Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 43
Capítulo 43




Assim que subi as escadas, notei que havia o dobro de alunos que tinha no andar de baixo. Por um momento achei que estaria no inferno, e aquilo tudo era diabinhos travessos. Trêmulo, caminhei apressadamente pelas portas abertas, tentando ler as placas até encontrar o 4B. Seria a minha sala, mas todos eram letras A. Assim que parei uma garota, ela avisou que a letra B é no andar de cima, onde tive que subir escadas.

Do lado B já possuía um pouco menos de alunos, menos que a metade do andar de baixo. E, assim como eu, todos estavam perdidos. Não custou a entender que o B era os novatos e o A eram veteranos. Assim eu poderia me enturmar muito melhor, sem aqueles olhares acusatórios de pessoas mais velhas que entendem mais do que eu.

A placa 4B brilhava em prateado, onde eu me acalmei e me adiantei para entrar na sala. A porta estava aberta, e dentro, havia impossibilidades de estudantes sentados. Todos pontuais. Por conta da Lilly, acabei me atrasando, mas nada que pudesse ser escandaloso. Foi difícil encontrar um lugar naquela sala. O único lugar disponível para fechar a sala era na frente de um garoto que levantou a mão, para indicar a disponibilidade.

Somente quando me aproximei, foi que percebi que era o mesmo que tinha esbarrado no corredor. Ele sorriu para mim e abaixou o olhar para a mesa. Tímido. Um ponto.

— Oi.

Ele sorriu.

— Olá.

Jogando a mochila na mesa, me sentei e olhei para a professora, onde ela sorria para todos.

— Bom, já que o último chegou, gostaria de dar as boas-vindas à vocês, que mereceram a bolsa entre os demais participantes. Sem bem vindos à FEPC. O lugar que transforma pessoas normais em máquinas habilidosas. Não houve um estudante sequer que saiu daqui sem cumprir a prossifão com afinco! Não é atoa que somos uma das melhores faculdades da região. Vocês serão o futuro deste país. Então saiba fazer escolhas corretas, para ter um futuro correto. Daqui alguns anos, serão vocês atrás de um balcão, atrás de uma cama cirúrgica, atrás de provas para incrementar um caso… Serão vocês, que salvarão o nosso planeta. Então, confio em vocês para que isso torne um aprendizado histórico, para que possa levar para o seu futuro.

“Eu me chamo Elisa, e sou a psicóloga de vocês. Já já, a professora chega para dar a matéria. Sempre que precisar de mim, estarei ao lado da sala da diretora, de portas abertas para você. Bom, ela estará fechada, por conta do ar condicionado, mas é só abrir.”

Os estudantes riram com a piada, o que fez com que a profissional risse também. Unindo as mãos, ela olhou novamente para todos os alunos.

— Desejo toda a sorte que puderem, e, mais uma vez, bem vindos.

— Obrigado.

A maioria disseram a palavra em uníssono. Outros nem responderam. Quando ela saiu, não demorou muito para que os alunos se virassem para conversar. Antes, durante a escola, eu imaginava uma faculdade sendo séria, como em filmes onde você nem sorri para uma pessoa. Mas, ali, era como mais um ano em uma escola normal.

Quando a professora chegou, todos inquietaram-se, virando-se para contemplá-la.

Ela era loira, alta e linda, parecia muito jovem para estar nesse lugar. O que tinha nesse aqui, que todas as pessoas eram belas, que nem bonecas? Só Elisa que fugia desse estereótipo. A psicóloga tinha uma verruga peluda bem no nariz, parecia bruxa com o seu óculos estranho. Já a professora… Parecia uma atriz pornô.

— Bom dia, meus queridos alunos. Sou Beatrice, a sua nova professora de Administração. Hoje começamos nos apresentando, para depois começarmos com uma lição para esquentar a semana. Bom, sou professora há…

Ninguém dava a mínima para a vida dela. Muito menos eu. A maioria gostaria de ouví-la falar, pois assim evitaria tempo de estudar. Mas, estava tão fora de sintonia que nem ao menos prestei atenção quando terminou o seu discurso de horas. Minha cabeça estava na Lilly, o que ela poderia estar fazendo, se ela já chegou na casa dela. O que ela poderia ter feito? Mas tudo foi em vão quando a professora começou a apontar para cada um de nós, para dizer o nome e o porquê do curso escolhido. Não sei o porquê quase fui um dos últimos. Eu me levantei e disse, com a voz um pouco rouca:

— Sou Quentin Banks. Sempre fui afim de entender a mente administrativa.

Eu me sentei. Não queria me aprofundar muito no assunto, e sabia que a maioria deles disseram a mesma coisa que eu. Não estava animado, não depois do que aconteceu com Lilly. A professora fingiu um sorriso satisfatório e mudou para o garoto atrás de mim, onde se levantou.

— Sou Benjamin Lewis. O curso de Administração é apenas um caminho para me formar em Recursos Humanos, que será sucedido com muita dedicação da minha parte. Acredito que os funcionários devem ser mais respeitados pelas empresas. E, se depender de mim, isso tudo irá mudar.

Alguns bateram palmas, e então, satisfeito, ele se sentou. E assim a aula seguiu em frente.

— Agora que todo mundo se conhece, está na hora de conhecermos os alunos de outros lugares, que tiveram sucesso em estar aqui conosco. Ao total, três. Eles vieram de longe para buscar aprendizado. E espero que sejam gentis com eles, tanto na amizade como na língua. Eles estão se aperfeiçoando. Tomem cuidado com as gírias.

Do jeito que ela fala, até parece que é uma babá cuidando de crianças. Respirei fundo.

— Com vocês: Arianne, Collin e Star.

Duas garotas entraram primeiro, depois um garoto. De início, pareciam alunos normais, como qualquer outro da faculdade. Somente então, parados em frente à lousa, pude notar os detalhes. Detalhes de outros países. As roupas fora de época, a postura rígida, o jeito que olham para nós… Me remexi na cadeira, olhando para cada um deles.

Beatrice se virou para eles e caminhou ao lado deles.

— Cada um desses jovens ganharam uma chance para apresentar temporariamente os conhecimentos de origem por todo o mundo. Eles ficarão nesta sala durante um curto tempo, que depois de fincar as raízes, retornarão para os seus países de nascença. Classes, sejam bons com eles e desejem boa-sorte.

— Boa sorte!

A professora sorriu e se distanciou do trio, concordando com a cabeça para o garoto. Ele, retribuindo o aceno, deu um passo para frente.

— Me chamo Collin e sou residente da Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Estou no quarto ano e me sinto honrado em estar aqui com vocês.

Dando um passo para trás, não pude deixar de pensar em como ele era alto. Alto e bonito. O corpo é anguloso, cada músculo em seu lugar. Fora o volume anormal… Ele não percebia que estava marcando? Olhei para os lados, mas ninguém prestava atenção no que eu prestava.

A garota do canto deu um passo para frente, unindo as mãos em frente ao seu corpo. Essa também era loira. Da maneira que sorria, parecia uma patricinha de hollywood.

— Me macho Arianne e frequento a Universidade Pierre e Marie Curie, na França. Estou grata por frequentar este lugar e levar não só o meu conhecimento para vocês, mas também a minha amizade.

A outra garota se aproximou.

— Eu me chamo Star e sou da Universidade de Alberta, que fica no Canadá. Poucos da minha universidade tiveram essa chance de vir até aqui e provar o nosso conhecimento para o mundo. Entre tantos, eu fui a escolhida. Então quero fazer o possível para vocês. Por eles.

A professora sorriu e se aproximou, batendo palmas. Com isso, com cada um se sentando no canto da sala, próximo à mesa da professora, começamos a aula.

 

Já era de tarde quando eu vejo que é hora de ir embora. A confusão de alunos toma conta dos corredores, todos animados pelo primeiro dia. Confesso que imaginei ser mais tranquilo, e não a confusão que foi hoje. Diferentemente do ensino médio, na faculdade já começamos com uma pesquisa que teria que fazer para amanhã. Coisa que eu nem tenho um computador!

Angustiado, peguei o celular e desbloqueei a tela para ir direto nas conversas. Lilly havia mandado mensagens, perguntando quanto tempo mais eu iria demorar, que não iria aguentar ficar tanto tempo assim fora de casa, andando pelas ruas. Acabei marcando de me encontrar no shopping, dizendo que chegaria em quinze minutos, contanto com o trânsito.

Quando cheguei no estacionamento do shopping, desci do ônibus e fiquei observando em volta. Nenhuma garota de óculos e um rabo de cavalo parada perto da entrada. Com as mãos no bolso da frente da calça, eu senti o meu celular ali. Queria conversar com Kyle, queria conversar com Daniel. Porém não era um momento adequado. Precisava dar total atenção para a minha amiga, que estava em total apuros.

Ao me aproximar da porta automática, olho em volta. Nenhuma garota que se pareça com Lilly. Infernos. Somente garotos skatistas rindo de uma piada sem graça, garotas totalmente arrumadas caminhando de braços dados… Mas nenhuma punk com o rosto de choro. Demorei dois minutos para pegar o meu celular novamente e ligar para ela. Ela não me atendeu, esperou eu desligar para mandar uma mensagem: “Me encontre na loja de sorvete.”

Desligando o celular e ainda o segurando na mão, me viro e vejo a loja de sorvete do lado de dentro, com uma fila enorme para fazer o pedido. Quando entro, recebo o ar arrepiar todo o meu corpo. Continuo andando até chegar na fila, onde eu olho para o relógio e vejo que já está tarde, mas mesmo assim continuo andando.

— Q! Quentin!

Olho para frente. Lilly está em uma das primeiras da fila, acenando animadamente com a mão. Quando me aproximo, ela sorri, parando de pular para se aproximar do meu lado.

— Como você demorou, vim pegar um sorvete para gente.

— Hm.

Lilly olhou para mim, levando a franja atrás da orelha.

— E como foi lá? O primeiro dia foi legal? O que disseram?

Dei de ombros, olhando do celular para ela.

— Maluco. É… É muita novidade pra mim. Mas iria aguentar bem mais se você estivesse lá, comigo. É muita informação, muita gente de gostos aleatórios. Pensei que fossem um pouco mais sérias, as pessoas.

Lilly encolheu os ombros.

— É o primeiro dia, Q, relaxe. As pessoas se acostumam depois.

— O seu pai te ligou? Você ligou pra ele?

Lilly negou, olhando para a menina da nossa frente que se aproximou do balcão para fazer o pedido com o rapaz que a desejava com o olhar. Seríamos o próximo. Pensei que ela iria me cortar dizendo que falaria em outro momento, e não ali, na frente de todo mundo.

— Não quero falar com ele, estou puta com isso tudo.

— Querendo ou não você tem que falar. Decidir o que têm que fazer.

— Eu sei.

Observei o seu olhar preocupado, olhando para as pessoas que passavam por nós. Como se do nada aparecesse uma ideia super genial e maluca que poderia mudar a vida pra sempre. Mas isso não aconteceu. Nunca aconteceria. Ela teria que cuidar disso, enfrentar tudo.

— Mas se eu falar… É provável que eu acabe com a vida dele.

— Você quer que eu fale com ele?

Lilly pensou no meu caso enquanto olhava a tabela de sabores dos sorvetes, porém não me respondeu. O atendente sorriu para nós e então nos aproximamos. Após pagar, andamos para o outro lado, onde iria receber o pedido.

— Não precisa, preciso enfrentar isso sozinha.

— Mas, qualquer coisa, estarei aqui.

Lilly concordou. No silêncio, ficamos observando a mulher terminar de fazer os sorvetes. Quando entregou na nossa mão, nos viramos e andamos pelo shopping. Não sabia como iria ajudar Lilly nesse caso, mas sabia que ela precisava muito de mim. E eu tinha que retribuir essa atenção.





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