Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 30
S02EP27 – Things Bad Begun


Notas iniciais do capítulo

Coisas Ruins Começam

Curiosa com sua nova descoberta, Emily se une a Molly para explorar o que pode estar havendo na casa de Ellen, e são pegas em meio a muitas revelações.



Molly deu um bocado na torrada, mastigando com calma. Continuava no mesmo estado catatônico de sempre. Era desse mesmo modo que ficava depois que alguém morria. Era o período do choque inicial, acompanhado da tristeza prevalecente e a incoerência do fato de que aquela pessoa já não mais estaria entre eles. Fazia apenas algumas horas desde que Max tinha sido dado como morto, então era de se esperar que Merriman ainda estivesse daquele jeito, perdida em seus pensamentos. O lado bom era que ainda não se arrependia de ter jogado as drogas fora. Sentia-se mais leve e livre, na verdade. Então, a única coisa ruim era realmente a sensação de saber que um de seus amigos estava morto.

Sentada numa das cadeiras da mesinha de canto, Ellen estava do mesmo jeito. Havia acabado de chegar do hospital, e continuava com uma sensação estranha pelo corpo. Tinha pena por Owen, e um certo desconforto ao pensar que Max estava morto. Era sempre horrível saber que alguém tinha morrido. Ainda mais por assassinato. Lidou com poucos casos de morte de pacientes em toda a sua carreira. Normalmente, eram suicídios, o que não aliviava a gravidade da situação, mas diminuía um pouco o peso.

— É normal dizer que tô acostumada com tudo isso? — perguntou Molly, sem encará-la. — Alguém morre, a gente fica em choque, chora em alguns casos, conforta os mais próximos da vítima, pensa que tudo vai ficar bem, até que uma nova morte acontece e tudo se repete.

— Não, não é normal estar acostumado – respondeu Ellen, de imediato, ainda com uma torrada intocada nas mãos. – Mas infelizmente é o que foi adaptado à nossa nova realidade. E isso é horrível.

— Isso afeta todo mundo, ainda por cima. O assassino fez uma lista excepcional só com pessoas próximas umas das outras. — Suspirou fundo. — Às vezes acho que essa era a intenção: nos deixar morbidamente acostumados com tudo isso. Nos fazer saber que estamos ferrados, que não temos chance.

— Eu não acredito nisso — indagou Ellen, olhando para ela com seus grandes olhos verdes. – Acho que temos chance, sim. Só precisamos ser espertos. Ele não é invencível, só é… Um grande filha da puta mal amado que está a procura de um pouco de atenção.

Molly engoliu em seco. Achava estranho desferir xingamentos contra o assassino, mesmo quando ele não estava próximo, como se isso fosse atraí-lo ou coisa assim.

— E isso vai ser muito difícil. Vencer ele, digo — disse Merriman. — Espero que realmente tenhamos a chance.

— Vamos ter. Eles sempre dão essa chance, a do embate final, em que todos tem a mesma chance contra o outro.

— E como isso acontece? — perguntou a morena, curiosa, olhando para a loira.

— Ele vai fazer alguma coisa que vai nos forçar a nos unir. Aí, tudo se desenrola. A máscara cai, todo mundo fica espantado, ele, com certeza, vai conseguir matar alguns, mas no final, vai acabar perdendo.

— Acha mesmo isso?

— Prefiro acreditar que sim. É sempre a mesma historinha. “Dessa vez eu te pego”, “Agora eu te mato”, “Você vai morrer”, “Sem chance para você”. Mas no final, ele sempre perde. É igual a história daquela galera da cidadezinha das montanhas, Ashville.

— Ashville? — questionou Molly.

— É. A situação deles é parecida com a nossa. Duas vezes, um assassino surgiu pra ir atrás de um grupo de pessoas que morava lá. Claire Ripley e Edward Graim foram os dois sobreviventes que viveram aquilo duas vezes. Mas no final, o assassino acabou morrendo ou indo preso. E é o que vai acontecer aqui também.

Molly estava um pouco fascinada pelo conhecimento da psicóloga.

Quando os nomes Ashville, Claire Ripley e Edward Graim foram citados, Merriman teve um estalo e lembrou-se de algumas coisas que já tinha ouvido falar sobre a história. Foi um caso nacional que rodou todos os Estados Unidos, e que incluiu a morte de várias pessoas. Agora sua ficha caía do quanto as duas situações, a deles e a sua, eram semelhantes.

— Que você tenha certeza disso mesmo — concordou Molly, nervosa. — Mas como sabe disso tudo? Você sabe até o jeito que tudo se desenrola.

— Eu fiz a minha lição de casa. — Ellen sorriu de lado. — Procurei por histórias como a nossa ao redor do mundo todo. Teve Ashville, e diversos outros casos de assassinos mascarados pelo país e pelo mundo. Além da que aconteceu a sete anos, aqui mesmo em Oakfield. Todas seguem a mesma fórmula.

A casa estava silenciosa, e Emily ainda não tinha voltado. Ela havia dito que passaria em sua própria casa após ir ao hospital, então deveria estar lá. Ficaram quietas por um instante, pensativas, o que só aumentou o silêncio do ambiente. E no tempo em que pensou consigo mesma, Molly não se segurou em dar um leve surto de histeria, quase gritando ao dizer:

— Como alguém chega a esse ponto? Pelo amor de Deus, são vidas!

— A mente de um psicopata é a coisa mais difícil de se compreender, Molly. Mesmo que entendamos alguma coisa, nunca entenderemos tudo. É como um labirinto infinito. Com uma entrada, e nenhuma saída — respondeu Ellen, a voz mansa.

— Você já lidou com casos assim antes?

— De psicopatia? Não, não. Eu estudei sobre psicopatas e sociopatas na faculdade, mas nunca cheguei a trabalhar com eles. Psicologia clínica era a carreira que eu queria seguir, então… Nunca fiquei cara a cara com pessoas desse tipo. Nunca trabalhei num hospital psiquiátrico.

— Eu jamais conseguiria, acho. Tratar alguém que é assim… Credo, gosto nem de pensar.

— Mas é muito interessante. Eu gosto de aumentar meus limites, então estudar psicopatas é uma coisa que adoro fazer. Sempre tento conseguir mais do que tenho. Saber mais.

Molly concordou com a cabeça, dando uma mordida na torrada, tremendo, e perguntou com sinceridade:

— E todo esse estudo tá te ajudando em alguma coisa agora?

Ellen imediatamente lembrou-se de seu caderno de suspeitos. Lembrou-se de como ele sumiu subitamente e de como poderia estar com Emily ou, até mesmo, com o assassino. Em ambos os casos, o resultado não seria bom. Aquele caderno era motivo o suficiente para uma grande quantidade de pessoas começar a lhe odiar, e para o assassino querer fazer alguma coisa para que parasse de tentar descobrir sua identidade. O simples pensamento fez seu corpo vibrar.

— Mais ou menos — respondeu, tentando passar indiferença. — Na teoria é fácil de estudar. Agora, ficar cara a cara com um… Sendo alvo de um… Isso tira toda a concentração.

— Entendo.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos. Molly não gostava daquele silêncio. Queria conversar para tirar a ansiedade de seu corpo, se distrair um pouco, mas Ferrer não parecia no clima de conversa e, na verdade, não tinha assunto nenhum em mente.

Então, Ellen deu um grande bocado em sua torrada, comendo-a por inteiro, e levantou-se da cadeira, fazendo-a bater na parede.

— Eu vou tomar um banho. Tirar o estresse — avisou ela, dando as costas.

— Ok — concordou Molly, um pouco decepcionada.

A morena observou Ellen enquanto ela cruzava o caminho até o banheiro, até desaparecer atrás da porta ao fechá-la com um baque. Não se segurou em dar uma olhada para trás, encarando o exterior pela janela em cima da pia. Estava sozinha, a casa silenciosa. Até que um barulho alto surgiu, e Molly virou a cabeça de forma assustada na direção do som, encarando, então, a porta da frente da casa se abrindo e dando passagem para Emily, que entrou apressada.

Na metade do caminho, o som do chuveiro ligado se fez, evidenciando que Ellen tinha entrado no banho. Emily continuou seguindo até Molly após fechar a porta. Tinha um pouco de suor na testa e uma aparência afobada, quase desesperada. Molly não notou nada disso, no entanto, e não se preocupou devido ao estado da sobrevivente, perguntando:

— Fez tudo o que precisava? — Referia-se a sua ida até a casa.

— Consegui até mais — respondeu Hayes, olhando ao redor.

— O que quer dizer? — tornou a outra.

Emily se pôs diante de Molly, perto o suficiente para que ela pudesse escutar seus sussurros.

— Eu tava em casa e… Eu recebi uma ligação, Molly — contou, a expressão séria. Molly ficou apreensiva, com a cara assustada. — Não, não era o assassino — disse Emily, reparando na reação da amiga. — Eu não sei quem era. Mas a pessoa falou umas coordenadas pra mim. Parecia que tava em apuros, e eu escutei uns gritos antes da ligação cair.

Sem entender, Merriman balançou a cabeça.

— Quem acha que era? — perguntou, séria.

— Eu não sei… Era um homem. Mas as coordenadas que ele falou pra mim, eu vi no mapa, e levam pra casa da Ellen.

Molly apenas a encarou, sem reação, esperando uma explicação mais clara.

— A casa da Ellen? — perguntou. — A que ela morava antes de…?

— Sim, essa mesma. — Abaixou ainda mais a voz para a psicóloga não ouvir. Já tinha notado que ela estava no banheiro. — Eu não sei o que quer dizer, mas algo coisa me diz que deve ter alguma coisa lá. Uma coisa importante.

— Acha que essa pessoa que te ligou tá lá?

— É, acho que sim. Talvez ela quisesse me avisar de alguma coisa.

Elas ficaram em silêncio, pensando no que fazer, olhando uma para a outra. Hayes ainda estava extasiada pelo ocorrido, a curiosidade percorrendo todo seu corpo. Milhões de perguntas rodeavam sua cabeça. Quem havia lhe ligado e por que, em meio a tantos lugares, tentava lhe levar para a antiga casa de Ellen? O que havia lá? Ellen sabia disso? Sabia que havia alguma coisa em sua antiga casa? Não se lembrava dela voltando lá a bastante tempo. Sabia que ela passava lá algumas vezes por semana, mas nada além disso.

— O que vamos fazer? — perguntou Molly, deixando as torradas de lado.

— A gente tem que ir lá — respondeu, como se estivesse óbvio.

Depois da morte de Jordana, a vontade de Emily em descobrir tudo o que estava acontecendo apenas crescia. Ela queria a verdade, e a forçaria até si.

— Quem sabe a gente aproveita pra ir naquele covil do assassino que você descobriu — concluiu, um pouco indecisa ao chegar nesse ponto.

Molly concordou com a cabeça. Era o covil que havia rastreado no hospital, quando estava internada. O mesmo que tinha visto a localização do celular usado pelo assassino diversas vezes. Era a localização que achava ser onde o desgraçado se escondia, e que Emily havia concordado em investigar quando conversaram sobre aquilo.

— Tudo bem. Mas precisamos de um carro — concordou Merriman.

— Se queremos que a Ellen não saiba o que vamos fazer, é melhor deixá-la mais próxima do que antes — disse Emily.

Em seguida, a sobrevivente caminhou até o banheiro, onde gritou para o outro lado da porta:

— Ei, Ellen. É a Emily! Será que eu posso pegar o seu carro emprestado?!

Houve alguns segundos de silêncio antes da voz de Ellen vir do outro lado, dizendo:

— Oi, Emily! Claro que sim! A chave tá em cima da mesa!

— Tudo bem! Obrigada!

Dando um sorriso de canto, Emily voltou para a cozinha, onde encontrou Molly parada ao lado da mesa, com a bolsa aberta de Ellen apoiada em uma das cadeiras. Ela acabava de tirar sua única mão de dentro do objeto, e quando viu Hayes entrando, balançou um molho de chaves no dedo indicador, parecendo um pouco indecisa em ter feito aquilo.

— É a chave da casa dela. Tava dentro da bolsa — disse, suspirando fundo. — Talvez a gente precise pra entrar mais facilmente.

— Ótimo, Molly — concordou Emily, avançando e agarrando a chave do carro do outro lado da mesa. — Vamos nessa.

 

1

 

O Fiat branco de Ellen deslizava suavemente pelas ruas de Oakfield. Ao longe, o sol começava a se pôr atrás dos pinheiros que rodeavam a cidadezinha, dando ao céu uma cor alaranjava vibrante. O espelho estava abaixado para impedir a for luz solar de cegar Emily, no volante. Ela tinha as mãos tremendo, tentando manter a estabilidade e não perder o controle da direção. Por algum motivo, achava que algo muito grande estava para acontecer. Era apenas uma intuição, uma sensação estranha na boca do estômago que fazia cócegas e lhe trazia o desconforto.

Ao lado de Hayes, Molly tinha seu laptop aberto no colo. Era difícil para a maneta conseguir deixar o aparelho firme sobre as pernas, e ainda segurar o celular entre elas. Visitava o site que tinha usado para fazer o rastreamento do celular do assassino, dias antes. Havia marcado a localização exata — incluindo o nome da rua e o número — no próprio site, e seria fácil acessar de novo e se orientar para saber onde ir usando o roteador de Wi-Fi do celular.

Teclando com uma única mão, ela tentava não enlouquecer.

— A Ellen falou alguma coisa? — quis saber Emily.

— Que tipo de coisa? — perguntou Molly, não tirando os olhos da tela.

— Sei lá. Alguma coisa estranha. Vocês ficaram bastante tempo juntas desde que nos mudamos pra sua casa. Ela deixou alguma coisa escapar? Pareceu estranha em algum momento?

Molly pensou por alguns segundos, o lábio comprimido. Então, disse:

— Não, pelo que me lembro. Ela sempre foi bem indecifrável pra mim, além de legal.

— Certo… — Suspirou.

Ficaram em silêncio, temerosas. O carro andava tranquilamente pela rua. As casas, árvores e estabelecimentos passavam voando nas laterais do automóvel. Perto do anoitecer, as coisas ficavam ainda piores, como se uma áurea sombria se instalasse sobre a cidade, um presságio de algo ruim que estaria para acontecer.

— Quanto tempo acha que falta pra tudo isso acabar? — perguntou Molly, para quebrar o silêncio e acabar com o nervosismo.

— Eu sinceramente não sei — respondeu Emily, a vista focada na direção, balançando a cabeça. — Ainda temos nove alvos vivos… Não sei se é o número exato pra se começar a rodada final.

— A Ellen me falou algumas coisas sobre essa rodada final — comentou Molly, interessada. — Como foi no passado?

Emily engoliu em seco. Ainda era difícil relembrar aquilo. As lembranças ainda eram como facas em seu emocional, e toda vez que se recordava das situações que passou, ou das pessoas que tiveram suas vidas levadas, Hayes sentia uma náusea gigante lhe abalar, assim como o mal estar. Mas mesmo assim, querendo dar um sustento e avisar o quão alarmante poderia ser o que estaria por vir, Emily deixou essas sensações de lado e respondeu:

— A Julia raptou um dos meus amigos, e forjou o próprio sequestro. Todos fomos atrás deles e acabamos nos fodendo. Dois de nós morreram naquela noite. A Hannah e o Trevor.

— E quatro saíram vivos?

— Exatamente. Eu, o Sean, o Robin e a Jordana.

Por um segundo, Molly lembrou-se de Sean. Ela o conhecia desde a faculdade. Faculdade esta que nunca terminou e abandonou na metade, logo antes de acabar trabalhando como caixista de um mercado. Mas Sean ainda era um bom amigo, mesmo depois de tanto tempo sem se falarem.

Molly deixou as próprias lembranças de lado e olhou para Emily, percebendo como ela ficou mais tensa do que antes, com lágrimas nos olhos. Era o “efeito Jordana”, como já tinha visto acontecer antes. Toda vez que tocavam no nome da albina, ela ficava daquele jeito. Molly apenas recolheu-se no banco e abaixou a cabeça.

— Sinto muito, não queria te fazer relembrar essas coisas — disse, para se desculpar.

— Não, está tudo bem. — Emily sorriu para provar isso.

Na tela do computador, o mapa de Oakfield se acendeu, como era habitual do site. Molly finalmente se pôs a trabalhar. Inclinou-se na direção do laptop, franzindo o cenho. Com os dedos, usou o mousepad para clicar na opção na lateral superior, onde encontrava-se as localizações salvas, e selecionou a da rua do rastreamento do Carrasco. Imediatamente, um ponto vermelho surgiu numa parte do mapa. Um pouco abaixo, estava um segundo ponto, desta vez azul, demarcando sua localização atual. O pontinho azul percorria o mapa, em movimento. O que Molly estranhou, no entanto, foi a forma como o ponto azul ia exatamente na direção do ponto vermelho.

— Estamos indo pro covil primeiro? — perguntou Merriman, olhando para a rua.

— Não. Acho melhor irmos na casa da Ellen primeiro — respondeu Emily, indiferente. — Se tiver alguém lá, é melhor que façamos algo logo.

— Mas… — Molly franziu ainda mais o cenho, mudando a direção dos olhos da tela do computador para a rua. — O carro tá indo na direção do covil.

— Quê? — Emily desviou a atenção da direção, diminuindo a velocidade do carro enquanto olhava para o lado, ao mesmo tempo em que Molly virava a tela para si. Realmente, o carro seguia na direção demarcada mais acima, para a localização do covil. — Lombard Street… — disse para si mesma, estranhando.

— Será que tá bugado ou… — começou Molly, voltando o computador em sua direção ao que Emily tornou a olhar para frente, pensando.

Logo, Hayes cortou a garota, dizendo:

— Não. — Engoliu em seco. — O covil que você rastreou é a casa da Ellen. É o mesmo lugar.

Molly encarou a tela do laptop, a boca levemente aberta. Emily continuava no mesmo estado chocado, quase desacreditada após fazer aquela realização, até mesmo um pouco decepcionada por, cada vez mais, perceber que estava certa em relação à Ellen.

— O que… O que isso quer dizer? — perguntou Molly.

— Pode significar um monte de coisa — respondeu a sobrevivente.

— Ai, meu Deus… Acha que ela tá envolvida?

— Sim, acho. Acho a algum tempo, na verdade. Acho que ela aceitou aquele trato do assassino, lembra?

Molly ficou estática por um instante, então encarou a amiga com uma expressão desesperada.

— Meu Deus, eu deixei ela dormir na minha casa! — gritou. — Emily, por que você não me contou isso antes?! Se você dissesse que tava desconfiando dela, eu teria motivo pra desconfiar também! Ai, Deus…

— Calma, Molly. A gente não pode descartar ela assim. A Ellen é um ponto crucial no meu plano. A gente pode descobrir quem é o assassino com a ajuda dela.

A garota finalmente pareceu se recompor e olhou para Hayes.

— Como?

— Eu descobri um caderninho no quarto dela — revelou, um pouco receosa. — Tava escondido. Ela tava fazendo dezenas de teorias sobre todo mundo, tentando descobrir quem tá fazendo tudo isso. Tentando descobrir quem é o assassino. E, meu Deus, aquelas teorias são muito boas e tem muita informação importante lá. Informação sobre todo mundo, sobre o passado de todos, tinha segredos… Tudo.

Respirou fundo após aquela arrancada única de palavras. Molly perguntou:

— Você tá com ele?

— Sim, tá na minha bolsa. E… Ela pensou em tudo, Molly. Teorizou sobre todos.

Os nós dos dedos de Emily estavam brancos, de tão forte que agarrava o volante.

— Alguém em especial chamou sua atenção? — questionou Merriman. — Do jeito que você tá falando, parece que conseguiu uma informação muito importante.

Emily ficou em silêncio, pensando se deveria contar. Realmente tinha descoberto uma coisa muito importante naquele caderninho. Tão importante que não contou para Kai, Garrett e Owen na visita ao hospital. Fez isso para simplesmente não botar ninguém mais em risco. Quanto menos pessoas soubessem, menos perigo corriam.

— Emily, fala — impulsionou Molly, encarando-a com o cenho franzido, o peito levemente apertado pelo nervosismo do que viria.

Engoliu em seco.

— Você não pode contar pra ninguém, Molly — disse ela, então, cedendo aos pedidos. — Eu não vou te dizer com todas as palavras o que descobri, para não te colocar em risco. Para não colocar você em mais risco.

— Tudo bem. Desembucha logo.

Respirou fundo, e soltou:

— Acho que a Ellen pode ter descoberto quem é o assassino.

Houve um minuto de silêncio após a frase. Molly ficou estática, encarando-a. O carro continuava seguindo o caminho até o destino. Emily não olhou para a outra, nervosa demais. Aquele fato sempre trazia aquelas sensações, aquela tremedeira.

— Bom, eu acho. É uma teoria — completou Hayes. — Mas nem mesmo ela sabe disso ainda.

— Como, então?

— Uma das teorias dela, sobre um dos alvos, contava muita coisa. Tipo, muita coisa mesmo. É uma das mais extensas, eu acho. Eu arranquei do caderninho quando mostrei pro Garrett, pro Owen e pro Kai no hospital, pra eles não verem. E contava muita coisa, mas só faltava uma. Faltava uma única coisa pra comprovar tudo aquilo que ela escreveu, tudo aquilo que ela estudou e conseguiu. — Deu uma pausa. — A Ellen provavelmente não conseguiu encontrar essa informação ainda, e por isso, pra ela, essa é só mais uma teoria entre muitas. Mas eu sei dessa informação que falta, eu conheço ela e por isso constatei isso.

— De quem você tá falando, Emily? — Molly disparou, morrendo de ansiedade e curiosidade.

— Eu não posso te contar. De qualquer jeito, não vai fazer diferença alguma se você souber ou não, então eu prefiro que você não saiba pra diminuir os riscos, tudo bem? — Olhou para a garota, que estava um pouco séria. — Não fica brava comigo. É que… Eu tô tentando pensar em alguma coisa que a gente possa fazer e, de um jeito ou de outro, não podemos colocar plano algum em ação até o momento certo.

— Céus, Emily, me conta, por favor. — Molly estava histérica, um misto de desespero e extrema curiosidade. — Você não pode soltar uma bomba dessa e me deixar aqui na curiosidade.

— Depois que eu souber o que fazer, eu te conto. Prometo. Mas por enquanto, é melhor que fiquemos assim. É melhor pra todo mundo.

— Mas eu posso ajudar…

— Sei que pode. Mas não agora. Se eu contar pra você, não vai estar ajudando ninguém.

Molly suspirou fundo, decepcionada, deixando de encarar Emily.

— E, também, é só uma das identidades — continuou Hayes. — Sabemos que tem mais de uma, então… — Balançou a cabeça, mordendo os lábios.

Emily tremia, ainda desacreditada pelo que havia descoberto. Havia chegado àquela conclusão naquele mesmo dia, antes de sair de casa e ir visitar Owen. Foi quando se lembrou de informações do passado e uniu-as à teoria criada por Ellen, chegando a uma grande e absoluta verdade que estava estampada em sua face o tempo todo. Uma verdade impossível de acreditar, mas que fazia muito sentido. Vingança por Julia Moss, o assassino havia dito. Bem, não somente por ela.

Chacoalhou a cabeça e se livrou do pensamento.

— Chegamos — disse Molly, livrando-a daquelas memórias.

A garota voltou à realidade, percebendo que realmente haviam chegado. A placa com o nome da rua passou ao lado do carro quando a sobrevivente virou numa curva. A rua em que chegou era comum, com árvores tão grandes nas calçadas que chegavam quase a cobrir o céu. Para a sorte das garotas, não havia anoitecido o bastante para que a visão ficasse comprometida. Um pouco do sol ainda aparecia, iluminando o ambiente, e os postes de luz ainda não haviam sido acesos. As residências eram parecidas umas com as outras, com dois andares de madeira branca e cercas baixas circundando as casas, todas bem cuidadas.

— Qual o número? – perguntou Emily

Molly engoliu em seco. Ainda estava abalada pela revelação de Hayes, mas decidiu deixá-la em paz e não pensar mais naquele assunto, até que Emily estivesse pronta para incluí-la em seus planos.

— 642 – respondeu, a voz fraca e com um tom decepcionado.

Emily dirigiu até a casa de número 642, encontrando-se mais ou menos na metade da rua. Estacionou com suavidade no meio-fio. Ambas olharam para o lado, encarando a residência. Nunca tinham estado lá. Era uma casa grande e completamente branca, de dois andares. Sabia que se ficasse hesitando, nunca tomaria coragem para explorar o interior, então por isso abriu a porta e desceu, batendo-a atrás de si após pegar a bolsa. Ficou parada ao lado do carro, encarando o lugar. Molly logo se juntou a si, ficando lado a lado.

O clima havia ficado um pouco estranho após a conversa no carro, mas as duas estavam dispostas a deixar isso para trás e seguir em frente.

— Trouxe alguma coisa pra gente se proteger? – perguntou Molly, com a chave da casa balançando na mão, ao lado do corpo.

Agilmente, Emily abriu a bolsa e exibiu o interior para Merriman. Lá dentro, estava sua pistola, recuperada da delegacia algumas horas antes. Mostrou a arma para a amiga com um olhar que já respondia tudo. Molly concordou com a cabeça, nervosa.

Então, começaram a andar. Na frente, Emily tinha a mão enfiada dentro da bolsa, agarrando o cabo da pistola caso precisasse sacá-la com rapidez. Havia uma trilha de pedras brancas que levava até a porta da frente, após a varanda. O restante do quintal da frente não tinha muita coisa, apenas uma camada de grama e uma entrada para carros à esquerda, que levava a uma garagem pouco mais ao fundo. Do outro lado, a cerca formava um caminho para o quintal posterior.

Durante a caminhada, Molly constantemente virava o rosto para olhar para a vizinhança, apenas para ter certeza de que ninguém as observava e não correr o risco de Ellen ser contatada por algum amigo vizinho. Emily apenas seguia em frente, impassível.

Quando subiram os três degraus da varanda e atingiram a porta da frente, Molly se adiantou a destrancar a porta e, com um estalo, abriu-a. Deu um passo para trás e deixou que Emily fosse na frente. O coração da morena estava a mil. Não sabia para onde estava indo ou em que desgraça estava se metendo. Poderia se arrepender tremendamente de ter ido ali mais tarde, mas no momento, a única coisa que tinha no corpo era curiosidade. Queria saber quem tinha lhe ligado, e por que tinha lhe levado especificamente até a casa de Ellen.

Além de que queria descobrir como a casa da psicóloga era o mesmo lugar frequentado pelo Carrasco. A polícia provavelmente já teria rastreado o celular do assassino, assim como Molly, e era capaz de que já tivessem encontrado sua localização. A pergunta era se tinham chegado a ir até a casa de Ellen, ou se mais uma vez o psicopata tinha dado um jeito de enganá-los e levá-los para outro lugar. A segunda opção era mais viável, desde que a casa não estava interditada pela polícia.

Emily ficou na soleira da porta, dando uma olhada pelo interior. A casa era bonita, com móveis brancos e cômodos – até onde podia ver – grandes o bastante para suportar uma única pessoa. Mesmo que parecesse chique e requintada, a residência tinha um ar de modéstia estranho. O hall de entrada era seguido por um corredor grande que levava às escadas ao fundo e a dois cômodos até então escondidos. Logo ao lado, à direita, uma passagem grande levava a sala de estar.

A sobrevivente se certificou de que nada pularia em cima das duas e entrou, com Molly ao seu encalço. Quando finalmente passaram e fecharam a porta atrás de si, Emily sacou a arma com gosto, ficando com ela estendida ao lado do corpo, o indicador próximo do gatilho. Mais vulnerável pelo único braço e sem nada em mãos, Molly ficou atrás, enquanto Emily liderava o caminho.

— Por onde a gente começa? – perguntou Molly.

— Vamos cômodo por cômodo. Checar se tem alguém ou alguma coisa aqui.

— Tudo bem.

A primeira escolha foi a sala de estar ao lado. Entraram rapidamente. As cortinas estavam fechadas, e decidiram não acender a luz para não alertar os vizinhos. Por sorte, ainda tinha uma luminosidade natural capaz de não deixá-las cegas.

Molly observou com majestosidade o cômodo. Havia uma lareira adiante, abaixo de uma grande TV, rodeada por três sofás de couro branco. As janelas ficavam na parede à direita, enquanto duas estantes grandes tomavam a parede oposta. Em cada lado da passagem que levava até ali, mesinhas comportavam enfeites e quadros. A moça continuou adentrando atrás de Emily, que, ao fundo, dava a volta nos sofás e começava a explorar o lugar.

— O que a gente tá procurando, exatamente? – perguntou Molly.

— Uma pessoa, marca de luta ou agressão… Qualquer coisa suspeita que alerte que aconteceu alguma coisa aqui – respondeu Emily, dando a volta nos sofás e inspecionando o tapete.

Merriman concordou com a cabeça, indo na direção das estantes. No caminho, viu um dos quadros na mesinha ao lado da passagem, onde Ellen aparecia entre duas crianças loirinhas sorridentes, carregando um grande sorriso também. Franzindo o cenho, perguntou:

— A Ellen tem filhos?

Emily levantou os olhos e viu o quadro também.

— Não. São os sobrinhos dela – respondeu. – Ela me mostrou uma foto deles pelo celular, uma vez, em casa.

— Ah… – concordou Molly, deixando a imagem de lado.

— Vamos, não tem nada aqui – avisou Emily, levantando-se e seguindo de volta ao corredor.

Os minutos que se passaram durante a exploração das garotas foram recheados de tensão. A cada segundo, elas esperavam ouvir a aproximação de alguém, o som de passos no andar de cima ou um carro de polícia parando na frente após um dos vizinhos ter notado que a casa de Ellen tinha sido invadida. Mas para a sorte delas, nada disso aconteceu.

Passaram pela cozinha, pelo banheiro e finalmente atingiram o quintal dos fundos, que era o último lugar a se checar do primeiro andar. O sol começava a desaparecer no horizonte, mas isso não dificultou Emily e Molly de caminharem pelo lugar, investigando as frestas embaixo da casa e procurando por diferenciações no solo que evidenciassem, talvez, que alguém tinha sido enterrado ali. Quando não encontraram nada, partiram para o galpão mais ao fundo.

Emily abriu as portas e apontou a arma, mas estava vazio. Teias de aranha tomavam as paredes, estas que tinham diversas ferramentas penduradas. Molly aproveitou a viagem para agarrar um pesado martelo, segurando-o com certo alívio.

— Só por precaução – avisou ela, e Emily concordou com a cabeça.

Ambas armadas, voltaram para dentro da casa e subiram as escadas. Tentavam fazer o menos de barulho possível desde que chegaram, mas estava claro que se houvesse alguém ali, já teria ouvido a presença das duas. De qualquer jeito, continuavam tentando passar despercebidas, e quando atingiram o segundo andar, ficaram paradas no topo da escadaria, observando o corredor que se seguia, dando passagem para cinco outros cômodos de ambos os lados.

Ali, exploraram tudo. As gavetas, os armários, sob as camas e os colchões, as tábuas do chão, fissuras nas paredes… Tudo. Mas, mesmo assim, não encontraram nada. Assim que terminaram, voltaram para o meio do corredor, ficando uma de frente para a outra.

— Não tem nada nesse lugar – disse Molly, frustrada. Até suava um pouco.

Emily, ainda com a arma na mão, tinha o cenho franzido. Estava desconfiada. Tinha de ter alguma coisa ali. O remetente da ligação a levou para lá, assim como o assassino pelo rastreamento.

— Acha que fomos enganadas? – continuou Molly.

— Eu não sei… – resmungou, olhando ao redor para tentar encontrar algum ponto que talvez tivessem deixado escapar.

— Exploramos a casa inteira, Em. Pode ter sido um truque.

— Um truque para o que? – perguntou Hayes, não acreditando na teoria da amiga.

Molly pensou por um instante, até que sua face relaxou e uma expressão de pânico se formou, dando espaço para o leve desespero.

— Pra deixar a Ellen sozinha – soltou.

Finalmente, Emily percebeu que até poderia ser. Por isso, franziu o cenho.

— O Carrasco sabe que ela tá ficando com a gente. A única forma de deixar ela sozinha seria nos fazendo sair de perto, e criando um motivo muito bom e convincente para isso – Molly disse.

— Ai, meu Deus… – suspirou Emily. – Liga pra ela, Molly.

A garota concordou com a cabeça e entregou o martelo para Emily, para que pudesse tirar o celular do bolso. Imediatamente, ligou para Ellen. As duas, temerosas, esperaram pela resposta, colocando no viva voz. O silêncio assolou o ambiente como uma praga, a tensão crescente no peito enquanto o aparelho discava.

A chamada foi atendida no segundo toque.

Oi, Molly – disse a voz de Ellen, para o alívio das garotas.

Elas suspiraram fundo.

— Ellen? Oi. Você tá bem? – perguntou Merriman.

Ahm? Claro que tô… – respondeu Ferrer, confusa pelo questionamento. – Aconteceu alguma coisa?

Molly olhou para Emily, que fez um gesto com a cabeça e gesticulou com a boca, mandando-a encerrar o assunto. Já tinham prova de que a psicóloga estava bem.

— Ah, nada não – disse Molly. – Eu só… – Não sabia que desculpa dar. Emily gesticulou com a boca de novo e Merriman entendeu na hora. – Pensei que fosse precisar do carro, aí ia perguntar se queria que voltássemos.

Ah, sim – disse Ellen. – Não, não vou precisar. Na verdade, estou indo dormir. Você levou a chave? Pra eu poder trancar a porta.

— Levei, levei – respondeu Molly. – Não se preocupe.

Ótimo. Até, então.

A chamada foi encerrada e Molly abaixou o celular.

— Isso não faz sentido – disse Emily, então. – Se o assassino fosse fazer alguma coisa com ela, faria logo que saímos. Ele não perderia tempo e não arriscaria que voltássemos logo.

— Eu não sei o que quer dizer o fato de estarmos aqui, então. – Molly bufou, nervosa. – Tem que ter um motivo, né? Talvez não exploramos direito.

Não respondeu. Estava tão absorta naquele mistério que não conseguia pensar em mais nada. Tentava relacionar a voz do telefone com algum rosto, mas não conseguia. Ainda tinha aquele sapato estranho jogado na frente de sua casa, o que não fazia nenhum sentido.

E após alguns segundos de profunda reflexão, paradas naquele corredor que aos poucos ia ficando cada vez mais escuro, Emily finalmente ergueu os olhos para o teto. Não sabia o motivo de não ter dado importância para aquela área, desde que obviamente foi um erro. No instante que levantou a cabeça, seus olhos logo captaram a estranha mancha que surgia logo acima de seus corpos. Uma mancha escura e avermelhada, do tamanho da palma de uma mão. Era parecida com uma mancha de goteira ou infiltração, só que causada por um líquido vermelho. Por sorte, não pingava.

Emily de um cutucão em Molly, que logo olhou para a direção que a amiga encarava. As duas observaram aquela mancha no teto esverdeado.

— Parece sangue – constatou Molly.

A sobrevivente concordou com a cabeça, enquanto seguia com os olhos um pouco mais para o lado, onde encontrou uma marcação quadrada no teto. Um sótão.

— Esquecemos de ver um lugar – disse Emily.

Ela logo se pôs a fazer alguma coisa. Entregou o martelo de volta para Molly e andou na direção de uma mesinha que havia ali no corredor contendo alguns enfeites. Com facilidade, a empurrou para baixo da marcação, arrastando os quatro pezinhos de madeira no carpete e expelindo um ruído grave. Quando o móvel finalmente ficou num local adequado, Emily colocou sua pistola no chão e subiu na mesinha, ficando em pé sobre ela e tentando não cair. Ergueu os braços e logo sentiu com a ponta dos dedos a superfície lisa, pressionando-a na direção oposta. Por um segundo, aquela marcação quadrada afundou para dentro do teto, antes de soltar um estalo e voltar com tudo para baixo, onde se abriu completamente.

Molly deu um passo para trás para não ser acertada pela escada, e Emily se esquivou para a direita também. Em questão de segundos, a escada vertical de madeira surgiu, batendo no chão fortemente. Deveriam ter segurado-a para abaixá-la com mais suavidade. De qualquer jeito, tinham conseguido uma entrada para descobrir o que era aquela mancha estranha.

— Vamos – disse Emily, descendo da mesinha e recolocando-a em seu lugar.

Emily agarrou a arma do chão e ficou diante da escada, com Molly e seu martelo a um passo de distância. A garota posicionou a pistola de uma forma que não atrapalhasse sua subida, e colocou os pés na primeira tábua de madeira, começando a ir para cima. Quando estava na metade do caminho, Molly fez o mesmo.

Assim que sua cabeça passou para o lado de dentro, Hayes deu um giro de trezentos e sessenta graus com ela, fazendo uma vistoria e se certificando de que não havia nenhuma ameaça ali. Poderia estar errada pois estava escuro, mas acreditou que não havia nenhuma, e por isso passou o restante do corpo, ficando de pé sobre a madeira, que tremeu momentaneamente. Imersa pelo breu, Emily lutou para encontrar uma lâmpada, até que seu braço erguido bateu contra uma correntinha, da qual puxou para baixo, e logo a luz se fez, iluminando o cômodo. E foi só então que Molly surgiu da abertura. Voltaram a ficar lado a lado, observando o lugar.

Era num formato triangular causado pelo telhado inclinado, sem janelas ou outras formas de entrada. A escuridão que o assolava era causada parte por isso. Ao longo do chão de madeira velha, caixas de papelão carregadas de arquivos e objetos distintos se espalhavam, empoeiradas em sua maioria. Mais ao fundo, próxima de uma das paredes, havia uma mesa de madeira isolada. Emily não deu tanta importância a ela, e olhou para a outra direção, onde lembrava-se de ter visto a mancha. A origem dela deveria estar ali em algum lugar.

Antes de dar o primeiro passo, no entanto, Emily notou como Molly estava amedrontada. A mão dela quase tremia ao lado do corpo, agarrando o cabo do martelo enferrujado. A sobrevivente se sentiu um pouco desconfortável com aquilo. Era como se estivesse arrastando a garota para aquela situação, da qual ela não queria estar.

— Ei, não tem nada aqui, Mol – disse, ao que Molly virou o rosto para ela subitamente, quase como se tivesse levado um susto com a voz repentina em seu ouvido. – Fica tranquila.

Molly sorriu de lado, claramente um pouco mais tranquilizada.

Emily, então, seguiu em frente. Deu passos precisos e tensos na direção de onde a mancha deveria estar. Acreditava que ela se iniciava ali em algum lugar e havia vazado até o teto. Tentava pensar que a mancha não era de sangue, mas era difícil. Não gostava de mentir para si mesma.

Seguiu adiante, explorando com os olhos, até que encontrou. Escondida atrás de algumas caixas de papelão amassadas, Emily pôde ver a poça de sangue viscoso e grosso que se formava no solo, vazando entre as frestas da madeira o bastante para atingir o outro lado. Parou no lugar, observando aquilo com o coração na boca. Era muito sangue, e isso deixava claro que, quem quer que tivesse perdido todo aquele sangue, não tinha chance de continuar vivo.

Deu meia volta, não querendo ficar perto daquilo, e foi na direção da mesa ao fundo, enquanto Molly cruzava seu caminho, indo até a poça. A garota parou a alguns metros dela.

— É, é realmente sangue – disse ela, tentando controlar o nervosismo.

Durante sua caminhada até a mesa, cruzando completamente o sótão, Emily observava com espanto as caixas caídas ao longo do caminho, tralhas espalhadas, objetos quebrados e esmagados. Outras poças menores de sangue tomavam forma no chão e manchavam a lateral das caixas, como se as mesmas tivessem servido de apoio para alguém se levantar ou coisa assim. Uma mão estava carimbada com sangue em certo ponto, os cinco dedos arrastando-se pela madeira até sumirem.

— O que aconteceu aqui…? – perguntou Emily, retoricamente, enquanto observava a cena com enjoo e extrema curiosidade.

Quando finalmente atingiu a mesa, parou diante dela. Observou com atenção cada detalhe. Tinha uma grossa camada de poeira em cima, o que Hayes não deu muita bola. Deu a volta na mobília, e foi quando encontrou um pedaço de fio jogado no chão. Abaixou-se lentamente ao lado dele, esticando a mão para tocá-lo. Percebia que a ponta estava cortada, diversos fios menores coloridos sendo exibidos de forma desordenada. Seguindo a linha, via que acabava na parede. Voltou a ficar em pé, soltando o fio.

— Tinha um telefone aqui – constatou, ao que Molly se aproximou. – Alguém realmente me ligou daqui. Olha o fio cortado.

— Por que tiraram o telefone daí? – perguntou, próxima o bastante para notar o quadrado sem nenhuma poeira sobre a mesa, onde o telefone citado por Hayes possivelmente estava posto.

— Acho que a pessoa que me ligou estava sendo mantida aqui e conseguiu uma brecha pra tentar escapar – disse Emily. – Eu escutei um grito no final da ligação, então o assassino deve ter visto e feito alguma coisa com ela. Isso explica o sangue. Depois, foi embora e tirou qualquer vestígio de que estava aqui, incluindo o telefone.

— Mas por que não limpou o sangue?

— Talvez quisesse que descobríssemos que algo aconteceu aqui, mas não que descobríssemos o que é esse “algo”.

Ficaram paradas ali, em silêncio, pensando. Emily estava extremamente curiosa. Molly estava assustada, mas compartilhando da curiosidade da sobrevivente.

— Quem poderia ser…? – Molly perguntou para si mesma. – Acha que existe um alvo que a gente não conhece?

— Seria difícil, mas… – Suspirou. – Não sei, na verdade.

Molly fez uma expressão de mal estar.

— Vamos embora – disse Hayes, de repente. – Não tem mais nada aqui. Não vamos descobrir nada se continuarmos nesse lugar.

— Estava esperando você falar isso – concordou Molly, aliviada, nem se importando.

Emily passou ao lado da garota, que, por sua vez, seguiu-a. Durante sua caminhada até a parte aberta do chão, Emily ainda disse:

— A Ellen tem muita coisa pra nos explicar, além do mais.

Molly levantou a cabeça, interessada.

— O que vai fazer? – perguntou ela.

— Eu vou botar as cartas na mesa. E ela vai ter que responder tudo o que perguntarmos. Incluindo se ela tem alguma coisa a ver com tudo isso.

 

2

 

Ellen colocou-se diante do espelho na parede. Com a toalha na cabeça, acabava de colocar seu pijama, preparando-se para dormir. Os cabelos, por sorte, já teriam secado o bastante. A casa vazia e silenciosa parecia extremamente segura, o que gostava. Já tinha trancado a porta da frente, e agora estava no quarto de Molly, onde deixava sua mala com suas roupas. Conseguia sentir uma leve dor nas costas por dormir no sofá, mas não faria reclamações. Tanto Emily, quanto Molly já tinham passado por coisas demais para acabar dormindo num sofá desconfortável, e Ellen, na real, não tinha direito nenhum de fazer qualquer reclamação.

A janela com cortinas abertas logo ao lado exibia a rua escura e vazia, e Ferrer tentava ao máximo não olhar para lá. Uma simples espiada já arrepiava todos os pelos de sua nuca. Não se lembrava de se sentir bem. A simples sensação do bem-estar chegava a ser estranha para a psicóloga. Fazia tanto tempo que sentia-se horrorizada e temendo tudo, que mal se lembrava como era estar segura e sossegada.

De repente, seu celular vibrou sobre o criado-mudo ao lado da cama. Ellen virou-se e o encarou. O quarto era bem grande, até. A cama centralizada encostada na parede e o guarda-roupa em frente a porta, assim como o único criado-mudo, passavam uma impressão aconchegadora.

Foi na direção do aparelho, pegando-o nas mãos. Ela tremeu e engoliu em seco antes de ler.

Número Desconhecido: Ótimo trabalho, Ellen. Essa foi sua última tarefa. Você está livre agora.

Ellen não conseguiu impedir um alívio de perpassar por todo seu corpo. Após tanto tempo nas mãos do Carrasco, era realmente libertador estar livre. Após tantas coisas feitas – tantas coisas horríveis feitas –, estar livre era um alívio enorme. Mal pensou que aquele momento chegaria, mas o assassino pareceu, de fato, um cumpridor de sua palavra.

A loira deixou o celular de lado e voltou a ficar diante do espelho, tirando a toalha da cabeça e jogando-a na cama. Seus cabelos curtos, amarelos e úmidos caíram acima dos ombros, e Ferrer logo pegou uma escova de dentro da mala, começando a escová-los enquanto observava seu reflexo, reparando nas olheiras sob os olhos e na forma como tremia de leve.

Mesmo livre, tinha aquele peso na consciência. Estragou a vida de muita gente. Contribuiu para a morte de muita gente. E além do mais, ainda não tinha descoberto quem era o responsável, mesmo depois de tantos riscos tomados para isso. Achava que estava perto de descobrir a identidade dele, mas agora que estava livre, não se importava tanto assim.

Na verdade, deveria estar feliz por não ter sido pega. Não estava mais nos planos do Carrasco, e poderia voltar para sua casa e deixar de tirar informações da vida pessoal de Emily. Poderia voltar para a calmaria de morar sozinha e se ver livre do horror que era viver nas mãos de um assassino impiedoso, temendo ser traída a qualquer instante com uma faca acoplada na garganta.

Suspirou fundo, fechando os olhos para aproveitar aquele momento. Do lado de fora, a noite caía impiedosamente. O único som presente era sua respiração calma e leve. Além do doce som da liberdade, é claro. A mente de Ferrer estava recheada de emoções, até que um barulho chamou a atenção da psicóloga. Um som baixo e repentino que a tirou de seu devaneio, pausando a escovação do cabelo, com o braço erguido e os olhos voltados para o alto, prestando atenção caso o som se repetisse. Quando ele não veio, encarou a porta aberta do quarto.

Pensou por muito tempo antes de tomar alguma ação, perguntando para si mesma se valia a pena. Então, hesitante, foi até a porta. Colocou a cabeça para fora do quarto, espiando pelo corredor. Olhou de um lado para o outro, mas nada parecia errado. A casa era pequena e por isso seria fácil descobrir qualquer invasor. De qualquer forma, não deixou de ficar temerosa. Ellen era esperta o bastante para saber que a felicidade dura pouco, e não seria a idiota que acha que está tudo bem, pois claramente as coisas começavam a piorar.

Não é possível, ela pensou consigo mesma, aflita, ele me libertou. Manteve sua palavra. Continuou ali, parada, com a mão posicionada no batente da porta, até que engoliu em seco e pôs um pé para fora do quarto, parando no meio do corredor.

— Olá? – perguntou, a voz ecoando pela casa.

Outro barulho, igual ao anterior, veio como resposta. Ferrer conseguiu captar sua origem. Vinha da sala, com certeza.

Respirou fundo e caminhou até lá. Andou até atingi-la, tentando não alertar sua presença caso houvesse alguém ali e sendo traída pelo chão de madeira que estalava a cada segundo. A cada passo, a velocidade com que seu coração batia aumentava, até chegar o momento em que conseguia sentir a pulsação no pescoço. Ellen não se dava nada bem com situações como aquela. Para exercer sua profissão, tinha de ser forte e enfrentas situações que grande parte da população não conseguia, mas, mesmo assim, nunca se deu bem com o nervosismo e o temor, e naquele momento, estava sendo levada à loucura.

Mas nada disso se comparou ao momento em que finalmente chegou ao cômodo seguinte. Aquela sim foi a cena que fez seu coração parar. O Carrasco estava ali, sentado no sofá. Quase como uma estátua, a figura não se movia, apenas manuseava, na palma das mãos, uma grande faca de sobrevivência, apta a abrir a carne de sobreviventes desavisados. Ele brincava com a arma, rodopiando-a entre os dedos, ao mesmo tempo que encarava-a com indiferença. De fato, aquela era apenas uma casualidade na vida do assassino em série.

A reação de Ellen foi diferente. A moça recuou forte o bastante para ir de encontro a parede, com a boca aberta num susto reprimido. A escova de cabelos caiu em direção ao chão, pingando. Ela começou a tremer. Os olhos esbugalhados foram cobertos por uma camada de lágrimas. Inspecionou o ambiente, reparando na janela aberta ao lado da figura mascarada, por onde ela havia entrado. Não havia trancado as janelas, não sabia que era preciso. Voltou a olhar para o maníaco, apenas para perceber que ele havia parado de brincar com a faca e agora olhava fixamente para si.

— Quem é você? – perguntou Ellen, incapaz de falar outra coisa, a voz fraca. Não se segurou a dizer: – Me diz quem é você.

Nada, nenhuma palavra. O único som vindo dele era a respiração pesada embaixo da máscara grossa de couro, fechada ao redor de sua cabeça. A visão era horrorizante. E Ferrer apenas recuou mais ainda quando ele se levantou. Tentou ir para trás, mas a parede a impedia. Estava presa ali, as pernas estáticas. As palmas de suas mãos pressionavam-se contra o concreto frio.

— O que você quer? – perguntou Ellen.

Nada ainda, apenas o silêncio.

— Vai embora – pediu, quase suplicando. Já podia ter uma ideia do que aconteceria. – Por favor, vai embora.

Não houve tempo para próximas palavras, pois o assassino avançou e a agarrou pela garganta, prensando-a contra a parede. Ellen soltou um gritinho fraco e reprimido, mas não esboçou reação além de respirar fundo e se encher de medo. A mão dele apertava sua garganta, mas não com força o bastante para matar, e sim para deixá-la presa ali. De qualquer forma, era incomodante sentir aqueles dedos pressionando sua carne, sendo prensada contra a parede.

A máscara estava a centímetros de seu rosto. Ellen encarava bem no fundo dos olhos dele.

— Não vai me contar quem você é? – perguntou ela, esforçando-se para manter a postura de quem não estava com medo. Sua voz estava fraca e contida. – Você me deve isso. Eu trabalhei pra você. Traí meus amigos. Me conta quem você é! – gritou.

Tremia de medo, as mãos balançando ao lado do corpo, o corpo todo sofrendo pequenos espasmos enquanto a intimidação por meio do olhar se prosseguia.

— Eu fui leal a você… – continuou, cuspindo as palavras e aumentando a voz gradualmente. – Eu deixei que a Emily fosse atacada por você naquela noite em que o Garrett foi baleado, e ainda quebrei a merda do gerador! Eu até deixei você usar minha casa para o que você bem quisesse fazer com ela!

Como resposta, recebeu um apertão mais forte. Seu pescoço estava afundado, e parte do ar saiu de seus pulmões. Ellen gemeu de dor, afogando-se por um segundo. Em seguida, o Carrasco lançou-a para o lado sem pudor. A psicóloga não conseguiu sustentar o corpo e suas pernas fraquejaram, ao que abraçou o piso de madeira de uma vez só, caindo no chão.

Sem que se levantasse, ergueu os olhos e encarou o psicopata.

— Não vai me dizer por que tá fazendo tudo isso? – tornou, começando a se arrastar para trás com os pés, enquanto ele dava passos lentos em sua direção, com a faca estendida ao lado do corpo. – Eu só quero saber quem você é… Por favor, só isso…

Não adiantava nada, e o temor apenas crescia no peito de Ferrer. Arrastando-se pelo chão, ela tentava encontrar uma válvula de escape para a situação. Tinha que dar um jeito de sair dali e se salvar. Por isso, quando estava na metade do corredor, começou a se levantar.

— Se vai me matar, me conta quem você é. Que mal isso pode fazer?! – berrou, enchendo-se de ódio por um instante. A primeira lágrima escorreu pela bochecha. Estava frustrada.

Então, calou a boca. Conseguiu ficar em pé, no mesmo instante em que o Carrasco parou de vir em sua direção. Por um momento, ficaram parados, separados por alguns centímetros. Ellen sentia que algo aconteceria. Talvez ele fosse arrancar a máscara ali. Somente o pensamento disso fez seu coração acelerar, uma ansiedade crescendo em seu peito. Mas então, o simples nada se prosseguiu. Nada aconteceu. Ele nada fez. Ela nada fez. E foi quando Ferrer notou que estava sendo idiota. Estava desperdiçando uma ótima oportunidade de fugir. Eram aquelas decisões que a fariam ser morta, mais cedo ou mais tarde.

Não pensou, apenas virou-se e correu o mais rápido que conseguia. Uma expressão de extremo esforço tomou a cara de Ellen, ao que ela avançava pelo corredor o mais rápido que conseguia. O assassino fez o mesmo, pondo-se a persegui-la, tão rápido quanto a moça. A psicóloga tinha o quarto de Molly como foco. Era o ponto mais esperto para se seguir. Poderia sair pela janela, ou trancar a porta e obter tempo para ligar para a polícia.

Chegou ao cômodo, e a primeira coisa que fez foi tentar fechar a porta. Só tentar, pois não obteve êxito. O corpo ameaçador do Carrasco bateu contra a madeira no último segundo, transmitindo um baque tão forte que quase acertou a cara de Ellen. Ela, por sua vez, deu um grito assustado antes de ser lançada para longe.

Seus olhos estalaram ao que a figura oponente do maníaco surgiu diante de si, vindo em sua direção, ao mesmo tempo em que seus pés vacilavam para trás, perdendo gradualmente a estabilidade nas pernas. Ferrer somente não caiu porque o guarda-roupa tomou forma atrás de si, parando sua corrida recuada.

— Sai daqui! – gritou, ao que o assassino levantou o punho e mirou a faca em sua direção.

A lâmina brilhou no ar e, por um segundo, Ellen viu seu próprio reflexo impresso no ferro. Abriu a boca e deu um forte grito aterrorizado, enquanto a arma descia em sua direção com fúria. No último segundo, esquivou-se para a esquerda, e teve um fraco relance da arma passando reto ao seu lado, enterrando-se na madeira do guarda-roupa com um barulho alto que quase a ensurdeceu. Gritou mais uma vez do pânico de pensar ter sido acertada, até se dar conta de que estava inteira.

Bem, inteira, mas em uma encruzilhada. À esquerda, muito próxima de si, estava a parede, e à direita, o braço do assassino com a faca enterrada no armário. Diante de si, é claro, erguia-se a imponente forma do mascarado, tão próxima que Ellen sentia o cheiro enjoativo do uniforme suado. Ergueu o queixo e olhou para ele, desesperada. Não tinha como sair.

— Me deixa em paz, seu filho da puta! Você prometeu, desgraçado!

Ellen não hesitou em dar uma joelhada em sua direção. Acertou o joelho justamente na barriga do mascarado, e a reação foi imediata. Ele se envergou e largou a faca, que ficou presa na madeira na altura de sua cabeça, enquanto ofegava em busca do ar perdido e colocava as mãos no local acertado, tentando amenizar a dor. A psicóloga aproveitou essa oportunidade e correu para o lado como uma criança correndo até o playground do parque de diversões.

O assassino não foi nada bobo, e logo agiu ao ver a figura da moça fugindo de suas mãos. Ignorou a dor da joelhada e se entregou a finalizar o serviço, recuperando-se e ficando ereto, logo antes de arrancar a faca do guarda-roupa com um único puxão forte. Então, foi atrás de Ferrer, que tinha entrado ainda mais no quarto.

— Eu fiz tudo o que você pediu! – gritou ela, histérica, percebendo como tinha sido traída na cara dura, sem ser capaz de ter uma segunda chance.

Pensava em como tinha sido burra em acreditar na palavra do psicopata. Pensava em quão insensível foi em ter aceitado o trato, a tantos dias atrás, e em como passou a morar com Emily e Jordana apenas para ficar mais próximas das duas e ser capaz de passar todas as informações que o assassino pedia, como o que elas estavam fazendo, onde estavam e onde iam. Lembrava-se de como trocou a carne dos hambúrgueres de Sam e Tommy pela carne humana do braço de Molly naquele dia no restaurante, e do cheiro nauseante que exalava do alimento enquanto era frito em sua própria frigideira, em sua própria casa, logo antes de chegar ao restaurante e trocar os sanduíches do prato do garçom sem que ninguém visse.

Ellen lembrava-se de como havia trancado as portas do supermercado na noite em que Megan tinha sido atacada pelo assassino. Lembrava-se de quando roubou o celular de Megan e mandou aquelas malditas mensagens para Peter, atraindo-o para os braços do Carrasco, antes do rapaz ser morto. Lembrava-se de como ficou encolhida em seu quarto na casa de Emily e Jordana na noite em que ela e Emily foram atacadas, apenas escutando a luta no andar inferior, e lembrava-se ainda mais de como sempre soube daquele ataque, de como ficou trancada em seu quarto para não atrapalhar em nada, para não participar, logo depois de ter quebrado o gerador no porão para que as luzes não voltassem.

Lembrava-se de tudo o que fez a favor do assassino, e agora percebia que tinha sido uma idiota. Uma idiota que ele usou e descartou como lixo. Na real, era isso mesmo o que era: um lixo.

A psicóloga seguiu em frente e chegou até a janela, acertando as mãos no vidro a procura da trava e tentando abri-las inutilmente.

— Socorro! – gritou, quando viu que suas súplicas para o assassino não surtiam efeito.

Não conseguiu abrir a janela e, quando viu, o assassino já estava em cima de si. Ellen estalou os olhos, sem reação alguma além de se virar para ele na fútil tentativa de encontrar uma saída para a situação. Dessa vez, não conseguiu desviar do golpe. Diferente disso, a psicóloga deu um grito forte e desesperado enquanto o psicopata pegava seu corpo e o tirava dali, girando-a e lançando-a para a direção oposta, virando-a de costas para o quarto e para longe da janela, ao mesmo tempo em que usava a faca para fazer um corte liso e limpo em sua garganta desprotegida.

Ellen rodopiou no ar, calando seu grito. Sentiu a lâmina riscando sua pele, e a enxurrada quente que desceu-lhe pelo peito enquanto seu corpo subitamente amolecia. Não conseguiu se segurar e caiu de uma vez só no chão, batendo com o peito na madeira brutalmente. O corte no pescoço exibia toda a carne e os nervos do interior de seu corpo, encharcando todo o quarto com o sangue da psicóloga, que nada fazia além de tentar se arrastar para longe do assassino, ao que todo aquele líquido quente e escuro formava poças pelo chão, sendo lançado para os lados no debater louco de seus braços desesperados e sujando toda sua roupa, enquanto Ellen lutava pela vida uma última vez.

Com lágrimas nos olhos esbugalhados, a psicóloga tentava usar das pernas para se arrastar para longe, mas não foi rápida ou capaz o bastante para impedir o assassino de se aproximar a passos lentos, agachando-se ao lado de seu corpo e prendendo-o ao chão com um dos joelhos. Sem pudor, o mascarado levantou a faca e desceu-a nas costas de Ferrer, enterrando-a de uma vez só até a metade, antes de tirá-la com uma linha de sangue que flutuou no ar e repetir o golpe, acertando um ponto mais abaixo. Ellen agonizou nas mãos do Carrasco, sentindo a queimação e as pinicadas violentas que acometiam suas costas.

Sem parar, o maníaco açoitava o corpo da loira com as facadas violentas. Seu braço subia e descia numa velocidade incrível, cada vez acertando um lugar diferente, enterrando a lâmina afiada diversas vezes em movimentos certeiros. O som das estocadas da faca era molhado e brutal. Sbuft! Sbuft! Sbuft! Não havia aviso que pararia tão cedo, e o psicopata se divertia com aquilo, descendo a faca cada vez mais rápido e com mais ódio, sentindo-a se enterrando na carne da moça e sendo estimulado por essa sensação glorificante. E Ellen, abatida pela dor, via a vida sendo tirada de seu corpo, com a garganta aberta ainda liberando todo seu sangue, e o assassino em cima de si não hesitando em terminar o trabalho. Um gemido fraco saía da boca da psicóloga.

Os braços esticados de Ferrer tentavam levar o corpo para longe, mas ela estava presa naquele inferno. A dor era indescritível. Queimava, ardia, era penetrante e gutural. O sangue era lançado no ar a cada estocada da faca, caindo no chão e molhando a máscara do Carrasco. A garganta aberta da moça continuava a formar uma enorme poça ao redor de sua cabeça, tingindo seus cabelos loiros de vermelho. A situação de suas costas, no entanto, parecia pior. A camisa afundava junto da pele quando a perfuração acontecia, apenas para se retrair segundos depois.

O Carrasco não parava de acertá-la nas costas, abrindo fendas profundas com sua arma, até que vinte e oito facadas tivessem sido dadas, e Ellen tivesse sido transformada em nada mais que um cadáver, com seus olhos abertos refletindo todo o horror do qual foi alvo e, ao mesmo tempo, fazendo justiça para todas as atrocidades cometidas pela psicóloga.



Notas finais do capítulo

Ellen se foi hehe Gostaram da morte dela? O que acham disso? Pois é, ela sempre esteve trabalhando com o assassino! Traiu todo mundo na cara dura e ainda achou que teria alguma misericórdia no encontro com o Carrasco. Quais foram as suas impressões sobre as atrocidades que ela cometeu? Ela ajudou pra muitas desgraças acontecerem e levou à morte de alguns personagens, como foi o caso do Peter.
Agora, sobre o que a Emily disse no carro, o que pensam sobre isso? Temos Molly, Kai, Linda, Owen, Tommy, Garrett e Sam, então de quem vocês acham que ela tava falando? Quem ela descobriu ser o assassino? Se isso ficou um pouco difícil de entender, sim, a Emily descobriu quem é o assassino! Bem, ela ainda não teve nenhuma confirmação disso, mas tem quase 100% de certeza de que está certa. Então o que acham que ela vai fazer em relação a isso?
Sobre a casa da Ellen, de quem acham que é o sangue que as garotas encontraram? O que acham que aconteceu lá? Temos muitos segredos a serem desvendados, e no próximo capítulo, nossos queridos sobreviventes serão convocados ao embate final hehe Como acham que isso vai acontecer, hein?
Amo vocês, até mais!



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