por que é proibido?-Deu de ombros.
—Eu não sei. É o que o xerife diz. Muitos estão sem emprego por causa disso. Mas tem medo demais para ir até lá. -Apertou as mãos no colo. -Não me importo se meu irmão quebrou a lei... Só quero ele de volta.
***
—As coisas de Peter estão no quarto, ele não fugiu. -O Doutor comentou, ao meu lado na frente do bar. -Ninguém foge sem nada.
—Minha teoria é de que ele foi até a mina e isso acabou mal. É proibido ir até lá e o xerife não liga para o desaparecimento de Peter... Acho que isso está conectado.
—Faz muito sentido. -Checou seu relógio. -Jack já devia ter voltado da mina. -Olhei em volta.
—Vamos atrás dele...
—Devíamos esperar.
—Então espere você. -Comecei andar na direção indicada por uma placa.
—Ametista...
—Estou com um mal pressentimento. -Correu para me acompanhar. -E normalmente estou certa quando sinto isso.
E eu, infelizmente, estava certa dessa vez também.
Jack estava caído na estradinha que levava até a mina. Comecei a correr até ele, mas uma salva de tiros vindos do alto fez o Doutor agarrar minha cintura e me puxar para trás de uma pedra grande.
—Dá pra ter uma ideia do que houve com Peter!-Gritou.
—Nós temos que tirar o Jack do meio do caminho!
—Se sairmos daqui vamos ser baleados!-Peguei minha arma.
—Eu atiro, você puxa o Jack pra cá.
—Não gostei desse plano.
—Você tem outro?-Olhou pra mim com aquele desespero de quem precisa pensar e não consegue. -Quando eu contar até três...
—Ametista...
—Um. Dois. Três!
Me ergui, começando a atirar. O Doutor correu até Jack, puxando-o para trás da pedra. Voltei a me abaixar. Mais tiros vindos do alto.
—Jack?-Chamei, tocando seu rosto.- Jack, acorda, por favor...
A chuva de tiros aumentou, acertando a pedra e fazendo pedaços dela voarem. Me abaixei, abraçando Jack, enquanto o Doutor tentava me proteger com o próprio corpo.
—Nós vamos morrer!-Gritei.
—Não vamos, não!-Tirou a chave de fenda sônica do bolso. -Fique abaixada!-Agarrei o braço dele.
—O que vai fazer? Doutor!
Ficou de pé, apontando a chave de fenda sônica na direção do morro de onde vinham os tiros, que de repente cessaram.
—Agora nós corremos!-Gritou, pegando um dos braços de Jack. Fiquei de pé, ajudando-o. -Vamos, antes que consigam atirar outra vez!
***
Quando Jack acordou, nos contou que foi barrado por irmãos gêmeos no caminho para a mina e eles disseram que ele não podia ir até lá. Quando insistiu, atiraram nele.
Ficou claro que havia algo na mina, e nós tínhamos que descobrir o que era.
Pegamos um mapa da cidade com a mulher que deu em cima do Doutor no bar. Leona parecia bem disposta a ajudar, mesmo sem saber de nada. Achava que éramos apenas três forasteiros atrás de encrenca. O que, em parte, nós éramos.
Nos separamos de novo. Jack sugeriu ser a distração dos gêmeos, enquanto o Doutor e eu seguíamos por outro caminho até a mina. Não fiquei muito feliz com o plano, alertando Jack de que poderiam atirar nele de novo, mas ele não deu muita bola.
—Você sabe que ele vai ficar bem. -O Doutor comentou, entrando na mina com a chave de fenda sônica na mão. Ergui a lamparina, seguindo-o.
—Eu sei que Jack é imortal, mas me preocupo com ele. Não sabemos se há um limite ou... Algo capaz de matá-lo. -Fiz uma pausa. -O que acha que tem aí?
—Não faço ideia, mas tenho minhas suspeitas.
—Então as compartilhe.
—Quero ter absoluta certeza antes de dizer algo. -Olhei pra ele.
—É tão preocupante assim?
—Depende do ponto de vista... O que é aquilo?
Me aproximei de uma das caixas. Havia várias e várias delas. Meu coração acelerou com o reconhecimento.
—Explosivos. São explosivos. Não são usados em mineração, sequer são da Terra. -Olhei para o Doutor. -Duas caixas dessas já fariam a cidade e boa parte do deserto ir pelos ares. Essa quantidade toda é capaz de uma destruição indescritível.
—Se não são terrestres... O que esses explosivos estão fazendo aqui? E quem os trouxe para cá?
Ouvimos uma risadinha atrás de nós e nos viramos. Havia uma mulher lá, com uma cara debochada e o vestido quase rasgando por não caber no corpo grande. Ela era quase tão gorda quanto o xerife.
—Ninguém segue regras nessa cidade?-Perguntou. -A mina é local proibido, é um crime entrar aqui. Um crime punido com a morte. -Ergueu as mãos para a testa, e então foi abrindo-a com com zíper. Arregalei os olhos.
—Mas que diabos...
O Doutor agarrou minha mão, me puxando para a saída. A lamparina caiu, ficando esquecida para trás.
—Minha teoria estava certa!-O Senhor do Tempo exclamou.- E eu não devia estar feliz por isso!
—Jack me contou sobre coisas com zíper na testa...
—São Slitheen!
—Não estavam mortos?
—Aquela ali parecia bem viva!
Saímos da mina, pegando o caminho que tínhamos usado antes, para não cruzarmos com os gêmeos.
O Doutor parou de correr de repente. Aproveitei para respirar.
—Tis.
—Sim?-Me encarou.
—Onde vamos conseguir vinagre?
***
—Não vão me dizer o que estão armando?-Leona perguntou. Ela tinha ficado bem feliz em continuar ajudando.
—Não. -Respondi, sem tirar os olhos do que estava fazendo. -Jack, me passa aquela peça ali.
Leona cedeu seu quarto para ser nossa base, nos arrumou vinagre, algumas coisas que eu pedi para construir uma arma, e até nos trouxe um lanchinho.
—O que está construindo?-Espiou por cima do meu ombro.
—Uma arma capaz de disparar o vinagre.
—O que vão fazer com isso?-A encarei.
—Adoraria se parasse com as preguntas. -Sorriu. O Doutor voltou e se jogou na cama de Leona. -Tudo certo?
—Sim. -Respondeu. -Já dei ao recado para o xerife. Ele, os filhos e a esposa vão nos encontrar mais tarde. Como vai a... Arma?
—Quase pronta.
—Espero que tenha entendido o que eu disse antes: a arma é um plano reserva. Eu quero falar com os Slitheen e convencê-los a ir embora. -O encarei.
—Você sabe que seu plano nunca vai funcionar. E aí eu vou atirar neles e fazê-los explodir.
—Jack ficará com a arma.
—A arma é minha!
—E eu estou no comando. -Suspirei.
—Se os Slitheen te matarem, eu juro que volto no tempo e chuto seu traseiro. -Sorriu.
—Não acho que será necessário. -Todos olhamos para Leona, que nos encarava com o rosto apoiado na mão.
—Vocês tem umas conversas bem estranhas. -Comentou. Ri.
—Você ainda não viu nada. -Avisei.
***
—Ainda acho que ele vai se matar com esse plano. -Murmurei, deitada ao lado de Jack no morro. Abaixo de nós, o Doutor se aproximava dos Slitheen.
—Ele vai ficar bem. -Ajeitou a arma.
—Eu deveria ser a atiradora. Sou melhor do que você nisso.
—Já vi o que você é capaz de fazer numa situação de risco. Esvaziou o pente da sua arma num homem desarmado. -Não olhei pra ele.
—Você não sabe a ameaça que ele representava.
—E, ao que parece, nunca vou saber.
—Não se depender de mim.
—Shh, acho que a conversa começou.
Não dava pra ouvir direito o que estava sendo dito, mas o Doutor parecia estar indo bem, e demonstrava calma. Já os bichos verdes e horrorosos que eram os Slitheen, aparentavam impaciência e raiva.
—Tenho a sensação de que vão pra cima dele a qualquer momento. -Sussurrei. Os Slitheen foram para frente. -Jack.
—Ele não deu o sinal.
—Jack, eles estão avançando...
—Não posso atirar se ele não der o sinal.
—Ele não vai dar o sinal nem se eles o agarrarem pelo pescoço e você sabe disso.
Tentei agarrar a arma, Jack bateu o ombro no meu para me afastar, aí os Slitheen atacaram o Doutor.
—Atira!-Gritei.
Jack se ajeitou e começou a atirar. Fiquei de pé e corri para descer até a estrada, minha arma em mãos.
Quando cheguei lá, o Doutor estava sozinho. Jack tinha acabado com os Slitheen.
—Você está bem?-Perguntei, guardando a arma e colocando a mão no ombro do Doutor.
—Uma nave. Eles queriam uma nave que estava abaixo da mina, e por isso iam explodir a cidade toda. Aí conseguiriam aqueles explosivos, e pensaram em explodir mais do que uma cidadezinha no meio do nada.
—E é o que teriam feito se nós não...
—Eu sei. Só não gosto quando termina assim. -E começou a andar para a cidade. Jack se aproximou, suspirando.
—Ele vai ficar bem?
—Vai. -Respondeu. -Ele vai, sim.
***
Jack achou que Leona devia ser agradecida antes que fôssemos embora, por isso desapareceu com ela na direção do bar.
O Doutor e eu fomos contar a Anastácia que seu irmão tinha morrido. Os Slitheen confessaram sua morte, já que Peter viu demais na mina. Quando a garota começou a chorar, eu sabia que nada do que diria a ela funcionaria, então a abracei. Ela estava sozinha agora, e eu torcia para que não durasse muito. Conhecia a sensação e a odiava profundamente.
—Você foi gentil ao tentar consolar Anastácia. -O Doutor comentou, encostado na TARDIS ao meu lado.
—Pessoas às vezes passam por momentos de dor e precisam de alguém que as ajude a ficar de pé. Passei por inúmeros momentos e assim e não havia ninguém lá por mim. Não desejo isso a ninguém.
—Mas agora não é mais assim.
—Não, não é. -Olhei para o céu. -Doutor... Onde estava? Desde que entrei na Torchwood tivemos problemas dignos da sua atenção, coisas que mal conseguimos resolver. Onde você estava?
—Ametista, o Universo é insanamente enorme. São muitas e muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Não posso resolver tudo. E, até onde vejo, vocês conseguiram fazer seu trabalho muito bem. -Sorri, o encarando.
—É. Mas me faça um favor e não suma. Podemos precisar de ajuda.
—Vou tentar, Tis... Vou tentar.



Notas finais do capítulo

Bem, uma vez teve um monstro gigante no meio da cidade, em Torchwood. É. Maluquice.
Essa conversa final do Doutor sempre sumir é por que realmente ele some quando há coisas grandiosas acontecendo na Terra, em Torchwood. Eu entendo os motivos para não ter o Doutor na série, mas mesmo assim é estranho esse sumiço em horas tão inapropriadas.
Enfim... Estamos na reta final e Ametista e Jack terão seus mundos virados de ponta cabeça no próximo capítulo.
Até maaais! ♥



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