Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 15
Capítulo 15


Notas iniciais do capítulo

Em compensação ao capítulo anterior (que foi poucas palavras) essa está bastante recheada ♥
Pegue um café, uma coberta (ao menos que na sua cidade esteja calor, aí seria o ventilador) e bora lá!
Tenha uma ótima leitura ♥



Estava sentado no banco de madeira, em frente à ponte acima do lago, o lugar onde contei para o Kyle que era gay. Os meus dedos percorriam pelas páginas de um livro, indicado pela Lilly. Segundo ela, ler um pouco iria distrair minha mente. Mas, parece até que piorou. Minha mente estava um turbilhão por conta da formatura, e, logo depois, a faculdade. Não tinha par para ir, e não queria ir sozinho. A faculdade começaria em breve, sendo que nem aproveitei minhas férias!

Os meus olhos se deslocaram com os pensamentos, até que nem notei quando Daniel se aproximou com os dois sorvetes nas mãos. Por acaso, acabei encontrando com ele naquele parque — ou foi ele que me encontrou? —. Paramos para conversar e decidimos sobre o nosso futuro. Não juntos, claro.

— Você vai ao baile? Fiquei sabendo.

Fechei o meu livro, pegando o sorvete de creme.

— Sim, não. Não sei ainda. Iria com a Lilly, mas…

— Lilly? — Daniel se sentou ao meu lado, semicerrando os olhos por conta do vento. — Por que iria com ela? Pensei que convidaria o seu amigo.

Parei com o sorvete no caminho da boca para encará-lo.

— Amigo?

— É. O que sempre busca você na escola de carro.

— Kyle. O nome dele é Kyle.

Daniel concordou, chupando o sorvete. Eu fiquei parado, observando-o.

— O que foi?

— Não sabia que você já tinha visto ele.

Daniel arqueou as sobrancelhas, não parando de saborear o sorvete.

— Todo mundo comenta quando um carro caro fica parado em frente a escola.

É verdade. Todos me chamam de metido ou filhinho de papai por sair da escola de carro. Mas não era eu que o chamava para me buscar! Ele ia de livre e espontânea vontade.

— Todo mundo fala demais.

Daniel riu, olhando para mim.

— Termina seu sorvete, vai derreter.

Assim fiz, passando a língua até derreter boa parte dele, para que não caísse.

— E você vai? Ao baile, quero dizer.

— Não. Não gosto dessas coisas. Já disse.

— Hm.

— Mas você vai. Precisa arrumar um par, antes que tenha que chamar a sua mãe. Isso seria vergonhoso, pra você.

Refleti um pouco. Sabia que estava certo, mas o que eu poderia fazer? Iria ter que convencer Lilly de alguma maneira de ir. Estava ficando sem esperanças.

— E por que você não vai? Não adianta falar que não gosta, isso não é resposta.

Daniel deu de ombros, e então fez algo que deixou o coração palpitar. Esticou a mão e tocou com os dedos na minha boca, retirando o que sobrou de sorvete no canto dos meus lábios. Na mesma hora eu me contive, arregalando os olhos com a surpresa. Havia pessoas naquele parque, e encarar a cena em que um rapaz ajudava a limpar o outro era bem… Íntimo. Ele notou, que sorriu, retirando a mão logo em seguida.

— O que foi?

Me senti corar, desviando o olhar. Eu poderia muito bem me limpar sozinho! Passei a costa da mão na boca, percebendo que ele já havia limpado tudo.

— Não faz isso. Estamos em um parque. Há pessoas aqui.

— E o que poderiam fazer? Olhar? Tirar fotos?

Dei de ombros. Mas, antes mesmo que pudesse responder as perguntas, Daniel se aproximou e me beijou. Instantaneamente segurei em seu peito, com a surpresa. Não esperava por isso, nunca esperaria. Já tinha admitido o fato de estar ficando com o Daniel, mas, em público era algo… Surreal. E eu não consegui evitar, retribui o beijo, levando a mão até o seu pescoço. Onde aconteceu o desastre.

O resto do meu sorvete virou no colo de Daniel.

Primeiro paramos de nos beijar para olhar para baixo. Ele riu com o shorts melado e eu me senti tolo por ter deixado isso acontecer. Nunca mais iria querer sair comigo. Me distanciei um pouco do banco e estiquei minha mão, tentando amenizar o estrago. Mas só piorava. Até que ele segurou minha mão e se afastou, olhando-me.

— Ei, não fique com vergonha.

— Desculpe. Mil desculpas, é que…

— Ei, é sério. Eu amei. Principalmente o beijo.

Eu sorri, querendo morder os lábios.

— Você é bom também. Agora as pessoas fariam uma fanfic sobre nós.

Então soltou minha mão, olhando para o próprio shorts.

— Fanfic?

Fiz um sinal de desdém com as mãos, olhando para o shorts dele.

— E o que vamos fazer, com isso?

Daniel deu de ombros.

— Com o tempo seca, não chegou a melar tanto.

Assenti, mais querendo correr do que qualquer outra coisa. Mas ele se provou tão descontraído que me deixou tranquilo. Então me sentei ereto, olhando para o parque em volta.

— Ainda bem que ninguém está aqui, se não imaginariam que você mijou.

Daniel começou a rir. O barulho de uma hiena se engasgando fez com que o encarasse, com as sobrancelhas franzidas. Era impossível imaginar Daniel dando uma risada como aquela. Era impossível até de imaginar Daniel rindo! Até parecia… criança, e não a idade em que tem agora.

— Seria mais por ejaculação, com um beijo gostoso desses.

— Daniel!

E lá estava ele, sorrindo de novo. Aquele sorriso filha-da-puta que me destruía por completo. E não foi ele que me beijou. Dessa vez, fui eu. Me aproximei e o beijei, puxando-o para mim. Daniel não recuou como pensei que faria. Até gostou, tocando em minha cintura para me aproximar de si.

No meio dos beijos melados com gosto de sorvete e uma pitada de aroma de cigarro, onde parávamos para respirar, ele sussurrou:

— Muito obrigado por aparecer na minha vida.

 

Cheguei em casa de noite. Iria tomar um banho e sair, porquê Daniel jurou que iríamos para um motel hoje, passar a noite juntos. Precisava comer, avisar minha mãe que estava vivo e trocar de roupa. Mas, ao fechar a porta, não estava só os meus pais na sala, e sim o Kyle. No começo, me assustei, imaginando ser mais um sonho maluco. Mas quando se levantou do sofá, fez com que eu desse um passo para trás.

Ele parou, fechando a mão.

— Oi.

Concordo calmamente com a cabeça. O que será que ele estava fazendo aqui? Não conseguia nem discernir o real do imaginário.

— Olá.

— Eu… É… Mandei mensagem, você não respondeu.

Iria checar o celular, mas sabia perfeitamente que nenhuma mensagem havia chegado desde que estava com Daniel. Olhei em volta, meus pais não estavam na sala de estar.

— Onde estão meus pais?

— Foram no mercado, dizendo que iria comprar comida para a janta.

Concordei novamente, sentando-me no sofá. Kyle ainda estava de pé.

— Vamos no seu quarto?

Pisquei os olhos.

— Aconteceu algo?

Kyle fechava a mão, dando um passo para trás.

— Acho que sim. Preciso da sua ajuda.

Me levantei, seguindo-o até o quarto. Kyle sabia sobre a planta da minha casa de cor e salteado.

Assim que entramos, fechei a porta. Observei Kyle se sentar na minha cama, virando-me para mim. Uni as mãos, vendo que ele não estava feliz.

— O que foi? É algo grave?

Ele piscou os olhos, negando com a cabeça.

— Briguei com a Clarissa.

Apenas fiquei ali, vendo-o me encarar. Será que queria desabafar? Será que eu teria que ouvir tudo? Dentro de minutos teria que voltar para o Daniel, não poderia perder tempo. Já era para eu estar entrando no banheiro e tirando a roupa.

— O que aconteceu?

Ele negou, baixando a cabeça e unindo as mãos em frente ao rosto. Então me aproximei, mas parei no segundo passo. Não sabia se poderia me sentar do seu lado. Não sabia se ele queria isso. Não sabia se poderia abraçá-lo. Ele era hétero, e receber conforto de um gay iria deixá-lo desconfortável. Mordi os meus lábios, controlando a respiração.

— Ela… Ela não entende. — Kyle levantou o rosto. Estava tentando se controlar. Ele queria chorar. — Ela não entende, Quentin.

Levei o peso de um pé para o outro.

— O que Clarissa não entende? O que você fez, ou ela?

— Ela é idiota! Pensa que está sempre certa, e na maioria das vezes me irrita. Às vezes você tem que reconhecer que está errado. E ela não reconhece isso. “Ah, você que é vândalo! Você age como um animal!”. Eu não sou animal, Quentin.

Pisquei os olhos.

— O que aconteceu? Me diz exatamente o porquê vocês brigaram.

— Eu… Nós fomos para o parque de diversão, o píer de antes. Lá marcamos de nos encontrar com alguns amigos dela. No começo tudo bem, mas depois quando vi eles, reconheci um na mesma hora. Um deles era um garoto que nos odiávamos desde… desde sempre. Encará-lo ao lado da Clarissa me irritou, ao ponto de perguntar onde o conhecia. Ela teimou, falando que era para deixar isso pra lá. Mas como iria deixar pra lá com um assunto como este? Quentin, me explique como minha namorada conhece um dos garotos mais insuportáveis dessa cidade?

Abri a boca, dando um passo para trás.

— Kyle, isso é normal. Pessoas tem passado. Elas têm vidas antes que conhecer uma à outra. Você não pode culpá-la por isso.

Kyle molhou os lábios, olhando para mim.

— Não, não estou bravo por isso, só queria saber. A briga foi outra coisa. Não fiz chilique por causa daquele cara, até porque ela estava comigo, andando de mãos dadas comigo. Claro, não olhei pra ele durante todo o passeio. Mas, quando pediu para eu pegar um algodão doce, eu fui. Quando voltei, o desgraçado estava convencendo ela a jogar em uma barraca. E ela sorria, toda aberta pra ele. Eu relevei, achando que era coisa da minha cabeça, afinal, são apenas amigos. Amigos podem jogar em um mesmo jogo. Cheguei, ofereci o algodão e ela comeu, feliz da vida.

“No total eram cinco pessoas. Quatro garotos e uma garota, esse menino e a garota eram amigos da Clarissa e os outros três eram amigos desse moleque em que não suporto. Os três queriam ir no banheiro. E a garota aproveitou para ir junto. Ela queria ficar com um dos garotos. Até aí tudo bem, mas, pra quê chamar a minha namorada pra ir junto? Falei para Clarissa não ir, ficar comigo. Ela estava um pouco alterada por conta da bebida, mas mesmo assim foi, deixando-me sozinho. Fui atrás, claro. Quando cheguei, vi que ela estava do lado de fora dos banheiros químicos, ao lado do garoto que eu mais odeio em toda a minha vida!”

Kyle parou para respirar, discernir o que tinha falado, se tinha esquecido de algo. E pra mim, o que só conseguia pensar esse tempo todo era o porquê Kyle não tinha me convidado para ir junto, já que era um encontro de amigos. Mas respirei, procurando uma cadeira para me sentar, mas não encontrava no meu quarto. Então caminhei até a cama, sentando-me em uma distância segura para Kyle.

— Ela ficou com ele?

Kyle cerrou a mandíbula, abaixando os olhos.

— Não sei. Quando cheguei no banheiro, só vi ela parada. Eu quase… Quentin, iria fazer um estrago, ia voar pra cima do garoto. Ia bater tanto nele, tanto… Mas me controlei, sabia que se tocasse nele, perderia ela pra sempre. Então respirei fundo, o máximo que consegui e me aproximei, beijando-a só para provocá-lo. Eu não fazia ideia se estava afim dela ou não. Nem sei se eles já ficaram na vida, mas o histórico dele não é de se agradar. Eu só não queria que ela se envolvesse nisso, sabe?

Concordei com a cabeça, então ele engoliu em seco.

— Continuamos a nossa noite. Ao caminho de casa, eu perguntei onde tinha o conhecido. Ela ficou irritada, perguntando o porque iria querer saber disso. Disse que só estava curioso, porque conhecia aquele desgraçado, sabia sobre a vida dele. Ela não queria falar. Eu… Eu peguei no pulso dela, forçando-a a falar algo…

— Você não bateu nela, bateu?

Sabia sobre o meu melhor amigo, o histórico dele também não era de se agradar.

— Não. Não, claro que não. Eu não tenho coragem nem de tocar nela. É que ela queria ir embora sem falar nada. Se não quer falar, está escondendo algo, não é?

Concordei com a cabeça.

— Enfim. Ela não está falando comigo, está brava. Então vim aqui perguntar se estou errado nisso.

Olhei para o relógio na parede do quarto. Já havia passado da hora de eu comer e cair fora. Daniel iria ficar puto da vida. Olhei para a janela, os galhos das árvores se agitavam com o vento do lado de fora, e nada da minha mãe voltar com o meu pai do mercado.

— Quentin, olhe pra mim.

Olhei para Kyle, percebendo que os seus olhos estavam vermelhos.

— Pode falar, seja lá o que você estiver pensando, pode me falar a verdade.

Inclinei um pouco a cabeça para o lado, tentando reunir as palavras certas.

— Não sei o que dizer, eu entendo o seu lado. Ela estava do lado de fora com um rapaz em que você odeia, e se recusou a se explicar. Eu ficaria puto, sim.

Kyle relaxou, isso me confortou, em ver que ele se despreocupou em achar que estava errado.

— Não sei o que faço, não sei se a chamo para conversar. Não sei se vou na casa dela. Ela se recusa a responder minhas mensagens. Diz que eu sou um idiota.

— Bom, eu iria na casa dela, sim. Agora mesmo, bateria na porta e iria conversar.

Kyle concordou, massageando os olhos com os dedos.

— Me desculpe se estou tomando o seu tempo. Mas posso dormir aqui? Estou cansado até mesmo para andar.

E tirou os dedos, levando os olhos na minha direção. Puta merda, logo hoje? Eu tinha um lugar para ir. E agora? Tentei abrir a boca para falar algo, mas ele se tocou.

Bem que percebi que o carro de Kyle não estava do lado de fora. Ele veio andando.

— Você… Você tem um lugar para ir? Se tiver, não tem problema, eu volto pra casa. É que… Não queria voltar pra lá, tudo me lembra ela.

Tudo me lembra ela. Será que quando tivemos nossa briga na ponte, disse a mesma coisa para Clarissa? Que se lembrava de mim? Engoli em seco, sabendo que essa briga seria bobagem. Que tinha vários motivos piores à identificar. Mas, sabia que ele estava certo. Ela poderia ter beijado ele antes que o namorado chegasse. Ninguém, além dos dois, saberiam o que realmente aconteceu naquele banheiro.

Olhei para o celular. Uma mensagem de  texto aparece na notificação. Olhei novamente para Kyle, que ainda me encarava.

— Posso fazer uma ligação?

Kyle concordou, olhando para baixo.

Me levantei devagar e caminhei em direção ao corredor. Respirei fundo e liguei para Daniel.



Notas finais do capítulo

Vejo que estão gostando do desenrolar. Qualquer dúvida, pode me xingar, opa, chamar ♥



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