Os Guardiões do Tempo: Agentes da Ordem - Parte II escrita por R G Assis


Capítulo 9
Capítulo 7 - Desventurosas descobertas




Eles se foram. Finalmente conseguia respirar novamente, seu coração batera tão rápido de uma forma tão dolorosa quando os viu, que todas as incertezas sobre sua vida tinham desaparecido, infelizmente, as lembranças não.

Na outra vida, aquela à qual Melanie não vivera de fato, fora uma pessoa totalmente diferente, alguém que não enfrentara os medos, que nunca realizou os sonhos, que não teve o apoio necessário para superar a depressão.

Há quanto tempo não pensava daquela forma amarga, mesmo sabendo que aquela vida não deveria existir, sabendo quem era, sabendo quem amava... na outra vida Melanie não tivera Arthur, nem sua compreensão e delicadeza em lidar com ela, Melanie nunca tivera alguém para contar sobre a escuridão que sentia dentro de si, não, naquela vida Melanie guardou tudo para si, transformando tudo em transtornos alimentares, em insônias curadas com remédios e isolamento.

Tentou não ser afetada pelas lembranças dolorosas, tentava resgatar do fundo da mente e coração sua verdadeira vida com Arthur e seus filhos, todos os sorrisos, os passeios no parque, as travessuras... porém de alguma forma o estrago já estava feito, algo já havia se quebrado dentro dela, algo que a muito tinha medo de liberar, que escondera bem, enterrara e cobrira com uma grossa camada de felicidade e que agora estava desfeito.

Não se apressou em segui-los, não era como se soubesse o que tinha de fazer, se perguntou se por acaso pegasse o livro ele lhe diria o que fazer, mas dispensou a ideia logo de uma vez, o livro deveria ficar com a jovem Melanie, como tinha de ser.

Suspirou olhando para o céu novamente, tinha de descobrir alguma coisa, qualquer coisa, olhando para o horizonte, onde se podia ver o castelo ao longe, Melanie começou a andar seguindo em sua direção com passos vacilantes.

Caminhou pelo campo aberto, a princípio não se preocupou em ser vista, mas assim que estava ao alcance das sentinelas resolver usar o mesmo feitiço que usara em sua casa e desapareceu, como já havia usado muita magia, principalmente depois de um salto no tempo, apertou o passo para chegar mais rápido.

Encontrou os portões ainda abertos, os atravessou quase sem fôlego agora, o caos em sua mente afetava seu corpo já muito fatigado, Melanie adentrou os muros, seguia em direção a vila, logo sua camuflagem cairia e ela seria vista por todos, seguiu entre as casas em uma delas encontrou uma longa capa pendurada e a pegou, a capa cobria seu corpo inteiro e se dispunha de um capuz também, assim que estava coberta, Melanie deixou-se ser vista.

As pessoas não a olhavam demoradamente enquanto caminhava, conseguiu passar despercebida em meio aos camponeses, seguiu em direção ao castelo, entraria por trás onde estavam as criações de porcos e galinhas, também onde se encontrava a horta de onde vinha os legumes consumidos no castelo, ali ficava uma entrada que daria na cozinha, onde também se encontravam algumas roupas que deixavam para secar.

Antes de se aproximar mais, vasculhou o ambiente, notando algumas mulheres colhendo frutos ao longe, estavam de costas e não a veriam, Melanie olhou novamente para as roupas, viu um vestido escuro que era de seu tamanho, o pegou, estava ainda um pouco úmido, mas serviria perfeitamente, o dobrando e escondendo por debaixo da capa, Melanie entrou no castelo.

***

Depois de finalmente conseguir passar pelos empregados que andavam apressados de um lado para outro, Melanie encontrou um aposento onde pode se trocar rapidamente, o vestido não pareceu cair tão bem como previsto, estava muito justo em alguns pontos, infelizmente não tinha muito tempo para se preocupar com isso, resolveu então permanecer com a capa.

O pequeno aposento que se encontrava se dispunha de uma janela, mas não era necessário, não queria que vissem a fumaça quando queimou suas roupas do futuro, as queimou tão facilmente que não sobraram cinzas que a denunciasse. Seu plano, pelo menos de imediato, era andar pelo castelo para ver se descobriria algo, mas quando caminhou até a porta sentiu o chão balançar, sua cabeça girava, o cansaço mental finalmente estava afetando o físico de uma forma que teve de se sentar para não cair.

Ficou agachada na penumbra do pequeno aposento que deveria ser uma espécie de depósito, estava repleto de sacos com farinha e grãos, abraçou as pernas e apoiou a cabeça nos joelhos, tentava limpar a mente, respirar calmamente, relaxar os ombros que já começavam a ficar doloridos de tensão.

Não pareceu fechar os olhos sequer por alguns minutos e infelizmente percebeu que pegara no sono, a noite já chegara e podia ser vista através da pequena janela, levantou esticando o corpo ainda sonolento, mas que pelo menos estava mais disposto e se preparou para sair.

Abriu a porta devagar verificando o corredor, quando percebeu que ninguém estava por perto, saiu apressada, tentava recuperar as lembranças dos caminhos do castelo no fundo de sua mente, tentava se lembrar onde havia sido seu quarto, onde eram os aposentos reais, dos cavaleiros... uma ideia passou pela sua cabeça, agora lembrava mais claramente do cavaleiro traidor que estava sendo manipulado por Mordred, qual era seu nome? Ahh, sim, Correl, Lorde Correl. Melanie nunca poderia esquece-lo, mesmo que tentasse, sentia em seu corpo as lembranças ruins de seus encontros com aquele homem desprezível, infelizmente, percebia agora que ele era sua melhor chance de descobrir algo.

Enquanto caminhava atenta, notou vozes virem de longe, conseguia sentir suas vibrações, elas pareciam familiares, intrigada resolveu segui-las, parou assim que notou dois homens conversando, ficou atrás de uma parede para vê-los melhor, um estava de costas para ela e tampava o rosto do outro.

Esperou alguns minutos para ver quem eram e quando estava quase desistindo, olhos azuis cobalto surgiram brilhando na escuridão de suas capas e do corredor coberto por uma luz bruxuleante, as lembranças vieram como uma enxurrada inundando seus sentidos.

Ben! Melanie lembrava-se do amigo, lembrou-se de sentir que havia perdido um irmão quando se fora e também se lembrou da sensação de seu beijo, meu primeiro beijo, a felicidade de vê-lo não foi suficiente para afogar a dor que sentiu assim que o outro homem se virou enquanto Ben ia embora.

Dom estava com um semblante sério, parecia cansado, como se sentisse um peso enorme nos ombros, apoiou-se na parede por um momento esfregando as têmporas com a outra mão, suspirou, recompôs-se e seguiu para longe de Melanie. Aquela escuridão de antes ameaçou novamente tomar seu ser quando as lembranças dos sentimentos que a dominaram na épica em que Dom morrera ameaçaram ressurgir, se acalmando, Melanie não sabia por mais quanto tempo conseguiria aguentar sozinha.

Voltando ao foco de seu plano, seguiu para os aposentos dos cavaleiros, onde esperava encontrar alguma pista com Correl, conforme caminhava os corredores pareciam mais familiares, estava perto quando já ia virar num corredor viu-se abaixada tentando arrumar o sapato.

A jovem Melanie estava a sua frente, vestindo um longo e grosso vestido verde, Melanie lembrava de tê-lo usado, se escondeu atrás de uma coluna e esperou, não tendo que esperar por muito tempo, pois logo uma porta se abria e um velho saia dela esbaforido e esbarrava em Melanie, pediu desculpas no momento em que Correl apareceu, a repulsiva figura lhe dava enjoos até de longe, desviando sua atenção dos dois, percebeu que o velho caminhava em sua direção, deixou-o passar sem vê-la e o seguiu de longe, sentia que teria mais chances de descobrir algo se o seguisse.

Não olhou para trás novamente, sabia o que iria acontecer e quem iria aparecer, não estava preparada para vê-lo novamente e sentir a dor da perda.

***

A noite de outono vinha acompanhada de uma brisa gélida, seguiu o velho por diversas passagens escondidas dentro do castelo, das quais nem ela conhecia e logo estavam do lado de fora na parte de trás, sentindo a grama roçar seus pés através da fina sapatilha.

Para um velho corcunda ele caminhava rápido, quando chegou ao muro deslocou algumas pedras soltas e passou por um buraco escuro, Melanie teve de esperar para segui-lo, não sabia se era uma simples passagem ou se era um túnel, tinha de garantir que ele não a veria.

Os minutos demoraram e sua paciência não estava das melhores, quando finalmente pode passar pela abertura, enfim não era um túnel, era somente uma passagem e assim o velho teve tempo de se afastar, Melanie não o via em lugar nenhum, fechou os olhos e tentou senti-lo, ficou feliz em constatar que a lembrança da magia estava viva e pode senti-lo com facilidade, ele se afastara dos muros seguindo pela esquerda, onde o terreno sofria de um pequeno declive o suficiente para aquele velho se esconder das sentinelas, Melanie apressou-se a segui-lo.

Caminharam por um longo tempo seguindo direto para a floresta, ao penetrar as primeiras árvores, Melanie teve uma sensação, sentia uma presença maligna naquela floresta, diminuiu o passo seguindo com cautela, o velho que não se lembrava o nome estava a uns trinta metros, não podia vê-lo, mas podia senti-lo, de repente parou abruptamente se ajoelhando.

A escuridão parecia ficar mais densa, como uma alto defesa que agia quase automaticamente, Melanie ocultou sua presença de todas as formas que conseguia se lembrar, no estranho silêncio da noite, uma sombra ainda mais escura se aproximou do velho ajoelhado, o ser parecia emitir algum tipo de luz, pois Melanie pode ver a silhueta do velho com a cabeça erguida, uma mão pálida saiu de dentro da capa negra e tocou a testa do velho, depois aproximou-se parecendo sussurrar algo como se lhe desse instruções.

Da mesma forma que apareceu a figura negra se foi, Melanie tinha certeza de não sentir mais sua presença, isso significava somente uma coisa, um feitiço de transporte, agora sabia como Mordred estava controlando tudo, de repente ficou claro em sua mente como ele fizera da primeira vez.

Já tinha uma ideia de para onde o velho a levaria quando este recomeçou a andar como se nada tivesse acontecido e descobriu que estava certa quando viu as primeiras tendas, somente agora percebia o quão fundo adentrara na floresta, aquele sem dúvida era o acampamento saxão.

O velho passou por grandes sentinelas armados com arcos e flechas afiadas e seguiu para uma tenda ao fundo do acampamento, Melanie ficou escondida nas árvores para pensar, não sabia se iria adiantar somente se infiltrar escondida no exército saxão, precisava de informação, precisava se misturar, uma ideia surgia em sua mente, parecendo estranhamente familiar, percebia que se fosse infiltrar-se deveria escolher um nome, de repente lembrou-se de um livro que lera a muito tempo, mas que recentemente havia lido junto de seu filho Art, Coração de Tinta, sempre desejou ser uma mãe forte para seus filhos assim como Resa foi...

A verdade lhe caiu com um estremecimento, Teresa Folchart! Mortimer Folchart! Olhou em desespero para as mãos, depois puxou os cabelos de dentro do capuz e encarou as mexas escuras, não podia ver as cores, mas se lembrava muito bem de quando viu seu reflexo na vitrine da livraria, cabelos ruivos, olhos chocolate.

Deus, não pode ser. Não conseguia acreditar, aquilo não podia estar acontecendo, o aperto em seu coração voltou ao notar que não era coincidência, Melanie era a Teresa que sua versão jovem conheceu e o pior de tudo, percebeu ao cair de uma lágrima, Teresa morre no final.





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