Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 25
Terceiro Interlúdio – So Close, Yet So Far


Notas iniciais do capítulo

Mais um capítulo da jornada do Robin haha Nesse, ele vai dar um passo adiante para tentar descobrir a localização das sobreviventes e vai topar com alguns rostos conhecidos no caminho. Espero que gostem!



DIA DA MORTE DE JORDANA BRAMMALL

 

Robin segurou a maçaneta em formato de C e empurrou a porta de vidro. Um sininho posto do lado de dentro balançou quando foi aberta, sinalizando sua entrada. Assim que passou para o lado de dentro, o sobrevivente percebeu que a Galeria de Artes de Samantha Winters era maior do que aparentava ser após uma análise básica da parte de fora.

Depois de alguns dias observando a moça de perto, Robin tomou a decisão de que deveria falar com ela para conseguir algumas informações. Nenhum outro contato que ele tentou lhe trouxe alguma coisa importante, então a única opção foi ir atrás de Samantha Winter. E foi de se esperar que toda essa dedicação em conversar com a loira tivesse dado uma abaixada depois que, de repente, a grande vidraça na frente da galeria foi substituída por placas de madeira e papelão, que tampavam a visão do interior.

Primeiro, tinha pensado que o lugar estava passando por reformas, mas então a verdade chegou aos seus ouvidos: Sam tinha sido atacada e quase morta pelo assassino. Isso, mais do que todos os outros fatores, foi o que levou Robin a agir mais rápido, percebendo que, talvez, seu tempo estivesse acabando não só com Emily e Jordana, mas com sua única testemunha em potencial.

A galeria tinha uma áurea forte, quase sombria. Era como se água benta tivesse sido tocada pelas mãos do próprio diabo, infectada pelo mal. Ritter lembrava-se do estabelecimento sendo sempre bem recebido por pessoas nos dias em que passou o observando, felicidade emanando de dentro, sempre com uma aparência bonita. Contudo, agora, após o ataque do Carrasco, um peso indescritível açoitou o rapaz, uma sensação estranha percorrendo o corpo. Não era mais iluminado, muito menos feliz ou cheio. Os quadros foram tirados das paredes e colocados em caixas de papelão que se espalhavam pelo lugar. A lâmpada ao menos estava acesa, e a única luminosidade vinha da porta de entrada, o que não chegava a iluminar nem as mais aparentes formas.

Assim que passou para o lado de dentro, Robin foi atacado pela encarada assustada de Samantha Winters, atrás do balcão vazio. Ela parou o que estava fazendo e ficou o encarando. Com uma melhor analisada, ele percebeu que a artista estava enrolando um quadro em plástico bolha e colocando-o numa caixa com mais deles. Além disso, uma fina camada de poeira cobria o chão e o balcão, como se o estabelecimento não tivesse sido frequentado havia um tempo. O que era de se esperar, afinal, o moreno garantia que ninguém se recuperava de uma experiência como aquela de imediato, e evitar o lugar onde aconteceu era um sintoma comum.

— Desculpe, não estamos abertos – escutou Sam dizer em meio à sua análise. Voltou a atenção para ela, repentinamente vidrado na mulher. Perto assim, era possível notar todos os centímetros do rosto dela. Inclusive as olheiras, os cabelos bagunçados e as roupas amassadas. Com certa fascinação, Robin se deu conta de que estava diante de um alvo do Carrasco. Aquela mulher adulta e madura estava passando pela mesma coisa que ele passou, ou até pior. – Talvez nunca mais estaremos – escutou-a murmurar para si mesma, mas foi alto o bastante para ele ouvir.

Engoliu em seco, respondendo:

— Eu não vim pelos quadros.

Estava levemente nervoso. E não era pelo medo dela reconhecê-lo, estava na cidade tempo o bastante para que seu retorno já tivesse sido colocado em blogs de fãs da história de Oakfield. Tinha mais medo, na verdade, de que sua esposa lesse algum desses artigos e descobrisse que tinha mentido sobre a viagem a trabalho. Mas esse não era o caso ali, pois todo o nervosismo dele se dava pelo fato de realmente não saber lidar com a situação. Deveria consolá-la? Dar seus pêsames? Papear sobre o quão louco era que ela passava pela mesma que ele passou um dia?

Não, nada disso era uma boa ideia. E nada se aproximava do seu real motivo de estar ali. Tentaria conquistar a confiança da loira antes de fazer qualquer pergunta sobre as sobreviventes, tentando ser o mais gentil possível e não desencadear uma crise nela ao tocar em assuntos muito delicados. Se ela começasse a chorar e gritar e jogar coisas nele, Robin possivelmente ficaria sem reação.

— Estou aqui para conversar com você – disse. – Se possível – acrescentou.

— Comigo? – perguntou ela, surpresa, passando fita crepe no topo da caixa diante de si.

— Você não sabe quem eu sou? – questionou, um pouco surpreso. Pensou que, até aquele ponto, Sam já teria reconhecido-lhe.

— Eu deveria? – disse Winters, inspecionando-o de cima a baixo, tentando recordar-se se já tinha visto aquele rapaz em algum lugar.

Robin esperou para ver se ela diria alguma coisa, então contou:

— Sou Robin Ritter, o sobrevivente do massacre de sete anos atrás.

Sam parou, boquiaberta, se perguntando como não havia percebido antes. Todo o seu espanto com a revelação era de se esperar. Para alguém que vivenciava tudo aquilo, conhecer alguém que realmente conseguiu sobreviver era fascinante. Era como se fosse uma aspirante a atriz conhecendo um vencedor do Oscar.

— Não fiquei sabendo da sua chegada à cidade – comentou, tentando parecer indiferente e voltando a embalar os quadros, fingindo que não se importava para ver se o espantava dali. Realmente não queria conversar no momento, principalmente com ele. – O que veio fazer aqui? E por que quer conversar comigo?

Ele deu alguns passos para frente. Em seu bolso, o celular já gravava a conversa toda.

— Sou um velho amigo da Jordana e da Emily – Ritter disse. – Você as conhece?

— Sim, conheço – respondeu, secamente.

— Vim assim que soube que tinha um novo assassino na cidade, atrás delas.

Sam impressionou-se pela coragem dele, e disse:

— Me pergunto o motivo de ter feito isso sendo que, aparentemente, não tinha nada a ver com o que está acontecendo.

— Eu sei o que é passar por tudo isso. É extremamente difícil – disse. – Por isso eu preciso encontrar a Jordana e a Emily.

— Certo… – concordou, esperando por uma resposta mais ampla. – E por que você tá aqui mesmo? – Estava acabada e triste. Sempre que voltava para a galeria ficava daquele jeito. Não só lhe devolvia todas as memórias da noite em que quase morreu, como também lhe fazia lembrar de Lincoln, e de como foi a sua ideia estúpida que os fizeram mudar para lá.

— Esperava que você me dissesse onde posso encontrá-las.

Ficou em silêncio, esperando para ver qual seria o próximo movimento dela. Sam já tinha percebido que ele sabia que ela era um dos alvos, mas decidiu não perguntar como ele sabia. De certa forma, estranhou isso o bastante para não confiar nele cem por cento.

— E por que acha que eu vou dizer? – perguntou de volta, rindo de lado.

Um pouco chocado pela reposta, Robin recuou um passo, quase como se tivesse levado um soco. De boca aberta e expressão espantada, ele disse, um pouco irritado por pensar que aquilo poderia ser apenas mais um beco sem saída:

— Você é minha única esperança. É a única pessoa que, por algum motivo, poderia me dar essa informação. E parece ser boa o suficiente para isso.

— Com certeza, não – ela disse.

Robin respirou fundo, entrando em leve desespero.

— Por que não?! – questionou para ela, levantando a voz parcialmente. Sua face tornou-se vermelha e irritada. Não podia acreditar que esse pedido estava sendo-lhe negado novamente.

Pela primeira vez depois de algum tempo, a loira levantou os olhos e lhe encarou, respondendo de forma séria e decidida, sem temer nada:

— As duas, principalmente a Emily, me ajudaram muito, literalmente salvaram minha vida, e eu não vou dar o meu conhecimento sobre o paradeiro delas para alguém que, possivelmente, está atrás da morte delas.

Insultado, Robin franziu o cenho.

— Não posso acreditar que ache que tenho algum envolvimento com as mortes – disse.

— Também não posso acreditar que alguém que obviamente está são e salvo em sua casa possa querer sair dessa paz e segurança e ir para a jaula do leão pelo simples motivo de querer ajudar duas amigas que não vê a muitos anos.

O sobrevivente pensou no que dizer. Não podia negar que Sam tinha um ponto. Um ponto muito bom e que realmente valia da insegurança dela em lhe ajudar. Talvez tivesse sido uma ideia melhor omitir o motivo de ter ido para Oakfield. De qualquer forma, decidiu continuar a insistir, afinal, Winters era sua única esperança.

— Não, não é nada disso – disse. – É tão difícil para você acreditar que alguém possa ter compaixão o suficiente para fazer isso? As duas foram muito importantes para mim um dia. Ainda são, aliás. Nós passamos por todo aquele inferno juntos, então pode acreditar quando digo que eu arriscaria minha vida para, no mínimo, tentar ajudá-las. Não sei se é o mesmo caso para você, mas a sensibilidade ainda existe dentro de algumas pessoas.

Sam lhe lançou um olhar quase mortal, e Robin percebeu que não deveria ter insinuado que ela não tinha compaixão ou sensibilidade. Pôde ter tirado sua única chance de conseguir alguma coisa. Precisava que ela gostasse de si, não o contrário.

— Sinto muito, não deveria ter dito isso – tentou redimir-se. – Não foi o que quis dizer.

A artista balançou a cabeça negativamente, saindo de trás do balcão e aproximando-se dele com os olhos em chamas, a face fervendo. Ritter encolheu-se.

— Eu perdi o meu noivo – disse Winters. – Não venha me dizer que eu sou ruim o bastante para não ter essa linha de pensamento. Fui colocada numa situação onde não tenho outra escolha além de pensar desse jeito, de não confiar em ninguém para manter a minha própria segurança. Eu não ligo para quem você é, nem o que deseja. E você nem me conhece para tentar me rotular da forma que acha melhor para você. Agora, dê o fora da minha loja.

Robin engoliu em seco, pensando numa resposta, sentindo-se extremamente idiota.

— Eu sei o que houve com você, com o seu noivo, com a sua loja… É horrível, eu já passei por isso antes. Mas você tem que pensar que está tirando da Emily e da Jordana a chance de terminar com tudo isso. — Deu uma pausa, balançando a cabeça, com olhos de gato. – Eu sou essa chance, não entende? Juntos, somos mais fortes. E acredito que se me reencontrar com elas, tenhamos mais chance de descobrir a identidade do assassino e acabar com tudo isso, Sam.

— Já estamos na merda — respondeu a moça, não dando a mínima para o rapaz. – O que acha que um reencontro vai fazer? O máximo que vai conseguir é que o assassino se irrite mais. Se ele souber que você está aqui, saberá que deve apressar as coisas. Nossa vida está mais em risco do que a sua. Agora saia daqui, antes que eu chame a polícia.

Sem escolhas e tentando não causar mais problemas, Robin virou-se e saiu pela porta.

 

1

 

Robin já tinha voltado para a cafeteria em que passou grande parte de seus dias ali. Era como o seu escritório, onde fazia pesquisas, se informava, conversava com sua esposa e filha… Praticamente o lugar em que sempre estava quando saía de seu quarto de hotel. Tinha colocado a bolsa em forma de pasta no encosto da cadeira e estendido os braços pela mesa, com o celular em mãos. Ao redor, o movimento não era tão grande, o que era bom para fazê-lo pensar melhor.

Estava decepcionado, além de tudo. Por conta de um comentário que não saiu como o esperado, estava agora brigado com a única pessoa que poderia lhe ajudar. Mesmo que estivesse pensado antes que sair andando não era uma boa ideia, Ritter repensava seriamente sobre essa opção e estava próximo de colocá-la em ação.

No celular, após algumas tecladas, Robin terminava de mandar uma mensagem para sua esposa.

Robin: Oi, amor. Desculpa a demora pra te responder. Tava numa reunião com a galera do escritório daqui. Mas agora posso falar. Então, como você tá? Como vai a Violet?

Mais uma vez, a culpa lhe envolveu. Nunca foi um bom mentiroso, mas essa técnica foi se aprimorando ao longo dos anos quando, a cada curioso que encontrava, respondia uma versão diferente do que aconteceu em Oakfield a sete anos. Isso virou uma boa jogatina para quando estava entediado. Simplesmente entrava em fóruns online e grupos no Facebook e dava espécies de entrevistas para os jovens fascinados pelo massacre de Julia e Connor, sempre colocando um novo acontecimento na história e, às vezes, pondo-se como um dos heróis — mesmo que não passasse longe disso; Jordana estaria morta se não fosse por Robin.

De qualquer forma, ainda era difícil mentir para a pessoa com a qual deveria ser mais sincero no mundo. Quando voltasse para Houston, estava em dúvida se contaria toda a verdade. Esperava que Anne não fosse pedir o divórcio ou coisa assim caso contasse. De fato, poderiam ficar brigados por semanas ou meses, mas Ritter esperava que não fosse mais longe que isso. Ou então nem tocaria no assunto e daria mais uma mentira esfarrapada de que não conseguiu fechar um contrato com a empresa com que foi se encontrar. Teria tempo para pensar nisso.

E sim, Robin ainda não pensava em dizer a verdade. Pelo menos, não naquele momento. Tinha de deixar sua família segura, tanto para mantê-las longe, quanto para não receber nenhuma ameaça do tipo “volte agora, ou eu pego a nossa filha e saio dessa casa”.

Balançou a cabeça e se livrou desses pensamentos quando o celular vibrou em suas mãos, anunciando uma nova mensagem. Anne havia respondido.

Anne: Que isso, amor! Espero que consiga o contrato haha Eu e a Violet estamos bem, sim.

Em seguida, um vídeo chegou. Ele clicou e assistiu sua querida filha, com longos cabelos castanhos como os do pai e olhos claros como os da mãe, brincando alegremente em um tanque de areia num dos parques de Houston. Robin reconhecia o lugar, tinha ido até lá muitas e muitas vezes com as duas, passando a tarde inteira ao lado das melhores garotas da sua vida. Momentos como aqueles eram raros por conta do trabalho do sobrevivente, então, consequentemente, tornavam-se os mais especiais para ele.

Robin: Que linda! Não me aguentando de vontade de ver vocês. Morrendo de saudades aqui haha

Enquanto prosseguia com a conversa no celular, com um sorriso abobado no rosto e a alegria no olhar, Robin foi capaz de notar uma linha de diálogo ao lado. Quando tinha entrado na cafeteria, nem reparou nas pessoas que estavam ali, muito menos nas feições delas. Mas naquele momento, um grupo de três pessoas, mais especificamente uma mulher, soltou uma frase que fez a mente de Robin se aguçar tão intensamente que ele foi obrigado a desviar a atenção do celular e olhar para a esquerda, encarando com certo espanto as pessoas ali.

A moça disse:

— Não sei quais eram as intenções dele naquela noite. Não sei se o assassino queria eu ou a Emily mesmo. A mente desse desgraçado e indecifrável.

De fato, é, pensou Robin. Sempre foi.

Eram dois homens e uma mulher. Ela tinha cabelos loiros e curtos que batiam nos ombros, lábios nem grossos nem finos e olhos brilhantemente verdes. O rapaz mais velho, mesmo que não passasse dos trinta, tinha cabelos encaracolados e íris escuras, enquanto o mais novo nem parecia ter saído do ensino médio, com um topete alto e alguns músculos no braço.

Ellen, Garrett e Owen.

Obviamente Ritter não os reconheceu. Diante de si, na mesa ao lado, os três eram apenas simples cidadãos que, de alguma forma, segundo o raciocínio do moreno, tinham certa ligação com o massacre e o Carrasco.

Tinha de agir rápido se não quisesse perder a chance. Os guardanapos usados e as xícaras vazias em cima da mesa deixavam claro que já tinham terminado a refeição e a qualquer momento se levantariam e iriam embora. Então, Robin voltou-se ao celular para uma última mensagem.

Robin: Tenho que ir, amor. A gente se fala mais tarde. Até mais, te amo sz

Colocou o aparelho sobre a mesa e cruzou os dedos, pensando numa abordagem que não parecesse suspeita ou estranha. Tinha de falar com eles e tentar a sorte em encontrar as amigas. Suspirou fundo, levemente nervoso. Mas então disse para si mesmo que teria de ser agora e virou-se para o lado, inclinando um pouco o torso na direção deles.

— Desculpa o incômodo, mas eu ouvi você dizer alguma coisa sobre o assassino? — disse.

O grupo virou a cabeça em sua direção, com tanta sincronia que foi até engraçado. Ninguém disse nada de imediato. Owen foi quem ficou mais perdido, com os braços cruzados sobre a mesa e as sobrancelhas erguidas em direção à Robin. Ellen parou de brincar com os próprios dedos, como sempre fazia quando ficava nervosa com o assunto do Carrasco. Garrett manteve-se sério, a face lentamente trocando de feição com o decorrer do tempo.

— Sim… — respondeu a psicóloga, um pouco receosa, estranhando a situação.

Então, algo estranho aconteceu. Primeiramente, DeLucca olhou para a loira, mas ela não retribuiu o olhar. Logo voltou-se para Campbell, que o encarou da mesma forma surpresa de quem não acredita no que está acontecendo. Eles ficaram trocando olhares de fascínio por pouco menos de dez segundos, mas foi o bastante para Robin perceber o que estava acontecendo.

— Você não é aquele… Sobrevivente? Do massacre passado? — perguntou Owen, confirmando o pensamento de Ritter.

Pela encarada séria que o garoto recebeu de Garrett no momento seguinte, foi possível perceber que não tinha sido uma ideia conjunta fazer a pergunta. O moreno o encarava como quem diz “não seja tão direto, babaca”. Ele se encolheu, dando de ombros. Ellen olhou para eles, confusa. Então, voltou o olhar para Robin e, logo depois, para os amigos de novo, dessa vez com um olhar de choque assombroso. Ela não havia reconhecido-o de imediato, mas após a pergunta de Owen, ficou claro para ela que aquele era mesmo Robin Ritter. Havia estudado o caso todo do antigo massacre quando ficou sabendo dele, a alguns anos.

Um pouco envergonhado por ter sido reconhecido sem ter a chance de se apresentar devidamente, com a ideia de que eles talvez pensassem que ele não falaria quem realmente era, Robin sorriu timidamente e balançou a cabeça ao dizer:

— Sim, sou eu.

Alguns segundos de silêncio se passaram, os quatro se encarando sem tomar ação alguma, até que Garrett ficou curioso o bastante para deixar escapar:

— O que tá fazendo aqui?

Robin pensou por um instante. Constatou que deveria ser sincero, caso quisesse a sinceridade deles em troca.

— Eu cheguei a alguns dias. Estou atrás de Emily Hayes e Jordana Brammall — disse, olhando para eles. Os três se encararam de novo. Realmente, era uma situação estranha e difícil de se prosseguir. Nem Ellen, Garrett ou Owen sabiam devidamente o que deveriam fazer, o que deveriam dizer ou quais eram as intenções do sobrevivente com a conversa, desde que foi ele quem puxou assunto. E ficava claro que os amigos queriam ficar a sós para estabelecer uma linha de pensamento, sendo impedidos disso pela presença de Robin ao lado. — Eu quero ajudá-las, mas… Não consigo encontrá-las. Parece meio absurdo, em relação ao tamanho da cidade — continuou, rindo de lado para amenizar a situação e o desconforto dos três.

Owen já estava se aprumando na cadeira, abrindo a boca para soltar a preciosa informação, quando Ferrer levantou uma das mãos, séria e decidida, e o intercedeu.

— E podemos confiar em você? — ela perguntou, encarando Robin.

— Ele sobreviveu ao último massacre. Já não é motivo o suficiente? — disse Garrett, confuso pela reação da mulher.

— Isso não diz muita coisa, Garrett — respondeu Ellen. — Ele apareceu do nada. Isso já é motivo pra se suspeitar de algo.

— Eu entendo o que você quer dizer — Robin disse, tentando fazer a linha racional.

— Entende? — tornou ela, surpresa.

— Sim. Você tem mais do que razão em desconfiar de mim. Eu também desconfiaria, se estivesse no seu lugar — continuou, amansando a voz.

— Mas se ele fosse suspeito, tipo o assassino, já não saberia onde as duas estão? — questionou Owen de repente, olhando para os amigos, não percebendo que a pergunta perdia seu peso com Ritter logo ao lado.

— Poderia ser uma forma de abordar vocês, já que são alvos do assassino — disse o próprio Robin, sorrindo e rindo, esbanjando a ironia na frase. — Estou farto de saber que um bom assassino gosta de chamar atenção. Principalmente de fazer suas vítimas saberem quem ele é.

Garrett também riu, desacreditado do fato de que o sobrevivente estivesse fazendo tais tipos de comentários. Por algum motivo, isso fez DeLucca deixar de desconfiar dele.

— Não faz sentido — Ellen disse, rindo de lado. — Mas acho que você não seja perigoso.

— Obrigado — agradeceu ele, sorrindo para ela.

Voltaram a ficar em silêncio, Robin articulando sabiamente suas próximas palavras. Repentinamente, Owen disse em meio à pausa:

— Como sabe que nós somos alvos? Na verdade, eles são. Eu nunca recebi nada. — Engoliu em seco, lembrando-se de quando Linda teve sua sala de aula repleta de fotografia dos dois transando. Mas isso, de certa forma, não o ligava diretamente com o assassino. O alvo tinha sido Linda, não ele.

— Bem, eu escutei vocês falando do assassino. Sobre um ataque que aconteceu — respondeu, gentilmente. — E, também, pelo olhar de vocês. Todos os meus amigos tinham esse olhar no rosto, todos os que faziam parte do jogo do Carrasco. Era praticamente impossível confundir alguém que corria perigo de alguém que não corria.

— Sinto muito — soltou Garrett, subitamente triste por Ritter e, também, por lembrar-se de Peter, que havia sido levado pela faca do mascarado a tão pouco tempo. E ainda não havia tido tempo de se desculpar com Emily sobre aquela noite. Ellen já parecia ter aceitado suas desculpas, tanto que concordou em participar daquele encontro de café da manhã, mesmo que um clima um tanto tenso caísse entre os dois e, de hora em hora, a psicóloga lançasse algum tipo de indireta contra ele. Continuava sendo estranho para DeLucca, desde que Ferrer foi a que mais se irritou com ele naquela noite, e agora era a primeira a perdoá-lo.

— Ah, isso já foi a muito tempo… — disse o sobrevivente, rindo de lado, mas sentindo um certo peso no peito ao se lembrar daquela época e dos rostos de todos aqueles que se foram. — Então… Vocês poderiam me contar onde elas estão? Onde a Emily e a Jordana moram?

Novamente, os três se encararam. Dessa vez, durou um pouco mais, afinal, era uma decisão mais importante que estava sendo feita ali. Ansiosamente, Ritter encarou-os com os olhos brilhando. E então, com um suspiro, Ellen virou-se para ele e disse:

— Eu estou morando com elas, na verdade. Adoraria te levar lá, mas acredito que as duas estejam passando por um momento um pouco delicado hoje. Acabamos de perder mais uma. — Engoliu em seco, lembrando-se de Megan. — Além disso, eu tenho uma consulta daqui a pouco e não poderia ir com você.

— Mais uma? — questionou Robin, transtornado. A coisa estava ficando mais feia do que esperava. Sentiu a respiração pesar, mas não se deixou levar por isso.

— De qualquer forma, vocês devem ser velhos e bons amigos. — Encarou-o com intensidade, então soltou: — Rua Elm, número 420.

O mundo se abriu para Robin. Ele mal notou que um sorriso bobo surgia em seu rosto. Depois de tanto tempo indo atrás daquela informação, acabou que ela foi até ele, caindo exatamente em suas mãos quando menos esperava. E foi mais fácil do que esperava. Ali, o sobrevivente percebeu que estava com uma dívida eterna com os três.

— Acho que eu não perguntei o nome de vocês — disse ele, assustado ao perceber isso.

— Ellen Ferrer — disse a psicóloga.

— Owen — respondeu o mais jovem.

— Garrett. Muito prazer — completou o tatuador.

— Não me apresentei devidamente também — continuou Ritter, levantando-se agitadamente da cadeira e colocando a maleta no ombro. — Robin Ritter. — Estendeu a mão e, com pressão, apertou a dos três diante de si. — Foi um prazer, Ellen, Garrett, Owen. — Olhou para cada um deles, animado. — Muito obrigado mesmo. Espero que possa retribuir um dia.

— O prazer foi todo nosso — disse Ellen, sorrindo forçadamente.

Quando Robin avançou para frente e saiu pela porta, os três continuaram olhando para ele seguindo pela rua.

— Acha que fizemos a coisa certa? — perguntou Owen.

— É o que vamos ver — respondeu Garrett.

E do lado de fora, andando apressado pela calçada e tentando não esbarrar em nenhum pedestre, enquanto pegava o celular para marcar o endereço que lhe foi dito, Robin Ritter, fascinado e vidrado no aparelho, ao menos percebeu quando uma grande quantidade de viaturas passou correndo pela rua, logo ao seu lado, e desapareceram ao longe, antes que seus olhos ou ouvidos pudessem captar o caos que se alastrava por Oakfield naquela manhã aparentemente calma.



Notas finais do capítulo

E aí? O que acham que ele vai fazer agora que sabe onde elas estão? E gostaram da referência do nome da rua delas? Hahahaha NIGHTMARE ON ELM STREET (A Hora do Pesadelo, querido Freddy Krueger). Eu simplesmente não tenho criatividade pra fazer nome de lugares, ruas, cidades, etc, então eu só pego uns que já existem, e fica como um easter egg mesmo haha Me digam a opinião de vocês, vejo-lhes em breve!



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