Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 9
S02EP09 – Home Invasion


Notas iniciais do capítulo

Invasão Domiciliar

Instigado, Max tenta tirar informações de Owen. Linda, por outro lado, se pega numa perigosa situação. Já do outro lado de Oakfield, um dos sobreviventes planeja escapar da cidade.



Max olhou ao redor enquanto outros estudantes passavam e procuravam por uma mesa livre. A multidão de jovens se aglomerou no refeitório ao ar livre de Oakfield High, onde uma área coberta apenas na parte de cima se formava e as laterais eram compostas por pilastras de cimento que sustentavam o teto. As luzes de LED não eram necessárias, desde que o sol matinal invadia todo o lugar. Do lado paralelo à Langdon, a porta que levava para o interior do prédio estava entupida de pessoas, que lutavam com os ombros alheios na tentativa de passar para o outro lado e aproveitar os vinte minutos de lazer que lhes eram dados diariamente. Vozes soavam para todos os lados, conversas se entrelaçando como nunca, assim como o som de mastigação e pratos chocando-se contra garfos proporcionados pela alimentação dos estudantes em suas mesas.

Tirou a mochila das costas ao se dar conta de que ainda estava com ela e posicionou-a de qualquer jeito em cima da mesa, à sua frente. Pegou o celular e checou o horário. Teria tempo o suficiente. Sua expressão levemente irritada encarou Owen diante de si, que mexia no próprio celular enquanto dava grandes bocados no purê de batata servido no dia, alheio ao amigo. Max sabia que se quisesse questioná-lo, teria de ser rápido. Tiveram sorte de serem liberados dez minutos antes de todas as outras classes, e logo seu grupo de amigos surgiria para se sentar consigo, impedindo que o garoto fizesse o que procurava fazer.

Limpou os dentes com a língua, deu uma última olhada ao redor e encarou Campbell, dizendo de forma firme e esbanjando que o assunto seria sério:

— Não vai mesmo me contar o que tá rolando?

Owen levantou a cabeça e o encarou, igualmente sério. De imediato soube ao que o amigo se referia: o encontro inesperado com Megan Steinfield no dia anterior e as acusações direcionadas à sua pessoa pela mesma. Por terem saído tarde da cafeteria, não houve tempo para Owen conversar com Linda, e agora tinha em mente procurar pela professora depois da aula. Estava assustado com aquilo, ninguém deveria saber, e nenhuma explicação vinha em sua mente contanto àquilo, nada cabível. Não se lembrava de ter deixado nenhuma ponta solta na história, e isso o preocupava. A não ser as fotos… Não, eu apaguei todas elas, pensou quando o assunto surgiu. Grande parte de sua noite foi passada em claro, também, enquanto não conseguia dormir pensando que poderia acordar ferrado no outro dia. Ou melhor, ferrando com Linda.

De uma forma ou de outra, ninguém mais poderia saber. Já bastava uma enorme desconhecida e ameaçadora, de alguma forma, ter esse fato em mente, e Campbell não queria correr o risco da história cair em outras bocas. Confiava muito em Max, mas reconhecia a imaturidade do amigo e o modo como ele tinha imensa dificuldade em guardar segredos, principalmente um de tal tamanho. Não poderia contar a ele, não poderia correr tal risco.

Por outro lado, soube, naquele momento, lendo as expressões do amigo, que ele já estava se cansando daquilo. Além de ter sido questionado no dia anterior no caminho todo de volta à casa, ali estava ele de novo, posto contra a parede sem nada a fazer além de negar.

— Eu não sei do que está falando – respondeu, igualmente sério, e desviou os olhos, voltando para seu aparelho celular, dando mais um bocado na comida.

Sentia-se mal, além de tudo. Sua amizade com Langdon praticamente se resumia à confiança. Contava tudo para ele, assim como ele contava tudo para si. Os problemas, encrencas, dúvidas, medos, tudo era compartilhado entre eles. Mas Owen havia feito uma promessa, e era fiel a suas promessas tanto quanto era ao melhor amigo, e não poderia acabar com a carreira de Linda por ser boca aberta. Contudo, a expressão do amigo era intimidadora. Era extremamente desconfortável ver alguém tão palhaço e alegre com a cara fechada e esbanjando a fúria.

Ficou claro na longa bufada de Max como ele estava cansado do cinismo do amigo. Sentia-se farto do garoto e de todas as negações contanto ao assunto. Chegava a se perguntar se havia mesmo valido a pena ter confiado todos os seus segredos nele. Começava a pensar duas vezes na palavra confiança, e olhou para Owen com outros olhos, pensando se o garoto era mesmo fiel como sempre dizia e como Langdon sempre pensou. Aliás, Campbell ainda valia de sua confiança?

— Você é um babaca – disse, sem pensar duas vezes, ficando vermelho de raiva. O outro o encarou assustado, não esperando a ofensa. Se preparou para mais, mas elas não vieram. – Me procure somente quando tiver as respostas. Enquanto isso, eu estou cansado dessa merda.

No momento seguinte, Max agarrou sua mochila sobre a mesa, bufando, e se levantou, colocando-a nas costas enquanto se afastava, deixando Owen sozinho na mesa, encarando-o ir para longe, abandonando-o.

 

1

 

Aconchegada no interior de sua casa, Linda Sammuels mantinha-se diante do computador, em seu escritório. A janela ao seu lado mantinha-se aberta, mesmo que o vento frio da manhã a castigasse como nunca antes castigou. O sol caiu sobre a cidadezinha por longas semanas, mas parecia que a chegada das sobreviventes havia comprometido o clima com seu ar carregado de pesar e desgraça, e agora as nuvens acinzentadas tomavam o céu, alertando a chegada de um temporal, mesmo que nenhuma gota ainda caísse. A professora vivia lá tempo o bastante para saber que, na maior parte dos casos, os sinais de uma tempestade começavam dias antes dela realmente acontecer, e já estava preparada para aguentar o frio intenso e a nebulosidade pelas manhãs.

Aliás, mesmo que seu corpo clamasse para que aproveitasse os poucos dias de sol que lhe restavam, a mulher nada podia fazer contanto a isso, pois o trabalho a chamava. Ali em seu escritório, os dedos ágeis não paravam de teclar, hora ou outra saindo do aparelho para escrever sobre um bloco de notas, fazendo anotações. Aulas deveriam ser preparadas e Sammuels sempre usou os dias livres para focar no trabalho e melhorar nele. Não teria de dar nenhuma aula naquele dia, por sorte, e finalmente encontrou um tempo para se organizar. Por isso, já estava feliz.

Suspirou profundamente. A mesa sobre qual trabalhava nunca esteve tão desorganizada, as gavetas nas laterais quase explodiam com a quantidade de folhas de papel, que apareciam saindo pelas frestas entreabertas. Clipes de papel, blocos de notas, canetas, borrachas e lápis espalhavam-se pela mesa de madeira. Solteira e sem nunca ter tido um filho, a residência de Linda estava banhada em um silêncio sepulcral, então imagine qual foi o tamanho de seu suto quando, repentinamente, o telefone ao lado do computador tocou, despertando-a do leve transe da concentração no trabalho.

A mulher deu um pulo enquanto o ar era lançado para fora de si, formando um fraco assobio em suas vias respiratórias. Olhou para o objeto beje, que espalhava seu som agudo de um habitual toque de telefone por toda a casa. Inspirou fundo, sentindo-se tola, com o coração ainda batendo rápido no peito, levada pela adrenalina do susto. Estendeu o braço e agarrou o telefone, tirando-o do gancho e trazendo-o ao ouvido.

— Alô? – disse ao atender.

Hello there – respondeu a voz.

— Sim? – questionou de novo, voltando sua atenção ao computador, sem dar a mínima.

Estou precisando de um pouco de ajuda…

Franziu o cenho, estranhando.

— Então ligou para o número errado, amigo.

Acho que não…

— Sim, ligou. Eu não sou o Aconselhamento para Homens em Crise, tudo bem?

Apoiou o telefone no ombro, não perdendo tempo com o trabalho e continuando a digitar no computador. Esperava que o remetente desligasse logo.

Não, eu liguei para você mesmo, Linda.

Parou, curiosa. Deixou o computador de lado e voltou a segurar o objeto com mais intensidade na orelha.

— Quem está falando?

Um velho amigo.

— Não me recordo de ninguém com uma voz tão estranha.

Não há nada com que se preocupar, te garanto que nunca mais irá esquecer da minha voz daqui em diante.

— O que quer dizer?

Você saberá.

— O que quer?

Preciso de ajuda, eu já disse.

Olhou ao redor, desconfiada. Provavelmente seria um de seus alunos lhe pregando uma peça após conseguir seu número. Não levou a sério, sentando-se de forma desleixada na cadeira.

— E de que tipo de ajuda você precisa, velho amigo?

Estou com um certo problema em identificar a mulher do outro lado da janela…

Instintivamente, olhou para o lado, na direção da janela aberta do escritório. Nada além da cerca que a separava da casa do vizinho, com um espaço de mais ou menos dois metros e uma distância do chão de um metro e meio. Esse idiota só pode estar de brincadeira, pensou.

— De que janela está falando?

Dessa mesma que você acabou de olhar…

Levou o torso para frente, assustada. Não tirava os olhos da janela, procurando por alguém do outro lado. Parte da rua era possível ser vista, mas tão pouco que parecia impossível que alguém estivesse lá. Sua face esbanjava o que sentia.

Ficou assustada, não ficou, Linda? – A voz pareceu conseguir o que queria, dizendo num tom maléfico e zombeteiro. – É assim que as coisas vão ser daqui em diante, pode se acostumar.

— Quem é você, porra? Está me observando? Eu vou chamar a polícia.

Fique à vontade, mas duvido que vá escapar com vida para dar o seu depoimento.

Levantou-se da cadeira com rapidez, deixando que as rodinhas sob a mesma arrastassem-na para longe, batendo na estante atrás de si. Foi até a janela escancarada e colocou a cabeça para fora, não se importando com o perigo de encontrar alguém ali. Olhou de um lado para o outro, apoiando uma das mãos no batente, enquanto a outra ainda segurava o telefone. Mais uma vez, não encontrou nada de suspeito. Voltou para dentro e puxou as cortinas brancas de seda, cobrindo-a por completo. O ambiente ficou levemente escuro, causando-a calafrios.

— Está me ameaçando?

É o que faço de melhor. – Uma pausa. Sammuels passou a seguir para fora do escritório, indo até a porta. – Acho que devia tomar mais cuidado quando ficar completamente sozinha em casa, Linda. Com um assassino à solta, é sempre um risco.

Não é possível que eu esteja falando com o mesmo assassino, pensou consigo mesma, chegando ao corredor. Encarou, pela direita, a porta de entrada da casa, que era seguida pelas escadas. Do outro lado, à esquerda, a passagem que levava à cozinha, no final do corredor.

— Você não é quem diz ser – respondeu, tentando ganhar tempo para atingir o segundo telefone da casa. Seu celular estava no andar de cima, sempre o deixava longe quando estava trabalhando para não ser distraída. O segundo telefone fixo, no entanto, ficava na cozinha. – Sem chance.

Quer que eu prove?

— É só um adolescente desocupado – continuou, sem ligar para a nova ameaça.

E porquê diz isso? Ainda não se cansou de foder com estudantes?

Parou na metade do caminho para a cozinha, ainda sem sair por completo do escritório. Nesse momento, sentiu o corpo gelar. Quem quer que fosse, sabia do seu passado, e isso era de longe uma coisa boa. O desespero passou a se aflorar no corpo da professora. De repente, pela esquerda, pôde ver com o canto dos olhos quando uma sombra passou pela janela do escritório. As cortinas fechadas transpareceram a figura que passou correndo da direita para a esquerda, e que em um milésimo de segundos desapareceu. A moça olhou naquela direção, percebendo que, quem quer que fosse, chegaria até a porta da frente após virar na curva da casa. Apressou-se na direção da cozinha, então, não se lembrando se havia trancado a porta.

— Do que está falando? – continuou, apavorada, fazendo-se de boba.

Ah, não venha se fazer de estúpida para mim, Linda.

Continuou quieta, até que cruzou o corredor e chegou ao novo cômodo. Olhou ao redor, levemente desorientada.

Eu sei que você gostaria de repetir a dose – continuou a voz. – Um corpo jovial sobre o seu… É tudo o que quer, não é?

— Cale a maldita boca. – Engoliu em seco. – Me diga seu nome, e as coisas ainda podem sair bem para você.

Encontrou com os olhos o segundo telefone, em cima da bancada, ao lado da parede. Ainda de costas para a porta de entrada, no exato seguimento do corredor, ela não percebia como o perigo se aproximava.

E como seria isso?

— Sem policiais – respondeu, mesmo que fosse entregar o desgraçado para a polícia quando tivesse a chance. – Você ainda pode sair daqui como a porra do moleque mimado que é.

Foi na direção do objeto com velocidade. Estendeu a mão livre e agarrou-o de uma vez só. No entanto, diferente do que estava em seu ouvido, o segundo telefone era com fio, e quando a professora trouxe-o em direção a si, o fio grosso partiu-se com o puxão dela. Sentiu-se estúpida, inflando o peito com intensidade. Aproximou-se do telefone, pegando na ponta partida do fio, e após uma melhor análise, constatou que a culpa não havia sido sua, desde que o objeto já havia sido cortado antes, como o corte liso demonstrava. Sentiu-se ameaçada, sabendo exatamente o que estava acontecendo. Por outras palavras, sabia que alguém havia estado em sua casa.

Ou ainda estava ali.

Quero te fazer uma última pergunta… – disse a voz arrastada.

Sammuels olhou ao redor, aflita e desesperada. O coração batia como nunca no peito, a respiração entrecortada. Procurava por uma solução que a deixasse na vantagem. Então, encarou as gavetas da estante logo ao lado da passagem que a levaria de volta para o corredor, do lado paralelo à bancada onde estava. Foi até elas sem pestanejar, abrindo uma delas com agilidade, mas, ao mesmo tempo, com cuidado, para não ficar claro ao remetente que estava tramando algo. As facas afiadas e grandes foram exibidas para a morena. Pegou uma delas com força, grande e afiada, uma faca de cozinha brilhante e ameaçadora. Inspecionou o objeto centímetro por centímetro, mas teve sua atenção jogada para outro ponto da casa.

Como se uma força invisível tivesse empurrado-a para trás, Linda recuou instintivamente, dando passos rápidos e largos para trás, até que sua cintura bateu na bancada de mármore, tudo para ficar fora da vista do corredor. À esquerda, a mesma silhueta negra surgiu pelo vidro da porta de entrada, que estava na mesma direção de sua antiga posição. Em sua recuada brutal, a professora foi capaz de tirar-se da visão do indivíduo do lado de fora, assim ele não poderia vê-la no interior da casa. Ficou, então, escorada na parede beje, onde, ao fundo, a sombra parecia parar do lado de fora da casa. Para a sorte – ou azar – de Sammuels, o vidro da porta era fosco, então a visão do invasor estaria limitada para o interior da residência.

Na linha, o remetente ainda esperava por uma resposta.

— O que? – questionou ela, curiosa, trazendo a faca para mais próxima do peito, segurando-a com a lâmina virada para baixo.

Houve um momento de silêncio, até que a voz arrastada e mecânica disse, da forma mais assustadora já dita, fazendo o corpo inteiro da mulher gelar:

Você quer morrer hoje, Linda?

Fechou os olhos por alguns segundos, nunca sentindo-se tão vulnerável a algo, enquanto os bipes no telefone deixavam claro que a chamada havia sido encerrada. Entrou em maior desespero, sabendo que, dessa forma, não poderia mais atrasar o indivíduo e muito menos saber quais seriam seus próximos passos. Ao fundo, a silhueta começou a se mexer atrás da porta. Abaixo da janela da porta, a maçaneta de metal girava lentamente. Acoada ali, ela não era capaz de ver ou escutar isso. Um estalo alto e repentino surgiu, fazendo-a tremer. Seguido disso, um ranger lento transpareceu sobre o silêncio, e Linda logo realizou que aquilo era o som da porta da frente se abrindo. Então, ficou claro que ela não havia trancado-a.

E de fato era o que acontecia, pois a placa de madeira polida e vidro era aberta para o lado de dentro da casa, abrindo passagem. Nisso, a figura mascarada do Carrasco entrou com facilidade. Não imaginava ele que seria tão fácil quanto apenas abrir uma porta. Sammuels apertou os olhos, rezando para que não fosse encontrada ali, não ousando se mover para não ter o risco de fazer algum barulho e piorar ainda mais sua situação. Ao menos largou o telefone, segurando-o em uma das mãos. A outra ainda portava a faca de cozinha. Trancou a respiração. O silêncio nunca foi tão grande e os segundos nunca foram tão longos. Uma risca de suor descia por sua têmpora direita, o corpo fervia. Passos ressoaram quando a figura começou a andar.

O maníaco tomava caminho pelo corredor, olhando para a direita e para a esquerda, respectivamente, encarando o interior da sala de estar e da sala de jantar. À frente, estavam as escadas e as duas passagens, uma para o escritório de Sammuels e a outra para a cozinha. Pela visão dele, era apenas possível ver o fogão e parte da bancada, mal sabendo que, atrás daquela parede, estava seu alvo. Não percebendo nenhum sinal de perigo, após fechar a porta de novo, ele parou e esperou por alguns segundos. Então, algo inesperado aconteceu, e o mascarado foi na direção da escadaria, começando a subi-la lentamente. Linda percebeu como os passos foram sumindo, ficando mais baixos, e pela forma como isso acontecia, gradativamente, chegou a conclusão de que o indivíduo subia pelos degraus que levavam ao segundo andar.

Nesse momento, soube que teria uma chance de fuga. Esqueceu-se completamente de chamar por ajuda e depositou o telefone sobre o mármore atrás de si. Olhou ao redor mais uma vez, empunhando a faca. Espiou pela passagem ao seu lado, encarando o hall de entrada deserto. Ele havia realmente subido para o segundo andar. Nenhum som surgia, o maldito era extremamente cauteloso. Teve uma ideia, e seguiu na direção da janela à sua frente. Ficava em cima da pia, e teria de ser rápida pois, naquela posição, se o mascarado descesse para o primeiro andar, poderia facilmente vê-la tentando fugir. Sem largar a arma, agoniada pela terrível tarefa de ser silenciosa, girou o pino no batente da janela, destrancando-a.

Segurou de forma calculada a parte de baixo da madeira branca, os quadradinhos de vidro exibindo para ela o lado de fora. Começou a arrastar a placa para cima, quase deitada sobre a pia, onde sua barriga ficava numa posição desconfortável, sendo pressionada pela quina do móvel. Um arrastar baixo surgiu, de madeira contra madeira, e ela parou por alguns segundos, olhando para o hall na procura por seu perseguidor. Nada, estava vazio, e nada evidenciava sua presença. A porta de entrada estava completamente vazia, e Linda duvidava que ele tivesse trancado-a, mas, de qualquer jeito, não ousaria ir até lá para correr o risco de dar de encontro com ele descendo as escadas.

Continuou sua tarefa, erguendo a janela. Ela era estreita, como se lembrava, mas como era uma mulher magra, seria o bastante para que fosse capaz de passar para o outro lado. Centímetro por centímetro, segundo por segundo, a coisa era aberta com delicadeza. Então, finalmente atingiu seu limite máximo, onde parou com um baque fraco e que só foi capaz de ser ouvido por ela.

— Obrigada, Deus… – sussurrou para si mesma.

Era uma abertura de cinquenta centímetros, estreita. Teria de passar deitada. Hesitou por alguns segundos, pensando se seria a melhor opção. Constatou que sim, e logo começou a colocar uma das pernas sobre a pia. Por sorte, ela era acoplada a uma bancada de madeira que seguia rente à parede, acompanhada de outras gavetas, estantes e o fogão. Lançou o torso para frente e passou a cabeça pela janela, sentindo o vento frio atingir a faca e balançar os cabelos. Engoliu em seco, olhando de um lado para o outro. A queda não era tão grande assim, ficaria bem. Posicionou a outra perna sobre a pia e ficou de quatro ali, forçando o restante do corpo para fora. Com os braços, impulsionava-se para o outro lado, tendo um pouco de dificuldade com a mão que segurava a faca.

Sentia o suor frio consumindo o corpo, o medo alastrando-se por todas suas extremidades. O coração batia acelerado no peito. Estava com o torso inteiro para fora, apenas restavam-lhe a perna. Podia facilmente se jogar dali, mas acabaria caindo sobre algum membro e se machucando mais do que queria. Por isso, continuou forçando os membros inferiores a continuar a ir para fora. Contudo, parou ali mesmo, talvez estimulada pela estranha corrente de ar que surgiu-lhe nos pés calçados de sapatilhas ou apenas pelo pressentimento do perigo surgindo, quando seu calcanhar foi agarrado com força por uma mão enluvada e fria. A professora estalou os olhos no desespero de perceber que havia sido encontrada, soltando um grito escruciante de susto.

As mãos de Sammuels debateram-se do lado de fora, empurrando o restante do corpo para o exterior. Mas de nada adiantou, desde que o aperto do psicopata era forte demais e ele começava a puxá-la para o lado de dentro. Um tranco forte surgiu e Linda foi lançada para trás, passando quase por completo para o lado de dentro, ficando apenas com o peito e os braços para fora.

— Socorro! – gritou ao perceber que não teria chances contra o outro.

O calcanhar começava a doer com o aperto forte, as pernas arrastando sobre a pia molhada. Não teve a chance de ver, mas percebia que era a mesma figura que havia visto correndo pelo quintal. Debatia-se em completo desespero, aumentando a dificuldade do mascarado em mantê-la firme. As pernas chacoalhavam no ar. Gritos e urros de esforço saíam da professora. Os braços magros de nada adiantavam na tentativa de sair de novo, e suas chances haviam ido pelo ralo, desde que estava quase por completo do lado de dentro. Então, sentiu a blusa ser agarrada com força. Um novo tranco surgiu e ela entrou mais ainda.

— Não, me solta! Solta! Socorro! – Nenhum movimento do lado de fora surgia, parecia sozinha no mundo. – Por favor!

Agora, estava do lado de dentro, apenas com os braços agarrando no batente da janela, não desistindo. Continuava lutando, mesmo que soubesse que não haviam chances a mais. Estava correndo perigo e, qualquer que fosse as intenções do mascarado, ele as conseguiria. Foi puxada com ainda mais força, os pés quase tocavam o chão, e aquilo foi o suficiente para tirá-la de vez dali. Os dedos suados escorregaram pela madeira, o corpo sendo jogado para trás ao ser solta. A professora caiu do lado de dentro, tentando firmar os pés no chão e conseguindo ao apoiar as mãos no mármore atrás de si enquanto os pés desesperados lutavam por estabilidade. Quando finalmente parou, Linda ficou cara a cara com o assassino, encarando o Carrasco com temor.

Foi somente nesse momento que voltou a se lembrar da forma sólida que ainda agarrava com firmeza na mão direita. Ela empunhou a faca na direção do mascarado sem pestanejar, não medindo esforços para alvejá-lo onde quer que fosse. O outro, preparado para o golpe, recuou com um passo enquanto a lâmina passava na horizontal a centímetros de seu peito. Ao errar o movimento, Linda percebeu que jamais teria tempo o suficiente para continuar na tentativa, e não pôde se preparar para o soco que surgiu-lhe daquela mão enluvada. O Carrasco, tão forte quanto ela, não teve pena em golpeá-la com força com uma das mãos. Um som alto e seco repercutiu pelo ar. Sammuels ao menos percebeu o que havia atingido-a, apenas sentiu a dor lancinante na mandíbula, ao que girava no ar e despencava em direção ao chão, vendo estrelas.

Seus braços bateram na bancada ao lado, mas nem isso foi capaz de segurá-la. A morena caiu de bruços no chão, atordoada pelo golpe, direcionada na passagem para o corredor. No entanto, o seu maior desespero foi ouvir o som metálico que surgiu, enquanto a faca rodopiava pelo chão, para longe de si, após ter sido solta na hora do soco. Linda tentou se distanciar da dor e forçou os braços para se arrastar na direção da arma. As pernas empurravam o corpo. A faca havia parado ao bater na parede, a um metro dela, mais ou menos. Seus braços esticados tentavam alcançar o objeto. Contudo, foi forçada a parar quando sentiu um peso enorme ser colocado sobre si. O peito foi pressionado contra o chão, fazendo-a perder um pouco do ar.

Virou a cabeça, a ponto de ver que o maníaco estava sobre si.

— Socorro! – berrou, como nunca antes. – Alguém me ajuda!

Nada adiantou. O desespero estava aflorado em seu corpo, ofegava na luta para se ver livre, enquanto não conseguia, nem por um segundo, se arrastar para longe ou se soltar do aperto. As pernas do maníaco mantinham-se ao lado de sua cintura. Logo, com um forte puxão, ao ser agarrada pelos ombros, Linda teve o corpo virado para cima. Ao menos percebeu como o ato se deu, e no momento seguinte estava virada para cima, encarando os olhos morteiros do mascarado. Gritou com força, debatendo-se sobre ele. Ele nem se mexeu.

— Me solta, por favor! Não! Por que está fazendo isso?!

Como resposta às suas súplicas e pergunta, teve o relance de um objeto prateado à esquerda. No momento seguinte, ela já vinha descendo em sua direção… Aquela faca de sobrevivência, uma HK-205 TAUE, tão grande quanto o medo de Sammeuls. Ela, no reflexo da luta, ergueu o punho e alcançou o braço do assassino no ar, prendendo-o no aperto de seus dedos enquanto soltava um grito. Teve coragem o bastante para inspecionar melhor a situação, e quase não percebeu a forma como aquela lâmina fina mantinha-se a centímetros de seu rosto, parada no ar por conta de seu punho. A força do maníaco era depositada, e ele não parecia querer apressar a situação, pois o outro braço mantinha-se largado do outro lado, como se soubesse que, de uma forma ou de outra, já tinha ganhado.

Linda soltava grunhidos de esforço, a veia do pescoço sendo colocada em evidência na força escruciante feita pela professora para afastar aquela faca de si. Virou o rosto para afastá-la ainda mais. Para a sua sorte, e para o azar do mascarado, o cotovelo da morena estava encostado no chão, o que dificultava a passagem da arma para mais perto de seu rosto, servindo de apoio. Além disso, sabia que não aguentaria por muito tempo. Seu fino pulso logo seria capaz de se partir caso a força continuasse. Com isso, aproveitou o momento de distração do mascarado para fazer alguma coisa que lhe trouxesse a vantagem mais uma vez.

O primeiro ponto que encontrou para servir de arma foram suas próprias pernas. Estendidas pelo chão, ela só percebeu naquele momento que o aperto do corpo sobre si havia ficado menor. Talvez o mascarado tivesse se esquecido de deixá-la presa ao chão e focou-se apenas em acertá-la com a faca. Sammuels usou isso ao seu favor. Primeiro, tratou de não mover as pernas nem um centímetro para impedi-lo de lembrar que estavam expostas, e então, repentinamente, puxou uma delas, a direita, em sua direção. Foi possível ver o espanto do assassino quando o movimento repentino aconteceu. A força no pulso de Linda foi afrouxada, diminuindo. Mais um puxão na perna e a morena já estava pronta para usá-la, quando esta foi libertada e saiu de baixo do mascarado.

Livre, a professora, com a perna dobrada sobre a barriga, apontou a sola do pé na direção do maníaco e chutou-lhe com a maior força que ainda lhe sobrava. Despreparado, o psicopata foi lançado para trás, acertado no meio do peito. De repente, as mãos de Linda não seguravam mais nada, e nenhuma lâmina era lhe pressionada contra a face. Foi capaz de escutar o som do corpo caindo em sua frente. As pernas dele estenderam-se ao lado das suas. Após dar uma inspirada profunda de alívio, Sammuels virou-se de bruços e ficou de quatro, começando a se levantar com dificuldade. Apoiou-se no mármore e olhou para trás, vendo, naquele espaço estreito entre a bancada de mármore e a bancada de madeira, o assassino lutando para recuperar sua faca.

Tornou sua visão para frente e ficou em pé, tratando de correr na direção da porta da frente. Passou direto pela faca de cozinha largada ao lado da parede e seguiu pelo corredor.

— Socorro!

Bateu de encontro à porta de entrada com força, freando sua corrida. Suas mãos agitadas tentaram encontrar a maçaneta e, ao atingi-la, virando-a, percebeu que a maldita coisa estava trancada. A chave, que normalmente se encontrava na fechadura, havia sumido. Em tal estado de desespero, a professora virou o corpo na direção contrária, sem opções, e pôde ter uma vista privilegiada do maníaco correndo intimidadoramente em sua direção, vindo daquela linha reta que era o corredor. Gritou com força, mas não foi capaz de se proteger ou desviar quando uma das mãos veio em direção ao seu pescoço. Com certo alívio, ela percebeu que ele não tinha a faca em mãos, provavelmente porque não foi capaz de recuperá-la no medo de que sua vítima escapasse.

Os dedos pressionaram seu pescoço com intensidade. As mãos agitadas de Linda procuraram pela do agressor, agarrando-a e tentando tirá-la de si.

— Me solta… – dizia em meios aos engasgos, o ar sendo tirado de si. – Por favor…

Sons de sucção se seguiam enquanto ela tentava puxar o ar para dentro dos pulmões e era miseravelmente impedida. Os pés mal lutavam mais. Aos poucos, a face de Sammuels começou a ficar vermelha. Os pulmões pediam por oxigênio enquanto a pressão do aperto era aumentada segundo por segundo. O mascarado a encarava com satisfação no olhar, esperando que o momento crítico chegasse. E, de fato, ele parecia mais próximo do que nunca quando Linda percebeu que sua visão começava a se apagar, manchas pretas formando-se e comprometendo-a. Suas mãos começavam a perder a força, o pescoço esmagado entre os dedos do psicopata.

Então, algo inesperado aconteceu. Quando a professora começou a aceitar que morreria, teve o torso levado violentamente para frente. No momento, não entendeu o que estava acontecendo, e demorou alguns segundos para perceber que o braço encoberto do maníaco havia abaixado-a um pouco. Em seguida, sentiu-se ser levada de volta para trás. Tudo aconteceu em menos de cinco segundos, e logo o som de um impacto alto surgiu, tamanha foi a força do mascarado ao bater a cabeça da mulher de encontro ao vidro da porta. Sammuels viu estrelas mais uma vez, sentindo uma dor indescritível na parte de trás da cabeça, ainda tendo o pescoço agarrado.

A passagem de ar foi liberada um pouco. Contudo, a estranha sensação de algo quente escorrendo por sua nuca não a deixava tão aliviada assim. Atrás de si, a placa de vidro rodeada por madeira havia transformado-se em riscos tortos e pontudos, que se estenderam por toda uma extremidade do material fosco, como teias de aranha, quando rachou-se ao impacto. Uma mancha de sangue ficou alojada, também. A janela ficava na altura da cintura da morena, seguindo-se até a parte de cima de sua cabeça, tendo espaço o bastante para liberar sua passagem. E foi exatamente o que aconteceu quando, para piorar a situação dela, seu torso foi levado para frente e para trás novamente, sendo jogado na placa de vidro.

Alvejada pela dor do impacto, Linda estava tonta. Repentinamente, no entanto, sua atenção foi lançada para outra coisa quando a superfície atrás de si deixou de existir. O som de vidro se quebrando se fez, assim como o de estilhaços caindo para todos os lados. Sammuels estalou os olhos quando sentiu o torso ser levado mais para trás do que o planejado e as pernas saíram do chão. Pôde perceber como o assassino ficou igualmente chocado ao vê-la passar pela abertura que se formou na porta. Então, o teto tomou forma em sua visão e a mão saiu de seu pescoço. Inspirou profundamente, começando a tossir enquanto caía. Linda teve um momento de medo assim que se sentiu em queda livre, mas percebeu que era melhor assim, e no momento seguinte atingiu o chão do lado de fora da casa.

O corpo caiu sobre os estilhaços pinicantes, as pernas ainda esticadas para cima, apoiadas na porta. De imediato, levemente desesperada, recolheu-as, deixando-as cair completamente. Percebeu-se na varanda da casa, ofegante como nunca. Nem aproveitou seu momento de liberdade, apenas tratou de se levantar o mais rápido que conseguia e correr dali, para longe do perigo. Arrastou-se pela madeira, sentindo as mãos pressionando os estilhaços do chão.

— So-Socorro… – A voz ao menos saía pelo aperto anterior na garganta. Parecia alguém que havia gritado muito em um show e agora sofria as consequências, ficando sem voz. A cada esforço feito, a garganta ardia e doía, fazendo-a parar de tentar gritar.

Os joelhos arrastavam-se sem força. Então, levou apenas uma olhada para trás para que a professora parasse de se esforçar, percebendo, pela abertura na porta, que o maníaco não estava mais lá. Ele havia ido embora, como sempre fazia.

 

2

 

Andando pela calçada na direção de sua galeria, Sam estava entediada de tudo o que acontecia em Oakfield. Não sabia exatamente qual era o seu lugar na situação da cidade, ou se deveria temer alguma coisa, mas que era estranho, isso ela concordava. A loira já havia ouvido falar de tudo o que as sobreviventes pensavam sobre o que estava acontecendo, e sentia-se nervosa contanto a isso. Aflita, na verdade. Não sabia quando as coisas iam parar ou se iam parar. Isso a entristecia, de certo modo, sabendo que pessoas inocentes estavam sofrendo com tudo aquilo.

No entanto, no meio do caminho, teve sua atenção desviada para algo além dos ladrilhos da calçada. Ao virar o rosto para a direita, teve a impressão de reconhecer a figura que, de forma desesperada, abria o porta-malas de um carro preto. Não deu muita bola, até que começou a se aproximar do indivíduo ao que avançava em seu caminho. Os cabelos longos e pretos ficaram em evidência, e um singelo olhar para o lado vindo da garota foi o bastante para Winters perceber se tratar de Olivia Ree, com seus olhos puxados encarando o ambiente ao redor em completo pânico.

Curiosa, a loira continuou indo até lá, reparando na forma como as mão agitadas da asiática colocavam uma mala grande dentro do carro.

— Vai a algum lugar? – perguntou quando tomou uma boa distância.

Ree virou-se solenemente e encarou Samantha, parada na calçada, logo ao seu lado. Engoliu em seco, nervosa.

— Eu vou embora – respondeu, explicitando o medo em sua voz. Estava desesperada. – Para o mais longe de Oakfield.

Estranhando a reação da amiga, Sam olhou ao redor, pensando no que diria. Não podia negar que estava curiosa. Continuou:

— Por que?

Olivia parou ao terminar de colocar a primeira mala. Era possível ver mais uma no asfalto, logo ao seu lado. Virou-se para Sam e respondeu:

— O assassino que está matando todo mundo provavelmente está atrás de mim. – Deu uma pausa, tomando fôlego, enquanto uma camada de lágrimas juntava-se em seus olhos. – Eu vou embora antes que seja tarde demais para mim.

O fato deixou a artista levemente incrédula. Não sabia que Ree era tão covarde quanto estava sendo naquele momento, e mesmo que não soubesse se era uma participante do jogo do serial killer, Winters não acreditava que alguém poderia deixar a cidade e se afastar do problema enquanto outros sofriam.

— Olivia, você não pode fazer isso – disse, fazendo a moça virar-se para si. – Você está sendo covarde em fugir das coisas assim… Deixando outras pessoas para trás… Você não é a única a passar por essa situação, e vai deixar essas outras pessoas lutando sozinhas?

Ree jogou a última mala de qualquer jeito no porta-malas, não realmente se importando com o estado que suas coisas ficariam depois.

— Você, pelo menos, sabe o que está acontecendo, Sam? – questionou retoricamente, não deixando que a loira obtivesse tempo para responder. – Já recebeu algum tipo de ameaça, por acaso? – A loira ficou quieta, envergonhada, percebendo que a outra tinha razão. Ela não entendia o que estava acontecendo. – Foi o que pensei. – Afirmou, fechando a porta com violência. Sam tremeu.

No momento seguinte, Winters ficou parada na calçada, observando o modo como Olivia dava a volta, sem dar a mínima para si ou se despedir, e entrava no assento do motorista. A porta mais uma vez foi fechada com violência, capaz de fazer a moça pensar se a asiática realmente não se importava com o veículo. O ronco do motor foi ouvido ao que o carro deu a partida, levantando fumaça quando os pneus giraram, levando-o para longe. Dessa forma, Olivia Ree começava sua caminhada para longe da cidade dos amaldiçoados.

Samantha bufou, balançando a cabeça de um lado para o outro, desaprovando a ação da amiga. Sabia que isso jamais daria em coisa boa. Se Olivia fosse, como disse, uma das vítimas do assassino e estivesse recebendo ameaças, deveria saber que o maníaco jamais a deixaria escapar de forma tão fácil. Se Ree achava que se afastava dos problemas indo embora, estava muito enganada, pois eles apenas estariam aumentando para cima de si.

De repente, a artista foi pega desprevenida por uma mão, que pousou em seu ombro delicadamente. Deu um pulo, assustada, e virou-se de supetão, encarando o próprio noivo, Lincoln. O rapaz negro estava curioso pelo motivo da mulher estar parada ali, encarando o carro que seguia pela rua. Ele tornou seu olhar para ela após dar mais uma olhada no veículo.

— Aconteceu alguma coisa? – perguntou ele, surpreso pela reação da loira.

Ela virou-se na direção onde o carro havia partido, ficando de costas para o noivo, encostada em seu peito enquanto Davis passava um dos braços ao redor de si, aconchegando-a em seu aperto.

— Olivia foi embora – respondeu com um tom decepcionado.

— Embora? – tornou ele, não entendendo.

— É… Disse que se sentiu ameaçada e apenas fugiu daqui, para o mais longe de Oakfield. – Houve uma pausa, onde nenhum dos dois disse nada, e, preocupada, Sam perguntou: – Acha que ela pode estar em perigo fazendo isso?

Lincoln hesitou antes de responder, mas, por fim, disse:

— Nada de bom acontece quando um soldado sai da guerra sem as ordens do comandante… – Ele deu uma pausa antes de continuar: – Ela não devia ter feito isso.

Winters concordou com a cabeça, balançando-a para cima e para baixo.

 

3

 

A situação em sua casa foi tratada com urgência. Após Linda ter sido encontrada por alguns vizinhos, foi levada para o hospital, onde prestou depoimento para alguns policiais. Sob a crítica situação da cidade, o caso foi levado para a delegacia de Oakfield, onde o novo xerife o tratou como uma tentativa de assassinato realizada pelo Carrasco. Então, a moça foi privilegiada com segurança, como uma forma de fazê-la se sentir mais segura mediante a situação da qual acabava de sair viva. Não lhe foi alertado quantas horas por dia estaria segura ou com alguém ao seu lado, apenas que dois seguranças estariam em sua guarda, provavelmente a espreita, esperando por uma nova ameaça, na qual poderiam ter sua chance de pegar o responsável.

Agora, a professora era liberada do hospital. Não tinha nenhum ferimento muito grande, apenas precisou de alguns pontos e um pouco de antibióticos para a dor. Como sua casa estava interditada pelos policiais, que tentavam buscar evidências, teria de encontrar algum lugar para passar a noite. Enquanto isso, iria embora dali em um táxi e pararia na primeira lanchonete que encontrasse, pois estava morrendo de fome e exausta. Ainda não entendia exatamente o motivo de ter sido atacada, e mesmo que o medo aflorasse-se em sua pele com a sensação de que era uma das vítimas do serial killer, tentava manter-se firme e forte diante da situação.

Passou pela porta de entrada do hospital e adentrou ao grande espaço que servia para a chegada de ambulâncias, todo feito de concreto e a céu aberto. Uma estreita rua formava-se no centro dele, onde carros paravam para buscar pacientes e, em seguida, seguiam viagem. Começou a pegar sua bolsa, na busca pelo celular recuperado por um dos policiais, quando encontrou uma presença conhecida parada ali, a alguns metros de si. Suspirou profundamente, com uma expressão de que a pessoa não deveria estar ali, mas continuou seguindo na direção dela.

Owen fez o mesmo, indo até a professora.

— Você não deveria estar aqui – disse ela quando se aproximaram o bastante.

O garoto engoliu em seco, olhando-a de cima a baixo e reparando em como estava acabada.

— Eu fiquei sabendo do que aconteceu – respondeu, explicando-se. – Queria saber se estava bem, só isso.

— Eu estou – afirmou de forma seca. – Agora você precisa ir. Sabe que não podemos ficar juntos.

Sammuels começou a andar, desviando do garoto, na tentativa de se afastar e ir embora, mas ele intercedeu seu caminho, pondo-se diante dela. Linda quase bateu de encontro à Campbell, parando no último segundo.

— Owen! – disse, de forma que ele deveria sair de sua frente.

— Esse não foi o único motivo de eu ter vindo aqui.

A morena pareceu entender, no olhar do estudante, que algo sério estava por vir, e por isso decidiu dar a ele uma chance. Engoliu em seco e olhou ao redor, para ter certeza de que não estavam sendo vistos por ninguém. Por sorte, eram quase os únicos no lugar. Ela pegou-o pelo ombro e começou a guiá-lo para a direita, onde havia visto uma espécie de beco ao lado do hospital, um lugar reservado no qual poderiam conversar sem perigo algum. Ainda sentia-se desconfortável na presença de Owen, mesmo que os dois tivessem se arrependido do que havia acontecido.

O garoto seguiu ao lado dela, ainda com a mão da mais velha lhe segurando o ombro, sem rejeitar, pensando exatamente no que falaria. O que, com certeza, era algo que Linda deveria saber. Os dois chegaram nessa brecha entre uma parede e outra, percebendo os cigarros jogados pelo chão e o cheiro forte, constatando que as pessoas iam ali para fumar ou urinar. O lugar era deplorável, com três altas paredes de concreto cercando a dupla. Eles continuaram seguindo pelo corredorzinho até chegar quase no final, onde pararam, um de frente para o outro, sob a parca luz do ambiente.

— O que é? – perguntou ela.

Campbell hesitou antes de falar.

— A Megan sabe – disse, por fim.

Entendeu de imediato do que ele falava, e olhou mais uma vez ao redor, desconfiada.

— Eu sei – respondeu Sammuels, para a surpresa do menor.

Owen franziu o cenho, desentendido.

— Como assim? – tornou.

— Eu contei para ela um dia depois do acontecido.

Nos olhos do moreno, o temor se mostrou presente enquanto ele percebia que, provavelmente, estavam ferrados na mão de Steinfield. Estava incrédulo com a informação.

— O quê?! Você prometeu que ninguém além da gente ia ficar sabendo daquilo! Nós dois prometemos! – Suas palavras, mesmo que de forma exaltada, eram liberadas em sussurros irritados.

— A gente se encontrou num bar e eu estava bêbada! – respondeu Linda, tentando se reconciliar. – Era informação demais para eu ingerir sozinha e… E a Megan pareceu confiável!

— Não, ela não é nada confiável! – disse ele de forma zombeteira, rindo de lado, estérico. – Ela quase explanou a coisa toda pra uma cafeteria inteira!

Sammuels sentiu-se traída, por um momento. Mesmo que sempre tivesse se arrependido de ter contado à Megan, jamais pensou que a advogada realmente fosse capaz de provocá-los com a informação. Uma leve raiva queimou em seu peito e, vendo a situação de Owen, que era mais jovem que ela e, dessa forma, mais propício a ter ataques de histeria, tentou pensar em alguma coisa para acalmá-lo.

— Eu vou falar com ela, tudo bem? – perguntou, por fim. – Vou me certificar de que ela nunca mais tente provocar você ou eu com essa história.

— Certo… Você deve mesmo fazer isso…

Os dois se encararam mais uma vez, temerosos.

 

4

 

A vários quilômetros de Oakfield, a situação era diferente. Olivia jogou as malas no canto do quarto e fechou a porta, trancando-a. Olhou ao redor do quarto de hotel e percebeu que não era tão ruim, seria o bastante para suportá-la durante uma ou duas semanas, que seria o necessário para ela pensar e realizar o que faria com sua vida a partir dali. Durante a viagem, que demorou menos de uma hora, ela teve tempo o bastante para pensar no que queria, mas não era isso que havia preenchido sua mente durante os minutos apreensivos dentro do carro, e sim a conversa tida com Sam segundos antes de sair da cidadezinha para fazer o que achava ser o melhor.

Não sabia se mais alguém estava recebendo ameaças ou tendo contato com o assassino que ceifava as vidas em Oakfield. Isso a perturbava o tempo todo, na verdade. O fato de não saber se era a única na situação era terrível de guardar sozinha. As palavras de Sam não chegaram a atingi-la da forma como a loira planejou, também. Tinha em mente salvar sua própria vida, e não a de outras pessoas, das quais ao menos tinha intimidade. Chegou a pensar que talvez fosse a motivação para tudo aquilo, por conta de sua melhor amiga ter sido morta e ter recebido uma ligação, após ser atingida pelas farpas da artista, mas percebeu que morava no mesmo lugar que duas sobreviventes de um massacre anterior e, dessa forma, elas tinham oitenta por cento mais de chances de serem as razões. Era mais plausível e aliviador para a asiática.

Havia entrado na primeira cidade que encontrou, uma tal de Capeside, e se alojado no primeiro hotel esteticamente bom. Pediu por um quarto de solteiro por tempo indeterminado, pagou a primeira estadia de uma noite e subiu com a chave balançando nos dedos. Abriu a porta e se deparou com uma cama, um guarda-roupas, uma escrivaninha e uma porta que levava ao banheiro. Café da manhã era incluso no pacote, e já estava para pedir alguma coisa pelo telefone sobre a escrivaninha. Mas antes disso, sentou-se na beirada da cama. Fechou os olhos por alguns instantes e suspirou profundamente, sorrindo de lado.

Sentiu-se livre, finalmente. O perigo parecia o mais longe possível agora, e Olivia estava feliz. Não sabia que escapar da desgraça seria tão fácil assim, mas ela havia conseguido. E mesmo que não percebesse, era preenchida por um egoísmo cego enquanto pensava estar, enfim, em paz novamente.



Notas finais do capítulo

O que acharam da atitude do Max? Gostaram da perseguição da Linda e dela ter saído viva dessa? Acham que Olivia está REALMENTE segura? Me digam suas opiniões sobre o capítulo, elas são realmente importantes! Está sendo ótimo escrever Hello There 2, e espero de coração que você também estejam gostando, então comentem haha Não se preocupe, se estiverem se perguntando, o caso da Ellen será discutidos nos próximos capítulos!



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