Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 18
Capítulo 18




 

Encarava a cortina bordô do vestiário que atualmente se encontrava fechada. Lilly estava logo atrás, se trocando novamente. Já vestiu seis vestidos totalmente diferentes, e nenhuma fora boa suficiente. Respirei fundo, olhando para o chão. Não consegui dormir direito ontem a noite, quando voltamos para casa depois de visitar as lojas, e perceber que estavam todas fechadas. Lilly se desculpou, dizendo que era problema do site.

Eu queria que o Kyle estivesse com a gente, mas ele teve de voltar para a casa. Aparentemente, depois que acordamos, Kyle recebeu uma mensagem. Era da Clarissa, exigindo uma conversa entre adultos. Claro que Kyle foi atrás, ansioso por vê-la novamente.

É difícil, sabe. O seu melhor amigo — e único — namorar. É estranho. Digo isso porque o coitado nunca namorou na vida, não que eu saiba. Sempre foi um garoto sozinho, independente. Sei que está apenas curtindo a sua vida, talvez à procura de um grande amor. Eu sou assim, vai ver também têm esse tipo de pensamento. Às vezes, quando o amor não bate na nossa porta, a gente tem que bater na dos outros, até achar esse amor.

Eu sei que amor é um jogo perigoso. Algo difícil de ser administrado. Tem duas pessoas envolvidas nisso, duas almas cujos sonhos e históricos existem desde sempre. Cabe decidir se permanecem juntos ou não. Independente dos obstáculos. Amor é complicado, queria que as pessoas tocassem na cabeça o risco que é se aventurar nisso. Não é como em filmes românticos, onde começa a história fofa, tem a tragédia que separa o casal e vêm o terrível e clichê final onde o mocinho playboy fica com a nerd que de repente ficou super bonita sem ao menos frequentar uma academia decente. Já na vida real, muitas vezes os casais não voltam depois que a metade do filme passa. É do orgulho que estamos falando.

Isso tudo queria dizer pra ele, botar para fora o que sentia. Mas sabia que Kyle iria se entediar na primeira frase, porque conheço a peça.

Porém eu não posso administrar o relacionamento do meu melhor amigo. Kyle nunca se envolveu em nenhuma discussão minha, por mais que eu pedisse ajuda. Então não posso cobrar algo dele sobre o qual eu não tenho direito. Porque nem sei o que estou fazendo.

— Posso sair?

Pisquei os olhos, voltando à realidade. Na cortina, Lilly se remexia.

— C-claro! Pode sair.

Lilly empurrou a cortina de lado, revelando uma mulher totalmente diferente do que já foi minha amiga. O vestido verde-mar era longo, cheio de bordas com renda e pérolas que brilhavam toda vez que se mexia. Era lindo, ainda mais a renda fina que se passava por todo o tronco, segurando o vestido junto às mangas curtas. Tive de piscar várias vezes para entender que era a Lilly mesmo, por trás de tudo.

— O que achou?

Lilly rodopiou, sorridente. Ela tinha prendido o cabelo em um coque dentro do vestiário, para deixar no clima de formatura. Estava linda.

— Você… Está incrível!

Ela encolheu os ombros.

— Não acha que está exagerado?

— Não, está linda. A cor… o vestido… ficou muito bem em você.

— Não enxergo nada sem os óculos. Vou cair com os saltos.

— Você não usava lentes?

— Uso, mas é horrível.

Tentei analisar a situação, enquanto Lilly se virava para se encarar no espelho. Passando a mão na barriga, percebendo que estava acima do peso para o vestido, se virou.

— Eu amei, mas é muito caro. O preço é absurdo.

— Quantos? Não deve passar de duzentos dólares, né?

— Seiscentos e setenta e nove dólares.

Fiquei de queixo caído. Como um pedaço de tecido poderia custar tudo isso? Tinha o que  dentro dele, barras de ouro? Abri e fechei a boca, tentando arrumar uma explicação melhor que “minha nossa senhora.” E Lilly sacou, soltando a respiração.

— Tudo bem, eu levo outro vestido. É muito caro.

Lilly estava abaixando o zíper por atrás quando me levantei.

— Não, se você gostou, leve este.

— Mas é caro, Quentin.

— Eu sei. Eu ajudo você a pagar.

Lilly semicerrou os olhos, parando o que fazia para soltar os braços.

— Não é você que vai usar esse vestido, Q. Ainda tem suas coisas para comprar.

— Eu sei. — caminhei até chegar atrás de Lilly para poder subir o resto do zíper. — Mas não quero que a minha companhia esteja em mau trapos. Quero ser bem olhado com uma garota linda que estará com este vestido no meio da pista.

Lilly exasperou, olhando para baixo.

— Quentin. Não faça isso comigo.

— O quê?

Me virei para encará-la. A garota passava as unhas na sobrancelha.

— Me ajudar, desse jeito.

— Lilly. Eu te amo, e quero que você use esse vestido para arrasar na nossa formatura, comigo. E pense só: o que o seu ex acharia de você vestida desse jeito?

Fim de história. Lilly revirou os olhos, levando as mãos para a cintura.

— Está bem, você venceu.

Concordei com ela.

No caixa, a dona olhou para nós. Depois de colocar o valor em um papel, ofereceu este para a Lilly assinar. Enquanto a minha amiga escrevia o nome, eu sorri. Não sabia o porque a mulher estava me olhando, mas me deixou sem-graça.

Ao pegar o documento do vestido para si, a mulher colocou por baixo do balcão.

— Temos uma promoção imperdível, se quiserem. Kit de namoro para o fim de ano, por tempo limitado. Um vestido curto para a jovem e um terno elegante para o senhor.

Lilly abriu a boca, querendo negar. Mas fui eu quem falei.

— Ah, nós, é… Não somos…

— Não somos namorados, somos amigos.

A mulher olhou para Lilly.

— Tem certeza? Nenhum garoto que vem até aqui para olhar uma garota experimentar vestidos é um simples amigo. Normalmente são namorados.

Lilly se apoiou no balcão.

— Ele é meu amigo. Só isso.

A mulher olhou para mim.

— Então você gosta dela?

Prendi a respiração. Antes mesmo que o clima ficasse ainda mais pesado, minha amiga agradeceu e saiu da loja me empurrando porta afora. Na rua, jogou o cabelo para trás por conta do vento que fazia os seus cabelos sacudirem.

— Que mulher abusada.

— É.

— Me desculpe, mas eu iria responder aquela vaca. Quem ela acha que é?

— Não se preocupe, iria falar que era gay.

Ela fechou a boca, olhando para o lado.

— Eu iria falar isso, mas eu achei melhor não. Isso é o que você tem que falar. Não eu.

— Tudo bem você falar. É o que quero… Que os outros saibam. Não é?

Ela virou o rosto pra mim.

— Já contou, pros seus pais?

Neguei com a cabeça, olhando para o chão quando atravessamos uma esquina para a outra.

— Eu não tenho coragem. Eu quero, e muito. Todos os dias eu penso que será o dia. Mas, quando olho para eles… Fico congelado. Medo de estragar o que tanto sonharam.

— E qual é?

— Uma família. Sem preconceitos. Crianças. Bem vistos pela sociedade. Essas coisas.

— Mas estamos em século vinte e um. As coisas mudaram.

— Não com Daniel.

Paramos em um ponto de ônibus em frente da faculdade que iria frequentar. Lilly enfiou as mãos dentro do bolso e me encarou.

— Com o Daniel foi diferente. A mãe não aceita ele. Teve de morar com o pai. E se… E se for diferente, comigo? Meus pais não me aceitarem? Viverei na rua? Eu tenho medo.

Lilly encolheu os ombros.

— Não pense assim. Pare de alimentar esse medo. Só vai piorar.

Neguei com a cabeça, focado na calça de Lilly para não chorar.

— Eu estou com medo, Lilly.

Lilly tirou suas mãos do bolso e me abraçou de lado, enterrando a cabeça no meu ombro.

— Os seus pais são os mais gentis que já conheci. É claro que vão aceitar você. Talvez já até saibam, ou duvidam. Só estão esperando.

Olhei para as pessoas que passavam na rua. E tive de imaginar os meus pais sentados no sofá, me esperando em frente a porta para desabafar, contar toda a verdade sobre ser gay. Essa verdade é que me assusta.

— Será?

Lilly deu de ombros, levantando o rosto.

— Só acontecendo pra saber.

Olhei para o ônibus que se aproximava. É. Só acontecendo para saber.

 

Em casa, decidi entrar no facebook. Não costumo muito mexer em aplicativos, mas de vez em quando é sempre bom verificar as novidades ao redor da cidade. De cara vejo uma postagem de Kyle, oficializando o namoro em público. Observei que marcou a namorada, algo que me chamou a atenção. Abaixei a postagem e olhei as curtidas, muitas delas e vários comentários de pessoas que nunca vi em minha vida. Muito mais do que um dia iria ganhar em uma foto minha. Os comentário estavam sem respostas, então Kyle não mexeu depois de ter oficializado.

Desligo o celular e fecho os meus olhos, cansado. Parecia que um trator havia passado por cima de mim e dado ré, só para garantir.

Ouço um barulho se aproximando. Retirando as mãos, vejo que é meu pai. Ele iria bater na porta, mas observou meu olhar e congelou.

— Filho? Eu e sua mãe iremos ao aeroporto, quer ir conosco?

Me apoiei na cama com os braços para trás, levando os olhos até ele. O homem aparentava estar mais velho que nos últimos tempos. As rugas tomavam conta por todo o seu rosto. Mas, mesmo assim, ainda era meu antigo pai.

— Por quê?

Ele tirou a mão da maçaneta.

— Sua mãe não falou com você?

Não respondi, porque definitivamente não tinha conversado muito nos últimos tempos. E, se cheguei a falar, foram palavras curtas. Eu não tinha assunto a se tratar com meus pais. Estava virando um daqueles jovens-adultos em que odeia a presença dos pais.

— Sua tia passará o Natal com a gente.

Arregalei os olhos, tentando raciocinar quais das tias seriam. Eu tenho três, e duas delas são insuportáveis. E a que eu mais gosto está do outro lado do mundo. E, pelo que sei, já que o Natal está bem perto, será uma das chatas.

De repente me vejo sem liberdade alguma, com ela entrando em meu quarto para arrumar a bagunça que costumo deixar.

— Qual delas, pai?

— Tia Callie.

Queria gritar. A minha tia preferida iria nos visitar, passar o Natal com a gente. No mesmo instante pulei da cama, ficando de pé de frente da porta. Callie era a irmã mais velha de Peter. Uma mulher totalmente diferente do homem que me deu a luz. Além de ser corajosa, sabe ser divertida. Quando pequeno, cuidava de mim melhor que minha mãe.

— Mentira, sério?

Meu pai confirmou devagar, sem saber se eu estava brincando com ele ou não. Aparentemente imaginou que eu sabia de algo, que minha mãe havia contado tudo. Mas encolheu os ombros, sem saber se era surpresa ou não, de ter estragado tudo.

— Sim, e ela não vem sozinha. A filha vem junto.

Megan estaria em casa. Meu dia não teria como ficar melhor!



Notas finais do capítulo

Obrigado a todos que estão acompanhando, vocês são incríveis ♥
Vi que os números estão aumentando, e isso é um dos motivos de me deixar mais ansioso e compromissado nessa história. Não sei onde surge essas ideias, mas é de vocês que elas vêm. Com cada acompanhamento, cada comentário me deixa super feliz. E nada disso seria possível sem vocês, obrigado mesmo ♥♥♥♥♥♥♥♥



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