O Colecionador escrita por Kaline Bogard


Capítulo 1
Uma escolha e suas consequências


Notas iniciais do capítulo

E lá vamos nós! ♥



Tsume se arrependia de poucas coisas na vida. Era uma mulher intensa, que tomava decisões sempre visando o melhor. Se elas davam certo ou não, era outra questão. Mas seu lema pessoal era nunca se arrepender.

Exceto, claro, quando as consequências ruins envolviam outras pessoas... ou pior, envolviam a pequena criatura que não nasceu ainda.

Sim, ela estava no sétimo mês de gestação. Sentia-se perfeitamente capaz de continuar com as atividades do dia a dia, da mesma forma que fazia quando estava grávida de Hana, sua primogênita. Período que viveu tão bem quanto qualquer outra Inuzuka durante os nove meses de duração de uma gravidez normal.

Sua imprudência ignorava um fato primordial.

A segunda gestação não era “normal”.

Dentre todas as possibilidades possíveis, um shifter engravidar de um humano era das mais raras! E ali estava ela, carregando um mestiço no ventre, quando o clã sequer podia se lembrar do último meio-sangue que viveu entre eles.

Deveria ter sido mais prudente, ao invés de sair para a floresta com o barrigão para treinar os ninken da família.

Hana cansou de falar. Seus amigos deram conselhos. Porém Tsume era mulher forte e geniosa. Jamais deixaria de seguir a rotina a que estava acostumada para ter precaução com algo que era mais do que natural para a sua espécie: gerar vida nova.

Tal decisão pareceu acertada a medida que os meses passaram e ela entrou no sétimo. Continuou indo para a floresta e adestrar os animais. Até que, naquela manhã, os deuses resolveram castigar sua arrogância. Ela sentiu a primeira dor, reconhecida pela experiência como contração do parto. E o líquido que escorreu por suas pernas, sujando-lhe a calça a fez gelar de medo. O bebê resolveu vir ao mundo antes do previsto.

Não saberia dizer se por efeito da mistura de sangue humano com sangue lupino, mas o processo foi mais rápido do que se lembrava. Precisou sentar-se no chão, encostada em uma árvore, com tanta dor que não conseguiria voltar para casa.

Ordenou aos grandes cães que fossem buscar por ajuda, mas temia que não regressassem a tempo.

As dores que sentia eram horríveis, a fez temer pelo pior, pela segurança do filhotinho. Suor frio e abundante encharcou sua pele e as roupas que vestia. Oscilava no limiar da inconsciência quando notou a presença se materializando no ar. Um homem... ou um rapaz...? A imagem imprecisa e vaga trazia dúvidas... alguém vestindo um longo casaco de gola alta e óculos escuros, tão diáfano que parecia irreal, uma ilusão.

— Posso ajudá-la. Se quiser pagar o preço.

Essa foi a oferta que soou direto em sua cabeça. A dor e o receio de perder o filhote agiram como anestésicos, confundindo-lhe a mente. Foi incapaz de dar voz à resposta, ainda que seu coração respondesse por ela. Claro que queria ajuda para salvar a criança.

Claro que pagaria qualquer preço.

A próxima recordação que Tsume tinha, dizia respeito à filha se ajoelhando ao seu lado, emocionada a pegar o bebezinho recém-nascido aconchegado contra o peito da mãe. O nascimento do pequenino seria para sempre permeado pelo mistério, a cicatriz de cesariana que marcou o ventre de Tsume foi outro inexplicável acontecimento.

—--

A primeira visita aconteceu um ano depois. Exatamente no dia sete de julho, dia do aniversário de Inuzuka Kiba, nome que recebeu o menino nascido da união entre uma shifter e um humano, resultado de uma única noite de impulso.

Era noite e Tsume estava sentada no quarto do filho, encantada pela vitalidade e força que sentia do bebê. As marcas do Clã já dominavam as bochechas gorduchas, os olhos de íris animalesca desvendavam o mundo com tamanha curiosidade que Tsume nunca viu antes.

Ninava o filho de um lado para o outro, para que adormecesse, quando notou pela janela. Um vislumbre, rápido demais para ser levado como algo mais do que uma ilusão d’ótica criada pela noite, não fossem as circunstancias estranhas do pouco que Tsume se lembrava do momento que deu a luz. Reconheceria os trajes em qualquer lugar.

Não conseguiu sair do quarto do filho aquela noite. Nem em várias que se seguiram. Mas nada de inexplicável aconteceu, além de tal breve visita.

Visita. Assim que começou a chamar aquilo. Uma vez por ano, sempre no dia sete de julho, Tsume flagrava algum tipo de sinal ou prova de que a indistinta criatura viera visitar seu filho. Nunca deixava provas irrefutáveis, mas a mulher sabia que ele estava lá fora, no limite da cerca de madeira que marcava o perímetro do terreno da casa. A espreita.

Kiba cresceu como a estrela do Clã. Era o único mestiço entre eles, herdando características de ambas as espécies, tanto pontos fortes quanto fracos. Conseguia se curar de ferimentos tão rápido quanto os meninos-shifter (isso o salvou de vários castigos, pois os joelhos ralados sumiam antes que a mãe descobrisse). Tinha os sentidos ampliados: visão, audição, olfato, sexto sentido... justamente como a parte sobrenatural da família. E era imune a maioria de suas fraquezas: não se afetava com prata, nem com acônito. A lua cheia não influenciava suas ações, nem instigava a parte mais animal de sua mente.

Por outro lado, não era tão forte ou rápido quanto os meninos de sua idade, herdou isso da parte humana, sem dúvidas. Também não se transformava em lobo, e era o que doía mais. Enquanto os amiguinhos corriam livres pelo campo banhados pela luz da lua, Kiba só assistia, cheio de tristeza e inveja.

Seu cheiro também era diferente. Não cheirava como shifter, nem como humano, então ficou decidido por senso comum que aquele era o cheiro de um mestiço.

O que levava a outro ponto interessante: não se encaixava em nenhuma das premissas das castas: não tinha traços Alpha, nem Beta ou Ômega. Tornou-se apenas o “meio-sangue”, “mestiço”.

Enquanto crescia, aprendeu a lidar bem com as diferenças, adaptou-se às fraquezas e aos pontos fortes.

Ano após ano, crescia saudável, cheio de vida e energia. Era o centro das atenções onde quer que chegasse e adorava que prestassem atenção nele. Principalmente quando tinham contato com outra espécie shifter, que vinha para reuniões ou algum encontro entre os Conselhos. Um meio-sangue era raro até entre raças como os coelhos e macacos, reprodutores natos que geravam filhotes em profusão.

Eventualmente, Kiba também percebeu a figura fantasmagórica que vinha visitá-lo em seu aniversário. Sua mãe contou a história, mesmo que ela própria não soubesse de todas as lacunas. Tsume se viu presa em um momento de agonia e forte magia veio ajudá-la. Haveria um preço, mas ninguém sabia qual.

Kiba não conseguiu segurar a curiosidade, claro. Tentou contato por duas vezes, mas a imagem translúcida parecia feita de sonho. Um olhar direto para o misterioso homem (às vezes parecia um garoto, Kiba não tinha certeza) e era como se ele nunca tivesse estado ali!

Tentou adivinhar a natureza daquela pessoa. Não era um shifter, com certeza. Nem um elfo. Anão nem pensar (mesmo na forma de menino, já parecia bem alto). Humano...? Não. Kiba nunca teve contato com certas criaturas: humanos, vampiros, trolls, leprechaun... mas ouvia histórias. Sabia que não podia categorizar seu desconhecido visitante como algo assim ordinário.

À medida que os anos avançaram, acabou deduzindo que aquele era o preço: as visitas à distância, sempre no romper da noite. Talvez ele viesse para sempre, todos os anos. Quem sabe não absorvesse algo disso? Um pouco da energia de Kiba? Algo que só conseguia na presença dele?

Era uma teoria!

Mas a teoria se provou equívoca.

Na noite em que Kiba completou dezessete anos, a rotina seguiu como sempre. Um dia divertido, cheio de comemorações e diversões. Pelas leis do Clã, já podia se considerar um adulto, com todos os deveres e direitos. Iria escolher um caminho a seguir (obviamente seguiria como guerreiro e um dia se tornaria o líder dos Inuzuka). Os shifters comemoraram a passagem para a fase adulta com vinho de mel e muita carne assada. Músicas de homenagem e gratidão aos deuses e danças cerimoniais.

Foi um dia memorável, que Tsume, Hana e Kiba acreditaram que terminaria como todos os anos anteriores. Receberiam a visita silenciosa do homem que salvou a família de uma perda terrível, e a vida seguiria como sempre.

E foi. Até certa parte.

O homem veio, em sua aparição anual. Aquela que ficava à espreita no limiar da cerquinha de madeira, sem se aproximar mais do que isso.

A surpresa estava no dia seguinte, diferente das outras alvoradas, quando o sol nasceu e despertou a todos, certa intuição acometeu Tsume. Ela soube com toda a certeza do mundo que o preço fora cobrado.

Com lágrimas nos olhos e desespero no coração, entrou no quarto do filho caçula. Confirmou o que já desconfiava: o cômodo estava vazio.



Notas finais do capítulo

Pra onde será que o Kiba foi levado? Até qualquer dia desses!!!

Espero que tenham gostado ♥



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