Amem escrita por Liz Setório


Capítulo 7
Confissão


Notas iniciais do capítulo

Gostaria de agradecer a todo mundo que vem acompanhando e comentando a história, os comentários são muito importantes para mim. Eles me ajudam a saber do que os leitores estão gostando ou não e me incentivam a continuar com a história. Mais uma vez muito obrigada por esse apoio!
Ah, leitores fantasmas, podem aparecer, eu não mordo não.

Espero muito que gostem do capítulo de hoje. Boa leitura!



Ainda rindo um pouco respondi a Miguel:

— Nós não somos cartas para precisar de selo.

Ele também tinha um riso estampado em seu rosto e foi com esse riso no rosto que ele me roubou um selinho.

Senti um misto de emoções naquele momento. Raiva, medo, felicidade… Tudo aquilo rondava o meu ser. Foi muita audácia de Miguel ter feito aquilo na rua, onde a qualquer momento alguém poderia passar.

— Carta selada, já pode ser enviada — disse em tom brincalhão.

— Você é um idiota — respondi em tom seco.

Voltei pra casa feliz como um adolescente que tinha acabado de dar o primeiro beijo. Como algo errado poderia ser tão bom?

Enquanto regressava à minha residência tomei uma decisão: eu precisava me confessar. Eu não poderia me deixar ser consumido pelo pecado, aquilo estava errado. Necessitava de ajuda, aquela situação conflituosa precisava ter fim. Não poderia deixar Satanás tomar conta de mim e me fazer de seu fantoche.

No dia seguinte, eu pegaria um ônibus e iria até uma paróquia que ficava a dois bairros de distância de onde eu morava. Sentia-me extremamente envergonhado e não sabia como contaria tamanha vergonha ao padre de tal paróquia, mas contaria. Não suportaria mais viver com aquele pecado para mim, necessitava urgentemente dividir aquilo com alguém.

Cheguei em casa e encontrei Michele assistindo televisão, nem cumprimentei a garota, apenas segui direto para o meu quarto e rezei com fervor. Pedi perdão  a Deus, com todas as forças e pedi-lhe também, coragem para poder confessar o meu horrendo pecado.

Depois de pelo menos uma hora rezando, saí do quarto como se nada tivesse acontecido. Encontrei a televisão desligada e Michele mexendo no celular, acabei pegando a Bíblia para ler. Enquanto lia me sentia protegido, era como se eu estivesse longe das garras do Demônio.

No dia seguinte acordei cedo. Tomei um banho demorado, não queria que a hora de sair do chuveiro chegasse. Enquanto a água fria percorria o meu corpo, eu não conseguia parar de pensar em Miguel e nos beijos que tínhamos trocado, por mais que eu tentasse reprimir esses pensamentos, isso parecia ser impossível.

Depois de tanto enrolar, acabei tomando coragem e me vesti. Saí de casa sem tomar café, tinha pressa para chegar ao meu destino. Não poderia mais adiar aquilo.

Tive sorte e assim que cheguei no ponto, o ônibus passou e quando me dei conta já era hora de descer, tinha chegado mais rápido do que deseja, ainda não me sentia pronto para a confissão que planejava fazer.

O lugar onde desci não era em frente a igreja. Logo, eu teria que andar um pouco para chegar até ela.

A caminhada não era tão longa e eu a fiz em passos lentos, coragem para confessar-me era o que menos tinha. Quando enfim cheguei, tive uma surpresa: a igreja estava fechada. Aquilo não fez o menor sentido para mim, aquela igreja tinha missa toda quarta feira de manhã. Ela deveria estar aberta e com missa sendo celebrada.

Quando eu já estava indo embora, uma mulher com a chave da igreja apareceu.

— Bom dia, houve alguma mudança no funcionamento?

Depois de pedir a benção, a mulher informou:

— O padre Estevão está doente, está internado no hospital Central, por isso a igreja está fechada.

— Entendo, rezarei pela saúde dele.

— Desculpe a curiosidade, mas o que senhor queria?

— Conversar com ele, mas isso pode ficar para depois.

— Entendi. Bom, tenho que ir agora. Preciso cuidar da limpeza da igreja.

Ao olhar para o outro lado da rua, notei que havia uma papelaria. Acabei então tendo uma ideia.

Já dentro do estabelecimento não foi difícil encontrar o que eu queria.

Comprei um diário, seria mais fácil escrever do que falar para alguém. Eu não sabia nem como começar a narrar acontecimentos tão pecaminosos, quanto aqueles vivenciados por mim e pelo padre Miguel.

Cheguei em casa rápido, ainda era cedo e Michele estava dormindo. Guardei o diário e fui fazer o café da manhã para nós dois.

Aparentemente a garota foi acordada pelo cheiro do café.

— Caiu da cama? — brinquei.

— Essa noite tive pouco sono, não sei porque.

— Você já falou com sua mãe sobre o cursinho?

— Sim, ela disse que o senhor pode me matricular. Ela vai mandar o dinheiro.

— Pronto, então depois falo com o Miguel pra ver quando as matrículas começam.

[...]

No meio da manhã fui surpreendido por uma ligação.

— Alô?!

— Paulo, tudo bem? Liguei pra falar sobre a sopa dos pobres.

— Eu já tinha esquecido. Acho melhor você fazer isso sozinho dessa vez.

— O que? Por que? Há anos, todos os meses,  fazemos isso juntos. Você não pode simplesmente me deixar sozinho.

— Creio ser necessário um afastamento.

— Por quê? — indagou como se não fizesse ideia do que eu estava falando.

— Você sabe, os últimos acontecimentos....

— Você quer se afastar de mim? É isso? Você é ridículo. O pessoal vai ficar perguntando por você. Eu vou dizer o que?

— Tudo bem, Miguel. Eu farei isso com você.

Para mim, era impossível dizer não ao Miguel. Talvez, por isso, fosse tão difícil resistir ao pecado representado por ele: a maldita homossexualidade.

Organizamos todos os detalhes da sopa e marcamos sua distribuição para dali a uma semana.

[...]

Como de costume a sopa foi preparada na casa de Miguel. Eu, ele e mais algumas mulheres da vizinhança preparámos a sopa, que seria distribuída dentro de algumas horas.

Felizmente não ficamos a sós nem um minuto. Sendo assim, nada de errado aconteceu entre nós dois.

Com a sopa já preparada, dona Antônia, uma de nossas ajudantes, pediu para falar comigo a sós.

Assim que nos afastamos dos outros, ela revelou, em tom de desespero, o motivo de tamanha preocupação.

— Padre, meu filho é gay. O que eu faço?





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