Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 19
S02EP17 - Once You Go There, You Won’t Be Right Back


Notas iniciais do capítulo

Se For Até Lá, Não Voltará Logo

Ainda de cama, Garrett é atenciosamente cuidado por Peter. Archie resolve ir atrás de uma suspeita de forma perigosa, numa tentativa de obter respostas. Sam toma uma decisão preocupante.



O prédio de oito andares era como um holofote naquela área da cidade. Com a noite tomando Oakfield, a estrutura de tijolos vermelhos parecia uma das únicas coisas acesas, com grande parte das janelas estando iluminadas por uma luz amarelada. Ao fundo, a trilha sonora da escuridão era a de grilos crocitando e de motores de carros, que hora ou outra cruzavam a rua. Um mercadinho 24hrs na frente da construção tinha uma luz neon vinda da placa frontal, tão forte que chegava a machucar os olhos de quem olhasse por muito tempo. Dois ou três pedestres andavam pela calçada vazia. Ninguém além deles parecia louco o bastante para encarar o frio do exterior.

De uma das janelas do prédio, mais especificamente de uma do quinto andar, a imagem de Peter era exibida enquanto ele observava o lado de fora, protegido pela placa de vidro fechada diante de si. Era possível ver algumas partes da cidade daquela altura, mas não o bastante para que se tornasse uma vista bonita. Era claustrofóbico, de certa forma. Mesmo que as casas e estabelecimentos se estendessem por vários quilômetros, as construções todas continuavam a ser cercadas pelos pinheiros altos e sombrios, bloqueando qualquer tipo de saída, por assim dizer. Era quase como se, de uma forma ou de outra, todos estivessem presos dentro daquele paraíso infernal.

O apartamento em si não era de Cambridge, e sim de Garrett. Era uma moradia do tamanho ideal para uma única pessoa que não era das mais organizadas nem frescas. Tinha um quarto, um banheiro e uma cozinha grande o bastante para suportar um sofá e uma TV. Naquele momento, os dois estavam no quarto. Em cima da cama de casal, DeLucca descansava seu corpo dolorido e baleado, coberto por duas cobertas grossas e com as costas apoiadas em dois travesseiros na madeira de suporte da cama, as pernas esticadas pelo colchão. Diante dele, do lado oposto, estava Peter, encostado no batente da janela, observando alguma coisa longe do conhecimento do tatuador.

— Eu não tô tão mal assim – disse Garrett, tirando o amigo de seus devaneios e fazendo-o virar o corpo em sua direção. – Pode ir embora, se quiser. Eu vou ficar bem.

— Eu posso passar a noite aqui, se você quiser – respondeu o moreno. A preocupação de Peter para com DeLucca era admirável, ele realmente presava pelo outro.

— Não, não… – resmungou, balançando a cabeça de um lado para o outro. – Eu já abusei demais da sua boa vontade, Pete. – Riu de lado para passar uma certa confiança para ele, uma prova de que estava bem. – Eu consigo me virar daqui em diante. Provavelmente não vou levantar mais… Só pra ir no banheiro, talvez. E você não precisa ver isso.

Peter riu, saindo da janela e ficando na frente da cama, com as mãos nos bolsos. Ele pensou por alguns instantes se era mesmo uma boa opção deixar Garrett sozinho ali. Para falar a verdade, estava precisando de um bom banho e algumas horas de sono.

— Certo – disse, finalmente.

DeLucca sorriu de lado. Nunca gostou de ficar na mão de alguém, depender de outra pessoa. Para o tatuador, era ruim, principalmente quando não tinha maneiras de retribuir o favor. Isso explicava grande parte de sua confiança em si mesmo – até mesmo, de muitas vezes que parecia estar sendo rude, quando, na verdade, apenas não queria incluir os outros em alguma coisa que poderia fazer sozinho. Mas o que Garrett não sabia, era que ele sempre estava retribuindo esse tipo de favor, especialmente quando se tratava de Peter, pois ele nunca imaginaria que seus pequenos conselhos e puxões de orelha traziam, sim, algum tipo de ajuda para o amigo.

— O seu remédio pra febre tá no criado-mudo – avisou Cambridge, sério, apontando para o móvel logo ao lado do rapaz. – Coloquei algumas garrafas de água no frigobar, e tem também uns petiscos, se tiver fome.

Garrett riu da forma como ele falava. Peter era quase como uma segunda mãe.

—Certo, mamãe– perguntou, irônico. – Fez tudo isso porque me ama?

— Só pra ver o meu pedaço de cocô bem. Não quero que se desfaça – respondeu, ainda mais irônico, arrancando mais uma série de risadas de DeLucca.

Após cinco ou seis segundos rindo juntos, os dois finalmente pararam, olhando um para o outro. Naquele instante, Garrett pensou que seria o momento certo para um bom agradecimento:

— Obrigado, Pete. Nem sei como posso devolver esse favor.

— Não tem de quê, cara. E não se preocupe com devolver nada, é isso que os amigos fazem um pelo outro.

O tatuador sorriu, um pouco emocionado pelas palavras. Aquele era o tipo de amizade que deveria receber valor. Um apoiava o outro em todas as situações, independente da forma como elas estavam. O verdadeiro significado das palavras “melhor amigo” jazia naquele cômodo, dentro de cada um dos rapazes. O mais legítimo significado de amizade.

— Te vejo amanhã, beleza? – tornou Peter.

— Aham – respondeu DeLucca. – Só não vem muito cedo, não vou acordar antes das nove.

— Pode deixar. – Sorriu, tomando seu caminho para fora dali.

Quando estava pronto para passar pela porta do quarto, escutou a voz do amigo ressoar:

— Espera um pouco.

Virou a cabeça para trás, encarando-o com curiosidade.

— Pega o controle da TV pra mim? – questionou Garrett, com um olhar de pena. – Meu amiguinho de baixo precisa de um pouco de estímulo e os canais adultos estão com desconto.

Peter revirou os olhos e expressou uma grande cara de nojo, abrindo a boca e espichando a língua para fora, como quem está com ânsia. O acidentado apenas riu alto, mas pela forma como não disse mais nada, parecia estar falando sério.

Cambridge foi até a escrivaninha e agarrou o controle remoto ao lado da TV, jogando-o na direção do amigo.

— Você é o melhor, cara – disse Garrett, antes de Peter finalmente sair dali.

 

1

 

A porta do carro bateu quando Peter entrou por completo, sendo envolvido pelo delicioso ambiente aquecido do interior do veículo e se vendo livre do ar frio da noite. Suas mãos estavam congelando. O ar parecia assobiar do lado de fora do seu Sedan preto. Agora, não havia ninguém nas calçadas ao lado, apenas um pobre funcionário no interior do mercadinho do outro lado da rua, agasalhado até os dentes, e o porteiro do prédio. Ele mesmo não conseguia explicar o motivo de sua grossa jaqueta não impedir a temperatura fria de arrepiar-lhe o corpo. Por sorte, dali alguns minutos poderia entrar embaixo de todas as cobertas de sua própria cama e adormecer enquanto via mais alguns episódios de How to Get Away with Murder.

Acendeu a luzinha sobre sua cabeça, iluminando o espaço pequeno com os tons fortes de amarelo, enquanto tirava a chave de sua casa do bolso e a colocava no compartimento embaixo do rádio desligado, junto de sua carteira. Arrancou, também, seu celular, jogando-o sobre o banco do carona. A última coisa que Cambridge pegou foi a chave de carro, quando, no instante seguinte, colocou-a na ignição.

No entanto, antes que pudesse girá-la e dar a partida, escutou o som de notificação vindo do aparelho ao lado. Peter virou a cabeça, curioso, pensando que provavelmente era Garrett chamando-o de volta lá em cima por precisar de alguma coisa e estar com preguiça de concretizá-la. Bufou, agarrando o celular, e desbloqueou a tela.

O que havia ali o surpreendeu.

— O quê…? – disse para si mesmo.

Megan: Preciso de você aqui no escritório, Peter. Venha logo.

Balançou a cabeça de um lado para o outro, confuso. Do que Megan estaria precisando naquela hora da noite? Já passavam das onze horas, ela já deveria ter ido embora e, de qualquer jeito, pelo que Peter sabia, não havia nenhum assunto a ser resolvido por ela.

Agilmente, respondeu:

Peter: Agora?

A resposta não demorou para chegar:

Megan: Vai me deixar na mão?

Peter: Já tá tarde. E o que você ainda tá fazendo aí, de qualquer jeito?

Megan: Estou esperando você, Pete.

Peter sentiu um arrepio tomar sua espinha. Mas não era um arrepio de frio, era outra coisa. Era a sensação excitante de ouvi-la chamá-lo de um nome que nunca antes havia dito. “Pete” era um apelido que só havia ouvido sair da boca de Garrett e de seus pais, um símbolo de carinho e afeto. De importância.

Engoliu em seco.

Peter: Como assim?

Megan: Numa noite fria como essa, nenhuma dama deveria ficar sozinha.

O coração dele começou a acelerar. O estagiário pensava se era algum tipo de brincadeira da advogada, ela era muito de fazer brincadeiras de mal gosto com as pessoas. Talvez tivesse descoberto que ele tinha uma paixonite por ela e agora estava usando dessa informação para lhe pregar uma peça.

Peter: Do que está falando?

Resolveu fingir que ainda não tinha entendido. Gostaria de ter todas as respostas na mão antes de tomar qualquer atitude. Chegou a pensar que poderia ser Garrett, que de alguma forma aprendeu a clonar números, passando um trote nele. Contudo, não conseguia deixar de desejar que tudo fosse verdade. Afinal, tinha quase certeza de que estava apaixonado por Steinfield.

Megan: Deixa de bobagem, Pete. Vem aqui e eu te mostro do que estou falando.

Antes que pudesse responder, outra mensagem chegou:

Megan: Vou estar te esperando na frente.

Não disse nada depois disso, tomando uma decisão. Mesmo que achasse que tudo fosse uma brincadeira, poderia perder uma enorme oportunidade que sempre ansiou, caso fosse verdade. Relembrou-se, ainda, de todos os avisos de Garrett contanto àquilo, que ele deveria deixar Megan de lado e se focar em outra coisa. Em outras palavras, os avisos diziam que Megan não queria nada com ele e que Peter deveria deixar de ser trouxa dela.

Talvez ser trouxa seja algo bom, às vezes, pensou consigo mesmo, dando partida no carro e sabendo exatamente qual seria o seu próximo destino naquela noite.

 

2

 

O Sedan parou diante do prédio de advocacia. O portão estava aberto – provavelmente deixado assim por Megan – e foi fácil entrar. Peter estacionou em uma das dezenas de vagas vazias. Não tinha nenhum carro lá, nem mesmo o de sua chefe. Ele não estranhou, talvez ela tivesse usado um táxi para ir até lá ou foi a pé mesmo. De dentro do carro, o estagiário olhou pelo para-brisas, encarando a construção a alguns metros. Todas as janelas estavam apagadas, sem sinal de vida humana do lado de dentro. Cambridge ficou um pouco receoso pelo convite, novamente.

De qualquer jeito, abriu a porta e desceu, sentindo o vento frio lambendo o corpo. Usou a chave do automóvel para trancá-lo, apertando um dos botões. Os faróis acenderam e a buzina ressoou, em seguida voltaram ao normal, desligados.

Peter deu mais uma olhada ao redor. Estava tudo vazio e tenebroso, nem mesmo os postes na rua davam-lhe um pouco de luminosidade. E mesmo que aquele lugar se encontrasse no centro da cidade, havia quase nenhuma pessoa na rua. Então, deu a volta no carro, indo para o outro lado, onde ficava a porta do carona. Dessa forma, ficou mais na frente do prédio.

Depois de dar uma última olhada para ele, se certificando de que realmente não havia ninguém lá dentro, agarrou o celular no bolso, desbloqueando a tela.

Enquanto digitava a mensagem, virou-se de frente ao próprio veículo, ficando diante da janela escura e espelhada.

Peter: Cadê você?

Continuou encarando o celular, sem perceber a forma como um estranho reflexo batia na janela fechada à sua frente. Poderia ser só um jogo de luz de algum dos postes ao redor ou até mesmo a luminosidade do próprio aparelho celular, mas era quase improvável. Na verdade, era nada provável, e isso ficou claro quando a figura tomou uma forma humana, vestida de um sobretudo preto e com uma máscara assombrosa no rosto, logo atrás de Peter, sem que ele ao menos percebesse a presença.

Repentinamente, o celular vibrou nas mãos de Cambridge.

Megan: Bem aqui.

Ele franziu o cenho, estranhando, e foi quando uma sensação estranha percorreu seu corpo. Pensou em olhar de novo para a construção, mas notou que não havia ninguém lá mesmo, pois a única presença além da sua própria estava logo atrás de si.

Virou-se, assustado, e teve um breve relance da pessoa parada ali. Não conseguiu ver muita coisa além de uma visível máscara cobrindo a cabeça dela, antes de receber um forte soco no rosto, que o fez ir para trás com o impulso da dor e dar de encontro com a lataria de seu carro.

Peter tinha o coração na boca, não sabendo exatamente do que aquilo se tratava, sentindo uma dor latejante na parte direita da mandíbula, quase estendido sobre o carro.

O Carrasco, diante de si, não mesurou seu tempo para voltar a golpear, dessa vez com a outra mão, a que portava a faca de sobrevivência.

Entre grunhidos e sopros de esforço, Cambridge foi capaz de ver a morte se aproximando no reflexo da arma que vinha em sua direção, com as pernas um pouco moles. Estalou os olhos e foi para o lado segundos antes de ser acertado por aquela lâmina pontiaguda, saindo da frente dela em um reflexo hábil e ardiloso, movendo-se centímetros para a direita enquanto o rosto ainda doía. E o mascarado, despreparado para o desvio, não conseguiu controlar o seu braço, que entrou de uma vez na janela fechada do carro, abrindo caminho com a faca.

A janela explodiu em dezenas de fragmentos em um barulho alto de vidro tintilando pelo chão de asfalto, onde cacos grandes e pequenos foram lançados para dentro e para fora do Sedan.

Em completo choque, Peter virou a cabeça para o lado por conta do susto. De imediato, o alarme soou, acendendo os faróis do carro e fazendo-os piscar.

— Que merda é essa?! – gritou, alheio à situação. Realmente não fazia ideia do que aquilo se tratava. – Megan, é você?! – tornou, não reconhecendo a figura. – Me diz o que é isso!

O assassino tornou sua atenção para ele, não dando a mínima para as palavras do moreno, e naquele instante Cambridge percebeu que ele não estava ali para fazer uma brincadeira. Aquela faca não era de mentira e estava pronta para acertá-lo. O indivíduo tinha a intenção de não deixá-lo sair vivo dali. A segunda coisa que percebeu foi que não desistiria facilmente, então teria de lutar por sua vida, caso não quisesse morrer. É o mesmo cara que tá matando todo mundo, pensou, é o assassino que está atrás da Emily e da Jordana. O mesmo que fez Garrett ser baleado.

Usou do momento curto em que o psicopata pareceu ficar preso na abertura feita no carro para avançar sobre ele. Os sons de grunhidos de esforço se perdiam pela noite escura e vazia.

Peter agarrou o braço armado da figura, impedindo que qualquer golpe fosse desferido contra si. Com a outra mão, segurou o ombro dele. Levado por uma raiva esclarecida, trouxe o maníaco mais para perto de si e levantou o joelho, acertando-o com um forte golpe na barriga. Um gemido indecifrável saiu de baixo da máscara, de forma que o rapaz não conseguiu decifrar se era um homem ou uma mulher. De qualquer jeito, não deixou que isso o impedisse de continuar, quando usou de sua força para atirar o assassino para o lado.

O corpo coberto pelo sobretudo caiu no concreto, deslizando por alguns segundos, parecendo muito atingido pela dor na barriga. Tornou em direção ao carro e puxou a maçaneta da porta com força, desesperado, mas a coisa apenas estalou diversas vezes, não abrindo. O alarme quase o ensurdecia. Com os pés amassando fragmentos de vidro, Peter olhou ao redor.

A chave do veículo havia caído quando levou o soco no rosto, assim como seu celular. Agora, os dois jaziam estirados a alguns metros, longe demais para que o garoto pudesse se arriscar a pegar e receber uma facada nas costelas. Não podia arriscar, e foi nesse instante que notou que o assassino se levantava de novo.

Olhou para a esquerda, olhou para a direita. No ângulo em que estava, o maníaco poderia pegá-lo facilmente, independente da direção que fosse seguir. Então, teve um estalo. Como sou burro!, pensou, alegrando-se por alguns instantes. Cambridge havia se lembrado que tinha uma chave extra dentro de sua carteira, sempre levando-a consigo caso chegasse a perder a chave principal. Virou a cabeça para trás, ofegante, e viu o objeto de couro colocado dentro do compartimento abaixo do rádio. Poderia pegá-lo e sair dali rapidamente. Foi a única ideia que sua mente desesperada teve naquele instante, e foi exatamente o que começou a fazer.

Usou o antebraço coberto pelo pano grosso do casaco para tirar os poucos fragmentos pontudos de vidro que sobravam na janela, e logo lançou o torso para dentro do carro. Numa única passada, Peter tinha todo o comprimento do corpo, até sua cintura, do lado de dentro do veículo, ficando apenas com as pernas do outro lado. Era incrível como o alarme soava dez vezes mais alto ali dentro.

Esticou um dos braços e agarrou o volante, fazendo a mesma coisa com o outro e segurando firme no banco do motorista. Com isso, o rapaz tomou impulso para puxar o corpo mais para dentro, adentrando o Sedan de forma natural e agoniante, numa lentidão que poderia custar-lhe a vida. Os pés saíam do chão e ficavam esticados na horizontal do outro lado, indo para frente com puxões fortes e constantes, ao que os cotovelos de Peter tocavam o vão entre os bancos no interior.

E foi entre as chacoalhadas de seus pés que o estagiário sentiu um par de mãos lhe agarrando as pernas, com uma força gigantesca que lhe causou certa dor no aperto dos ossos.

— Socorro! – gritou, incapaz de pensar em outra coisa, quando sentiu o corpo voltando para fora, cacos minúsculos rasgando-lhe a camisa. – Alguém me ajuda! Por favor! Socorro!

Seus gritos excruciantes ecoavam pelo estacionamento vazio, acompanhado pelo iu iu iu iu iu iu do alarme do carro. Do outro lado, o mascarado usava de sua força para puxar a vítima para fora, chegando a impulsionar a perna na lataria do carro, tomando fôlego para mais um puxão. Dentro do carro, Peter gritava em pânico, tentando agarrar qualquer coisa que aparecesse em sua frente com os dedos já esbranquiçados de esforço. A cara vermelha dele deixava claro toda a força utilizada na tentativa de se manter longe do assassino. As pernas debatiam-se em chutes que passavam longe de qualquer estrutura do psicopata, em vão.

Quando já estava sentindo o asfalto nos pés novamente, temendo ser acertado por um golpe de faca, Peter tinha como única forma de permanecer longe das mãos do maníaco, a janela aberta do automóvel, segurando na borda metálica delas enquanto os puxões continuavam se prosseguindo do outro lado, dessa vez sendo puxado pela blusa.

— Socorro! – berrou.

Olhou para baixo, os olhos trêmulos, o coração batendo forte no peito e a respiração entrecortada. Em cima do banco do passageiro, estava um brilhante caco de vidro, pontudo e ameaçador. Sem pestanejar, soltou uma das mãos e segurou-o com força o bastante para impedi-lo de escapar entre os dedos. A rigidez afiada cortou a palma de sua mão em pinicadas violentas, mas ele não se importou. Diferente disso, passou por vontade própria o corpo para o lado de fora e virou-se na direção do Carrasco, que foi abatido por um golpe rápido vindo do estagiário.

Cambridge, com a mão sangrando pela série de cortes proporcionados nela, levou o estilhaço de vidro no ponto mais letal do mascarado: a garganta.

Sua mão vibrou quando o lado pontiagudo do vidro acertou o ponto desejado, enterrando-se por alguns centímetros logo acima da clavícula do assassino. De olhos estalados, Peter ficou boquiaberto com sua ação, vendo a forma desesperada como o Carrasco recuava para trás, assustado, levantando a mão para encontrar o lugar acertado. Os olhos embaixo da máscara estavam tão estalados quanto os do moreno. No entanto, foi com grande decepção que o rapaz, estatelado na lataria do carro, percebeu a falta de sangue. Segundos depois, notou que a grossa camada de couro da máscara havia impedido a chegada do vidro à carne.

De qualquer forma, o assassino ainda não parecia ter percebido isso, pela forma como não parava de ir para trás, apalpando o próprio pescoço. Levaria pouco menos de trinta segundos para que ele arrancasse aquele estilhaço de si e notasse que não havia sido acertado. O choque da situação provavelmente faria a mesma coisa com qualquer um. Demoraria um tempo até que a pessoa notasse que não tinha sido ferida – ou que tinha sido, em outro caso.

Então, Peter usou daquele tempo para fugir. A primeira direção para qual virou foi a esquerda, na direção do prédio ofuscado pela escuridão e pela fina névoa que agora tomava as ruas. Os passos dele eram mancos e ágeis pela desorientação, acertando o asfalto num ritmo frequente e veloz, sem intenções de parar, seguindo na direção que os faróis piscantes do carro apontavam.

— Socorro! – gritou, olhando de um lado para o outro, mesmo que seus gritos fossem abafados pelo som alto do alarme. Com sorte, alguém se incomodaria com o barulho e chamaria pela polícia, ou viria por conta própria ver o que estava acontecendo. – Socorro!

Os olhos dele já miravam um ponto na lateral da construção, uma estreita passagem que o levaria para a parte de trás do prédio, mais especificamente para uma rua. O seu único obstáculo era um portão que ali havia. Mas de uma forma, era até melhor, pois teria mais tempo para prender o assassino e fugir. Não parou de correr, até se ver naquele lugar, cercado.

À esquerda, uma grade se estendia, a mesma que cercava todo o lugar, feita de hastes quadrangulares e acinzentadas, colocadas uma ao lado da outra com espaçamentos regulares, altas o bastante para que fosse impossível pulá-las. Do lado oposto, à direita, a parede do prédio de advocacia. E, por fim, a alguns metros à frente, o portão feito do mesmo material da grade estava colocado, limitando o final do corredorzinho.

— Alguém me ajuda! – suplicou, continuando seu caminho até o portão. – Socorro!

Quando finalmente bateu contra a superfície de ferro, a coisa toda chacoalhou em um som metálico. Do outro lado, a rua era exibida, vazia. Estava a um metro de sua liberdade. As mãos trêmulas de Peter alcançaram a fechadura, o corpo todo vibrando em ansiosidade. No segundo seguinte, ele parou, estático, encarando o grande cadeado que o impedia de continuar vivo naquela noite, todas as esperanças saindo de seu corpo.

Em tal estado de choque, Cambridge mal foi capaz de ouvir o som metálico vindo de trás de si, em uma sinfonia aterrorizante. Tink! Tink! Tink! Tink!

Virou-se rapidamente, encontrando o assassino percorrendo o beco em sua direção, em frente ao que seria a sua única escapatória do momento. O barulho era proporcionado pela faca do psicopata, que, esticada ao lado do corpo dele, acertava as hastes de ferro da grade. Batia em uma, chegava na parte vazia entre elas e atingia a outra. Tink! Tink! Tink! Tink! Tudo numa tentativa nada em vão de aumentar o terror no peito de sua vítima, andando a passos lentos na direção dela.

Peter, com a cara iluminada pelos faróis amarelos de seu carro ao longe e demonstrando o medo, virou-se novamente para o portão enquanto o som irritante do alarme enchia seus ouvidos.

— Socorro! – gritou, enquanto chacoalhava-o por inteiro, tentando abri-lo, talvez derrubá-lo. – Por favor, alguém me ajuda!

Deu uma última olhadela para trás, vendo o Carrasco mais próximo, antes de apoiar a perna entre as grades e tomar impulso para se levantar. A mão expelindo sangue raspou na parte enferrujada em uma dor agoniante, deixando uma marca espessa no ferro. Segurou com a outra mão também, continuando a subir. Era improvável que conseguisse passar para o outro lado, desde que a altura do portão era grande demais e ficar em cima das hastes pontudas poderia lhe render uma perfuração letal no estômago. No entanto, não custava nada tentar, e também o rapaz não estava numa situação com muitas escolhas além daquela.

Os sapatos escorregaram na grade por conta da umidade da noite, enquanto, ao fundo, o assassino se aproximava a cada segundo, a faca ainda batendo na grade, cada toque transformando-se em um arrepio diferente. Cambridge tinha os cabelos colados na testa e na nuca, suando frio a cada ação de seu corpo.

Estava quase atingindo o topo quando o mascarado avançou numa ação repentina, agarrando-o pelo casaco. Despreparado, Peter sucumbiu à força lançada sobre seu corpo, caindo de forma dolorosa no concreto abaixo ao que foi puxado impetuosamente. Sentiu o corpo todo tremer e vibrar em pontadas violentas, entortando-se todo no chão e gemendo de dor, de olhos fechados. A costa foi a parte mais afetada, queimando intensamente.

— Por favor… – suplicava para o assassino, sem ao menos encará-lo diretamente. – Eu não quero morrer… Me deixa em paz…– Seus gemidos de dor e inspiradas profundas eram frequentes.

Jogado ao lado da parede lateral do prédio, Peter tinha como ponto de visão as estrelas sobre sua cabeça, a única coisa bonita daquela noite. Em seguida, também foi capaz de ver o Carrasco, que se aproximou impiedosamente do corpo estirado no concreto, dando uma boa e final encarada de cima. Os olhos aguados de Cambridge encararam-no uma última vez.

— Por fa-

Seu pedido foi cortado quando algo o impediu de continuar. De frente às botas do maníaco, Peter não foi capaz de compreender o que exatamente havia acontecido assim que sua visão escureceu por completo e a dor pareceu mais forte do que nunca. No entanto, para quem visse de outra perspectiva, poderia entender a situação, assim que o Carrasco levantou uma das pernas, apenas para descê-la na direção da cabeça do rapaz no instante seguinte de forma brutal.

Houve um momento de silêncio em que todos os membros do estagiário tremeram ao primeiro chute, uma linha de sangue descendo pela testa aberta dele, junto de um estralo alto. Segundos depois, outra pisada violenta veio, acertando a cabeça de Peter em uma explosão vermelha que amassou parte de seu crânio. O corpo inteiro do garoto começou a sofrer espasmos desesperados e rápidos, como se estivesse em convulsão. Os dedos se entortaram para dentro das mãos, os pés debatiam-se. Ele vibrava por completo, mesmo que não fosse por vontade própria. Aquilo era a ação de seu cérebro já danificado pelas pisadas violentas.

Um novo golpe. O terceiro encontro da sola do coturno do assassino com o crânio exposto de Peter foi o bastante para matá-lo de uma única vez, quando uma quantidade significativa de sangue foi expelido pela parte de baixo da cabeça dele ao estourar, manchando o asfalto de vermelho. E entre os tremeliques do corpo, o membro amassado do garoto foi atingido mais uma vez, e mais uma vez, e mais uma vez pelos chutes impiedosos do mascarado, até que não passasse de um embolado de carne e sangue, com pedaços de seu cérebro espalhados por todo o concreto.

 

3

 

Archie começou a traçar seu caminho na direção de Megan, quando a mesma saiu pelas portas da delegacia. De cara fechada, o rapaz não aguentava mais o sofrimento de sua prima com a situação, e se ser grosseiro com a advogada fosse o necessário para saber se ela era culpada ou não, apenas para ver Jordana bem de novo, ele seria capaz de fazer isso.

Dessa forma, após algumas ligações trocadas, acabou descobrindo que Megan Steinfield havia sido levada para interrogatório após a morte de Peter Cambridge na noite passada. E agora, vendo que ela saía de forma livre da delegacia, Brammall percebeu que ela não foi acusada de nada e provou sua inocência. No entanto, Archie era esperto o bastante, e foi avisado pela prima, que o assassino sempre era esperto e conseguia o que queria.

Pela situação, para ele, a advogada era a principal suspeita, e seu único intuito era acusá-la verbalmente, até que a mesma fosse capaz de provar ser inocente.

— É inocente, então? – disse ele quando chegou perto o bastante, sério.

Megan virou a cabeça, surpresa pela aproximação repentina.

— O que você quer? – tornou ela, igualmente séria. Contudo, o tom de voz dela estava diferente, quase fraco. Era claro que tinha sentido a morte de Peter.

— Só vim falar com a assassina.

Por algum motivo, Archie queria muito descobrir quem era ou não confiável. Os dois começaram a atravessar a rua, andando de forma apressada enquanto o rapaz tentava acompanhar o passo da advogada. Ela, por sua vez, parecia não dar a mínima para ele.

— O quê? – perguntou ela, confusa. O ray ban tampava seus olhos inchados e vermelhos.

— Foi você, não foi? Matou aquele rapaz.

— Me deixa em paz, desgraçado – disse Megan, curta e grossa. – Não tô com saco pra aguentar essas porras de perguntas pela segunda vez.

— Mas mandou as mensagens para ele, não é?

Ela parou quando atingiram a calçada do outro lado. Levantou a cabeça, até atingir a altura dos olhos de Archie.

— Como sabe das mensagens? – perguntou a morena.

— Parece que não foi esperta o bastante em esconder seus rastros.

— Não, digo, como sabe disso, se essa informação não veio a público?

Brammall não respondeu imediatamente, encarando-a com a raiva esclarecida nos olhos. Um sorriso de lado surgiu na boca de Steinfield, enquanto ela percebia que tinha pegado-o de jeito.

— O Kai me contou – respondeu ele, a voz mais baixa. Estava nervoso. Entendeu o que ela tentava fazer. Na verdade, era a mesma jogada dele: tentava incriminá-lo de volta.

— Viraram amiguinhos agora?

— Tava explorando minha vida o bastante para saber quem são meus amigos?

— Me diz você, assassino. Cansou de ser bonzinho e resolveu mostrar sua verdadeira personalidade?

— Diferente de você, não é? É difícil acreditar que alguém pode ser realmente bom? Diferente de você, eu não preciso mentir.

— E eu devo acreditar nisso? – tornou ela. – Pensa melhor no que vai dizer antes de vir jogar merda na minha cara, seu bosta.

— Eu sei que você matou aquele cara.

— Nossa, então devo ser psicótica, não? Não lembro de nada, muito menos de você ter me ajudado a fazer isso… Estranho, né?

— Eu entendo o seu joguinho.

Megan revirou os olhos sob os óculos escuros, respirando fundo antes de dizer:

— Você é Archie Brammall, não é? O primo daquela louca que trouxe o assassino pra cidade, certo? – Ele estava começando a corar pela raiva. – Olha, amigo, em vez de vir dizer essas coisas pra mim, sem argumento ou razão nenhuma, por que não tenta convencer a sua priminha a sair da porra da cidade logo, hein? Já tá na hora dessa coisa acabar, e ela não tem intuito nenhum aqui além de fazer todo mundo morrer! Então é melhor você sair da merda do meu caminho e fazer alguma coisa para sua própria situação antes que seja o próximo a morrer.

— Inacreditável…

— O quê? A minha razão?

— A forma como você tenta fazer todo mundo se sentir um lixo, não percebendo a relação que isso tem com a sua existência de merda aqui na cidade.

— E você é quem mesmo para falar essas porras todas pra mim, mesmo? O cara que chegou na cidade do nada, logo quando os assassinatos começaram a acontecer? E que também parece ter se sentido inspirado em vir tentar me acusar de alguma coisa quando o alvo principal de suspeitas está nas próprias costas? E que talvez quisesse estabelecer uma relação comigo antes de me matar? É isso o seu objetivo? Afinal, provavelmente o assassino gosta que suas vítimas o conheçam, e me parar do nada no meio da rua pra começar a me acusar é realmente uma ótima forma de me fazer prestar atenção em você.

Archie apenas ficou parado, sem argumento, enquanto via Megan dar meia volta e ir em direção ao seu carro. Sua tentativa foi falha, afinal. Steinfield era uma mulher dura de lidar, e Brammall não estava preparado para isso. Estava um pouco arrependido, de certo modo. Aquela conversa não serviu de nada, além de fazê-lo parecer um suspeito. Deveria ter se informado mais, ou apenas ter ficado na sua. Mas a raiva em relação ao causador do sofrimento de Jordana o fez dar um passo maior que sua própria perna, e agora estava ferrado.

— Como explica as mensagens? – perguntou, fazendo-a virar uma última vez.

— Você deveria saber. Afinal, foi você que roubou meu celular, não é? Tenho quase certeza de que foi o assassino. – Deu uma pausa. – Agora, pode parar de tentar dar uma de espertão, antes que eu volte para aquela delegacia e diga que você está me ameaçando… E também todas essas coisas que te incriminam.

Ela virou-se e começou a caminhar para longe dele, indo até o automóvel estacionado na guia. Raivoso, Archie a encarou.

— Todos sabem que foi você! – gritou quando a advogada se distanciou bastante, abrindo a porta de seu carro. Algumas pessoas ao redor olharam, assustadas. A face de Archie, assim como sua entonação, deixaram claro que ele disse aquilo apenas para tentar expelir uma frase de efeito boa antes de terminar a discussão.

— Vai se foder! – berrou ela em retorno, antes de entrar no carro, apontando o dedo do meio para ele.

Brammall viu o momento em que ela deu a partida e acelerou pela rua.

 

4

 

Debruçada sobre o vaso sanitário, Sam abria a boca para expelir mais uma enxurrada de vômito amarelo e consistente, quase transparente de tanto que o ato havia se repetido até aquele momento. Já estava de estômago vazio, mas não conseguia parar de regurgitar. Toda vez que se lembrava da noite passada, do gosto adocicado de carne humana em sua boca, da maciez borrachuda da carne, e do vídeo enviado para o seu celular apenas segundos antes de perceber que estava comendo os restos do braço de Molly, Winters era impedida de controlar o próprio corpo, impedida de não botar tudo para fora. Chegava a ser assustador a forma como o ato tornou a ser frequente.

Com uma camada de lágrimas cobrindo os olhos – não por conta da situação passada, e sim por apenas ser um sintoma da acidez na boca (não se engane, a quantidade que ela vomitava naquele instante não chegava nem perto da quantidade de lágrimas que haviam saído de seus olhos o tempo todo, do momento em que começou a gritar até o momento em que caiu no sono por conta de todos os remédios para dormir que tomou) –, a loira sentia a boca amarga, olhando por alguns segundos para dentro do vaso, onde a água cristalina se tornou grossa e amarelada, e então levantou a cabeça assim que um trovão ricocheteou ao longe, iluminando o banheiro pela janela descoberta por conta da claridade de um relâmpago que veio acompanhado a ele.

A menos de dez passos da artista, Ellen estava apoiada no batente da porta, encarando a situação toda com uma expressão esclarecida do puro nojo. No entanto, ainda sentia pena da amiga, mesmo que fosse impossível não entortar o nariz a cada onda de odor azedo que invadia o ambiente. Também, não gostaria de ser o tipo de amiga que deixava a outra na mão, e a fazia companhia naquele momento tão precário de sua vida apenas por suporte emocional, um ombro amigo no qual Sam poderia chorar se quisesse.

Estava ali a mais de meia hora, e Winters tinha feito apenas quatro ou cinco intervalos de dois minutos entre uma vomitada e outra. Chegou ao ponto de Ferrer começar a se preocupar com a condição física dela. Se não parasse de regurgitar logo, poderia ter sérios problemas estomacais no futuro, podendo até mesmo ser hospitalizada por isso

— Acha que vai parar de vomitar logo? – perguntou a psicóloga, tentando soar o mais gentil possível, olhando-a de cima, os braços cruzados sob o suéter cinza.

Sam virou a cabeça e a encarou com uma face um pouco raivosa, como a de um bêbado que acabou de ter a bebida arrancada de sua boca por alguém que quer impedi-lo de beber mais.

— Eu não aguento mais isso… – lamentou a mulher, relaxando ainda mais sobre o vaso, sem ao menos se importar com a quantidade de germes que cobria seu corpo a cada segundo. Os pés dela estavam jogadas no azulejo gelado do chão, descalços. Um dos braços serviu de apoio para sua cabeça, quando a mesma deitou sobre ele. O outro jazia caído ao lado do corpo.

Ellen não a respondeu. Era estranho para ela não saber o que dizer. Mesmo que ainda fosse uma psicóloga e ainda atendesse seus pacientes diariamente, era como se todo o seu potencial como uma estivesse preso entre as quatro paredes de seu escritório.

Apenas ficou olhando-a com pena. Ela pensava o quão horrível tinha sido a situação para a amiga, nem mesmo conseguindo pensar no que teria feito caso estivesse no lugar dela. Isso, mesmo que tivesse certa ideia de como Sam estava se sentindo no momento. Não estava triste, era algo mais como medo, temor. Estava assustada, sem dúvidas. Assustada por algo que jamais pensou que aconteceria consigo, que jamais pensou caber dentro da cabeça de uma pessoa, não importava o quão louca seja ela. Também, Ellen tinha quase certeza de ver certa raiva no interior dos olhos dela.

— Eu não vou mais me esconder – continuou Samantha.

Ferrer ficou em certo alarde, apertando os próprios braços. Preocupada, perguntou:

— O que quer dizer com isso?

— Comer carne humana foi a pior experiência que já me aconteceu… Mas também me mostrou que não adianta nada ficar me escondendo, fugindo… – Winters suspirou fundo. – Eu vou parar de fazer isso. Não quero viver dentro de uma caixa.

— Isso é perigoso, Sam – respondeu Ellen, ainda mais preocupada com as palavras da outra, temendo uma ação grande demais por parte dela. Uma que, talvez, a colocasse em perigo. – Do jeito que estamos, nessa situação, ficar desprotegida pode acabar te matando.

Os olhos da loira depositaram a atenção na cara de Ferrer.

— Eu não me importo, Ellen – disse Sam. – Não tenho medo de morrer… Já perdi tudo que tinha. Não sobrou mais nada nesse mundo que valha a pena lutar.

— Não diga isso… – tornou, alarmada, mas calma. – Você ainda tem a mim, sua família, seus amigos… Todas essas pessoas que te adoram. O que aconteceu foi horrível e você está claramente traumatizada, mas não é por isso que deve desistir da sua vida… Da sua segurança.

— O Lincoln está morto. Morreu sem que eu ao menos tivesse a chance de me despedir. Ele foi o único homem que eu já amei na minha vida, Ellen. Era por ele que eu acordava todos os dias, e era por mim que ele acordava… – Desviou o olhar, balançando a cabeça de um lado para o outro, enquanto mais lágrimas uniam-se aos olhos com as lembranças de seu noivo. – Não tem porquê continuar lutando se a pessoa que eu mais queria, nunca mais vai poder voltar.

Winters encarou a aliança em seu dedo, a mesma que seu amado um dia colocou, e que ela nunca mais tirou. Nem mesmo agora, que ele havia morrido.

— Por favor, Sam, não diga mais essas coisas. É bobagem – Ellen disse. – Você precisa permanecer forte, lutar como todos nós. A gente vai conseguir acabar com isso, eu tenho certeza. Eu te prometo.

— Não se pode prometer nada nessa vida – respondeu. – Se morrer for a única coisa que vá me levar a reencontrar Lincoln, então eu estou de braços abertos para a maldita morte.

Ellen respirou fundo, olhando para outra direção quando as palavras lhe atingiram como facas pelo corpo. Mais um relâmpago brilhou ao longe, um trovão retumbou. O céu estava coberto de nuvens negras. As trevas vinham para cobrir Oakfield.



Notas finais do capítulo

Parece que o jogo acabou para o Peter (sorte dele ou não?). Por favor, deem suas opiniões sobre a morte dele, o que acharam da perseguição, tudo isso haha Foi uma morte bem violenta, então espero que tenha agradado vocês! Em relação à Megan, acreditam nessa teoria de que o celular dela foi roubado? Ou acham que Steinfield é só mais uma assassino cruel? E a Sam? O que podem me dizer dela? Uma decisão arriscada ou entendem o ponto dela? Acham que vai fazer alguma coisa drástica e perigosa para seu futuro?
Me contem suas opiniões, teorias, reviews... Adorarei ler tudo isso! Até a próxima, galera!



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