O Mentor escrita por MaahHeim


Capítulo 3
O Estúpido




Foi a primeira vez que Hinata faltou ao treino.

Eu não disse nada no dia seguinte, quando ela veio com o mesmo sorriso bobo de sempre, rabo de cavalo feito. Preferi ficar calado e fingir que não tinha percebido, que uma falta não era nada demais.

No segundo dia que ela faltou, realmente cogitei perguntar algo. Dormi pensando se ela estava doente ou algo do gênero, apesar de não haver nenhum aviso oficial do clã para a família secundária – o que sempre acontecia quando algum membro da família principal estava doente, machucado ou morto.

Na manhã seguinte, Hinata não estava disposta como o habitual: tinha olheiras enormes, bocejava o tempo todo e não estava se concentrando no treino.

Preferi não falar nada mais uma vez. Ela não parecia muito disposta a conversar comigo, também.

Finalmente, no terceiro dia, sem nenhum sinal de Hinata mesmo depois de o sol nascer, resolvi averiguar. Com o byakugan ativado, procurei-a. Comecei pelo clã Hyuuga, checando os quartos através de paredes, fui para a floresta e, finalmente, para a cidade.

Encontrei-a dormindo nos portões de Konoha, encostada em uma pilastra. Suas roupas ainda estavam sujas do treino do dia anterior, o que queria dizer que ela não havia ido para casa para se trocar. Teria passado a noite ali?

Olhei-a de longe, do telhado de uma casa, esperando por alguma reação. Cogitei me aproximar, mas se ela não havia mencionado por que estava faltando ao treino, era porque não queria que eu soubesse.

Sentei-me, esperando que ela fizesse algum movimento. Passaram-se uns 40 minutos até que ela finalmente acordou. Assim que o fez, se levantou apressada, e imediatamente olhou para o sol, parecendo checar as horas. Depois, olhou na direção do campo de treinamento.

Por fim, suspirou e voltou a encostar-se na pilastra. Talvez achasse que estava atrasada demais e que eu já havia ido embora.

Com sinceridade, acho que eu ficaria dias esperando por ela naquele campo de treinamento, se fosse necessário. Não que isso viesse ao caso.

Meus pensamentos foram interrompidos por Hinata que, repentinamente, abriu um sorriso radiante.

Não havia sido um sorriso para mim, e aquilo me deixou com raiva. Eu nunca a havia visto sorrir em nenhum outro lugar. O sorriso dela era meu. Ela só sorria nos treinos. Como ela estava sorrindo para o nada ali?

Observei que o byakugan de Hinata estava ativado, encarando a floresta depois dos portões de Konoha com ansiedade. Dirigi meu olhar para o conjunto de árvores, avistando quatro fontes de chakra se aproximando em alta velocidade.

No mesmo momento em que percebi que time era, os quatro chegaram até os portões: Kakashi à direita da equipe, a típica máscara cobrindo metade de seu rosto; Sai na esquerda, com sua expressão indiferente; Sakura à sua direita, cabelos róseos em um rabo de cavalo e Naruto entre ela e Kakashi, um gigantesco sorriso no rosto.

Hinata correu até eles e perguntou para Naruto como havia sido a viagem, oferecendo-lhe um tipo de ticket de comida grátis no Ichiraku. Sai, Kakashi e Sakura saíram de perto, a última gritando para Naruto se apressar para que fizessem o relatório da missão.

Franzi a testa. O que os dois faziam sozinhos conversando? Ela sempre gostara dele, isso era certo, mas ele nunca havia retribuído realmente, pois além de ser um estúpido, – se contentava com o fato de saber que 2 + 2 era 4 – era burro, e nunca percebeu os – óbvios – sentimentos de Hinata.

Os dois conversaram por uns dez minutos, até ele pedir licença para fazer o relatório da missão.

Com um aceno de mão, ele desapareceu no ar, reaparecendo algumas casas à minha direita. Desatento, não me percebeu.

Eu ainda a observava quando Hinata começou a sorrir debilmente para o chão, como se o fato de Naruto falar com ela fosse a coisa mais incrível do universo.

.

Os raios de sol iluminavam o campo de treinamento. Estávamos treinando há menos de trinta minutos e Hinata já suava, passando toda hora a mão pela testa. Parecia mais exausta que o habitual.

Talvez fosse resultado de esperar um babaca que estava em missão e não dormir apropriadamente.

— Sensei? Algum problema? – Hinata parecia realmente preocupada com o fato de que eu não havia dito nada desde que ela chegara, mas não me importei. Ela havia me pedido para treiná-la e faltara o treino para encontrar com um maldito estúpido!

— Não. – Respondi. Ela abriu a boca para dizer outra coisa, mas eu não estava com paciência para conversar. – Estilo do punho gentil! – Não lhe dei tempo de pensar no que estava acontecendo. - Hakke Rokujuuyon Shou!

Ela foi de encontro com o chão com força, quicando com a bunda e caindo de costas na terra.

— Qual é o seu problema hoje? – Ela perguntou, levantando-se e batendo na roupa suja de terra. – Você pode pegar um pouco mais leve comigo, como sempre? Se você mudar o nível do meu treinamento de uma hora pra outra, eu nunca vou conseguir acompanhar.

— Eu estou pegando leve demais com você. – Respondi, e vi que não seria o bastante para que ela ficasse quieta. – Assim você vai continuar uma inútil. – Completei.

Imediatamente percebi que ela havia ficado magoada. Eu sabia que aquilo aconteceria, mas não consegui me conter.

Hinata virou-se de costas, murmurando um “Até amanhã” com a voz embargada e seguindo para a floresta, na direção do clã Hyuuga.

Apoiei-me em uma das árvores, encostando minha testa na mesma. Respirei fundo, tentando me controlar. Ainda podia escutar os passos dela nas folhas secas distribuídas pelo chão.

— Maldição. – Sussurrei, socando o caule da árvore.

Eu estava nervoso e estava descontando nela, que não tinha nada a ver com meus sentimentos egoístas.

Justo nela.

— Maldição. – Sussurrei de novo, dando um soco mais forte no caule da árvore.

.

— O que aconteceu com você? – Ela perguntou quando terminamos de treinar, no dia seguinte. – Você voltou a ser como antes, como quando começamos o treino.

Apenas olhei para ela, sem dizer nada. Eu sabia, sim, mas mal revelava para mim mesmo. Não falaria justo para ela, que era o motivo principal de toda a minha confusão interna.

— Neji-sensei! – Chamou. – Por favor, me diga.

Depois de 78 dias de treino você resolveu faltar para esperar um maldito idiota que ficou sem perceber seus sentimentos por mais de cinco anos! Eu tinha vontade de gritar para ela.

Apenas girei e andei na direção do clã Hyuuga, desativando o byakugan. Era melhor que eu a ignorasse.

— Neji-sensei?

Não daria para ignorá-la.

— O que é? – Falei, virando-me.

Ela abriu a boca para responder pelo menos duas vezes. Brincava com os dedos das mãos na frente do corpo, o que denunciava seu nervosismo.

— N-Nada. – Murmurou.

Recomecei a andar na direção do clã Hyuuga.

Voltávamos a ser quem costumávamos ser um com o outro antes do início do treinamento dela.

O gênio e a esforçada longe um do outro, como sempre deveria ter sido.

.

— Neji! - Eu estava encostado em um tronco no campo de treinamento, esperando para ver se Hinata iria ou não aparecer depois do dia anterior. No lugar dela, Tenten vinha correndo em minha direção com um sorriso no rosto. – Quanto tempo!

Ergui o olhar para minha antiga companheira de equipe e acenei com a cabeça. Ela riu como se eu fosse a pessoa mais divertida do mundo, e sentou-se ao meu lado.

— Como sempre com toda essa sua frieza. - Comentou. – Estava com saudades. Tem tempo que você não aparece para treinar comigo.

Dei de ombros, encarando o nascer do sol.

— Ocupado com as gatinhas, não é?

— Claro. – Respondi ironicamente.

Tenten riu, mas a risada parou de repente. Permiti-me dar uma rápida olhada para seu rosto, vendo que ela respirava fundo, agora séria. Parecia prestes a me contar alguma coisa.

— Eu sei que não nos vemos há um tempo e provavelmente você já nem gosta mais tanto assim de mim. – Ela deu uma pausa repentina e bateu com o ombro no meu, rindo. – E eu sei que você gostava! Enfim, ainda assim, eu queria que você fosse o primeiro a saber...

Esperei pela continuação e ela ergueu a mão direita. Havia uma aliança em seu anelar, com um quartzo rosa oval chamativo. Símbolo do amor, percebi de imediato.

— O Kiba me pediu em noivado!

Não consegui controlar a surpresa. Para mim, Kiba nunca iria realmente se prender a ninguém, pois era apenas um cafajeste qualquer. Era difícil me surpreender, mas aquilo fez minha boca abrir-se num “O” que atrairia facilmente muitas moscas.

Tenten, felizmente, não pareceu notar, dentro de sua bolha de felicidade.

Diante da situação, não consegui pensar em outra coisa a não ser abraçá-la. Era um ato raro – muito raro, acho que só abraçara meu pai quando ele estava vivo -, mas senti que deveria fazê-lo.

Tenten tinha razão, eu sempre gostara dela na equipe. Éramos eu e ela e Lee e Gai, como em times separados.

Ainda sentados, ela retribuiu o abraço, e senti as convulsões de choro vindo, seu corpo tremendo. Ela afundou a cabeça em meu ombro. Chorava de felicidade.

Ouvi o barulho de folhas secas sendo pisoteadas, e olhei para o local de onde o som vinha, procurando por um inimigo.

Com a visão periférica, pude ver alguém se mover à minha direita, correndo na direção do clã Hyuuga. Eu já conhecia os movimentos dos pés de Hinata o bastante para saber que era ela.

.

— Acho que já treinamos o bastante juntos, Neji-niisan. – Foi a primeira coisa que Hinata disse ao chegar no campo de treinamento no horário correto, no outro dia. Os cabelos estavam soltos, e não havia nenhum sinal de que ela tinha um prendedor. Ela definitivamente não havia vindo para treinar.

Confirmei com a cabeça. Alguma coisa gritava para que eu dissesse que não havia sido o suficiente, mas eu me sentia traído. Traído por ela ter faltado o treino três malditas vezes por causa de um estúpido. Traído por ela ter sorrido para outra pessoa que não fosse eu.

Eu sabia que se tratava daquele sentimento começava com C e terminava com iúme, mas não processaria aquilo na minha mente. Era um sentimento egoísta, fraco, estúpido. E eu era um gênio.

— Certo?

Ela nem mesmo havia me chamado de Neji-sensei. Voltávamos a nossa antiga relação de primo e prima, como sempre deveria ter sido. Nada de treinos, nada de maçãs, kiwis ou taijutsu. Apenas unidos porque fazíamos parte do mesmo clã.

— Certo... Hinata-sama.

As mãos dela estavam fechadas, como se estivesse pronta para dar um soco em alguém. Parecia com raiva de alguma coisa. Tinha algo errado.

— O-Obrigada po-por me treinar.

Num primeiro momento, achei que ela estivesse gaguejando por ter voltado a ser a antiga Hinata, mas vendo com mais atenção, percebi que ela tentava inutilmente segurar as lágrimas.

Essas já começavam a escorrer quando ela virou-se de costas, caminhando para fora do campo de treinamento.

E eu permaneci ali, sentindo as minhas próprias lágrimas escorrerem, me sentindo um verdadeiro estúpido por tê-la deixado ir, mas orgulhoso demais para correr atrás dela.

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Mesmo que ela não estivesse mais lá, eu continuava indo ao campo de treinamento no mesmo horário, todos os dias. Enquanto o sol nascia, treinava meu punho gentil sozinho, sentindo o suor escorrer pelo meu corpo.

Treinava, afastando os pensamentos sobre ela, os momentos com ela.

Nunca nada havia mexido de tal forma comigo, ocupando meus pensamentos. Ninguém havia sido uma boa companhia como aquela, também. Ela havia sido a única que conseguira me ver por trás da minha máscara de frieza.

Hinata havia sido uma boa companhia, e ela não estar lá me machucava.

Novamente, meu cérebro de gênio gritava que havia mais que aquilo. Gritava que ela não era só uma boa companhia.

E, mais uma vez, desejei ser um estúpido, para não saber o que estava sentindo por ela, e para não saber o que era aquele sentimento amargo que vinha com a lembrança dela e Naruto conversando.

E desejei ser um estúpido de novo quando percebi a tamanha dor que era não poder tê-la por perto.

.

Eu estava correndo pelo clã, à procura de Hiashi-sama. Haveria uma reunião entre alguns clãs para decidir como atacariam uma organização que estava causando problemas no país do fogo em uma hora, e ele ainda não havia sido avisado por incompetência de alguém.

Virando um dos corredores às pressas, acabei batendo contra uma pessoa que vinha na direção oposta a minha.

— Você deveria tomar mais cuidado por onde anda! Não vê que estou com pressa? – Falei para a mulher à minha frente, que tinha a cabeça encostada em meu peito.

Ela ergueu a cabeça para mim e vi olhos brancos extremamente familiares. Ao perceber que se tratava de Hinata, dei um passo para trás. Inicialmente, achei que ela fosse se desculpar, mas com a percepção de quem eu era, sua expressão tornou-se uma carranca.

— Você que devia ativar o seu byakugan e ver se há ou não pessoas vindo na direção contrária, Neji-sensei!

A fala foi dita num impulso, e ela mesma pareceu confusa ao ver como havia me chamado.

— O ativarei da próxima vez. – Falei enquanto me afastava, numa tentativa de esconder o sorriso que se formava em meus lábios.

Por aquele momento, deixei-me ser um estúpido, para admitir o quanto eu havia gostado de ser chamado novamente daquela maneira.



Notas finais do capítulo

Uaaah, que doloroso reler esse capítulo! O Neji é tão orgulhoso, dá vontade de sacudir ele e falar "FALA PRA ELA QUE VOCÊ GOSTA DELA, GAROTO". As pessoas têm que lembrar que o diálogo é tudo para um relacionamento saudável (seja amizade, namoro, ou o que quer que seja).

O próximo capítulo já é o último! A-ah... Gosto muito dessa história, mas relendo ela, acho que podia ter feito algumas alterações, descrito melhor algumas cenas e afins... Talvez um dia eu a reescreva, já que tenho tanto apreço por ela.

Enfim, espero que tenham gostado do capítulo! Muitos beijos e obrigada por acompanharem ♥



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