WSU's Raiju escrita por Lex Luthor, WSUniverse


Capítulo 8
Futuro




E antes de acontecer

O Sol a barra vir quebrar

Estarei nos teus braços

Para nunca mais voar

 

O garoto, com palavras atrapalhadas, tentava acompanhar a cantoria, sempre escorrendo na letra.

Quando a campainha tocou, os dedos da mão direita de Osíris deixaram de bater nas cordas do violão.

Ele levantou-se desconfiado e, segurando o instrumento pelo braço, disse:

— Pro quarto, Arthur. — A criança, chupando o polegar esquerdo e segurando o próprio lóbulo com a outra mão, balançou a cabeça negativamente. — Vai agora lá pra cima! — gritou o pai, nervoso.

Assustado, o garoto correu pela sala e, das escadas, observou o pai atender a porta por entre as grades do corrimão de madeira, sem tirar o dedão da boca.

 — Oi — cumprimentou a mulher loura, usando um tapa-olho. — Posso entrar? Tá chovendo.

Osíris estendeu sua mão, a impedindo de entrar.

— Sabe que não vou deixar que você o veja, Patrícia — falou num tom sério. — Ele não pode saber da mãe que tem.

— E o que você tem de diferente da minha pessoa, Osíris? — indagou irritada. — Construímos tudo juntos e eu só te pedi mais um roubo! — gritou, aborrecida. — Temos um filho agora!

Os pingos da chuva molhavam o suéter azul claro e os fios loiros e quase brancos dela.

— Vou torrar cada centavo sujo com a cirurgia de retirada do tumor dele! — esbravejou, aproximando-se agressivamente da mulher.

Impaciente, ela cerrou os olhos.

 — Mas não vou dar o gosto dele crescer entre ladrões — sussurrou com o rosto próximo ao dela. — Nunca quisemos isso pra ele, só que você esqueceu de tudo na sua fantasia de luxo podre e arrogante.

A loira abriu os seus olhos e logo viu uma gota de sangue escorrer do nariz dele e se misturou aos pingos de chuva.

— E você, caralho?! — indagou, irritada. — Já removemos duas vezes o tumor do Arthur, mas quanto tempo você vai durar e deixar meu filho para os meus cuidados?

— Isso nunca vai acontecer — respondeu a encarando, com um sorriso amarelo no rosto. — Eu sempre vou estar olhando para ele, pra cada passo do meu menino.

Ela inspirou, olhando-o impaciente.

— Isso é ridículo! Não precisamos ser inimigos, Osíris. — Deu um passo para trás. — Só preciso de você mais uma vez, de suas habilidades.

Ele olhou para a grama encharcada do jardim.

— Em quantas possibilidades eu morro? — perguntou, erguendo a cabeça e mirando para a lua entre as nuvens de chuva.

Sentiu os pingos atritarem com seu rosto e cerrou os olhos.

— Eu diria que uma para cada dez — respondeu a loira, confiante. — Tomaremos cuidado para que não aconteça. Não há anomalias gravitacionais, poderei prever tudo.

Dando uma risada cínica, ele a mirou.

— Como quando o caixa eletrônico estourou no seu olho? — indagou, provocativo.

— Vai à merda, defunto — disse a loira mostrando o dedo médio e lhe dando as costas. — Espero que definhe lentamente — desejou, ao sair.

Ela caminhou pela passarela de cimento entre o gramado verde, até chegar na calçada, atravessar a rua e entrar num Corola vermelho do ano.

— E então? — perguntou o motorista ruivo, com um vasto bigode debaixo do nariz.

— Não topou, Kelvin — respondeu inconsolada e molhada.

 — Vamos fazer isso nós dois, então. — Ele levou a mão à barriga da loira. — Pela nossa Cacá.

 

 

 

Avenida Presidente Vargas, Primavera

Motel OK

 

O velocista sentia como se todos o quisessem enganar ali, mas com os muitos miligramas de tranquilizantes em sua corrente sanguínea, nada podia fazer como resposta.

— Não é só isso, Arthur — explicou Catarina. — Você precisa sair daqui agora.

— Aí, se quiser a porcaria dos nanobots de volta, pode levar — disse Aars. — O combinado não foi esse, vocês têm que dar o fora de Primavera.

— O que tá acontecendo aqui, porra?! — o grito do dopado ecoou pelo quarto.

O casal se entreolhou e a garota consentiu com a cabeça.

— Eu desenvolvi os nanobots quando trabalhava para a ANIC — explicou o hacker calmamente —, mas eles foram parar no mercado negro quando a população saqueou os escombros do atentado do Rio em 2016.

Arthur olhava para tudo atentamente, nem mesmo piscava, para não perder um detalhe.

— A gente recuperou — completou a garota —, mas só entregaríamos para o seu tratamento com uma condição.

O velocista sorriu ironicamente, olhando para baixo e segurando a cintura com as duas mãos.

— Me fazer de otário? — perguntou, franzindo o cenho de raiva.

— Querem que você use sua velocidade e vá para o futuro, cara — respondeu Aars.

De olhos arregalados, suspirou ao ouvir seu irmão.

 — Você precisa falar com a sua mãe — apelou o hacker, indo em direção a Catarina e segurando suas mãos. — Não podem fazer essa loucura, ele não vai resistir ao acelerador.

A garota, vendo a preocupação nos olhos machucados de seu companheiro, respondeu:

— Ele não vai — falou confiante —, mas vamos ter que trabalhar juntos.

— O que você quer, Catarina? — questionou Aarseth, desconfiado.

Ela olhou para o irmão, séria.

— Eu não vou sujar minhas mãos com seu sangue — respondeu, olhando para velocista. — Algo muito ruim vai acontecer e quero que o Raiju detenha os meus pais.

Ela pegou o notebook das mãos de Aarseth e teclou um botão.

— É hora de colocar um pouco de adrenalina nisso aqui.

As pupilas de Arthur se dilataram, tomando espaço da íris azulada. O velocista inspirou relaxando, se aliviando, enquanto via todos ali congelarem. Num piscar de olhos, já estava vestido de azul, como o Gladiador Dourado.

— Aonde eu tenho que ir? — indagou o Raiju, sério.

— Subestação de metrô, terminal B — respondeu a garota.

Aarseth deu uma risada, forçada.

— Não há lugar como o lar! — fingiu a animação na voz, coçando os cachos negros.

As faíscas de eletricidade invadiram o ambiente, quando o herói sumiu.

Sprint!

 

 

 

Avenida Presidente Vargas, Primavera

36ª Corrida Anual de Primavera

 

Estávamos apenas na metade da porra da prova, mas meus pulmões fizeram um pacto com o coração e, juntos, pareciam ter feito um pacto para me matar quebrando a minha caixa torácica. Não era algo normal ser a primeira pessoa a morrer nos primeiros quilômetros da corrida mais tradicional da cidade, era embaraçoso. Comecei a inspirar e exalar o ar vagarosamente e tentar controlar aquele incômodo.

Eu já podia ver os nossos pais lá na frente, incentivando Aarseth, que corria num bom ritmo, alguns metros de mim. Com gana nos olhos, disparei passando alguns competidores em minha frente.

— Sai do meio, velha! — esbravejei com a senhora grisalha e meio gordinha na minha frente.

Ela me olhou um pouco esquisito, mas eu não liguei na hora. Só depois eu fiquei um pouco envergonhado pelo que fiz... e por ter uma senhora de idade numa colocação melhor do que a minha. 

Sprint!

Já estava lado a lado com meu irmão mais novo.

— Sentiu minha falta — provoquei ofegante —, queridão?

Ele me olhou de lado, parecia espantado.

— Cara, você tá bem? — questionou-me, preocupado.

— Tô cem por cento! — bradei, apontando para as grades de proteção do meu lado direito. — Papai e mamãe! — gritei insanamente e ofegante.

Eles nos aplaudiram, animados.

— Vão lá, meninos! — Felícia incentivou. — Vocês conseguem!

Soltei aquele “uhu” de praxe. Porém, não demonstrando a mesma agitação, Herbert me olhou com o mesmo espanto com que Aarseth olhara antes.

— Vai com calma, Arthur! — gritou, como se avisasse algo.

 Foi então que vi as gostas de sangue verde tocarem a numeração na minha camisa. Limpei o meu nariz, o que chamou a atenção de meu irmão ao meu lado, desviando o foco em suas passadas, o que o fez tropeçar e cair.

Mesmo preocupado com aquele estranho plasma esverdeado e com a minha disputa pessoal com Aars, continuei a correr.

“Que se foda ele e o tornozelo” — pensei naquele momento.

 — Meu tornozelo! — gritou, desesperado e soltando um gemido.

Competitivo, não dei atenção. Era apenas um adversário lesionado. Diferente de mim, meu pai pulou a grade e os médicos da prova já estavam a caminho. Os grunhidos dele começaram a me incomodar.

— Vem, filho — disse Herbert, dando a mão para o garoto no chão levantar-se.

— Não, pai — rebateu, com dificuldade em falar. — Eu quero completar a prova.

Os gritos desesperados de nossa mãe adotiva, só deixavam o clima mais merda do que já estava.

— Não vai dar, Aars — lamentou o nosso pai, tentando confortá-lo. — Você torceu feio...

— Vai precisar de ajuda, pra terminar a prova. — falei, interrompendo Herbert com a minha chegada triunfal e salvadora.

Envolvi o braço esquerdo dele em meu pescoço, enquanto via a gente ser ultrapassado por um monte de gente. A senhora grisalha passou por mim mostrando o dedo médio.

— Baixa o Saci Pererê aí, moleque — incentivei meu irmão, que ia saltando agarrado em mim. — Vamos cruzar a linha na frente daquela velha escrota.

Os médicos já chegaram ao nosso lado.

— Tá tudo bem aí, filho? — indagou um deles.

— Sim — tomei a frente de Aarseth na resposta —, ele acaba de ser inscrito nos paratletas.

Eles riram, mas meu pai continuou preocupado.

— Volta lá, pai — pediu Aars. — Vou terminar essa prova com o Arthur.

— Tudo bem, garotos. — Ele sorriu. — Cuidado.

Enquanto ele voltava para a trás das grades de segurança, nós víamos cada vez mais competidores nos ultrapassarem.

— Algo me diz que a gente vai perder feio essa prova — analisou o meu irmão, saltando.

 

 

 

Subestação de metrô de Primavera, terminal B

Cinco minutos atrás

 

A agente Carol fiscalizava a tarefa de seus inúmeros peritos com máscaras de boca e luvas, procurando e recolhendo digitais e dispositivos eletrônicos do local. Foi então, que um de seus peritos se aproximou com um drive externo vermelho.

— Senhora — chamou o jovem rapaz, mostrando o dispositivo —, acha que eles seriam descuidados assim?

Observando o objeto, o tomou nas mãos.

— Pareciam bem mais espertos quando estavam do nosso lado — respondeu a mulher, cética. — De qualquer forma vou levar para a análise de digitais e perícia técnica.

A agente, com seu blazer e gravata, desceu da plataforma. Colocou um capacete preto de viseira prata e subiu numa moto. Pilotou em direção ao início da subestação, saindo pelo túnel de entrada do terminal A, onde uma picape preta da ANIC a esperava.

Parou próximo do carro e desceu de seu veículo, tirando a proteção da cabeça. Olhou para o túnel e viu uma agente trajada com o uniforme tático da agência sair. Não era alguém que via comumente, que reconhecia. Uma loira de meia-idade e óculos escuros. Estranhando, decidiu aproximar-se.

— Agente! — chamou Carol, a moça desviou de sua direção. — Com licença, agente!

Um estrondo ecoou pelos túneis, provocando um tremor e Trap se atirou ao chão para se proteger do que quer que fosse. Um zunido invadiu os seus ouvidos, sua visão estava coberta pela poeira.

No comunicador em sua cintura, foram transmitidos os gritos desesperado dos agentes dentro da subestação.

Carol, responda! — Atordoada, sua visão turva reproduzia a aproximação da loira peculiar, enquanto as vozes se misturavam ao chiado do dispositivo. — Houveram duas explosões calculadas nos terminais A e B! — gritou o a gente, desesperado. — Fomos soterrados!

Ela se levantou lentamente, apurando a vista atrapalhada pela poeira alta e caminhou em direção à loira, que tirou seus óculos revelando seu olho azul e também o outro branco.

— Saiam pelo portão de acesso à superfície — comandou atordoada, ao apertão o botão do comunicador.

Não dá! — gritou o agente desesperado, em resposta. — Tem uma camada de...

— De que?! — indagou ela, impaciente, aos gritos.

  — Gelo!

Logo, lhe veio à mente as imagens vazadas do banco com o velocista combatendo os assaltantes. Era a certeza de que aquela mulher infiltrada tinha parte nisso. Sacando sua arma, decidiu intimidá-la.

— Mãos ao alto! — ordenou com as duas mãos na pistola.

Azar parou e, com os olhos fechados, tinha um mapa mental do cenário. Se viu partir em direção da agente Trap, caindo após ser alvejada um tiro no ombro que disparado pela mesma. Era como se seu espírito deixasse o corpo com ela assistindo tudo, mas isso continuava a acontecer repetidas vezes e com as mais variadas consequências.

Numa oportunidade, conseguiu desarmar a mulher de terno empoeirado, sendo neutralizada por um mata-leão em seguida. As reações continuavam milhares e milhares de vezes e, se vendo sem sucesso em nenhuma, optou por nada fazer.

 

— Tudo bem! — respondeu, ao abrir os olhos. — Eu me entrego.

Ofereceu os pulsos para Carol, que tirou um par de algemas de coldre na cintura e guardou a arma.

— Um dia a casa cai, cachorrona! — disse a morena, encarando seriamente a meliante.

Ela se aproximou e algemou uma das mãos da criminosa, que cerrou os olhos novamente e, com a mão livre, puxou a corrente do objeto e prendeu a policial a si.

Trap pasmou ao ver a rápida ação da peculiar loira, que abriu os olhos com um sorriso malicioso. A agente tentou um soco com a mão livre, mas a ladra se esquivou e envolveu pescoço da adversária com a corrente da algema, puxando com uma força tamanha que fez, aos poucos, a mulher de terno ceder.

A poeira abaixava lentamente, a visibilidade dos agentes na picape já eram o bastante para estranharem a cena.

— Meu Deus, o que foi isso? — indagou, preocupado com a situação caótica.

Ele percebeu a silhueta das duas no chão e, percebendo que estavam em luta corporal, puxou a arma de seu coldre e mirou no que quer que fosse. Até que viu claramente a loira chorando consternada sobre o peito de Carol Trap desacordada.

— Ela foi atingida na cabeça! — berrou Azar. — Ajudem!

Rapidamente os agentes trataram de levar a líder da operação para a picape. Dentro do veículo perceberam as marcas de enforcamento no pescoço, mas quando se deram conta, a mulher já não estava entre eles, apenas a algema sem chave no chão.

Azar havia se livrado dos homens da lei e, com a moto de Trap, percorreu a avenida presidente Vargas. Viu os bombeiros chegarem para tentar socorrer a equipe soterrada da ANIC, até chegar ao portão do terminal F. Sua deixa.

 Ao entrar no local viu, da plataforma, um caminhão pipa sobre os trilhos da estação abandonada e Kelvin a esperá-la.

— Por qual motivo não matamos os agentes? — indagou irônico. — Não seria mais fácil?

— Claro! — respondeu rindo, sarcástica. — E aí, não teríamos o apoio dele.

— Beleza, Senhora do Destino.

— Não devia estar fazendo perguntas, era pra estar fazendo o buraco — falou ela, ao o ver parado.

— Mas disse que receberíamos visita — rebateu o homem grisalho.

A ventania invadiu a plataforma e, com ela, as faíscas de eletricidade. Na frente de ambos estava o Gladiador Azul de Primavera.

— Seja lá o que vocês estiveram querendo comigo — alertou a voz deformada do Raiju —, desistam.

Azar tomou a frente e se aproximou dele.

— Não queremos que você seja mais do que já é Arthur — respondeu a mulher —, um herói.

Estendeu a mão em direção ao azulado rapaz, ele tentou uma aproximação mais amigável.

De seu comunicador, Catarina o alertou:

Cuidado! — gritou a garota, desesperada. — Ela pode estar armando algo, consegue ver todas as possibilidades!

 O Gladiador Azul se afastou num movimento impercepitível aos olhos humanos e parou não muito distante a olhando desconfiado.

— Escute a sua mãe garoto! — esbravejou Zero-K. — O destino de todos os corrompidos está em jogo!

— Arthur, nesse momento o presidente está analisando uma pauta contra os corrompidos no congresso — Azar explicou-se. — Essa discussão vai durar por quatro meses, quando ele vai dar o veredito.

— E qual é? — indagou o herói.

Constrangida, ela suspirou.

— Pode ser favorável, pode ser um Ato Institucional para os de sangue verde, mas...

— Mas o quê?! — bradou, irritado.

O marido da ladra tomou a frente dela.

— Ela não sabe, beleza?! — rebateu aos gritos. — Tem uma anomalia gravitacional lá!

— Sim — concordou a loira, cabisbaixa —, algum agente temporal, ou singularidade e isso aumenta as variáveis. Não posso ver o que vai acontecer.

Naquele momento, Arthur pensou em Serena, em seus amigos do antigo Movimento dos Corrompidos, em seu irmão. Pensou nas pessoas cujo plasma esverdeado corria nas veias no Brasil e no resto do mundo.

— O que querem que eu faça? — indagou, reclinado a ouvi-los.

O casal se entreolhou, Azar voltou seus olhos para seu filho.

— Você precisa ir ao futuro e ver qual decisão ele vai tomar antes que se torne oficial — respondeu a mãe. — Se favorável a nós, você simplesmente volta.

— E se for um Estatuto abusivo? — perguntou o Gladiador Azul. — Ou pior ainda, se for um Ato abusivo?

— Então — respondeu Zero-K sorrindo, irônico —, você será um herói matando o senhor presidente Michel Rodrigues.





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