Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 25
Capítulo 25




Tudo bem, você quer que eu te encontre?

Olhei para o céu. Estava deitado na varanda, sozinho.

— Aqui em casa não.

Pude ouvir a respiração de Daniel.

Na minha pode ser?

Concordo, mas sabia que não tinha como ele entender. Na verdade, eu queria, mas ao mesmo tempo desejava ficar sozinho. E no fundo queria mesmo era a companhia de Kyle.

— Claro.

Okay, te busco em algum lugar ou você vêm?

— Vou aí. O que mais quero evitar é me encontrar em carros com você.

Obrigado pela parte que me toca. Estou aguardando a sua chegada.

— Não, você entendeu err…

Ouvi o barulho da chamada sendo encerrada. Olhei para a tela, vendo a foto de Daniel sorrindo para mim, e não para a câmera. Tinha tirado essa foto logo quando acordamos, estava sentado em seu colo e comecei a beijar o seu pescoço. Ele estava tão lindo… Mas ainda faltava algo.

Peguei o ônibus e desci perto da rua, onde encontrei Daniel em frente a casa. Assim que eu entrei, percebi que o pai dele não estava por ali. Despejei a minha mochila em cima do sofá e me sentei ao lado dela, olhando para o Daniel. Ele se sentou do meu lado, alongando as pernas em volta de mim para me prender próximo a ele. Me abraçando, começou a me beijar. Aceitei o beijo, era quente e formidável. Lento, era conhecido. Precisava desse carinho, precisava de um refúgio para tirar a dor que latejava minha cabeça.

Nossas mãos percorreram o corpo um do outro, num carinho que pouco percebia em Daniel. Talvez esteja agindo assim por essa situação, tentando me tranquilizar com essas bombas. Parando para respirar, repousamos nossas testas uma na outra.

— Estava com saudades. Disso.

Engoli em seco. Poderia dizer que também estava com saudades dele, ou disso. Mas seria mentira. Era muito cedo para dizer algo em relação a isso. Era muito cedo para pensar.

— Eu também.

Foi tudo o que consegui dizer. E minha voz saiu trêmula. Seria impossível não perceber que falhei ao tentar ser verdadeiro. E Daniel sacou, levantando o rosto para me encarar.

— Como está se sentindo?

Enquanto abria a boca para articular as palavras, Daniel passou os dedos sobre os meus cabelos que bagunçaram durante os beijos. Não sei quando foi a última vez que cortei, deveriam estar enormes. Não me olho no espelho nos últimos tempos.

— Estou bem.

— Não parece. Não precisa mentir para mim.

Revirei os olhos, abaixando o rosto. O corpo dele estava quente ao meu.

— É claro que isso me incomoda. Meu celular não para de vibrar...

— Deixa eu ver? As mensagens, quero dizer.

Levantei o rosto, formando uma expressão que espero ele ter entendido. Quem pensa que é para exigir o meu celular? Mas no fundo sabia que era ppor conta das acusações. Por fim, soltei a respiração e o peguei dentro da mochila. Daniel pegou da minha mão, checando por cima do facebook. Havia inúmeras mensagens não lidas, e eu soube de todas elas. Daniel formou uma expressão de dor ao ler aquilo.

— Eu recebi a mesma coisa que você, mas…

— Não tão violento assim?

Daniel fechou a boca, olhando para a minha camisa. Desligando a tela do celular, me devolveu.

— Eu sinto muito, de verdade.

O abracei. Não sei porque fiz aquilo. Não conseguia vê-lo assim. Tive de perceber que agora estava nessa com ele, e não outra pessoa. Ele foi o único que se preocupou em me chamar para conversar. Entretanto, era o único que foi motivo dessa chacota, além de mim. Estamos no mesmo barco.

— Não fique assim. Sabíamos que isso iria acontecer, cedo ou tarde.

— Eu sei. Por mim tudo bem o que acham sobre mim, não dou a mínima. Mas, você…

— Estou bem. Sei ser forte também, sabia?

Ele ri — uma risada forçada que dava vontade de apertá-lo de tão fofo —, voltando a me dar selinhos. Eu retribui abraçando-o ainda mais.

Por fim, acabamos indo para cama. E dessa vez fizemos mais apaixonados que a última vez. Quando acordei, observei que Daniel não estava comigo na cama. Olhei para a janela ao lado: estava de tarde, quase anoitecendo. Bocejando, olhei para a porta. E lá estava Daniel, entrando com uma bandeja na mão.

Me sentei no mesmo instante, sentindo a leveza do colchão familiar.

Daniel ofereceu a bandeja, mostrando um prato feito de lasanha.

— Seria café da manhã, sabe, se fosse de manhã. Mas está aí. Fiz hoje de tarde, antes de vir para cá. Espero que goste.

Com a mão, me ofereceu os talheres enrolados em um guardanapo, que aceitei. Não sabia nem que horas eram, mas morria de fome. Nem sei quando foi a última vez que comi. Sorri, olhando para ele.

— Obrigado, não precisava. De verdade.

Ele sorriu, se sentando na minha frente. E ficou parado, me encarando. Revirei os olhos, olhando novamente para a comida. Ótimo, ele me olharia comer.

Experimentei o primeiro pedaço. E não tinha como não me sentir no céu.

Naquela noite dormimos juntos. Era fantástico sentir o corpo colado ao meu. Os músculos me pressionando contra o edredom, os lábios deslizando no meu. Me senti aquecido com o seu toque, seguro. Longe de tudo. E acordei feliz.

Ao encará-lo, pude ver como ele era lindo. Quem poderia ser tão lindo até mesmo dormindo?! Bocejei, virando-me para a escrivaninha. Sem saber o horário, peguei o meu celular. E assim que toquei nele, vi várias mensagens. Lutei para rolar a tela até encontrar pessoas que eu queria conversar. E havia, Lilly e Kyle.

Olhei atentamente. Sem demora fui até o nome da Lilly. Estava preocupada por não ter notícias, visto que a última vez que me viu foi na noite da formatura, onde desapareci. Ela queria me encontrar, e se eu não quisesse, poderíamos trocar mensagens. O que for melhor para o meu agrado. Sorri de orelha à orelha, sabendo que estava se importando de verdade.

Respondi, indo até a do Kyle. Não queria vê-lo, não queria muito menos pensar nele. Mas confesso que estou curioso em relação à isso. O que ele teria para falar?

Quentin, me perdoe. Eu sei que agi de maneira estúpida com você, e não devia ter feito isso. Você esteve frágil pelo que aconteceu na formatura e por minha causa acabei dando um beliscão em você, sem necessidade. Entendo a sua preocupação, a sede de vingança por essa pobre garota que não tem coração. Não estou preocupado com ela, e sim com os pais. Conheço essa família rica, andei muito com o irmão, e te garanto: ela sofre nas mãos deles, talvez isso quebra o meu frágil coração. Mas eu me preocupo mais com você. Você é o meu amigo, e não aquela família rica. Eu te conheço bem mais que eles. Então estou disposto à ajudar. Se quiser a minha ajuda, claro.

Desliguei o celular ao ouvir um murmurar vindo de Daniel. Ele tinha acordado. Olhando para aquele rapaz Deus-grego, sorri ao dar um selinho de bom-dia.

 

Assim que me despedi de Daniel, ele me ofereceu um uber. Dispensei, falando que tinha dinheiro para voltar de ônibus.

— Mas ônibus anda muita gente, e muita gente fedida.

Dei de ombros, caminhando até o ponto perto da casa dele. Daniel foi atrás.

— Por favor, aceite a minha oferta. Não quero você dentro desses ônibus lotados. É nojento!

— Eu vou de ônibus, Daniel. Não tenho dinheiro pra ir de carro.

— Eu tenho.

— Que vai usar com você, não comigo.

Ele desistiu, concordando com um muxoxo. Encolhi os meus ombros ossudos, percebendo que estava fazendo uma jogada de cachorro-abandonado comigo.

— Isso não vai funcionar, Daniel.

— Nem levar você no meu carro até a esquina da sua casa?

— Daniel!

Ele riu, se aproximando ainda mais de mim. Pude sentir o seu perfume entrar nas minhas narinas. — Era um cheiro formidável, por sinal. — O seu braço ficou em cima do poste próximo ao ponto, assim ficando cara a cara, me prendendo no vão entre os bancos e ele.

— Nem se eu lhe der um beijinho?

Fechei os olhos. Antes mesmo de argumentar sobre, dizer que não era permitido, ele me beijou. Um selinho demorado. E toquei em seu abdômen, sentindo seu corpo duro em músculos. O pior de tudo era que eu queria seguir os meus malditos conselhos. Mas não, faço tudo ao contrário. Assim que os nossos olhos se distanciaram, olhamos ao redor. Ninguém na rua e ninguém nas casas, muito menos alguém nas árvores com uma câmera fotográfica com roupa camuflada.

Tudo ok.

— Você se preocupa demais, Quentin.

Olhei para ele. Os olhos daquele garoto brilhavam de excitação.

Quando o ônibus chegou, demorou cerca de vinte minutos até chegar em casa. O motorista para em um ponto próximo ao meu quarteirão, tendo de andar algumas casas até que chegue na minha. 

Não consigo tirar Daniel da cabeça enquanto ultrapasso a rua, virando a esquina. Daniel está provando ser uma pessoa bem diferente do que imaginava. É carinhoso, romântico… totalmente diferente daqueles trajes de playboy que ele usa. Nunca fui afim de playboys. Se bem que… Nunca fui afim de nenhum. Sempre tive quedas por surfistas, se isso conta por algo. Mas era algo que não tinha o prazer de realizar. Agora uma mistura de romance com safadeza é…

Parei onde estava, olhando para a minha casa. Encontrei os meus pais parados no lado de fora, encarando as paredes. Do lado deles, minha prima levava a mão até o rosto para enxergar melhor por conta do sol. Não precisei perguntar o que faziam parados, admirando a nossa casa. Qualquer um veria os desenhos de dois pênis pichados nos muros. Um rosa e um roxo. E embaixo havia algo escrito em tom vermelho.

QUENTIN AMA

PIROCA, ESSA BICHA!

— • —

 

— Quentin!

Era Megan, me enxergando ao se virar para a rua. Eu me aproximei de braços cruzados, devagar, temendo o pior. Queria fugir, queria desaparecer por presenciaram aquilo. Mas, como não seria possível, me controlei de bater os dentes por conta do nervosismo.

Ouvir Megan gritar meu nome fez meus pais se viraram. Meu pai correu em minha direção, me pegando no braço para um puxão.

— Que história é essa de você gostar de pinto, Quentin?

Está certo. Está tudo certo. Eu sou gay, pai. Sempre fui.

Era o que eu iria dizer. Aquele seria o momento ideal. Porém, ao encarar o meu pai, vermelho de raiva, fez-me recuar. Abri a boca, querendo articular a frase que rodava a minha mente a todo momento. Tinha de falar algo, porque se percebesse que travei, saberia a verdade. E a verdade o decepcionaria.

— Eu…

— Não admito essa blasfêmia! Garotos aparecem com caixas de sons zombando do meu filho! Dizendo… Dizendo que você é viado! — de repente, me senti pequeno diante de tamanha raiva. — Isso é verdade? É verdade, Quentin? Anda, desembucha moleque!

— Largue a mão dele, Peter. — Minha mãe chegou para tocar em seu braço. — Não precisa bater no menino. Deixe-o falar.

Meu pai olhou por cima do ombro, com os olhos zangados.

— Entre na casa, Christina. O assunto é para os homens aqui.

— Acha que vou deixar bater no meu filho? Está muito enganado. Largue a mão e deixe-o falar.

O meu pai respirou fundo, fechando os olhos. Com hesitação, largou devagar o meu braço. Pude sentir a vermelhidão em formato dos dedos dele ficando na minha pele branca. Engoli em seco.

— Isso é mentira, pai.

— Quentin está sofrendo bullying. — chegou Megan do meu lado. Olhei e vi que havia pessoas na rua, presenciando tudo. — Ele me contou. Disse que estão zoando e que as brincadeiras estão saindo do controle. Como você pode ver.

Meu pai cerrou a mandíbula.

— Isso é sério? Mas ele namorava uma garota!

— Estamos no século vinte e um, tio! As coisas mudaram. Os garotos mudaram.

— Não me venha com esses papos. Eu quero saber de Quentin.

Megan fechou a boca com surpresa de ser ignorante com ela, sabendo que seria inútil discutir com Peter. Só eu o conheço. E sei que só vai se dar de satisfeito quando conseguir o que quer.

— Quer saber? Estou cansado disso. Sim, pai! Eu sou gay! Está bem? Sou muito gay! Está satisfeito com isso?

Meu pai ficou lívido, enquanto encarava os meus olhos. Não sei se gritei para que somente ele ouvisse ou a população inteira. Provavelmente a cidade toda. Minha respiração acelerou. O meu rosto percorreu até minha mãe, que levou a mão até a boca. Os seus olhos se encheram de lágrimas. E ver aqueles olhos escuros… fez lágrimas brotarem nos meus. Engoli o choro, desviando-os até o meu pai.

— Sei que não deve estar satisfeito, mas é o que eu sou. E você deve aceitar. Pai.

Meu pai endureceu a mandíbula. Pude ver as veias grossas saltando em seu pescoço.

— Vaza. Da. Minha. Casa… Agora.

— Peter…

— Eu disse: AGORA!

Não consegui evitar. Lágrimas vieram sorrateiras, enquanto me afastava. Dei um olhar para mamãe, que se ajoelhou no chão para desabar. Megan se ajoelhou para consolá-la, enquanto meu pai procurava algo no chão. Me deparei que havia uma madeira por perto, ele se abaixou e a pegou, apontando para mim.

— E nunca mais volte! Você não é o meu filho!

Sem me importar de secar as lágrimas que caíram de vez, dei uma meia-volta e corri.



Notas finais do capítulo

O que é essa barra meus amores? Infelizmente é o que a maioria sofrem, se não pior. Graças à Deus eu não passei por isso. Meus pais me aceitaram de boa, mesmo sendo homofóbicos. Minha mãe me protege de unha à dentes, e estou muito grato por isso ♥

E para aqueles que passam por isso, desejo toda a força que puder ♥ E lembrem-se: Não se culpe pelo o que você é!



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