Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 32
Capítulo 32




 

O Natal passou depressa. Pela janela, observava a neve que deixava o horizonte totalmente branco. Se tornou terrível para carros e motos andarem pelas ruas, assim como as visitas para o natal. Infelizmente, Kyle informou que não teria como ir até a minha casa, já que teria de ficar na casa da Clarissa em quarentena até o ano novo.

Já a minha querida Lilly, apareceu de mala e tudo, ao lado de seu irmãozinho. Como apareceram? Pois bem… Quando terminei o corte de cabelo da minha mãe, que por sinal ficou uma bosta, ela foi ao banheiro e começou a reparar as pontas, já por ser cabeleireira antes de conhecer meu pai. Enquanto eu a esperava na cozinha, com o passar de mãos pelo couro pouco cabeludo, ouço alguém bater na porta. Seria impossível alguém andar nas ruas nesse estado, amanheceu frio e tinha tendências a piorar. Mesmo assim eu caminhei até a porta. Quem quer que seja, deveria estar morrendo de frio a essa hora.

Abrindo a porta, recebo o ar gélido que intensificou ainda mais naquela tarde. Agora deveria ser duas horas da tarde, se não três. E com o passar do tempo, a neve piorava cada vez mais. Estava com medo de que quando chegasse a noite, piorasse. O que teríamos de enfrentar dentro de casa.

Bem na minha frente, encontro duas pessoas. Uma alta com um trenó em uma mão, enquanto segurava a outra mão de uma criança. Era impossível reconhecer em meio a tantas roupas e neves grudadas em seu corpo. Os óculos de ambos ocultavam totalmente as suas visões, de maneira que seria irreconhecível distinguir como tal. Precisei segurar na porta para me certificar de que não seriam meros bandidos, ou moradores de ruas desesperados para alimentos. Até que a de pessoa de maior larga a mão do menino e tira os seus óculos.

Os olhos escuros são irreconhecíveis.

— Será que pode nos convidar para entrar? Estamos com frio!

Lilly. Ao seu lado, o pequeno concorda rapidamente com a cabeça. Seu irmão.

Rapidamente, dou um passo para trás e deixo que ambos passem pela porta, levando o trenó consigo.

— Não reconheci vocês. O que estão fazendo aqui?

Quando fecho a minha porta, me viro para a Lilly. Ela começou a tirar a touca, espalhando neve para todos os lados. A mesma coisa faz o caçula, que soltou um riso de satisfação por ver neve pela primeira vez.

Diferente de Lilly, Octavian tem cabelos claros e olhos verdes. Mães diferentes. E isso a invejava de tal maneira que jurava que iria sair de casa, por ter cabelos sem graça e olhos ainda mais sem graça, além de usar óculos o tempo inteiro. Já Tavy… Ele era perfeito do jeito que era. Só sorrir que todos faziam o seu agrado.

— Tive de tomar conta de Tavy hoje de manhã, os meus pais saíram para resolver casos de conflitos, então fomos brincar na neve um pouco, para se distrair enquanto a nossa família se desmorona em pleno natal. Mas está piorando muito e tivemos de correr para cá.

Não falei nada, mas pelo menos eles tem ambos os pais, para estar do lado deles no final daquela manhã. Já a minha… Já se desmoronou. Só tenho minha mãe agora. Mas não queria informá-la disso. Na verdade, eu nem contei que meus pais se separaram, somente para Kyle. Que jurava que iria vir me ajudar.

— Estão resolvendo casos em pleno natal?

Lilly confirmou com a cabeça, encolhendo os ombros. Quando não respondeu, minha mãe volta com os cabelos renovados. Fechei a mão por ver como ela estava linda, além de jovem. Nem parecia que ela tinha os tantos anos. E Lilly demonstrou a mesma coisa, visto que abriu a boca.

— Uau. O que aconteceu nessa casa? Christina, você está… Linda!

— Jovem. — digo.

A minha mãe sorri, se aproximando para comprimentá-la com um beijo na bochecha, depois passando a mão no cabelo do menino. Ela os conhecem, por saber que estuda bastante e por ser muito inteligente. Acha que seria uma boa influência para a minha vida. Ao contrário de certas pessoas.

— Obrigada, foi meu filho que cortou.

Lilly olhou para mim.

— Eu percebi que você tinha cortado aquele ninho de pássaros que chamava de cabelo, mas você! — riu e olhou para a mãe, negando com a cabeça. — Inacreditável! Está realmente jovem, parabéns pela mudança.

— Clima de natal. — riu a minha mãe.

— Sim. — confirmei.

Então ficamos em silêncio. Por um curto momento, o irmão dela falou.

— Eu quero chocolate.

Minha mãe se sobressaltou e piscou os olhos, unindo as mãos em frente o rosto.

— Ah! Desculpe pela inconveniência. Deseja tomar alguma coisa? Comer algo?

Lilly deu um tapa na cabeça do irmão e sorriu.

— Um café quente seria de bom agrado.

Minha mãe sorriu, caminhando rapidamente para a cozinha.

— Tavy, poderia ajudar a titia a preparar o achocolatado?

Os olhos do menino se iluminam, de maneira que correu em direção da minha mãe. Ele deveria ter em torno dos dez anos. Assim que os dois saíram, Lilly se virou para me encarar.

— Tá, qual é o problema?

Pisquei os olhos, sem saber onde ela queria chegar.

— Que problema?

— Ninguém muda radicalmente a aparência de um dia para o outro, ainda mais uma mulher. E, geralmente, é por terminar um namoro.

Desde quando se tornou uma sabichona? Levei o peso de um pé para o outro, sem saber o que falar. Minhas mãos se fecharam.

— Não tem nada a ver uma pessoa cortar o cabelo, ela só quis.

— E você também. Não adianta dizer que não há nada de errado porque deu pra ver o rosto da sua mãe, preto de não dormir. E você… Está mais magro.

— Estamos sofrendo com a minha sexualidade.

Lilly encolheu os ombros.

— Queria que as pessoas não se importassem tanto com isso. Como eu não me importei quando soube.

Concordei com a cabeça, dando um passo para trás.

— Sim. Mas você é uma mera conhecida, não mora comigo. Não me criou. Não me pariu. Então é fácil não criar expectativas.

— Acredite em mim, eu criei expectativas. Quando a gente se conheceu, eu gostava de você… Não gostar no sentido de estar completamente apaixonada, mas sim de estar satisfeita ao seu lado. Eu gostava de imaginar gostar de você. De beijar você.

Engoli em seco. Percebi que Lilly ficou vermelha, mas não sabia se era pelo frio daquela tarde ou de um sentimento pouco lembrado. De qualquer maneira, aquilo era passado.

— Até que você namorou a Jéssica. Aquilo cortou o clima entre nós, lembra?

Concordei devagar. Lembro que Lilly começou a parar de andar do meu lado depois que comecei a namorar Jéssica. As duas se odiavam. E agora eu sei o porquê.

— Vi que você era um idiota por não me notar, então investi em outras pessoas.

— Você nunca foi a fim de pessoas, sempre me dizia que gostava de livros.

— Para não dizer que eu estava apaixonada por você! Você era completamente cego, e agora entendo o porquê. Não por gostar da Jéssica, mas por ser gay. Quando eu vi, juro que morri de ciúmes, pois por mais que eu tentasse de tudo nessa vida, nunca iria conseguir um pedacinho do seu coração que proclama o meu nome. Então a ficha cai, e me vejo desamparada em saber que meu crush era gay.

Não tive como segurar, soltei um riso meio que engasgado, fazendo com que a Lilly também dê risadas.

— Mas você tinha me dito que tudo bem eu ser assim.

— Sim, hoje sim. Não vejo problema com isso. Eu até prefiro assim. Porquê se tivéssemos nos pegado antes, não estaríamos juntos hoje em dia.

— E por quê diz isso?

— Porque a Jéssica não está aqui.

Ouço o que ela disse, observando as informações enquanto minha mãe volta com Octavian ao lado. Ele estava sorridente, correndo pela casa.

— Eu aprendi a fazer achocolatado! Eu aprendi a fazer achocolatado!

Minha mãe riu, se aproximando ao meu lado.

— O café está quase pronto. Se quiser, podemos ir para a cozinha.

Lilly sorriu, levando os fios de cabelos atrás da orelha.

— Será que poderíamos passar o natal, com vocês?

A minha mãe iluminou o rosto, alargando a boca em um escandaloso sorriso de dar orgulho por vê-la feliz.

— Sério? V-vocês iriam querer ficar aqui?

— Mas é claro. Aliás, minha família não merece isso tudo. Quero ficar aqui.

Ela se virou e caminhou apressadamente até a cozinha, sendo seguida por mim e pela Lilly. Octavian correu ao meu lado e me puxou para perto, pedindo para me ajoelhar. Assim que me abaixei, ele sussurrou na minha orelha.

— Você tem um cachorro?

Parei para pensar. Nunca tive um animal de estimação, meu pai nunca gostou de ter um em casa, de maneira que cresci sem ter falta de um. Nem sei como seria criar um animal dentro de casa. Já Octavian tem três hamster, um coelho e um gato, que roubou da irmã depois de muita insistência em dizer que era dele, só pelo fato de alimentá-lo enquanto ela estudava.

— Não, não tenho.

— Cala a boca, Tavy!

— Deixe o pobre coitado. — riu minha mãe.

— Eles são boas companhias, quando fico triste.

Ouvi o comentário e olhei para a minha mãe, que se aproximou do fogão. Será que ele sabe de alguma coisa? Ou se a Lilly contou algo pra ele? O que será que eles sabiam que eu não sabia? Sem prestar muita atenção, dei de ombros.

— Quem sabe um dia, não é mesmo?

Todos rimos.

 

— • —

 

Assim que o Natal passou, e com ele Lilly e seu irmão voltaram para casa no dia seguinte, passaram-se três dias para que decidíssemos tirar todas as decorações pelo redor da casa. Foi um momento lento e desgastante, nada feliz. Não importa o que fizéssemos, nos lembravamos de quem não teria que se lembrar. Era óbvio que a minha mãe se perguntava se o meu pai estava bem, mesmo de longe. Eu sei disso porque também pegava me perguntando, se tinham chegado em salvo e se estavam bem. Felizes sei que não estariam, pelo clima horrendo em que estamos passando.

Entretanto, acima de tudo, nunca desejaria o meu para o meu pai.

Depois de tirar todas as decorações dos corredores até o quarto da minha mãe, pude ouvir o telefone tocar. Como estava longe, e minha mãe estava na cozinha, foi muito mais prático deixar que ela atendesse o telefone. E também poderia ser o pai, desejando feliz ano novo para ela. Porque se ele reconhecesse a minha voz, saberia que no mesmo momento iria desligar.

Parando de fazer movimentos, me espreitei ao máximo sem causar ruídos para que possa ouvir o que teria a dizer. E, no meio da tarde, ouvi um quê de alívio vindo da parte dela ao ouvir algo. Um ombro contraído se aliviando.

— Oi. É, obrigada. Pra você também... Uhum, sim, é horrível, estou tentando… Eu entendo o seu lado, mas não precisa… — minha mãe ficou calada por um momento. Ficou difícil entender o que a outra pessoa dizia, e claramente não seria o meu pai. Ela teria brigado com ele no mesmo momento que dissera oi. Alguém, do outro lado da linha, conhecia ela. — Tudo bem. Eu espero então. Também te amo. Sim, vou avisar ele, pode deixar. Até.

E desligou.

Fiquei petrificado, desviando o meu olhar para a parede. Minha mãe acabou de dizer que ama? Ama quem? Será que estava conversando com o meu pai, e, por um milagre do destino, tenha mudado de opinião? Assim, tão rápido? Era impossível. Vou avisar ele. Ela irá falar comigo. O que irei responder quando ela dissesse que se resolveu com o meu pai? Ficar bravo com ela? Com ele por ter feito isso tudo?

Não sei o que fazer, somente me abaixei para enfiar as luzes piscantes dentro da caixa de papelão, incerto de arrumar tudo direitinho. Simplesmente enfiei com raiva e a fechei, causando um rasgo na borda.

— Merda…

— Quentin?

Levantei o rosto, admirando a mãe. Ela estava parada no vão do corredor para a sala de estar, apoiada na parede com uma das mãos. Sua expressão era de alívio.

— Oi, mãe.

Gostaria de demonstrar menos frieza pelo meu tom de voz. Mas era impossível.

— O seu tio me ligou. Ele soube do meu divórcio e ficará uns dias aqui em casa, para me ajudar.

O irmão mais velho da minha mãe iria passar o ano novo com a gente? O que a minha casa virou agora, hospedagem livre para toda a família? Relaxei os meus ombros, me recusando a demonstrar alívio em um momento como aquele. Estava quase com o discurso preparado para debater sobre hospedar o monstro novamente na toca. Porém, como era o irmão dela, seria uma escolha perfeita para o momento.

Patrick é um ótimo rapaz, um ótimo marido e é super ligado com a minha mãe. Cresceram juntos e moram perto, vinte minutos de carro. Seria bom deixar a minha mãe distraída por um tempo, mesmo com uma outra pessoa por perto. Porque eu precisava colocar a minha vida em rumo.

Cedo ou tarde, teria que criar uma lista para organizar tudo. E a primeira delas, morava alguns quilômetros da minha casa.

Depois de colocar a caixa no armazém, peguei o meu celular. Três discagem foi o bastante para ele atender.





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