Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 24
S02EP22 – Room Service


Notas iniciais do capítulo

Serviço de Quarto

Emily lida com o desaparecimento de Jordana. Linda apresenta novas suspeitas para Kai investigar.



A casa das Brammall-Hayes continuava silenciosa naquele dia. O único som presente era o do relógio acima do sofá, os ponteiros percorrendo toda a circunferência com graciosidade. Emily estava logo abaixo dele, sentada no sofá, encarando a janela que dava para o quintal da frente na esperança de que, a qualquer momento, o carro surgisse e Jordana descesse dele. Mas isso não aconteceu, e os minutos iam passando e passando.

Nenhuma mensagem enviada para a albina era respondida, assim como nenhuma ligação atendida. Não sabia a quanto tempo ela tinha saído, mas a simples demora e ausência já eram motivos suficientes para deixar a morena preocupada. Tão preocupada que já havia, até mesmo, ligado para Kai e explicado a situação para ele. Afinal, Conway era o membro da polícia de Oakfield mais próximo de Emily e, também, estava envolvido no massacre, como a morte de Zoe comprovou. Telefonou-o e disse o que achava do desaparecimento. Ele disse que investigaria isso e a ligaria de volta assim que conseguisse novidades.

Mas isso não foi capaz de deixar Hayes menos apreensiva. Com tudo o que aconteceu – mais especificamente a morte de Megan –, Emily não estava mais disposta a se arriscar, principalmente quando o alvo do risco era sua melhor amiga. Se algo acontecesse com Jordana, jamais se perdoaria por ter começado tudo aquilo.

Além disso, Archie não escapava de sua cabeça. Era a segunda pessoa desaparecida que não respondia ligações ou mensagens. Contudo, não era com o futuro mortal do rapaz que Hayes se preocupava; o que lhe consumia era a desconfiança.

Havia lido o bilhete deixado por Jordana. Poucas palavras que deram à sobrevivente grande suspeita sobre Archie. Afinal, se Brammall tinha ido se encontrar com ele, Archie teria de ter contatado ela e chamado-a para o encontro – ou então Jordana o convidou. De qualquer jeito, Emily estava mais certa de que Archie era o responsável pelo convite e, dessa forma, atraiu Jordana para sua armadilha. Essa teoria se intensificava quando Emily lembrava-se de suas suspeitas sobre ele, da forma como ele estranhamente foi à Oakfield pelo fato de Jordana estar lá, como um doente obcecado. Em meio àquela situação, a principal teoria de Hayes era de que Archie estaria obcecado por Jordana e o massacre todo era uma forma de tê-la só para si, a única família que lhe restou… Ou poderia estar imersa demais nessa coisa de obsessão, devido ao seu passado com Julia e Sean.

Aflita, tratou de ocupar-se discando para Kai mais uma vez. Ele atendeu no segundo toque, dizendo:

Emily? Oi. – Sua voz soava gentil, diferente do que Emily esperava ouvir depois de encher seu saco pela segunda vez.

— Oi, Kai. Alguma novidade?

Nós ainda estamos investigando – respondeu o moço, parecendo chateado e hesitante. – Já tem uma equipe de busca atrás dos dois, uma outra equipe está tentando rastrear os celulares… Estamos fazendo o máximo que podemos, Emily.

— Ai, muito obrigada mesmo, Kai – disse, sendo extremamente sincera nas palavras. – Nada poderia ser de mais ajuda do que você nesse momento. Muitíssimo obrigada.

Imagina, é o meu trabalho. Não se preocupe em agradecer. Aliás, só diga isso quando a Jordana estiver de volta ao seu lado.

Hayes não tardou em sorrir, imaginando a cena.

— Obrigada mesmo – agradeceu, mesmo assim. – E… Você precisa de ajuda com isso?

Não, não precisamos – respondeu o rapaz, com a quantidade de gentileza necessária para não magoá-la. – É melhor que você fique longe dessa situação. Não se envolva, pode ser perigoso.

— Continuarei correndo perigo, de uma forma ou de outra.

Kai soltou um riso nervoso, mas Emily não conseguiu estampar nem um fraco sorriso.

Você tá sozinha? – tornou o policial. – Posso enviar um oficial pra ficar de tocaia pra você.

— Não, imagina. A Ellen vai chegar daqui a pouco. A gente vai ficar bem, não se preocupe. – Suspirou fundo, olhando para o horário mais uma vez. – E, Kai, por favor, me ligue assim que souber de alguma coisa.

Com certeza, farei isso.

A garota estava pronta para desligar a chamada e voltar para a sua monótoma e preocupada situação, quando o negro voltou a falar e roubou sua atenção novamente:

E, Emily… Eu fiquei um pouco receoso em fazer o que você me mandou…

A sobrevivente revirou os olhos, não conseguindo se conter em ficar um pouco irritada.

— Mas você tem que fazer isso mesmo. Não é o que aconteceria, de qualquer jeito? Ele é o principal suspeito.

Bom, você me mandou colocar no caso o fato do Archie ser o responsável pelo sumiço da Jordana, mas a gente ainda não tem prova nenhuma que comprove que os dois sequer chegaram a se encontrar. Digo, é uma possibilidade, mas parece um pouco precipitado.

Era notório a forma como Conway estava receoso em relação àquilo. De fato, Emily havia dito tudo a ele e explicado toda a situação, inclusive que não confiava mais em Archie. Pensou que o policial pudesse ter se desfeito dessa informação e não utilizado-a, mas pela forma como ele falava – com um tom de arrependimento – comprovava que isso já tinha sido feito. Mas além de tudo, Kai parecia assustado. Hayes jamais sofreu uma perda tão grande quanto a dele. É claro, grande parte de seus amigos foram mortos, mas nada parecia se comparar com a perda de uma irmã. Uma irmã gêmea, ainda por cima, sua outra metade. E o fato de Archie ser considerado um suspeito chegou cedo demais para Kai, que, notavelmente, temia ficar cara a cara com o assassino de Zoe.

— Sinto muito por isso, Kai – disse a morena, amolecendo a voz. – Mas acho que devíamos procurar por suspeitos, e o Archie é um deles, senão o único.

Não te julgo, Emily. Quando o Archie apareceu em Oakfield, eu também desconfiei dele, sabe? O cara estranho que chega do nada, e então pessoas começam a morrer. Mas agora, depois de um tempo… Ele não parece ser esse tipo de pessoa. E se os dois estiverem correndo perigo?

— Acha que não pensei nessa opção? – Estava beirando as lágrimas ao pensar em Jordana lutando pela vida nas mãos do Carrasco. – Mas a Jordana é a minha melhor amiga. Ela tá comigo desde tudo aquilo. Eu não sei o que faria se perdesse ela. E pra ser bem sincera, sei o quanto isso é horrível de se dizer, me importo muito mais com ela do que com o Archie. Estou buscando pelo retorno dela, não pelo do Archie. E isso significa que vou tentar encontrar todas as explicações possíveis para o desaparecimento dela, mesmo que isso signifique incriminar os outros.

Kai ficou sem palavras por alguns segundos, em seguida disse:

Certo. Te ligo mais tarde, então. Com novidades.

 

1

 

A delegacia continuava agitada. Por sorte, a porta abafava parte do som e Kai podia trabalhar em paz, sem muitas distrações. Sentado atrás daquela mesa, o rapaz sentia-se impotente. Seu trabalho como assistente do xerife era, na maior parte, transmitir ordens, e não participar das ações. Em suma, mandava os outros para as buscas e ficava dando assistência à equipe na delegacia. Eram poucas as vezes que realmente saía com os outros. De qualquer forma, não podia reclamar de nada, pois ganhava mais do que os outros por ser o braço direito do xerife.

Atualmente, Conway estava centrado no caso do possível desaparecimento de Jordana e Archie Brammall. Pelo computador diante de si, tentava rastrear pela milésima vez o telefone dos dois, checando as câmeras de segurança da cidade na tentativa de encontrar algum sinal deles.

De repente, o interfone ao lado de seu braço tocou. Clicando num botão, Kai esperou por uma reposta enquanto coçava os olhos, cansado.

Kai? – perguntou um dos policiais dali. – Linda Sammuels está aqui. Disse que é um assunto importante.

— Tudo bem – respondeu, um pouco surpreso pela aparição da professora. – Pode mandá-la.

O policial soltou o botão e ficou encarando a porta, até que ela se abriu e Linda surgiu dela, fechando-a atrás de si. Conway encostou na cadeira, alertando:

— Tem que ser rápida. O xerife está bem ocupado hoje.

— Não vim falar com o xerife – respondeu a morena, sentando-se na cadeira do outro lado da mesa e colocando a bolsa no colo. – Vim falar com você.

— Comigo?

— Isso. Você também é um dos alvos do assassino e o assunto é sobre uma nova suspeita.

— Então você tem que falar com o xerife.

— Eu não posso! Não sei se estou certa contanto a isso, e você é o único policial que tem ligação com o assassino, então é o mais próximo de uma autoridade confiável que eu tenho.

— Certo – concordou, sentindo-se estranho por ter alguém se referindo a si como um “alvo do assassino”. Mesmo que fosse, era estranho ser retratado desse jeito. Era perturbador.

Respirou fundo, olhando ao redor. Os olhos castanhos de Sammuels lhe encaravam como se esperassem uma permissão para falar. Kai aprumou-se na cadeira e disse:

— Pode falar.

A mulher também se arrumou na cadeira, dizendo:

— Conheço alguém que pode ser considerado suspeito, e tenho provas que incriminam essa pessoa.

Balançou a cabeça afirmativamente, incomodado com o assunto.

— Quem é? – perguntou.

— Olivia Ree – Linda disse após suspirar profundamente.

O negro reconhecia o nome. Sabia quem Olivia era, e já tinha em mente alguns motivos pelos quais Linda pudesse estar desconfiando dela. Motivos que ele mesmo já tinha analisado.

— O que te faz pensar nisso?

— Bom, primeiramente – começou ela, intimidada pelo olhar autoritário de Conway. –, ela saiu da cidade num momento crítico, em que alegou ter recebido uma ligação do assassino e disse estar para ser morta. – Deu uma pausa. – Tal ligação que nunca foi comprovada.

—Tenho que concordar, Linda – disse Kai. – Também achei isso estranho. E de fato, nunca chegamos a analisar o celular dela em busca dessa ligação estranha. Não teve motivos, afinal de contas. Olivia era só uma cidadã indo embora daqui, nada demais.

— Aí está! – alegrou-se a professora, vendo que chegava em algum lugar. – Ninguém pode provar que ela realmente recebeu uma ligação do assassino, e a única pessoa que poderia, de algum modo, comprovar isso pois presenciou a cena, foi morta no mesmo dia: Logan Bates.

— Certo. – Engoliu em seco, notando que não teve esse raciocínio antes. – Mas o namorado de Logan confirmou mais tarde toda a conversa que os dois tiveram por telefone antes do Logan ser assassinado.

— O mesmo namorado que tem um passado com a Olivia? – rebateu, sentindo-se empoderada. Era bom estar naquela posição, apresentando evidências que poderiam ajudar a solucionar todo o caso. – Que atormentava pessoas sem motivo algum e que, por acaso, acabou matando cinco delas ao lado de Olivia?

O passado de Thomas Howard e Olivia Ree, lembrou-se Kai, tão perturbador quanto o atual estado da cidade. Acabaram incendiando um prédio e levando à morte cinco pessoas. Outras doze pessoas saíram feridas, metade delas quase não sobrevivendo. Mas, bem, isso era apenas um rumor. Uma lenda urbana. Ninguém sabia se os dois realmente foram os culpados. Apenas foram vistos por câmeras de segurança próximas da área momentos antes do incêndio. E numa investigação criminal, não se pode levar em conta boatos ou histórias contadas pela civilização, baseadas no passado rebelde de duas pessoas tão jovens.

— Na minha teoria – continuou Sammuels, recebendo a atenção de Kai, que apoiou os cotovelos na mesa e se aproximou. –, eles se acalmaram depois do incidente. Talvez ficaram abalados demais, tristes até. Mas então perceberam que gostavam daquilo, e voltaram a fazer, dessa vez numa proporção maior. Não apenas atormentando pessoas, mas matando-as também. Você lembra-se de como os dois eram terríveis, não lembra? Tommy e Olivia viviam atormentando todo mundo, zoando todos, fazendo piadas, vandalismo… Eles gostam de um bom show, e isso também explicaria todos os ataques aleatórios que ocorreram por toda Oakfield. – Engoliu em seco, lembrando-se das fotos na sala de aula, do ataque à sua casa, e também de Megan.

Linda montou toda aquela teoria contra o casalzinho como uma forma de se desprender da realidade. Depois da morte de Megan, a professora sentiu um remorso irreparável no peito. Tantas intrigas com a advogada não levaram a lugar nenhum, apenas a um poço sem fundo de angústia.

— Mas o assassino está se baseando no passado de Emily e Jordana – argumentou Kai, o cenho franzido. – A vestimenta, tendo-as como seu alvo principal… Tudo isso prova.

— Isso é só fachada – tornou Sammuels. – Nem Olivia nem Tommy têm um passado com as sobreviventes, então é fácil fazer tudo isso, pois ninguém os conectaria a elas. Eles matam por prazer, ou seja lá qual outra motivação, e usam o passado da cidade para encobrir os crimes. – Linda balançava a cabeça de um lado para o outro. – Se pensar bem, não tem nada que ligue Jordana e Emily com esse novo assassino além da roupa de carrasco e do passado delas. Elas nunca deram queixa de nada, deram? Claro, teve alguns supostos ataques, mas nenhuma comprovação de que o responsável por ele foi mesmo o assassino.

Aquilo fazia sentido. Muito sentido. Jordana e Emily nunca alegaram ter sofrido nenhum ataque do assassino. O máximo que aconteceu era o atual estado de Hayes: pensar que Jordana tinha sido levada por ele. A comprovação de que era realmente um ato do Carrasco? Inexistente.

— E esse foi um ponto que eles esqueceram – continuou Linda. – Os dois não fizeram nada para ligar esse novo assassino às sobreviventes. Seria a chave de ouro para passarem ilesos de vez, porque aí teria certeza de que ninguém os ligaria a elas.

Kai nada disse, apenas escutando.

— Por azar, Olivia não convenceu ninguém com o seu teatrinho da ligação do assassino – a professora disse. – Pergunte a quem quiser, ninguém acredita nela.

— Em suma, então, você acha que Olivia Ree e Tommy Howard são os assassinos? Acha que eles estão orquestrando todo esse massacre devido a um desejo doentio que surgiu a anos atrás?

— Sim – respondeu, com firmeza.

Conway manteve-se em silêncio. Estava pensando em tudo o que a mulher havia dito nos últimos segundos. Olhando para ela, lembrava-se do incidente com Megan no dia anterior, quando tentou convencer a advogada com um relato inútil de Linda. Os dois lembravam-se disso, na verdade, mas ninguém dizia nada para não deixar o ambiente mais monótomo ainda.

— Vou pensar em tudo o que você disse, Linda – disse, enfim. – Com certeza foi de grande ajuda. Essa teoria faz sentido, mas não deixa de ser uma teoria. Então, vamos avançar com calma e, se descobrir alguma coisa, tentarei entrar em contato.

Com a frase sendo um ultimato para a conversa, Kai esperava que Sammuels fosse se retirar, mas diferente disso, ela disse:

— Só mais uma coisa. – Em seguida, abriu a bolsa e revirou-a por alguns segundos. Ansioso, Kai observou-a. Então, elatirou de lá um pedaço de papel dobrado. Linda remexeu-o nas mãos até que se transformasse em uma folha de papel um pouco amassada, mas aberta. – Depois que eu pensei nessa teoria toda, fui atrás de uma prova física, por assim dizer.

A ideia em si de investigar Olivia veio da conversa com Owen e Max do dia anterior, mas resolveu não citar essa parte. Diferente disso, estendeu a folha à Kai.

— Eu busquei por alguns amigos da Olivia e fiz algumas perguntas a eles – disse ela, enquanto o rapaz analisava a folha. – Mais especificamente quais lugares ela mais gostava de ir aqui em Oakfield. Então, consegui uma pequena lista dos estabelecimentos mais frequentados por ela. Fui em todos eles, perguntando por uma garota jovem e asiática. Num deles, uma cafeteria na quinta avenida, uma das garçonetes me disse que Olivia havia estado ali a alguns dias atrás.

Kai levantou os olhos, vendo a relação da folha de papel em suas mãos com o relato de Linda Sammuels. Deixou-a prosseguir:

— Instigada, perguntei pela filmagem das câmeras de segurança e, depois de um suborno de cinquenta dólares, a moça me mostrou. Não consegui uma cópia completa, mas ela me deixou levar um print da tela impresso. A data é bem posterior ao dia em que ela alegou ter saído da cidade.

O policial abaixou os olhos para a folha em suas mãos. Era exatamente o que Linda dizia: uma fotografia tirada da imagem de uma câmera de segurança. A imagem estava um pouco embaçada, e em preto e branco, mas dava claramente para ver Olivia Ree sentada em uma das mesas, os braços apoiados nela e um sorriso no rosto. Diante dela, uma outra figura, um rapaz bem-vestido. Os olhos de Kai se arregalaram ao reconhecê-lo.

— Como pode ver, ela não estava sozinha – disse Linda. – O rapaz na foto é Tommy Howard.

 

2

 

Emily estava sentada na cadeira já tinha sete minutos. Não estava mais em casa. Havia sido chamada no hospital para ter uma conversa com o médico de Molly. A mesma conversa que teria no dia em que ela e Sam foram atacadas, mas que teve de ser adiada por esse exato motivo.

Em meio a todo o caos da situação de Jordana, ela nem estava se lembrando disso, e foi tirada de seus pensamentos pela ligação do doutor, perguntando se ela compareceria ao encontro. Isso era bom, poderia deixar sua mente vagar por outro assunto por um curto período de tempo, se desligar do nervosismo obtido ao pensar na melhor amiga.

Não tinha tido tempo de visitar Molly. Provavelmente só voltaria a vê-la fora do hospital, pois a garota seria liberada naquela mesma tarde. Ficava feliz por ela, mesmo que Merriman tivesse de se adaptar a sua nova vida com um braço só.

Foi tirada de seus devaneios quando a porta atrás de si se abriu. O consultório do médico era grande e espaçoso, com sofás posicionados à direita, ao lado de estantes altas de livros que tinham a mesma aparência. À esquerda, um grande aquário trazia diversos peixes, junto de mais estantes que, dessa vez, carregavam itens cirúrgicos e de exames. A mesa de madeira ficava no centro, logo diante de Hayes, entre três cadeiras. Atrás dela, uma janela comprida exibia um pouco de Oakfield. O céu nublado, as árvores e o topo das residências e dos comércios davam um “olá” à morena. Ela sentia-se exposta diante da placa de vidro, mesmo que fosse impossível que alguém do lado de lá enxergasse o que estava acontecendo do lado de dentro.

— Me desculpe pela demora, Srta. Hayes – escutou uma voz grossa e áspera dizer por cima de seus ombros enquanto a porta voltava a ser fechada.

Não virou-se, apenas sorriu com o canto dos lábios e olhou para o homem quando ele surgiu em sua frente, respondendo com os olhos que não tinha problema nenhum. Vestindo um jaleco comprido, o senhor diante de si não tinha menos de cinquenta anos. Usava óculos circulares, tinha uma careca bem lustrada e com poucos fios de cabelo nas extremidades do couro cabeludo. Mesmo que pudesse ser considerado um idoso, Cassidy Keene exalava no olhar a inteligência e o conhecimento que realmente tinha.

— Aceita uma água? – perguntou ele enquanto dava a volta na mesa.

— Estou bem, obrigada.

— Acredito que já tenha visto a Srta. Merriman hoje – continuou ele, sentando-se na cadeira giratória branca. Ao fazê-lo, não moveu nenhum papel ou caneta sobre a mesa, fazendo Emily constatar que aquela não seria uma conversa sobre medicamentos controlados, como ele tinha dito.

— Ainda não tive a chance – respondeu, docemente. – Talvez só volte a vê-la mais tarde, devido a correria do dia. – Engoliu em seco, nervosa. – Mas pelo que sei ela está incrivelmente bem, não?

— Graças a Deus – comentou o Dr. Keene. – Quando chegou ao hospital naquela noite, tinha perdido muito sangue. Foi um milagre termos conseguido salvá-la.

— Mal posso imaginar como deve ter sido – disse, perturbada pelo relato do médico.

— De qualquer jeito, Srta. Hayes – Cassidy disse. –, te chamei aqui hoje para tratar de um assunto mais sério e preocupante em relação à Molly.

— Certo.

Os dois aprumaram-se na cadeira. Emily ficou mais séria, mais preocupada, prestando atenção nas próximas palavras dele:

— O assunto dos remédios foi apenas uma faxada para que pudéssemos conversar sobre o que vim lhe contar hoje. Não podia deixar Molly saber; prefiro que alguém da confiança dela conversa com ela sobre. Da mesma forma, também não posso falar com os outros sem que ela saiba antes. Disse a ela que falaríamos sobre remédios, mas esse não é o caso aqui.

— E sobre o que o senhor quer falar? – disse, apressando-o.

— Bem, como é padrão de todo caso cirúrgico, uma equipe analítica fez diversos exames na Molly após a cirurgia. Exames que nos diriam se ela tem alergia a algum medicamento, se tem algo que devemos prestar mais atenção, coisas assim. – Deu uma pausa e coçou a garganta. – Dentre esses exames, está o de análise de toxinas. Nele, acabamos por descobrir que havia uma substância no corpo da Molly na noite em que ela foi atacada.

— Uma substância? Como assim? – questionou, curiosa e confusa. – Que substância?

Cassidy cruzou os dedos, encarando-a profundamente.

— Ainda estamos fazendo testes, e por isso o resultado ainda não saiu. Não posso te dar uma resposta concreta, Srta. Hayes – disse ele. – Mesmo assim, depois de uma análise nos primeiros resultados, posso dizer que tem grandes chances da substância no corpo da Molly naquela noite ser uma droga ilícita.

Emily não respondeu instantaneamente. Ficou pensando um pouco, confusa. Ela sabia o significado de “droga ilícita”, mas essa informação não parecia bater com o perfil de Molly.

— Com essa conversa, queria aconselhá-la a ter uma conversa com a Srta. Merriman – continuou Keene. – Esse seria o primeiro passo. Apenas tente descobrir o que está acontecendo, antes que sejamos obrigados a tomar medidas drásticas.

— Medidas drásticas?

— O tipo de droga encontrado no sistema dela não se encaixa no padrão ilícito por qualquer motivo, Srta. Hayes. Em casos como esse, somos obrigados a contatar as autoridades. Eles investigariam a Molly e, se encontrassem qualquer sinal de que ela tem o produto em casa, a prenderiam. – Deu uma pausa. – Eu te chamei aqui para que pudéssemos conversar antes que os resultados oficiais saiam. Você ainda tem uma chance de convencê-la a parar com isso. Uma chance de salvá-la disso tudo.

A sobrevivente estava impactada. Não via Molly como aquilo que ele estava insinuando. A personalidade dela não batia com nada daquilo. Molly usando drogas? Só se fosse em outro mundo.

— Então, você quer dizer que ela estava drogada naquela noite? – perguntou, apenas para ouvir de novo.

— Sim – respondeu, firmemente.

— Não pode ter sido um remédio? Um medicamento que ela tenha tomado?

— Os resultados seriam diferentes dos que temos. Bem diferentes.

Emily engoliu em seco.

— Eu não conheço a Molly a tanto tempo assim – disse. – Não sei se ela já teve um passado com as drogas. Não sei nada sobre isso, pra falar a verdade.

— Ela pode ser uma viciada em recuperação e, com tudo o que está acontecendo em Oakfield, tenha sentido-se forçada a voltar a usar. Sei que Molly está passando por muito estresse, muito medo. E não é a toa. Ouvi boatos de que ela possa ser um dos alvos desse assassino. – As palavras dele saíam com mágoa, pena e ódio. – Céus…

— Sim, pode ser isso. Faria sentido.

— E como já disse, estou dando uma chance para você ajudá-la a ficar bem de novo. É fácil acreditar que ela tenha tido uma recaída em meio a toda essa situação.

— Muito obrigada, Dr. Keene. Eu vou fazer isso, sim. Vou tentar descobrir alguma coisa, ajudá-la de alguma forma.

— Isso é muito bom de se ouvir, Srta. Hayes. Agora, preciso que você assine alguns formulários médicos.

Ele se remexeu atrás da mesa e voltou com as mãos cheias de papéis e documentos, colocando-os diante da morena.

— São algumas prescrições medicinais que precisam da sua autorização como companheira legal e oficial da Srta. Merriman aqui no hospital. Os mesmos formulários serão entregues a ela antes que ela saia do hospital – avisou ele. – Também servirão para que entremos em contato com vocês duas quando novidades surgirem. Como, por exemplo, o resultado dos exames.

Emily engoliu em seco novamente, levemente nervosa e receosa.

— Tudo bem – respondeu, por fim, pegando a caneta e assinando e preenchendo os papéis.

 

3

 

Um pouco diferente da nebulosidade de Oakfield, Capeside ainda tinha resquícios de um dia ensolarado. As últimas horas foram perfeitas para uma caminhada com os amigos, tomar sorvete no parque ou admirar a vista do grande lago de lá, mas agora as nuvens começavam a se tornar escuras e escondiam o sol, trazendo uma áurea sombria e uma parca luminosidade para todos os cidadãos. Olivia arrependia-se de não ter aproveitado o dia lá fora quando teve tempo, pois se saísse do hotel agora, a única coisa que encontraria seria o vento frio arruinando sua chapinha.

Estava encostada no parapeito da janela, encarando o movimento lá fora. Mesmo que o New North Hotel ficasse quase na saída da cidade, ainda era bastante movimentado naquela parte do dia. Por ficar numa área comercial, as ruas ao redor do hotel ficavam cheias de trabalhadores indo de um lado para o outro e clientes visitando as lojas.

— Curtindo a vista? – escutou a voz perguntando atrás de si.

Virou-se com um sorriso no rosto. Do outro lado do quarto, Tommy estava deitado na cama. Os lençóis marrons e brancos, amarrotados acima do colchão, cobriam grande parte do rapaz, deixando à mostra apenas a parte de cima do corpo e as pernas. Partes estas que estavam descobertas, exibindo a pele bronzeada de Howard. Ele sorria de forma travessa para a asiática, os cabelos loiros bagunçados e manchas de suor ao longo do corpo nu.

O fato era que os dois tinham voltado com as manias dos velhos tempos. Os encontros retornaram, não só como amigos, mas como amantes. Não a pouco tempo, mas a alguns meses atrás. Tommy se odiava todos os dias desde que começaram, mas resistir a tentação de Olivia foi mais difícil do que fugir do assassino, e quando se deu por si estava cada vez mais contando mentiras à Logan de que iria ao mercado, ou ao trabalho, ou ao banco, quando na verdade encontrava Ree com as portas abertas e um pacote de camisinhas na mão.

O mais estranho era que Howard não deixou de amar Logan. Olivia servia como uma distração, alguém com quem poderia transar e sentir sensações diferentes. Apenas isso.

De qualquer jeito, não deixava de ser traição. E a asiática, que nunca deixou de amar o loiro, adorava tudo aquilo e sinceramente não dava a mínima por servir apenas para o prazer e nada mais, desde que passasse tempo ao lado de Tommy.

Quando Logan morreu, as coisas se complicaram. Os dois acharam que nunca mais voltariam a repetir aquilo, pensando que a morte do rapaz foi como uma mensagem de Deus, uma punição por todo o adultério cometido. Mas então Olivia surgiu na casa de Tommy e a história seguiu da mesma forma que antes, e não parou. Então, ela foi para outra cidade, mas isso não foi uma barreira que impediu os encontros. Howard ia e vinha de Oakfield para Capeside, de Capeside para Oakfield, sem o menor problema.

Obviamente, isso jamais poderia vir a público. Pelo menos, não tão cedo. Tommy tinha acabado de perder seu namorado, e se a notícia de que já estava saindo com outra surgisse, isso seria o fim dos tempos. Perderia sua reputação, seus amigos, e até, quem sabe, sua família. Olivia concordou. Afinal, ela não se importava. A situação era indiferente para ela, mesmo que transar com alguém que acabou de perder o grande amor de sua vida tornasse-se estranho as vezes.

Claramente as pessoas começavam a suspeitar de que os dois tinham voltado a se encontrar. E todas as viagens estranhas e do nada que Tommy inventava para ir até Capeside se encontrar com Olivia não ajudavam. Todos já estavam suspeitando que algo estava rolando. No entanto, mesmo com todas as súplicas dele para que Ree fosse para Oakfield ao menos uma vez, ela rejeitava a ideia de voltar à cidade. De fato, tinha ganhado algumas das discussões e Olivia foi para lá, onde tomaram café, conversaram, e terminaram o dia embaixo dos lençóis.

Depois de tanto tempo fazendo isso, era de se esperar que uma ilusão viesse. No caso, Olivia foi o alvo dela. Começou a fazer planos para o futuro, criando uma vida que Tommy sabia que jamais teriam. Ele ansiava por isso também, mas não de forma tão forte. Olivia estava perdidamente apaixonada, enquanto o rapaz somente via a situação como uma casualidade entre dois amigos.

— Isso foi bom – disse ele, sorrindo.

— Uhum – resmungou de volta, esticando um dos braços para pegar uma camiseta jogada no encosto da cadeira diante da penteadeira. Virou-se de costas para vesti-la.

— Gostou mesmo? – tornou ele, confuso pela resposta nada entusiasmada da companheira.

— Claro que sim – respondeu, virando-se para ele com um sorriso quando terminou de colocar a camisa por cima da cabeça.

Howard sentou-se na cama, buscando pelas próprias roupas.

— A gente devia se encontrar mais. Sabe, fora daqui – disse ele.

— Você sabe que isso não é possível, Thomas. E também sabe o motivo.

— Não, não sei – tornou ele, um pouco mais irritado. – Não entendo porque você tem medo de voltar pra Oakfield. Depois de tanto tempo, o assassino nem deve se lembrar mais de você.

Olivia não respondeu de imediato, apoiando-se na escrivaninha em frente a cama. Realmente, o assassino poderia não se lembrar mais dela, mas, de qualquer forma, Ree gostava de Capeside e não tinha planos de retornar para Oakfield, mesmo que Tommy estivesse junto.

— Você fala tanto que é melhor eu voltar pra lá, mas morre de medo que descubram sobre a gente – comentou, por fim, dando de ombros.

— Descobrir é uma coisa, você ir pra lá é outra – Tommy disse. – Ninguém precisa descobrir nada. Você voltando pra lá vai fazer tudo isso ficar bem mais fácil. Eu não vou precisar ficar trinta minutos dentro de um carro pra ir de lá pra cá toda semana.

Enquanto ele colocava a cueca, com as pernas para o lado de fora da cama, ela continuou:

— Você diz como se eu tivesse escolha. – Mudou de assunto por um segundo.

— Você tem uma escolha, Olivia. Não precisa ficar se escondendo. E de qualquer jeito, se estiver comigo, estará segura.

— Eu não penso assim. Ninguém está seguro naquela cidade. – Jogou os cabelos, empinando o queixo como se estivesse com toda a razão. – E eu não ligo para o que ninguém fala, sabe. No fundo, todo mundo acha que eu fui a mais esperta. Dei no pé no primeiro sinal de perigo. É o que todo mundo gostaria de ter feito, pode acreditar.

Tommy expressou um sorriso de canto, amarrando o cadarço do tênis. Falava sério contanto àquilo, mas quando sabia que Olivia jamais desistiria, o que mais gostava de fazer era atormentá-la com o assunto para vê-la ficar irritada.

— Não precisa ficar se preocupando com essas coisas – disse ele, a voz mais calma. Realmente tinha relaxado um pouco.

O rapaz levantou-se da cama, fazendo as molas rangerem, e foi até Olivia, apoiada na quina da escrivaninha. Os dedos estavam agarrados na madeira, os cabelos lisos e negros caindo nos ombros. Ela vestia apenas uma camisa larga e calcinha, transformando sua aparência na coisa mais excitante que o loiro já tinha visto. Aproximando-se mais, ela não recuou. Diferente disso, sentiu os pelos dos braços e da nuca se arrepiando ao toque das mãos quentes de Tommy contra sua cintura desnuda, assim que ele lhe enlaçou em um abraço confortante.

Com a face a centímetros dela, Howard continuou, com a voz doce:

— Não vou entrar nesse assunto de novo. Chega de brigas, ok?

Beijou-a fracamente, lábios se tocando. Afastou o rosto novamente e sorriu para ela.

— Obrigada – agradeceu.

— Mas da próxima vez você que vai até lá – disse, então, afastando-se da asiática.

Olivia expressou a feição mais engraçada que Tommy tinha visto na vida, fazendo-o rir alto.

— Jamais! – gritou ela. – Da última vez quase deu merda, e você sabe! Um monte de gente me reconheceu, e eu também não aguento aquele monte de gente sem noção me olhando com nojo como se eu tivesse matado o Papa, só porque eu fiz uma coisa que eles queriam.

Os dedos do loiro agarraram a camisa jogada no chão. Ainda rindo e se divertindo com o assunto, Tommy colocou-a enquanto ouvia a garota perguntar, dessa vez mais séria:

— Acha que eles desconfiam que eu seja a assassina, Thomas?

— Bobagem – disse, dando de ombros.

— Não, não é. Eu percebo. As pessoas estão desconfiando de mim por eu ter fugido e, com certeza, já deve ter alguém estranhando por eu ter voltado sem mais nem menos pra lá. — Desapoiou-se do móvel e começou a dar voltas sem sentido pelo quarto, continuando seu monólogo: – Eu te disse que não tem como ser normal de novo naquela cidade, mas não, você insistiu em ir pra uma cafeteria. “Ah, não é nada demais, ninguém vai notar, Olivia”. Pois é, ótima ideia, garotão, agora eu posso ser suspeita de um massacre!

— Você tá pensando demais – murmurou ele. – Quando ganhou tempo pra escrever essa fanfic? – Virou-se na direção dela, encontrando-a enraivecida. Olivia odiada não ser levada a sério, e aquilo estava lhe levando ao limite. — Olha, sinto muito — disse, por fim, indo até ela com um sorriso meigo no rosto. — Não foi a intenção. — Realmente não acreditava nela, dizia as palavras somente para acalmá-la. — Mas sabe o que poderia ajudar? Você parar de se esconder aqui, como uma psicopata daqueles filmes ruins, sabe? Que fica na casa, só observando…

— Para, Thomas! — gritou ela, irritada, chacoalhando todo o corpo. Howard riu e tocou a mão dela, acariciando com os dedos. — Ninguém pode saber onde eu estou, por isso eu me “escondo”. — Fez aspas com as mãos. — Tanto que eu só contei isso pra você e pra…

Parou de falar antes de dizer o nome de Molly. Se Tommy soubesse que Molly sabia, começaria a perguntar o motivo dela saber, e quando Olivia explicasse o motivo, ele se irritaria e diria que ela estava ficando paranoica.

Mas para seu azar, o loiro percebeu que ela cortou a frase no meio.

— Pra quem? — perguntou ele, o cenho franzido, curioso.

Nunca conseguiu mentir bem. Todas as vezes que tentou, ele havia descoberto a verdade. E essa não era uma mentira boba, era uma mentira que faria Tommy começar a se preocupar com a saúde mental dela, e Ree não poderia deixar isso acontecer pois seria irritante demais. A última coisa que queria era que seu companheiro soubesse de seu plano de resgate para quando fosse encontrada, perseguida e morta.

— Acho melhor você ir embora agora. As pessoas vão começar a desconfiar que a gente tá junto. — Mudou de assunto, e não deixou de ironizar o medo do rapaz.

— Tem razão. Eles também podem desconfiar que eu seja o assassino — respondeu, com o mesmo tom de ironia e acidez.

Olivia deu uma risada alta e forçada, de quem diz “haha, muito engraçado”. Tommy sorriu e virou-se, pegando seus pertences ao lado da cama. Guardou a carteira e o celular no bolso e, com a chave do carro na mão, virou-se para a asiática, que continuava parada no mesmo lugar com a expressão de uma criança esperando pelo seu presente no Natal.

Não tardou a ir até ela e dar um último beijo.

— Até mais — disse ele. — Mais tarde a gente discute como vai ser na próxima vez.

— Tudo bem, então. Tenha uma boa viagem. Dirija com cuidado.

Desentrelaçaram as mãos e Olivia viu quando Howard saiu pela porta do quarto, batendo-a atrás de si. Voltou a ficar sozinha no cômodo, solitária. Só naquele momento sentiu a barriga roncar. Mal tinha percebido que só tinha tomado café da manhã, e agora morria de fome. Pegou uma calça amarrotada no guarda-roupas, com a ideia de que sairia para comer alguma coisa.

Mantinha um sorriso abobado no rosto. Toda vez, depois que o rapaz ia embora, Ree ficava daquele jeito, como se estivesse chapada. Era a sensação boa depois de encontrá-lo, na verdade. Quando ela percebia que realmente o amava e que tinha chances dele sentir o mesmo, quando pensava que estava o conquistando finalmente.

Assim que terminou de arrumar a cama e calçar os sapatos, Olivia pegou o cartão de crédito e o celular e os colocou na bolsa, pronta para sair. Então, três toques na porta interromperam-na. A asiática virou a cabeça na direção da porta, mas ela estava intocada. Pensou se tratar de Tommy, que tinha esquecido alguma coisa. Curiosa, cruzou o quarto até a placa de madeira.

— Tenho certeza de que você pegou tudo o que era seu, Thomas — disse enquanto ia até lá.

No meio do caminho, percebeu como era um azar dele ter de subir tudo de novo para buscar o que quer que fosse que tivesse esquecido. Com um sorriso no rosto e a ideia de atormentá-lo na cabeça, Olivia agarrou a maçaneta e abriu a porta, puxando-a para dentro do quarto.

Mas não deu de cara com Howard. Não deu de cara com pessoa alguma. Diferente disso, do outro lado da passagem, estava um carrinho de serviço de quarto, sozinho. Feito de metal, com meio metro de comprimento, o carrinho era coberto por uma toalha de mesa branca que descia até as rodinhas no chão. Em cima dele, uma grande bandeja de aço reflexivo, cobrindo um prato do mesmo material e escondendo o conteúdo.

Estranhando a situação, Olivia deu um passo à frente e colocou a cabeça para dentro do corredor. Olhou de um lado, olhou do outro. Não havia ninguém ali, apenas as paredes pintadas de um beje sem graça e as portas de madeira velha fechadas.

— Olá? — perguntou, mas não obteve resposta.

De cenho franzido, logo pensou que poderia ser uma brincadeira de Tommy. Não dando muita bola, pegou a barra do carrinho e, com dificuldade, o trouxe para dentro do quarto. As rodinhas rangeram ao rolar pelo carpete, até que ele todo estivesse do lado de dentro. Dessa forma, a morena fechou a porta, dando uma encarada estranha para ela. Voltou a atenção ao objeto diante de si, vendo seu próprio reflexo no metal da bandeja. Com um suspiro, Olivia levou a mão para frente, agarrou-a e puxou para cima.

A tampa caiu na mesma hora, tilintando no chão. Em meio ao choque, a garota não foi capaz de gritar de imediato. As mãos tremeram e as pernas ficaram bambas imediatamente. O sangue esquentou o corpo e o pânico aflorou seus sentidos. A visão ficou turva. Ela pensava se o que estava diante de si era realmente o que via, ou se era uma alucinação. Afinal, era difícil de acreditar que fosse real. Era absurdo demais, quase impossível.

Mas não era nada impossível. A situação provou isso. Aquilo estava realmente acontecendo.

E quando um grito descomunal de pavor escapou da garganta de Olivia, estremecendo as paredes de todo o hotel, a garota se deu conta de que sim, diante de si, sobre a bandeja ensanguentada, realmente estava a cabeça decapitada de Jordana Brammall.

 



Notas finais do capítulo

Bom, pois é. Jordana morreu. Ficaram surpresos? Tristes? Felizes? Espero que tenha sido um plot que, no mínimo, surpreendeu vocês haha Foi bem triste matá-la, mas esse assassino não tá pra brincadeira não rs Aquela conversa estranha entre o Tommy e a Olivia pelo telefone num dos capítulos passados na verdade não passava de um papo sobre "como a gente vai transar da próxima vez sem ninguém ficar sabendo?" hahahahaha Foram enganados? E sobre o vício da Molly? O que acham que vem por aí? Sobre o final, o que esperam da Olivia? O que acham que ela vai fazer?
Espero que tenham gostado, até mais!



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