Sonhos de Grãos de Areia escrita por LaviniaCrist


Capítulo 6
Sono


Notas iniciais do capítulo

Eu aconselho para lerem enquanto ouvem a Wiengenlied Op. 49 N. 4 (canção de ninar) de Brahms (tem o link dela nas notas finais).



 

 

A paralisia do sono é algo completamente normal que ocorre todas as noites quando dormimos, o problema é quando ela continua depois de despertarmos ou antes de adormecermo. A sensação de vulnerabilidade causada por não conseguir controlar o próprio corpo só piora quando as alucinações começam...

Não é como se Gaara jamais tivesse tido algo do tipo em seus longos anos com problemas relacionados ao sono, mas desta vez a sensação de peso sobre seu abdômen estava se tornando insuportável, já que o impedia de respirar normalmente.

“Já tem mais de meia hora...”

Ele constatou, ao olhar em sua cabeceira e conseguir ler o horário no relógio.

A única medida que ele poderia tomar era usar a areia para se mexer. Os riscos eram grandes já que ele não teria controle completo, porém, qualquer coisa era melhor do que continuar daquele jeito incomodo.

Com muito cuidado e atenção, ele fez com que a areia de sua cabaça começar a sair, lentamente. Aos poucos, ela o ajudou a se sentar na cama, possibilitando o Kazekage a descobrir a - estranha - causa de sua noite mal dormida.

— S-shukaku?

Parecia que de uma hora para outra a sua paralisia havia desaparecido. Agora, ele colocava a “pequena versão” de sua antiga bijuu longe de si, mas ainda assim deitado na cama.

— Shukaku? É você mesmo? — o Sabaku disse novamente, um tanto aflito.

— Não, sou a Kyuubi! — a criaturinha resmungou, coçando a barriga e sem dar sinais de que manteria um diálogo.

O rapaz fez a areia voltar para a cabaça, se ajeitou sentando-se melhor na cama e cutucou o guaxinim novamente, recebendo um aceno de orelhinhas e nada além disso.

“Vai ser uma longa noite...”

— O que veio fazer aqui? Aconteceu alguma coisa com os bijuus?

— Gaara, é de madrugada e você fica me acordando para fazer perguntas? — o Shukaku olhou para ele sério — Onde está a sua consideração por mim?

— Eu quem deveria perguntar isso, não? — ele estreitou os olhos.

Em resposta, a temível besta de uma cauda, que mais parecia um animalzinho de pelúcia agora, se sentou e ficou encarando seu antigo recipiente. Lentamente, ele estendeu uma das mãos e apontou para o ruivo.

— Você só sabe me julgar, igualzinho faziam com você! — a voz de Shukaku saiu melancolia, enquanto ele escondia o rosto com as mãos.

— N-Não, eu só...

— Isso é alguma vingança!? — o guaxinim se jogou na cama, como se fizesse um tipo de pirraça, debatendo os pés e as mãos enquanto balançava a cauda de um lado para o outro.

“Muito longa mesmo...”

Gaara suspirou e se aproximou um pouco mais da bijuu, mexendo cuidadosamente e tentando fazer algum tipo de carinho.

— Desculpa?

— Só isso? — a pirraça parou instantaneamente, enquanto Shukaku apoiou o rosto em uma das patas e olhou para Gaara — Só um pedido de desculpas, simples assim?

— Por favor, pode me desculpar por ter sido rude?

— Eu vou pensar no seu caso... — a criatura virou o rosto, ainda parecendo magoado.

Aquela situação nem de longe parecia ser real.

Tudo o que o jovem Kazekage queria era ter uma noite de sono e descanso, mas ele estava certo de que teria apenas discussões com sua antiga besta... Aliás, desde quando o Shukaku era deste tamanho? Desde quando ia visitá-lo no meio da noite? Desde quando ele se importava com isso!?

— Então vou pensar no seu também... — o rapaz virou o rosto para o outro lado, cruzando os braços.

Tudo ficou em silencio por alguns segundos.

— Ei, ei, ei! Como assim VOCÊ vai pensar no meu caso!? O ofendido aqui sou eu! — mesmo sem olhar, Gaara teve certeza de que o animal fez alguma careta para ele.

— Se me lembro bem, você foi bastante rude invadindo o meu quarto e quase me sufocando, não foi?

— Está me chamando de rude? — a Bijuu de uma cauda saiu da cama e andou até ficar de frente para o ruivo — E além de rude, ainda me chamou de pesado!? — ele parecia bem irritado, batendo um dos pés no chão freneticamente.

— Talvez... — a resposta saiu sínica, enquanto o rapaz se deitava na cama novamente — Pense o que quiser, eu não me importo.

Novamente, o quarto ficou em silencio.

Gaara imaginou que seu "amigo" tivesse ido embora, até que ouviu um som agudo de alguma porcelana se quebrando. Ele fechou mais os olhos e tentou ignorar, até se lembrar a única coisa em seu quarto que poderia fazer aquele som caso caísse no chão: um vaso com um pequeno cacto que ficava em sua cabeceira.

— AH NÃO, SHUKAKU! — a voz saiu grave e irritada, enquanto Gaara se levantou praticamente em um pulo. — Ficou louco!?

— Pense o que quiser, eu não me importo mesmo... — a criatura riu, zombeteira, empurrando as outras coisas que estavam na cabeceira: um relógio antigo e dois porta-retratos.

— Está mais parecendo um gato! — ele disse mais irritado levando as mãos para pegar o animal, mas o guaxinim era bem rápido quando queria, saltando para o chão.

— VAI FICAR ME COMPARANDO COM A MATATABI AGORA!? — a resposta saiu zangada, enquanto ele se enfiava embaixo da cama.

“Paciência, Gaara... Isto é só um sonho! ”.

Repetindo este mantra, o rapaz de cabelos vermelhos ignorou a sua antiga decoração jogada no chão, deitou-se na cama novamente e fechou os olhos com força.

Se aquilo era um sonho, ele estava dormindo. Se estava dormindo, sinal de que estava tendo uma boa noite de sono, certo?

Talvez não...

Assim que o Sabaku se acomodou na cama, Shukaku começou a raspar o chão com suas garras para fazer barulho. Mesmo tentando abafar os ruídos com o travesseiro, o Kazekage não resistiu mais do que dez minutos.

— Shukaku, o que você está fazendo? — Gaara tentou perguntar de forma gentil, mas o sorriso em seu rosto mais parecia o sorriso psicopata que ele tinha quando jovem, agravado por ele estar de cabeça para baixo, olhando embaixo da cama, para a bijuu.

— Estou sendo um bicho-papão, já que você não quer que eu fique perto... — a criaturinha continuou arranhando mais um pouco — Será que você vai me comparar com o monstro do seu armário agora ou algo do tipo?

— Sai daí. — o ruivo disse sério, em tom de uma ordem irrevogável, que foi seguida à risca — Suba na cama e fique quieto. — a fala saiu da mesma maneira e, novamente, foi obedecida.

A noite voltou a seguir em silencio.

Gaara olhava fixamente para o teto, se perguntando onde seu sono teria ido parar, quando sentiu um peso em cima de seu abdômen de novo.

— Shukaku... — a voz saiu irritada.

— Eu gosto de dormir com você, Gaara... — a justificativa poderia não ser das melhores, mas o guaxinim não parecia disposto a sair dali nem tão cedo. Ele se aconchegou e, apesar dos resmungos ranzinzas do ruivo, dormiu como um filhotinho, sendo acompanhado por Gaara que pegou no sono momentos depois.

Quando os raios de sol invadiram o quarto, o Kazekage não se sentia nem um pouco disposto a levantar.

O jovem não sabia ao certo quantas horas se passaram até que ele conseguiu ignorar o incomodo de sua antiga bijuu dormindo sobre si, tão pouco se aquilo tudo foi real ou não.

O Shukaku poderia não estar mais ali, mas as coisas que ele derrubou do criado mudo permaneciam no chão.

Agora, Gaara teria outro motivo para perder o sono: quem derrubou aquilo foi ele próprio, se mexendo enquanto dormia, ou o guaxinim mais preguiçoso que ele já conheceu?

 

 

 



Notas finais do capítulo

Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=EBIKYRXGz2k
Espero que tenham gostado!
Sugestões para próximos capítulos, dicas, críticas e observações são muito bem-vindas.



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