Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 27
Capítulo 27


Notas iniciais do capítulo

Desculpem pela demora, acontece que estive passando por uns problemas que me ocupou bastante. Felizmente, estou de volta para alegria de uns e tristeza de outros ♥

Boa leitura!



O meu peito se inflama ao olhar para casa de Daniel. O dia estava escurecendo, ganhando um leve tom de azul turquesa e não sei o que dizer. Isso seria vergonhoso e entenderia qualquer opinião vindo da parte dele. Quem nesse mundo enfiaria um garoto desesperado para dentro de casa, sendo que nem o conhece direito? O que o pai dele iria achar disso? São perguntas que fiz durante todo o caminho.

Espero que entenda. E, se não entender, que ainda me olhe como antigamente.

Kyle desliga o carro, olhando para trás. Desde que Kyle namora, tenho que ficar no banco de trás. Alguém ocupou o meu lugar.

— Tem certeza de que quer fazer isso? Podemos voltar para casa.

Neguei fracamente com a cabeça. O meu estômago embrulha ao pensar nisso. Suava frio com a hipótese de bater na porta do garoto que estou ficando há semanas a fim de pedir uma moradia. Não sabia a quanto tempo iria ficar, quem dirá quando isso iria se resolver.

— Não posso ficar na sua casa. Iriam atrás de mim.

— Ninguém sabe. Eu posso esconder você dentro do armário.

Clarissa revira os olhos.

— Que ótima sugestão pra um garoto que acabou de se assumir.

Kyle fechou a boca, engolindo o que tinha acabado de dizer. Eu nem sabia para onde olhava, só queria ficar longe de todo mundo. Mas não tinha dinheiro até para ir em um hotel.

— Quentin, vai ficar tudo bem. Acredite em mim. — Clarissa encolheu os seus ombros, com as mãos no banco enquanto se virava para encarar o seu namorado. — Ao contrário do Kyle, tenho conhecimento disso.

Tenho conhecimento disso. — Kyle imitou a namorada com uma voz fina. — Não precisa se gabar por fazer psicologia.

Clarissa riu, se ajustando no banco.

— Quer que a gente vá com você?

Levei meus olhos até Clarissa, que me encarava com animação.

— Não. Obrigado. Quero evitar ao máximo constrangimento.

— Vamos esperar por você. Se ele não te aceitar…

— Eu ligo de volta, obrigado, gente.

— … eu dou uma surra naquele desgraçado.

— Nós viremos o mais rápido que pudermos — comentou Clarissa, descartando a opinião de Kyle com um revirar de olhos. —, pode ficar tranquilo.

Assenti, tocando na maçaneta da porta enquanto a empurrava.

— Muito obrigado pelo que fizeram, de verdade.

— Não têm de quê. Estamos aí.

— É. É só chamar!

Sai do carro e fechei a porta. Recebendo o ar frio da tarde fez com que o meu suor se secasse no mesmo instante. Sequei as mãos na calça, imaginando soar cada vez que dava um passo à frente. Por quê estava sendo tão difícil? Havia coisas mais graves para se temer, e eu passei por várias delas ultimamente. Agitando as mãos, eu dei uma última olhada para trás, me certificando de que os dois tinham saído. E Kyle acenou com a mão por trás do vidro, com um sorriso forçado no rosto. Revirei os olhos. Com um aceno rápido, indiquei para que caíssem fora.

Clarissa abriu a boca. Franzi os cenhos ao perceber que ela encarava algo atrás de mim. E quando me virei, pude ver Daniel, descendo as escadas até chegar em seu jardim. Daniel tinha me visto chegar? Encolhi os ombros, percebendo que estamos muito próximos um do outro agora.

— É… Oi, Daniel.

Daniel tinha uma expressão estranha no rosto. Provavelmente estaria tentando adivinhar o porque eu estaria ali, ainda mais com companhia.

— Oi. O que veio fazer aqui?

Encolhi os ombros.

— Preciso conversar com você. Posso entrar?

Daniel olhou atentamente para mim, depois para o casal. Reconhecendo quem era, tocou com uma das mãos na minha costa.

— Claro, entre. Seus amigos virão?

Neguei fracamente com a cabeça, me recusando a olhar para trás.

— Eles? Não. Só vieram me levar até aqui.

Daniel não faz comentário sobre isso, somente fecha a porta, olhando-me nos olhos. Imediatamente na casa dele, corro para o sofá a fim de me sentar. Precisava me recuperar novamente da nova bomba.

— Tudo bem. O que houve? Você está pálido, sabia?

Assenti rapidamente com a cabeça, olhando para os lados.

— Seu pai está?

Daniel negou com a cabeça.

— Arrumou um emprego, passa a maior parte do tempo fora.

Respirei aliviado, não deixando um sorriso escapar de felicidade.

— Parabéns.

Daniel mostrou indiferença. Ele não queria se sentar? Será que iria fazer algo? Antes de eu aparecer sem dizer nada?

— Tanto faz. Vai largar em menos de um mês. Conheço ele. Agora… O que você tem para me falar?

Cocei a orelha direita sem vontade. Na verdade, queria só tocar em algo, sentir firmeza em algo.

— Vim pedir um favor. Mas se não puder ajudar, tudo bem. Eu compreendo. Afinal, você não me deve nada e nem tem a obrigação de...

— Ei. Calma, garoto.

Daniel sorriu e se sentou ao meu lado com as pernas dobradas. Encarar aquilo, enorme e peluda me fez engolir em seco, olhando para ele novamente.

— Devagar. Fale devagar.

Respirei fundo, fechando os olhos. Quando abri, ele sorria de canto para mim.

— Eu me sinto horrível por vir aqui pedir isso. Mas eu preciso de um lugar para ficar… Pelo menos hoje, só até eu processar isso, antes de procurar outro lugar.

A sua expressão sem dúvida era de confusão.

— Mas é claro que pode ficar. Por que iria recusar?

Relaxei, escondendo o rosto com as mãos.

— Ah, Graças a Deus. — levantei o rosto — É que… Quando eu voltei pra minha casa, havia… os meus pais… Eu contei. — olhei para a lâmpada no teto, que já estava acendida. Só assim para reduzir a vontade de chorar. Não iria chorar. Por mais que a cada memória seja uma facada que tenha de lidar. — Eu contei que sou gay.

Daniel ficou calado, observando-me. Com uma das mãos, tocou em meu braço, onde começou a me massagear.

— E como foi?

— Horrível. Foi bem no meio da rua, onde todo mundo passava para admirar o que fizeram comigo. Eu… Eu fiquei com medo, sabe? Pensei que o meu pai fosse me bater. Precisava ver a cara dele, quando disse que não era para eu voltar.

A mão de Daniel parou ao perceber o que tinha escutado.

— Ele expulsou você?!

Endureci a mandíbula o máximo que eu pude, desviando os meus olhos para as mobílias da sala. Não queria encará-lo. Se fosse encarar, iria chorar.

— Sim. Eu… Eu sei que foi por impulso, que não iria dizer isso de verdade. Mas queria ficar longe pra pensar, sabe? No que ele fez? Expulsar de casa não pode ser importante para ele, mas para nós que somos filhos, sim.

Daniel concordou, voltando a alisar meu pescoço com os dedos.

— É claro que pode ficar aqui. O tempo que precisar.

Encolhi os ombros, olhando para ele.

— Sério? — ele concordou, eu sorri. — Não vai te incomodar em nada? Você tem a sua vida…

— Relaxe, eu tenho você.

Sorri ainda mais. Eu não me controlei, pulei em cima dele e o abracei. Daniel soltou um grito assustado e me apertou para perto de si, puxando-me para subir no seu colo enquanto os nossos lábios se tocavam. Pelo seu toque, deduzi que ele queria mais que um simples beijo. Mas, naquela situação, estava fraco demais até mesmo para beijar. Empurrei a mão dele gentilmente para o lado que não parava de subir e parei para respirar, fechando os olhos. Ele entendeu, colando a testa na minha.

— Gosto tanto de você.

Fiquei parado ao ouvir aquilo. Tenho razão. Daniel é a única pessoa em que me tem agora.

 

Não consegui dormir naquela noite. Corri para o banheiro e vomitei duas vezes ao me lembrar dos pesadelos que me atormentava constantemente desde que saí de casa. Percebi que Daniel se levantava da cama, caminhando até o banheiro para me olhar. E isso me deixa ainda pior. Que tipo de gente ficaria do meu lado, tendo vários problemas quando pode simplesmente me descartar e encontrar outro alguém por aí. Poderia muito bem me deixar na rua e ir ser feliz. Me senti um fardo na vida dele.

Lavei a boca e me encarei no espelho. Atrás de mim, Daniel se aproximava. Ele passou as mãos em minha costa enquanto me olhava.

— Você não precisa ver isso.

Daniel deu de ombros, olhando para a pia.

— Sinto na obrigação de cuidar de você.

— Não precisa. Eu… Vou embora de manhã, prometo.

Daniel supriu a respiração, irritado.

— Não. Não vou te deixar assim. Você precisa de um lugar para ficar.

— Você está brigando com seu pai. Por minha causa.

Ouvi mais cedo, antes de tomar banho para dormir. O pai dele chegou e viu que havia mais alguém na casa. Perguntou quem era e porque estava gastando água. Foi uma briga feia ao ponto do pai dele sair de casa para beber. Não voltou até agora.

— Meu pai é chato. Não me entende. Viu a casa bagunçada e já pensou que sou desobediente.

Neguei com a cabeça.

— Não posso trazer isso para você.

— Você traz muita felicidade para mim. Isso que importa.

Olhei para o seu peito nu. Havia pequenos fios crescendo no meio. Me abracei, enquanto ele se aproximava para me abraçar de frente.

— Aliás, você fica lindo com a minha roupa.

Eu ri, negando com a cabeça.

— Desculpe pelo o que estou fazendo você passar. Deve estar com vergonha.

Ele me soltou para segurar minha cabeça, onde me beijou bem na testa.

— Que nada. Estou adorando isso.

E se virou, deixando-me sozinho no banheiro.

Quando eu me virei para o espelho, vi que os meus olhos ainda estavam negros por baixo, sinal de que não tinha dormido. Precisava descansar. Mas como, sendo que minha mente estava em um turbilhão?

 



Notas finais do capítulo

O que achou? Comente! Sua opinião mostrará ajuda para os capítulos futuros ♥



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