Ele Não Está Tão a Fim de Você escrita por Ewerton


Capítulo 13
Capítulo 13




Imagino que nunca cheguei a explicar como, e quando comecei a gostar de garotos. Acredito que foi como a maioria dos gays: desde sempre. Olhando revistas de rapazes sem camisa, um filme romântico... Nunca idolatria Mitchie Torres, e sim Nate Gray em Camp Rock. Achava ele perfeito, que homem não iria querer o Nick Jonas? Enquanto a Demi Lovato… É, ela era talentosa.

Assistir Disney não me faz gay, faz? Porque eu era um dos únicos garotos da minha idade que assistia. E você sabe do que tô falando, Disney é incrível! Não tem como não gostarem da magia! Do elenco maravilhoso! Das músicas! As músicas são as melhores, destroem a alma de um jeito que não imagina sentir algo por alguém. E eu, claro, ficava a tarde inteira de folga cantando em frente à tevê, principalmente quando passava high school musical. Eu fazia uma turnê, certeza! Conhecia todas as músicas.

Mas, como sempre, era sozinho. Podia sentir certo desconforto ao ver que não mostraria à alguém... Ao contrário ririam de mim. Desde pequeno pude sentir que era diferente. Principalmente nas opiniões formadas. Quando brincávamos de esconde-esconde, já me olhavam ao saber que eu não valia ponto, era apenas uma sombra em meio à eles, algo que era só para não me chatear, porque me chateava, e muito. Zoavam com os meus shorts, que eram apertados demais e fazia volume nas nádegas. Eles apalparam e gargalhavam ao dizerem que estou “crescendo”, como as mulheres ficam depois que menstruam. Palavras deles, não minha.

E eu gostava. Gostava da atenção que eles me davam. E me perguntava. Me perguntava se isso era normal, se eles se sentiam assim também, só que em ocasião diferente. Deveriam sentir, não seria o único louco com este tipo de pensamento, mesmo tendo apenas dez anos.

Demorou para saber que eu era gay, a definição, mesmo já sendo. A ficha caiu quando vi meu amigo nu, pela primeira vez. Já tinha visto meu pai pelado na minha frente, era nojento, mas eu era muito criança. Inocente. Já o jubileu do meu amigo estava de pé, me encarando. Esse meu amigo — que abençoe a obra prima que Deus fez. — estava excitado porque tinha pegado uma revista pornô do seu pai, enquanto procurava uma cueca para ele usar. O garoto estava sozinho em casa, os pais tinham saído e ele me chamou para assistir um filme. Foi amor à primeira vista, porque fiquei excitado também, mesmo sem saber o porque. Não deixei ele ver, porque riria de mim.

Horas mais tarde, quando a Selénea beija Arthur em os Minimoys, as orelhas deles tremem, o que chama minha atenção no mesmo instante. Aquilo era um sinal de amor, que ambos se gostavam, ao ponto de deixar o corpo tremer.

Eu olhei para o lado, para o meu amigo. Ele não me encarou, estava concentrado demais na pequena princesa que salvaria o reino. Deveria ter ficado calado, mas não me contive.

— Ei, você acha que isso existe?

— Os Minimoys? Claro que sim... Só são pequenos, dã. Ninguém consegue enxergar eles.

Olhei para a televisão. Era claro que enxergavam. O avô falava de histórias para o menino, se me lembro bem. Mas, mesmo assim, continuei. Eu queria ouvir o que ele tinha a dizer.

— Não, sobre as orelhas.

Ele olhou para mim. Sua testa estava enrugada.

— O que que têm?

— Elas tremem, quando beija quem ama. Será que um dia… A gente vai fazer isso também? Tremer?

Ele olhou novamente para a televisão. Nem ele e nem eu sabíamos responder. Mas eu queria, no fundo do meu coração, que ele me beijasse. Só para ver como era ser tocado por alguém. E nada mais nada menos que um dos meus melhores amigos, o que admirava ainda mais. O melhor de todos. Mas sabia que ele acharia isso estranho.

Mas isso não aconteceu, claro. Ele provou ser bastante hétero com o passar dos meses, até se afastar de uma vez. Nunca mais falou comigo, nem mandou uma simples carta. Virou um estranho. Mas não podemos prender todos à nossa volta para sempre, não é mesmo? Segui a minha vida, percebendo que não era somente ele que eu me apaixonei. Eu me admirava aos outros garotos, idolatrava até. Quando assistia algum filme em que o personagem tirava a camisa, eu morria de vergonha, porque sentia algo.

Eu tentei, juro que tentei me convencer de que isso era estranho, então parti em busca de garotas. Isso é normal quando se tem treze anos. Os meus amigos, que tanto me acompanhavam na infância, começaram a parar de falar de videogame e começaram a falar sobre garotas. E, como sempre, eu era o único que nunca tinha beijado uma! Achava isso vergonhoso, ao ponto de que precisaria arranjar uma. Eu a encontrei, claro, era uma amiga da escola. Descobri através da amiga dela.

— Quentin, seria legal se a gente saísse.

Estávamos voltando a pé da escola para as nossas casas. Nós andávamos até a metade do caminho acompanhados, um ao lado do outro, depois cada um iria para um caminho diferente.

— Sério? Que legal! Eu nunca saí pra algum lugar.

Ela soltou um risinho.

— Que bom, porque vai sair eu, o Richard, você e a Dany.

Olhei para ela, e ela soltou um risinho.

— Isso parece um encontro de casais.

— Mas é. Ela gosta de você. Quer namorar você.

Um fogo se acendeu. Então não precisaria morrer de vergonha ao dizer para uma garota que gostava dela, e ela dissesse não. Porque sabia que Dany gostava de mim, e eu gostava dela. Agora sim tinha entendido porque ficava tão brava quando conversava com outra garota… Ela tinha ciúmes.

Na verdade, queria era a companhia da Wanessa, ela sim é a melhor da escola, mas nunca me veria como um amigo, quem dirá namorado.

Mas aceitei. Quando a vi, suei tanto que me imaginei estar fedendo. Ela estava sentada perto da quadra de basquete, sorrindo ao me ver. Eu ri, sabendo que deveria ser agora, que não deveria dar um pé atrás.

— Oi.

— Oi.

Eu confirmei, olhando para frente.

— Fiquei sabendo que você… Que você gosta de mim. — Eu olhei pra baixo. — É verdade?

Eu era tímido, não conseguia nem olhar na cara dela ao fazer essa pergunta! Que péssimo namorado de um segundo eu era.

— É verdade. Te acho fofo.

Eu sorri. Só então consegui olhar pra ela. Nós rimos.

— E você quer namorar comigo? Sério?

Ela concordou, levando o cabelo atrás da orelha.

— Então tá bom.

Acontece que não gostei de ficar com uma garota tanto quanto gostaria de ficar com garotos. Ficava muito na cara que eu não a queria, mas ela era brava demais para deixar explicar. O que era de fofa mudou-se completamente para garota que se não a beijasse, surtaria dizendo que iria parar de namorar comigo. Qual é! Só tinha quatorze anos!

O namoro durou quatro dias.

Depois disso, nunca mais tentei.

Meses se passaram, e finalmente encontrei o meu amigo de infância, o que assistiu Arthur e os Minimoys comigo. O garoto estava crescido, estava diferente. Custou a reconhecê-lo sem o corte de cabelo que lhe caía super bem. Estávamos em um parque de diversão quando o vi na fila para entrar na montanha-russa. Eu fui com a minha família, mas ninguém queria entrar nos brinquedos, de maneira que fui sozinho.

Assim que liberaram para entrar, na minha vez sobrou apenas um lugar, o lugar em que queria estar: no primeiro carrinho. Quando me sentei, vi que era ele. O garoto olhava para o outro lado, para os trilhos que faziam voltas por todo o parque. Fiquei sem fôlego. Não por reconhecê-lo, porque nem sabia quem ele era, mas sim porque o garoto era lindo. Eu conseguia ver algo, um resquício de memória esquecida. Porque odiei quando me abandonou, isso alimentou o ódio.

Uma certa vez, assisti um programa de tv bem antigo. Não sei porque tinha atração por aquilo, até ver depois o significado. O apresentador conduzia quatro homens em direção à poltronas, onde tinha um aparelho que media o batimento cardíaco de cada um. O objetivo do jogo era identificar um gay entre os três héteros, enquanto um gogoboy de sunga super apertava dançava em frente de cada. Eu assistia escondido dos pais, porque quando o dançarino começava a trabalhar, eu não conseguia esconder minha ereção. Eu não sei, não sei como os homens sentados naquela cadeira conseguiram fazer aquilo! Enganar todo mundo! Porque fiquei com tanta vergonha, que cheguei à melar a cueca.

E foi o que senti, quando me sentei do lado dele. O garoto virou o rosto, e sorriu.

— E aí.

Confirmei com a cabeça, desviando o olhar. Odiava falar com estranhos.

O carrinho travou o cinto de seguranças. Não conseguimos mais nos mexer.

— Você é Quentin, não é?

Semicerrei os olhos, virando para ele.

— Sim, eu acho. Se você não conhecer nenhum outro Quentin.

Ele deu uma meia risada. E o carrinho destravou as rodas. Começamos a andar. Foi incrível, aquela montanha-russa era irada! Além de dar inúmeras voltas, me deixou com vontade de vomitar, o cabelo ficou todo pro ar. Tive que arrumá-lo rapidamente, antes que o garoto que sabia o meu nome falasse algo.

— Uau! Cara, isso foi demais!

— É… Foi sim.

Eu era muito entediante, sério.

— Acho que você não se lembra de mim. É bom refrescar a sua memória. Eu sou Kyle. Nós éramos amigos, quando crianças… O filme Arthur… — ele levantou as mãos até as orelhas, como se abanam o vento. — As orelhinhas… Se esqueceu até disso, cara?

Pisquei os olhos.

— Por quê você não me disse antes?

Foi então que por aí continuamos a nossa verdadeira amizade. Foi aí que eu soube que eu era gay. Foi aí que descobri que estava apaixonado pelo meu melhor amigo.

E como eu tinha conseguido tirar isso da minha cabeça? Que isso nunca aconteceria? Que seria uma ilusão? Precisei ficar com vários para esquecê-lo, mas nunca conseguia. Precisei de muita luta para aceitar que ele seria o meu amigo, apenas isso. Nada mais que isso.





Hey! Que tal deixar um comentário na história?
Por não receberem novos comentários em suas histórias, muitos autores desanimam e param de postar. Não deixe a história "Ele Não Está Tão a Fim de Você" morrer!
Para comentar e incentivar o autor, cadastre-se ou entre em sua conta.