Requiem Aeternam escrita por AnaBonagamba


Capítulo 3
Offertoire




Riddle praticamente insistira que eu posasse no orfanato. Tão previsível. Recusei educadamente, deixando o endereço da pensão onde eu me acomodaria. Parti depressa, agradecendo por sua atenção, e senti um arrepio ao tocar-lhe as mãos num cumprimento. Claro, pensei, não seria diferente, já que me acostumara com sua figura espectral das memórias passadas, estas agora meu real presente. Suspirei.

A pensão era reservada apenas para mulheres, mas não se via muitas jovens como eu, não solitárias. Famílias inteiras dividiam os quartos, o movimento no interior do imóvel simples era grande. Dirigi-me ao balcão de entrada.

— Tenho uma reserva. - tirei do bolso um bilhete, meu cartão de visitas e dinheiro. A dona do estabelecimento olhou-me desconfiada.

— Ficará sozinha? - perguntou ela, levantando as sobrancelhas numa atitude bizarra. - Hm, seja cautelosa, não nos responsabilizamos por danos, esteja ciente.

— Posso cuidar de mim mesma. - respondi a altura.

— O jantar logo será servido - informou-me, entregando a chave do quarto logo após conferir a originalidade das libras.

Segui sem pressa, ouvindo os burburinhos das moças que me viam chegar desacompanhada. Tempos árduos para as mulheres, pior para as jovens, quem dirá as órfãs. Desfiz parte da minha bagagem magicamente, usando a varinha. Snape e Dumbledore foram muito cautelosos ao manter meu éter mágico inalterado, usando unicamente a poção rejuvenescedora para que eu parecesse mais nova. No fundo eu ainda era Valery, tinha 24 anos recém completados e a maioridade adquirida há muito.

Tudo estava saindo como planejado. Tom Riddle apareceria logo pela manhã para ajudar-me com meu material escolar, quem sabe, um passeio interessante que lhe despertasse o interesse para comigo. Se confiasse em mim, tudo seria mais fácil. E assim seria, de fato. Conforme as horas passavam, sentia-me fria e triste, mas não menos confiante. Ao descer para comer, observei os casais e seus filhos partilhando a devoção ao alimento como nunca tinha visto antes. A guerra, mesmo que terrível, traria um longo período de paz e prosperidade para os trouxas, que experimentariam da Inglaterra uma nação exemplar no mundo. Fixei minha atenção em uma garotinha de longos cabelos negros e lisos, envolvidos por um laço rosa, que se negava a comer os legumes. A mãe, persistente, ameaçava:

— Se não comer tudinho, não terá sobremesa hoje.

Ri. O mesmo argumento com tantas décadas de distância! Não convivi o suficiente com meus pais. Assassinados por comensais da morte, muito cedo conheci a solidão. É mais fácil amaldiçoar a escuridão que acender uma vela. Victoria. Fui forte e corajosa por ela, para criá-la feliz, dar-lhe a chance de um futuro diferente desde quando era uma bebê órfã totalmente dependente. Mas como? Se o poder de Voldemort só crescia, faltava tão pouco, e já estávamos perdidos. Estavam. Eu não estava mais entre eles. Mergulhei a colher na sopa, desviando-me da conjectura.

— Posso me sentar? - um rapaz loiro adiantou-se na cadeira a minha frente. - Vi que está por própria conta. - acrescentou.

— Sim, de passagem pela cidade em busca de parentes distantes. - contei-lhe o que pude, para fragilizar-me diante da situação. O garoto pareceu gostar da minha história. - E você? - amaldiçoei-me mentalmente, tendo jurado que não me envolveria com outros no passado senão aqueles cujo plano integrava.

— Estou bem distante da minha família. - ele abaixou os olhos. Mal tinha percebido que seus traços cansados escondiam marcas profundas da batalha, e então me compadeci.

— Eu sinto muito.

— Eu também.

Não precisei dizer mais nada ao passar da refeição. Despedi-me com um aceno e me recolhi, sem esperar por sonhos ou pesadelos, apenas uma dimensão cinza e silenciosa.

— A senhorita não parece ter tido uma noite agradável.  - Tom comentou enquanto andávamos rumo ao Beco Diagonal. Sorri, ele estava certo.

— É uma mudança e tanto. - arrisquei uma verdade. - Estar aqui, quero dizer, mudou completamente meu destino.

Riddle esboçou um sorriso, talvez o mais gentil que soubesse dar. Tomando a frente, investiu contra a parede mágica revelando a passagem secreta. Inspirei profundamente, afastando com oclumência qualquer pensamento referente àquele lugar.

— Vamos primeiro à Floreios e Borrões. - disse ele, gesticulando o caminho. - Lá poderá adquirir seus livros de magia. Creio que será selecionada para o quarto ano...?

— Quinto. - corrigi.

— Hm. Uma manobra arriscada, já que a senhorita, se me permite a ousadia, nunca teve contato com habilidades mágicas específicas, incapazes de serem trabalhadas no ambiente doméstico.

Concordei novamente com um sorriso.

— Acredito que o Diretor Dippet orientará nossos professores a me testarem, se for este o caso. Estou apta a aprender tudo o mais rápido possível.

A loja de livros, pergaminhos e afins estava exatamente como eu me lembrava. Entrara ali diversas vezes, fosse em meus anos de aluna ou conduzindo Victoria em seus delírios consumistas. Felizmente nossa família herdara um brasão tradicional do mundo bruxo, o dos West, que nos garantia uma condição financeira despreocupada. E eu, exercendo mais papel de irmã que mãe, jamais negara qualquer coisa que Victoria quisesse.

— Já que é assim, vou montar seus materiais em acordo com os meus.

— Você está no quinto ano? - demonstrei surpresa.

— Naturalmente.

Tom andava habilidosamente pelos corredores da loja, subindo e descendo as escadas das estantes cada vez com o livro diferente em mãos. Alguns o cumprimentavam, o que ele fazia questão de retribuir com bastante polidez. Notei que suas vestes eram melhores que as do dia anterior, mas ainda simples e remendadas. Uma calça social cinza bastante grande na cintura magra, e a camisa de igual cor não lhe caia de maneira adequada. Aos poucos a montanha de livros estava na minha frente, organizada por títulos. Riddle apenas observava fascinado, passando os dedos compridos pelas bordas da brochura.

— Deixará aqui uma pequena fortuna. - disse ele, computando mentalmente o valor da minha compra. - Existem financiamentos para alunos em situação, digamos, limitada. Você pode solicitar o orçamento e encaminhá-lo para Hogwarts depois.

— Estou com uma boa reserva. - garanti, balançando meu moedeiro. - Não pretendo gastar  mais do que o necessário.

Ele apenas deu de ombros.

— Importa-se se eu der uma olhada no resto?

Dei de ombros em resposta.

Riddle não se afastou muito, fitando as estantes de novidades com olhar de desejo. Tinha o hábito de passar a ponta dos dedos pelas capas que lhe cativava e, com pesar, percebi o quanto gostaria de comprar livros novos. Pobre rapaz, quem ali o vê é incapaz de imaginar seu futuro. Aproximo-me sem que se disperse.

— É relevante? - questionei, lendo o título da obra. - "Magia aplicada a níveis impossíveis".

— Não sei, só poderei lê-lo quando alguém o dispensar. - ele respondeu secamente.

— Muito bem então. - tomei o volume de suas mãos gentilmente, empilhando-o junto de meu material. - Você pode ler primeiro.

Tom sorriu sem graça, as bochechas coradas. Merlin, isso era divertido!

— Não vou aceitar, Srta. Não é apropriado.

— Não estou exatamente dando a você. É meu, apenas vou emprestá-lo.

— Por que faria isso? - ele parecia não crer que eu fosse capaz de agradá-lo. - O que ganha em comprá-lo?

— Um motivo para conversar contigo, ao que parece. E também agradecê-lo pela companhia. - falei sustentando seu olhar negro.

Tom corou ainda mais. Paguei nossas compras, sendo reduzidas por um feitiço a uma única sacola e saí da loja, voltando para a calçada.

— O que sabe de Hogwarts, Srta. Westwood?

— O que contam as histórias. - comecei a andar pela via com ele ao meu lado, os braços para trás demonstrando atenção. - É a maior escola de Magia e Bruxaria da Europa, possui quatro casas, de quatro fundadores diferentes, cada uma com sua particularidade e seus membros são escolhidos por afinidade, pelo Chapéu Seletor.

— E a Srta. imagina em que casa será recebida?

— Ainda não pensei nisso. - menti convencidamente. - Ninguém da minha família estudou em Hogwarts, aliás, em escola alguma senão Durmstrang. Porém, como o senhor deve saber, nós mulheres não somos aceitas por lá. - informação valiosa lhe dispus, e logo percebi uma mudança em sua postura. Se minha família era oriunda da Europa e parte havia estudado em Durmstrang ele logo presumiria que eu fosse sangue puro ou, na pior hipótese, uma mestiça.

Sabia o quão isso era importante.

— Teremos de esperar pela surpresa da seleção, pois. - ele sorriu indiferente.

— Não consigo me sentir ansiosa. - contei-lhe displicente. Tom jogou o cabelo para o lado com um aceno da cabeça e, ao endireitar-se, mudou de caminho. - Onde está indo?

— Apenas desviando de pessoas que não valem a pena. - ele confessou num sussurro. - Vamos dar a volta pelo outro lado.

Não consegui identificar os rostos dos quais Tom se escondia, mas notei sua respiração pouco acelerada. Se estava envergonhado em aparecer junto de mim pelo receio de algo inédito, eu jamais saberia e, vendo minha indagação, acrescentou.

— Eu não costumo frequentar o Beco Diagonal.

— Por quê?

 - Não tenho condições suficientes de comprar um livro sequer, Srta., como já deve ter concluído por si mesma. Todo meu material é de reuso, doado pela escola. A primeira e última vez que vim aqui foi no primeiro ano do curso, mais por curiosidade que necessidade.

Apenas recitava tudo o que eu já sabia.

— Sinto muito ter feito você passar por isso, Tom. - desculpei-me com sinceridade. Mesmo sabendo quem viria a tornar-se, aquele rapaz já tão cruel e desalmado me inspirava pena. Um contraste tremendo entre a personalidade forte de Voldemort e a fragilidade do menino que ainda era.

— Você é uma moça solitária em uma situação de dificuldade, eu não deixaria de ajudá-la mesmo que Dumbledore não o tivesse pedido. - de certo, um cavalheiro.

A menção do nome de Dumbledore causou-me uma sensação de instabilidade. Lembrar do professor sempre seria uma porta aberta para meu passado-futuro. Em poucos minutos já estávamos novamente nas ruas cinzas de Londres, a caminho da pensão. Distraidamente absorta em pleno silêncio, não reagi quando um carro descontrolado avançou calçada acima na minha direção, sendo rapidamente empurrada por Tom para o lado. O veículo atravessou a parede, que desabou sobre ele numa nuvem de poeira e fumaça. Caímos os dois na guia.

— Você está bem? - perguntou nervosamente, segurando meus ombros com força. Eu, por outro lado, mal sentia o aperto.

O tempo é o maior estado de equilíbrio da alma. Pra que ter pressa, se o futuro é a morte? Romper com suas barreiras é uma atitude contra a natureza do universo, não sendo injustiçada pela própria sorte de estar ali viva, eu não deveria realmente estar ali.

O universo, logicamente, tentaria corrigir este erro.

— Valery? - Tom me chamou, procurando por algum ferimento grave que poderia ter surgido. Sua agilidade o fez meu salvador. Pisquei, recuperando o controle de minha mente.

— Estou bem, obrigada. - ergui-me sem dificuldade, mas senti seu braço firme sustentando minha cintura.

Os trouxas se aglomeraram nas redondezas para ver o ocorrido. Alguns repetiam-me a pergunta "você está bem" tantas vezes que parei de escutar. Com certa curiosidade aguardei que alguns deles retirassem os fragmentos de tijolo do carro e abrissem a porta, talvez esperando achar o cadáver do irresponsável. Prontamente minha suspeita confirmou-se: não havia ninguém ali.

— Deve ter esquecido de acionar o freio. - comentou um senhor de barbas longas e olhos analistas.         

— É um milagre estar viva, menina. - disse outro.

— Milagre. - sussurrei para mim mesma, vendo Tom com os olhos cerrados pela adrenalina ainda a segurar-me. - Milagre.



Notas finais do capítulo

Já temos alguma movimentação por aqui? :)



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