Sonhos de Grãos de Areia escrita por LaviniaCrist


Capítulo 3
Extravagância


Notas iniciais do capítulo

Eu aconselho para lerem enquanto ouvem a música Waltz No.2 de Dmitri Shostakovich (tem o link dela nas notas finais).



Kankuro estava a aproximadamente dez minutos tentando destrancar a porta do próprio quarto.

Ele não era nenhum alcoólatra ou alguém que não conhece as próprias limitações, apenas havia tido uma noite extravagante de comemoração por mais uma vitória em serviço. Sabem como é: festejo, bebidas, mulheres, bebidas, risadas e mais bebidas.

Finalmente, ele conseguiu acertar a chave no devido local, só para descobrir que a porta estava destrancada todo este tempo.

— Cacete... — ele murmurou e empurrou a porta, tateando em busca do interruptor com a outra mão — Que haja luz! — e assim as luzes se acenderam, mas ao toque de um botão e não pelo gracejo.

Depois da porta ser fechada, passos pesados e arrastados foram dados até a cama. O rapaz apenas se deixou cair, estrategicamente, onde não havia nenhum relatório ainda não terminado ou peça sobressalente de marionete.

Como sua vida havia chego neste estado?

Não importava agora!

Ele só precisava dormir tranquilo, com a certeza de que teria uma folga merecida no dia seguinte. Iria aproveitar para preencher as papeladas, equipar suas marionetes com mecanismos novos, tentar arrumar a bagunça do quarto e esperar a chegada de Temari...

Ela chega amanhã de manhã!

Ouvir esta frase curta em seus pensamentos foi o suficiente para que Kankuro se sentasse na cama e encarasse o nada com os olhos arregalados, enquanto tentava buscar calma. O motivo para o desespero era bem simples: toda vez que a irmã mais velha ia visita-los, ela exigia seus adorados dangos de Suna.

Não era nenhum presente extravagante, mas com toda a certeza seria impossível de achar. Isso devido a uma situação precária que Sunagakure estava enfrentando e que não cabia a ninguém “de fora” saber: os suprimentos estavam sendo furtados e desviados em larga escala, ao ponto de a Divisão Antiterrorismo ter que cuidar disso...

Era uma longa explicação, principalmente porque Temari não iria gostar de ter sido deixada de fora, mas existem coisas que somente o Kazekage poderia saber, como por exemplo, tudo fazer parte de um plano maior dos grupos Anti-Kazekage em que o objetivo era fazer com que Gaara parecesse insuficiente ao cargo.

Se ela aceitasse alguma coisa ao invés dos doces...

Não adiantava pensar por este lado! Se Temari fosse aceitar algo sem ser seus dangos, seria algum outro tipo de guloseima que ele também não acharia.

Seria mais fácil se ela fosse como eu, um presente extravagante bastaria!

Infelizmente, Temari jamais seria como qualquer um dos irmãos mais novos, mas deste pensamento, ele tomou uma abordagem diferente:

E se eu fosse como ela, seria mais fácil escolher algo?

Um sorriso tomou forma nos lábios de Kankuro, enquanto ele fazia alguma combinação de gestos que o permitissem mudar a forma do corpo, não que se transformar em uma mulher adiantaria realmente em algo, mas era uma ideia divertida para um bêbado.

A primeira coisa que notou foi que seu tamanho havia diminuído um pouco, logo, precisava vestir algo menor. A segunda coisa que notou foi que estava cansado demais para levantar agora e, como estava menor, a cama bagunçada parecia bem mais confortável.

Não demorou muito, e ele pegou no sono.

Pela manhã, os poucos raios de sol que conseguiam ultrapassar a cortina foram suficientes para acordar o rapaz, ou melhor, a moça.

Kankuro só notou que a sua aparência continuava diferente depois de se levantar e espreguiçar, encarando-se finalmente no espelho. Depois do susto inicial, um sorriso voltou a se formar nos lábios finos.

No fim, não adiantou. Eu sou mais bonita do que a Temari e continuo preferindo algo extravagante do que algum doce qualquer...

O pensamento foi seguido de uma risadinha, enquanto alguns selos de mão eram feitos, tudo seria resolvido rapidamente... Se os selos adiantassem de algo. Foi uma ideia idiota provocada pela bebida, afinal, todos têm ideias idiotas e Kankuro não era nenhuma exceção a esta regra.

Após várias tentativas, sem nenhuma combinação dar resultado, toda a angustia provocada por aquilo se resumiu em um comentário em meio aos risos de nervosismo:

— Eu devo ser um bêbado idiota e esforçado, jaan...

Até mesmo a minha voz é feminina!

Quais as chances de aquilo acontecer?

Quais as chances de ele conseguir voltar ao normal sozinho?

A resposta para as duas perguntas era somente uma: nenhuma, só em sonhos!

Depois de muitas outras tentativas frustradas de voltar ao normal, ele se deu por vencido e pensou sobre o que faria. Não conseguiria se concentrar em suas marionetes e nem se dedicar ao trabalho acumulado, tão pouco conseguiria ânimo para arrumar o quarto. Sobrava apenas uma opção: pedir ajuda ao irmão caçula.

Rapidamente as roupas largas foram trocadas por algo menor, enquanto as novas curvas eram contempladas em frente ao espelho.

Sou lindo de qualquer jeito... Linda!

Passos apressados foram dados até o escritório do Kazekage. Apesar de ainda ser cedo, Gaara já estaria trabalhando, diferente de todas as outras pessoas que enchiam os corredores daquele lugar e que o reconheceriam em sua “nova forma”.

— Gaara — o mais velho chamou, enquanto abria a porta.

— Eu não comecei a... — antes de continuar o discurso, o de cabelos vermelhos encarou o irmão e desviou o olhar para as folhas em sua mesa — Não tenho tempo para suas brincadeiras.

— Não é brincadeira! — a fala saiu nervosamente enquanto ele fechava a porta atrás de si — Não consigo voltar ao normal!

— Que pena — a resposta curta e indiferente só fez com que o nervosismo de Kankuro aumentasse.

O mais velho deu pisadas fortes enquanto marchava até ama cadeira em frente à mesa. Ele se sentou e ficou encarando o caçula, como se dependesse de Gaara que tudo fosse resolvido.

Passou um tempo considerável e Kankuro já havia feito todos os selos que conhecia para voltar ao normal e nada havia funcionado. Agora, ele estava de cabeça baixa, debruçado sobre a mesa e tentando não surtar...

— Você bebeu demais, não foi? — finalmente, Gaara quebrou o silencio do ambiente.

— O que você acha? — a fala estava carregada de cinismo.

— Sabe o que eu acho da bebida — a resposta, novamente, foi curta e indiferente.

Kankuro apenas se levantou, soltando um som de irritação e começando a andar pelo escritório. Aquilo estava deixando-o cada vez mais ansioso, principalmente porque a qualquer momento começariam a entrar naquele escritório para importunar Gaara e o veriam daquele jeito.

— Adivinha quem chegou! — a voz espevitada de Temari era inconfundível, enquanto ela entrava no cômodo.

Quem não deveria chegar agora! Ela vai me irritar por isso o resto da vida...

Tudo o que o irmão do meio conseguiu fazer foi uma tentativa falha de esconder o rosto com as mãos, enquanto Gaara continuava alheio a tudo. O “esconderijo seguro” foi facilmente descoberto por Temari.

— Não acredito! — a voz dela era de surpresa.

— T-Temari... Eu... — apesar de tentar, Kankuro não fazia ideia de como explicar aquilo.

— Eu sempre quis ter uma irmã! Vamos a-go-ra fazer compras! — a loira falou enquanto puxava o outro pelas mãos.

— Espera! O que?! — o olhar confuso de Kankuro buscava alguma ajuda do caçula.

— Divirtam-se — foi tudo o que o ruivo se limitou a dizer.

A mais velha arrastou o irmão por praticamente toda Suna, as pessoas olhavam-no achando graça, principalmente as com quem ele tinha algum grau de contato. O passeio que mais parecia um castigo durou tempo o suficiente para Kankuro receber chacotas o resto da vida até mesmo de quem não conhecia...

— Eu quero voltar a ser um homem! — ele resmungou pela quinquagésima vez, praticamente esperneando enquanto segurava as bolsas de compra da irmã.

— Já estamos acabando... — ela respondeu entre risos.

O desespero de Kankuro só aumentava à medida que ela pegava mais e mais peças de roupa para experimentar, ao ponto de ele se jogar no chão como uma criança fazendo pirraça. Claro, aquilo só atrairia ainda mais atenção sobre si, mas ele já não ligava tanto. Só precisou fechar os olhos para começar a gritar:

— Eu quero voltar ao normal! Não quero mais ser uma mulher, não é engraçado!

— Você o que? — Temari parecia rir ainda mais, o segurando pelos ombros.

— Quero voltar a ser eu mesmo!

— E quando deixou de ser você mesmo, Kankuro? — apesar das risadas, ela parecia se controlar mais.

— Quando eu bebi! Eu fiz a besteira de virar mulher e... — finalmente ele abriu os olhos, desesperado — Eu...

Encarando em volta, tudo o que ele conseguia ver era Temari já vermelha de tanto rir e seu quarto bagunçado. Ele olhou para si mesmo e notou que estava de volta ao normal, o que era um verdadeiro alivio.

— Andou bebendo demais, não é? — a loira voltou a ter uma crise de risos — Deveria parar com as extravagância... Vai que você vira mulher de novo!

— Acho que nem assim eu largo a bebida... — a voz saiu baixa, enquanto ele passava a mão no rosto, aliviado por voltar a si — Chegou cedo?

— Claro que não, já vai dar meio dia... — Temari sorriu, vendo o desespero brotar no rosto do irmão mais uma vez — Vim acordar você porque adoro a família reunida para uma conversa no almoço... — depois de falar ela saiu do quarto, mas as risadas ainda podiam ser ouvidas.

Você quer é me irritar sobre isso...

Sendo isso ou não, Kankuro tinha coisas demais para fazer além de se importar com os comentários implicantes de Temari. Ele se levantou, espreguiçou e sorriu ao olhar no espelho.

Como é bom ser eu de novo, jaan... UM HOMEM LINDO!



Notas finais do capítulo

Link da música: https://www.youtube.com/watch?v=mmCnQDUSO4I
Espero que tenham gostado!
Desculpem a demora, ainda estou ajeitando a minha agenda.
Sugestões, dicas, críticas e observações são muito bem-vindas.
Quem se interessar em ler mais de minha autoria enquanto não posto o próximo capítulo, tenho outras fanfics: Gaara Chibi, Crime das Flores e Guia Gejimayu: como viver em tempos de paz!



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