Iguais, porém opostos escrita por Cellis


Capítulo 4
Como normal e anormal


Notas iniciais do capítulo

Hello, it's me (estilo Adele por causa do sofrimento que eu fiz vocês, meus amores, passarem durante essa longa espera por mim)... NÃO ME MATEM!
Sério, está para nascer uma pessoa mais enrolada do que a escritora que vos fala. A minha sorte é que eu tenho leitores maravilhosos que, além de pacientes, sempre me incentivam a escrever ♥
Enfim, espero que gostem do capítulo.

Boa leitura.



— O que?! Só três dias de suspensão?!— Yoon Hee indagou com sua voz fina, o que provocou uma expressão de desgosto no rosto de Bo Ra. Batendo as duas mãos contra a mesa da diretora, numa tentativa falha de parecer assustadora, a mais nova se colocou de pé. — Olha bem o que essa selvagem fez com o meu nariz. Ela deveria ser expulsa!

Mesmo que a sua situação não fosse exatamente favorável, Bo Ra teve que segurar o riso ao fitar de escanteio a arte que deixara no rosto de Yoon Hee: com um pedaço de algodão enfiado na narina direita, ela tentava impedir que um filete de sangue voltasse a escorrer dali em direção aos seus lábios. Depois de ter levado um soco que a fez cambalear para trás, a mais nova até tentou revidar; porém, além de não ter forças suficientes para tal coisa, a diretora Lee logo apareceu para intervir naquela cena pré luta livre. A mulher, que tinha por volta dos quarenta anos, cabelos negros curtos e uma expressão sempre rígida, precisou de poucas palavras para por fim ao espetáculo e praticamente arrastar as duas alunas para a sua sala. Agora, respirando fundo, ela fitava ambas como se assistisse a um filme sem graça.

— Senhorita Min, por favor, não tente ensinar-me a fazer o meu trabalho. — disse naturalmente, ajeitando os óculos de grau. — E quanto a você, senhorita Kang, saiba que eu estou realmente tentada a dar-lhe a punição que merece, então controle melhor as suas risadinhas.

Yoon Hee bufou, ao passo que Bo Ra franziu o cenho. Se a diretora queria lhe dar uma punição mais rígida, então porque não o fazia? Por agora, ela achou melhor calar-se para não piorar ainda mais as coisas — afinal, já tinha sido premiada com uma suspensão de três dias, que ficaria para sempre em seu histórico escolar. Por sorte, ela sempre tivera notas suficientemente altas para que ninguém prestasse atenção nessa pequena mancha.

Contrariando toda a má vontade que sentia dentro de si naquele momento, Bo Ra colocou-se de pé, atraindo um olhar confuso da parte de Yoon Hee.

— Desculpe-me, diretora Lee. — ela disse, curvando-se. — Vou usar esses três dias para pensar no que fiz.

Era a mais pura mentira. Bo Ra estava extremamente satisfeita com o estrago que fizera no rosto de Yoon Hee e, além de não se arrepender de tê-lo feito, provavelmente passaria os próximos três dias dormindo. Com um movimento seco de cabeça, a diretora concordou.

— Tudo bem. Acredito que estamos resolvidas, certo? — indagou retoricamente, pois não dava a mínima se as adolescentes estavam satisfeitas ou não. — Vocês estão liberadas.

Nitidamente ainda revoltada, Yoon Hee foi a primeira a dar as costas para a mulher, batendo os pés firmemente em direção à porta e bufando sem nenhuma vergonha. A mais nova se assustou quando se deparou com a aglomeração de adolescentes ao redor da sala da diretora, fingindo que estavam ali para fazer qualquer outra coisa que não fosse descobrir o desfecho daquela história, e, quando percebeu os olhares e os cochichos de todos sobre ela, tratou de cobrir o nariz com a mão e se apressar para sair dali — xingando Bo Ra mentalmente durante o percurso. O motivo de toda aquela agitação veio logo atrás e, ao contrário do que os outros imaginavam, ela não se importou nem um pouco com a atenção descarada que recebeu. Bo Ra suspirou, ajeitou o uniforme e começou a caminhar por entre os alunos sem sentir nada em específico. Por um momento, pensou em sua avó, e como ela se ficaria decepcionada quando soubesse o que aconteceu. Ainda não se arrependia do que tinha feito, porém, a garota passou a se sentir vazia.

— Bo Ra! — uma voz masculina ecoou por entre os cochichos e chamou a atenção dela, mesmo que ela não soubesse dizer quem era o seu dono. Parou de caminhar ainda no meio do corredor, e não demorou muito para que Hoseok surgisse em seu campo de visão por trás dela. Ele parecia extremamente culpado e preocupado. — Como você está?

Ela sentiu vontade de rir. A garota que, querendo ou não, gostava dele, havia acabado de ter seu nariz fraturado por ela na frente de todo mundo; e ele estava ali, querendo saber sobre a agressora. Contudo, Bo Ra sabia que Hoseok provavelmente se culpava por toda aquela confusão, e só por isso resolveu controlar sua risada sarcástica.

— Eu vou sobreviver, não se preocupe. — respondeu, sem muito ânimo.

De repente, Bo Ra deu-se conta de como havia tratado Hoseok durante o breve tempo em que se conheciam: havia sido seca, um tanto rude às vezes e, ainda por cima, tentou usá-lo para provocar raiva em Taehyung. Fez com ele tudo o que mais detestava, e o que era a marca registrada da grande porcentagem mesquinha daquele colégio, sem nem ao menos tentar ser simpática. Talvez Hoseok não fosse realmente a pessoa carismática e divertida que aparentava ser, contudo, ela só poderia ter certeza disso se deixasse seu preconceito de lado para realmente conhecer o rapaz.

Além disso, estava cedo demais para voltar para casa.

Por fim, se apenas um resquício que fosse dele se revelasse parecido com seu primo, aí sim Bo Ra teria todo o direito de tratá-lo com a indiferença que quisesse.

— Hoseok, você gosta de sorvete? — indagou repentinamente, confundindo o rapaz.

Mesmo assim, ele riu.

— Gosto. — respondeu, simpático. — Por quê?

— Porque eu gosto de tomar sorvete quando estou estressada. Além disso, você está me devendo uma, não acha? — ela disse, sem se importar com como aquela conversa deveria estar soando estranha aos ouvidos curiosos que se espichavam para escutar os dois.

— É verdade. — ele concordou, balançando a cabeça positivamente. — Acho que terei de fazer o sacrifício de matar a aula de educação física para acompanhá-la.

Pela primeira vez, ela verdadeiramente riu de algo que ele dissera, o que provocou um sorriso ainda mais largo no rosto de Hoseok. Bem, ele estaria cabulando aulas justamente no seu primeiro dia no colégio, mas ele não se importava de verdade com isso. Abriu caminho para Bo Ra, que começou a caminhar ao seu lado, e os cochichos aumentaram ainda mais ao redor dos dois.

Bo Ra já havia aceitado que o seu dia realmente não saíra como planejara, quando algo duas vezes mais estranho lhe aconteceu. Ela esperava por Hoseok no portão do colégio, já que o mesmo fora discretamente buscar a mochila na sua sala, quando alguém pigarreou atrás dela. Não, não alguém. Ela já conhecia até mesmo o modo como aquele diabo de cabelos acinzentados limpava sua garganta, por isso, não se deu ao trabalho de desencostar do pilar de mármore para olhar para trás. Um par de segundos depois, a enorme sombra de Kim Taehyung se projetava sobre ela, já que ele passou a impedir o Sol de chegar até ela quando parou ao seu lado.

— Se você já estiver indo para casa, eu posso pedir para o meu motorista vir buscá-la. — foi a primeira coisa que ele disse, sem deixar transparecer nenhuma emoção ou sentimento em sua voz grave.

Bo Ra não conteve uma risada irônica, tanto quanto achava que ele estava sendo. Sabia que, interiormente, Taehyung estava tripudiando sobre ela e cantando sua vitória para os quatro cantos do globo.

— Eu agradeço a sua genuína generosidade, mas eu terei que recusar. — respondeu, sem fitá-lo. Na verdade, ambos ainda estavam olhando para o horizonte. — Não estou indo para casa.

Pela primeira vez na conversa, Taehyung a fitou descaradamente, ainda que não tivesse consigo nenhuma expressão que denunciasse seus pensamentos — ele era bom nisso. Vendo-a ali, coberta pela sua sombra, Bo Ra não parecia aquela de mais cedo, capaz de socar uma menina mais nova sem se importar se alguém ou todos estavam olhando. Por fim, ele soltou um riso nasalado e contentou-se em não perguntar para onde ela planejava ir, pois não tinha o menor interesse em saber.

— Espero que você esteja mais satisfeito do que parece. — Bo Ra disse naturalmente, finalmente fitando-o para encarar os traços bem desenhados de Taehyung.

— Como assim? — indagou de volta, realmente sem saber onde ela estava querendo chegar.

— Bem, você sabia que alguma coisa aconteceria se incentivasse o Hoseok ir até mim ontem à noite. E eu acabei suspensa por três dias. — ela respondeu, ainda encarando-o. — Espero que você esteja feliz com o resultado do seu plano diabólico.

Bo Ra não sabia porque estava dizendo aquilo. Na verdade, ela não fazia ideia do porquê ter convidado Hoseok para tomar sorvete, ou não estar realmente ligando para a sua suspensão ou, especialmente, o motivo de estar sendo repentinamente sincera com Taehyung. Justamente com ele.

Talvez aquele realmente não fosse um dia normal.

O problema é que dias anormais a estressavam.

— Não, eu não estou feliz. — ele disse, dando de ombros. Não viu problema em também ser sincero durante um momento, por mais breve que o mesmo fosse. — Na verdade, é estranho.

Bo Ra não conseguiu não encará-lo como se ele não fosse um extraterrestre. Franziu o cenho, fitando-o acusadoramente.

Você é estranho. — murmurou, voltando a encostar-se na pilastra do portão.

Na verdade, nenhum dos dois se lembrava da última vez que tiveram uma conversa relativamente normal como aquela. Eles ainda usavam um tom de voz um tanto áspero e nada simpático, mas, pelo menos, não haviam matado um ao outro.

— Bo Ra?

A voz de Hoseok assustou ambos, que viraram para trás ao mesmo tempo. Trazendo a mochila por uma só alça e um sorriso brilhante no rosto, Hoseok arregalou os olhos levemente quando notou a presença de Taehyung.

— Você... — o ruivo apontou na direção do outro, porém, não soube terminar a frase.

— Exatamente. —Bo Ra o interrompeu, já sabendo que Hoseok reconhecera o principal causador da confusão da noite passada. — Podemos ir?

Naquele momento, Taehyung sentiu seu humor mudar da água para o vinho. Aquilo não era normal para ele, já que sempre fora muito bom em controlar suas emoções e coisas do tipo, porém, quando viu Hoseok concordar prontamente com um sorriso no rosto, sentiu uma súbita e estranha vontade de assassiná-lo e desovar seu corpo em algum lugar longe e esquecido.

Não era de hoje que Taehyung não gostava do ruivo.

— Você vai matar aula logo no seu primeiro dia? — Taehyung indagou para Hoseok, que o fitou com uma expressão curiosa.

— E o que você tem haver com isso? — Bo Ra rebateu, não abrindo espaço para o próprio Hoseok se defender.

Na verdade, o novato se sentia um intruso naquela palpável tensão entre os dois, por isso, resolveu que seria melhor se calar. E foi assim que a breve trégua entre a Kang e o Kim despencou ladeira abaixo.

— Até que ocorra a eleição desse ano, eu ainda sou o presidente do grêmio estudantil. É meu dever preocupar-me com os alunos. — Taehyung respondeu prontamente, inflando a própria postura.

Bo Ra bufou. Pelos céus, como ele era prepotente.

— Há cerca de cento e noventa e sete estudantes dentro do colégio para você se preocupar, Kim. Você deveria estar lá com eles.

Nada mais foi dito por nenhum dos três. Taehyung, em silêncio por se encontrar chocado com a mudança brusca no tom da conversa; Hoseok, por simplesmente não ter entendido nada; e, por fim, Bo Ra, que girou em seus calcanhares e saiu pisando firme calçada a fora.

Vendo a figura ruiva apressar-se para alcançar Bo Ra, Taehyung inconscientemente lembrou-se de uma certa época da sua infância. Naquele tempo, os cabelos de Hoseok eram negros e ele era magro e esguio, por isso, Taehyung precisou pensar uma noite inteira para finalmente reconhecer o rapaz. O conhecera por causa de Yoongi, quando Hoseok veio passar as férias de verão na casa do primo, e, pouco tempo depois, desejou nunca mais encontrá-lo.

Mas, infelizmente, Taehyung tinha de admitir que nem tudo estava ao alcance do seu controle. Agora, observando Hoseok caminhar animadamente ao lado de Bo Ra, que tentava não rir de alguma gracinha que o mesmo acabara de fazer, o garoto sacudiu a cabeça para afastar suas memórias. Ele estaria fingindo que não se lembrava de Taehyung?

O que quer que estivesse acontecendo, ele deixaria que Bo Ra conhecesse o verdadeiro Jung Hoseok por conta própria.

 

***

 

— Sabe, eu nunca tinha provado sorvete de hortelã com creme de leite. É delicioso! — Hoseok exclamou, terminando a sua casquinha do sorvete esverdeado.

Bo Ra, por fim, havia tido uma tarde agradável ao lado do rapaz. Ele era realmente divertido e, ao contrário da grande maioria do Kobe Suwon, conseguia manter uma conversa leve e descontraída. Ele não via problema em falar sobre a sua própria vida, coisas do tipo como estava temporariamente morando com o primo, até que seus pais encontrassem uma boa casa na mesma vizinhança e se mudassem de vez, e sabia até que ponto podia perguntar coisas sobre Bo Ra. Era óbvio que ele provavelmente nunca chegaria ao nível de amizade que ela tinha com Jimin, por exemplo, mas isso não significava que não poderiam manter uma relação saudável.

— Bo Ra... eu posso lhe fazer uma pergunta?

A garota não gostava daquele tom, francamente. Sentia que Hoseok estava prestes a lhe perguntar algo pessoal, o qual ela não gostaria de responder; mas, talvez em nome do seu mais novo princípio de não ser preconceituosa com quem aparentemente não merecia, ela concordou que ele prosseguisse.

— Qual é o problema entre você e o Taehyung? — indagou de uma vez, diminuindo um pouco a velocidade entre suas passadas.

Bo Ra, por outro lado, quase parou de caminhar de vez, mesmo estando perto de casa ao ponto de já conseguir ver a fachada do condomínio.

— Como assim? — perguntou de volta, levemente pega de surpresa pela repentina curiosidade do rapaz.

— Bem, vocês claramente não se dão bem. E eu poderia chegar a essa conclusão só pelo copo de bebida que você lançou nele ontem. — explicou. — Eu só fiquei curioso em saber se, talvez, ele tivesse lhe feito alguma coisa.

Alguma coisa. A Kang suspirou, desejando que toda aquela rincha de anos fosse fruto de apenas um motivo. Na verdade, se ela fosse obrigada a fazer uma lista de motivos pelos quais simplesmente não suportava Taehyung, levaria dias para terminar o trabalho — contudo, havia um problema acima de todos os outros: ele estava sempre lá. Era como uma sombra, que a lembrava constantemente de todo preconceito e rejeição que ela precisou superar durante sua adolescência, principalmente no colégio. Se ela estava na sala de aula, ele estava lá; se buscava refúgio em casa, provavelmente o encontraria pelo quintal também. Talvez, pensando melhor, fosse por isso que o dia dela já havia começado de um jeito um tanto anormal: ao invés de ignorá-la no conforto do seu carro particular, Taehyung insistiu em segui-la, e isso a incomodou num nível astronômico.

O suficiente para ela não querer falar sobre isso.

— É uma longa história. — ela respondeu, por fim. — Prefiro deixar para um outro dia.

Hoseok abriu um sorriso, sem se importar que ela não estivesse pronta para lhe contar algo.

— Como isso significa que haverá um outro dia, eu não tenho nenhuma objeção. — disse, e Bo Ra simplesmente não soube como responder àquele comentário. — Por agora, fico feliz em poder deixá-la em segurança em casa.

Só então Bo Ra notou que já estava praticamente na porta da mansão dos Kim. O tempo havia passado incrivelmente rápido. De repente, uma dúvida surgiu em sua mente e, antes de pensar duas vezes, ela já estava ditando a mesma.

— Como você sabe que eu moro aqui?

Hoseok fez uma breve pausa, o que Bo Ra achou particularmente estranho. Em seguida, sem dizer nada, ele fez um gesto com a cabeça, indicando que ela olhasse para frente. Do outro lado da rua, Kim Taehyung descia de um carro longo e preto, justamente na porta de sua casa, quando deparou-se com Bo Ra e aquele ruivo fitando-o. Bufou, dando as costas para os dois e indo em direção à porta da frente.

— Claro. — disse Bo Ra, concluindo que Hoseok havia apenas notado a presença indesejada de Taehyung e consequentemente deduzido que ela também morasse ali. — Bem, obrigada pelo sorvete. Nos vemos amanhã.

— Eu que tenho que agradecer pela companhia. — ele respondeu, sorrindo cordialmente. — Até amanhã, Bo Ra.

Depois de se despedir, Hoseok logo estava percorrendo de volta o caminho que acabara de fazer. Estava exausto de tanto andar, por isso, ligaria para Yoongi e o faria vir buscá-lo na frente do condomínio. Bo Ra, por sua vez, seguiu em direção à casa dos Kim, já que para chegar até o anexo tinha de passar pela fachada da mansão. Ela sempre fazia aquele caminho, em direção ao jardim dos fundos, sem sequer olhar para a enorme e imponente porta de madeira preta que separava a varanda do hall de entrada da mansão — porém, naquele dia, algo lhe fez parar.

Uma voz bem conhecida.

Ela ainda estava decidindo se deveria ou não tocar a campainha para sanar sua dúvida, porém, Kim Taeyuna fora mais rápida em escancarar a tal porta e deparar-se justamente com Bo Ra em seu quintal.

Unnie? — Bo Ra indagou, pasma com a situação.

Já fazia tanto tempo desde a última vez em que as duas se viram, que Bo Ra mal se lembrava descentemente do rosto de sua unnie para compará-lo com a sua atual aparência — ela só sabia que a outra estava tão linda quanto antes, agora com os cabelos loiros e repicados. A mais velha abriu um enorme sorriso e, sem cerimônia, abraçou Bo Ra até quase enforcá-la. Pelo visto, Taeyuna ainda mantinha seu jeito um tanto intenso de ser.

Aigoo... quanto tempo! Você mudou tanto, está quase mais bonita que eu. — Taeyuna iniciou, rindo. De repente, começou a puxar Bo Ra pela mão na direção do interior da casa dos Kim. — Venha, vamos tomar chocolate quente e colocar a conversa em dia.

Taeyuna sabia perfeitamente como capturar Bo Ra: a garota amava chocolate quente. O problema era que ela não era a única e, com certeza, Taehyung se juntaria às duas mesmo que sua irmã mais velha não o convidasse.

Unnie, eu acho melhor...

Yah, sabe há quanto tempo nós não nos vemos? Eu passei quase um dia inteiro dentro de um avião só para vir visitar você e aquele ingrato do meu irmão mais novo, então não ouse fugir de mim! — resmungou Taeyuna, ainda puxando Bo Ra consigo. — Vamos, Tae já está esperando.

Exatamente como Bo Ra imaginava. E, mais uma vez naquele dia, ela teria de conviver com a maravilhosa companhia de Kim Taehyung.

Aquele com certeza não estava sendo um dia normal para Bo Ra.

Mesmo assim, Bo Ra acabou dando-se por vencida e seguindo a mais velha. Não eram raras as vezes que a garota transitava pela mansão dos Kim, geralmente para ajudar sua avó em algum trabalho mais pesado, por isso, ela já conhecia o longo caminho até a sala de estar. Pelas paredes cor de marfim, quadros brancos e de acabamentos delicados com diversas fotos da família eram cuidadosamente espalhados — porém, em nenhuma delas, sequer um membro da mesma sorria. O senhor Kim era sempre o mais sério, com toda a sua altura imponente e os cabelos atualmente grisalhos, e geralmente usava um terno importado nas fotografias. A senhora Kim, por sua vez, estava sempre extremamente bem vestida e com o peito inflado, como se mandasse em todo o resto da família, ao passo que Taeyuna, a filha mais velha do casal, sempre parecia ter sido obrigada a participar daquela reunião. Por fim, Taehyung, o filho mais novo de porte e roupas sempre impecáveis, nunca exibia outra expressão sem ser a sua neutra e indecifrável. Nitidamente, nenhum deles estava feliz por estarem juntos, e isso causava um calafrio pela espinha de Bo Ra.

Como eles conseguiam viver assim?

— Tae, coloque uma caneca a mais de chocolate quente! — Taeyuna exclamou quando as duas chegaram à sala de estar, para que seu irmão pudesse ouvi-la da cozinha.

A mais velha sentou-se confortavelmente no sofá, enquanto Bo Ra não podia sentir-se mais estranha, mesmo estando ao lado de sua unnie. Não tardou para Taehyung surgir segurando uma bandeja com três grandes canecas azuladas, a qual ele quase derrubou ao deparar-se com Bo Ra.

— O que está fazendo aqui? — ele indagou diretamente para a garota, sem se importar se havia soado rude ou não.

Aigoo... eu não me recordava do tamanho da sua falta de educação. — Taeyuna o repreendeu, antes que Bo Ra rebatesse com uma resposta nada educada. — Aposto que é culpa sua o fato de vocês não voltarem juntos para casa. — completou, atraindo olhares confusos dos dois. — O que foi? Eu só reparei que vocês não chegaram ao mesmo tempo, oras.

Depositando a badeja sobre a mesa e pegando apenas a sua caneca, Taehyung soltou um riso irônico. Sentou-se alinhado no sofá de frente para as duas e bebericou um pouco do líquido ainda quente.

— Eu ofereci que o nosso motorista a trouxesse para casa hoje, mas parece que a Kang resolveu aproveitar o seu primeiro dia de suspensão passeando por aí. — o rapaz disse debochadamente e, naquele momento, Bo Ra sentiu uma súbita vontade de agredi-lo.

— Suspensão?! Você?! — a mais velha indagou perplexa, fitando a garota ao seu lado. — Por que?

Por um momento, Bo Ra apenas desviou o olhar para um ponto qualquer daquela sala monumental, ponderando como contaria o ocorrido para Taeyuna.

— Uma garota me provocou e teve o que mereceu. — respondeu, dando de ombros.

— Gancho de direita? — Taeyuna perguntou, sem tentar esconder um sorriso.

— Sim.

— Você é o meu orgulho, garota. — animada, a mais velha acariciou os cabelos de Bo Ra brevemente, enquanto Taehyung não se conteve em revirar os olhos diante daquela cena. Por fim, Bo Ra deu-se por vencida e acabou gargalhando da personalidade de sua unnie que, apesar de ser apenas quatro anos mais velha e estudar no exterior, conseguia ser mais adolescente do que ela. Depois de uma pausa, Taeyuna fitou os dois intercaladamente. — Então... vocês ainda não suportam um ao outro?

— Sim. — responderam juntos e sem pensar duas vezes, se entreolhando de um jeito torto.

— Que pena. — Taeyuna balbuciou, brincando com os próprios cabelos para fazer-se de desentendida. — Porque eu planejei todo o dia de amanhã para nós três. Sabe, juntinhos.

— O que?! — mais uma vez, Taehyung e Bo Ra se expressaram juntos, o primeiro quase engasgando com a sua bebida e a última arregalando os olhos de um modo que parecia ser biologicamente impossível.

Se aquele dia já havia sido anormal, eles nem conseguiam imaginar o quão distante de normal o próximo seria.



Notas finais do capítulo

E então, o que acharam?
Por que será que a diretora não puniu a Bo Ra como queria? O que Jung Hoseok aprontou (ou o Tae acha que ele aprontou)? O quão louca é a Taeyuna de juntar a Bo Ra e o Taehyung no mesmo lugar? Sexta (ou um pouquinho depois, quem sabe), no Globo Repórter.
Enfim, minhas loucuras à parte, espero ansiosa pelos comentários de vocês. Vamos interagir!

Até, meus anjinhos ♥