Hello There 2 escrita por Lucas André


Capítulo 16
S02EP15 – The Beast Within


Notas iniciais do capítulo

A Besta Entre Nós

A emboscada do assassino contra Emily acarreta uma séria de fatos na sobrevivente, que em um momento de raiva busca, com a ajuda de Jordana, pelo responsável da vez. Olivia acaba se dirigindo à Molly e surpreendendo-a com uma proposta perigosa.



A janela aberta à direita de Peter deixava que o rapaz tivesse uma boa visão de todo o quarto, que era tão branco quanto a esclera de seus olhos. A luz entrava de forma fraca, tão fraca que partes mais baixas estavam impossíveis de ser iluminadas, criando uma espécie de nuvem negra que se destacava em relação ao restante do cômodo. Do lado paralelo à janela, estava a porta, circundada por paredes brancas e lisas. A mesma era feita de vidro, sendo arrastada para o lado para ser aberta, e dessa forma dava para ter uma boa visão de uma grande bancada de madeira do lado de fora do quarto, onde algumas enfermeiras estavam dispostas. E diante de Cambridge, havia a maca retangular que sustentava o corpo ainda desacordado de Garrett.

O rapaz estava parado ao lado dele, com os braços apoiados na beirada do colchão, apenas encarando-o. No ombro de DeLucca, estava a grande bandagem tampando seu ferimento: um tiro de pistola, desferido por Emily na noite anterior. O curativo tomava toda a extensão do ombro largo do tatuador, chegando quase ao cotovelo, e dessa forma, tendo que deixá-lo sem camisa para análises futuras do local, exibindo o peito um pouco cabeludo de Garrett. Da barriga para baixo, um cobertor fino e verde o tampava, sendo possível ver, por baixo dele, as pernas esticadas do paciente. Os olhos fechados do moreno deixavam-no com uma expressão calma, como se estivesse somente dormindo, a cabeça virada um pouco para o lado.

No braço esquerdo de Garrett, uma agulha fina interligava-o a um saco de soro, pendurado ao lado da maca por um suporte metálico. Ali, uma enfermeira uniformizada injetava algum tipo de medicamento no saquinho pendente através de uma seringa. O soro translúcido tornou-se amarelo por alguns segundos, então voltou a ficar transparente.

Peter deu uma olhadela para ela assim que a mesma se virou, pegando os itens deixado sobre a mesinha ao lado e preparando-se para sair. No entanto, ao notar a forma como foi encarada e perceber o estado parcialmente catatônico do rapaz, disse enquanto dava um sorriso com o canto dos lábios, não chegando a mostrar os dentes:

— Não se preocupe, ele vai ficar bem.

Cambridge levantou os olhos e sorriu para ela, não dizendo nada, e então a mulher saiu dali, deixando a porta aberta.

A enfermeira estava com razão ao notar as feições do estagiário, afinal, mantinha um pouco de suor na testa e os olhos marejados de quem se vê com mais nenhuma opção na vida. Aquilo tudo, causado pela preocupação por DeLucca, sendo que os dois eram melhores amigos desde que Peter se entendia por gente e uma das poucas pessoas pelas quais o mesmo dava toda a sua confiança e lealdade, mesmo que as leves discussões casuais acontecessem – elas também, de nada mudavam.

Poderia, naquele momento, estar odiando Emily pelo que havia feito, mas, por algum motivo, compreendia a história dela e não a culpava. Talvez fosse inocente demais, assim como era com a maioria das pessoas. Contudo, não quis pensar em coisas ruins naquele momento, apenas rezar pelo bem-estar do tatuador. Aliás, não haviam tantos motivos para que ficasse daquele jeito, desde que, assim como dito pela enfermeira segundos antes, Garrett ficaria bem. Havia perdido muito sangue antes de ser resgatado pelas ambulâncias, mas ficaria bem, além de tudo.

Virou a cabeça para a esquerda, mais uma vez encarando, pela porta de vidro deslizável aberta, Emily e Ellen do lado de fora do quarto hospitalar, conversando com um policial.

 

1

 

Hayes estava inquieta naquela posição onde foi colocada, tentando ocultar os fatos que só piorariam toda a situação. Para sua sorte, o homem fardado à sua frente parecia apenas focar a interrogação em si mesma, já que foi a autora do tiro, o que era bom, desde que a sobrevivente não tinha tanta certeza de que Ellen, ao seu lado, conseguiria deixar as suspeitas de lado e tirar o fato de ter um assassino mascarado na casa na noite passada.

Isso foi uma coisa que Emily havia aprendido com o antigo massacre: se as autoridades ficassem sabendo do nível de perigosidade do serial killer, ele ficará estimulado a matar mais e mais. Dessa forma, diante daquele homem barbado e magro, a garota tentava fazer seu melhor trabalho em tirar o Carrasco da história, contando uma versão bem mixuruca dela.

— Sim, estavam eu, Ellen e Garrett na casa, ontem a noite – disse, tentando manter a calma, respondendo a uma pergunta anterior do policial.

Na mão do tira, um bloquinho de notas era alvo das fortes roladas da caneta esferográfica, que deixava sua marca de tinta sobre o papel branco, fazendo anotações. Ao seu lado, Ellen segurava as próprias mãos, desviando o olhar do homem quando ele a encarava, e focando sua atenção nas enfermeiras e médicos que passavam à sua volta.

Estavam no hospital pois haviam ido até lá após chamarem a ambulância, então o policial foi chamado para conseguir o depoimento das duas, já que não tinha sido um simples acidente, e sim alguém atingido por um tiro. Emily deveria provar sua inocência sobre o fato de não ter atirado de forma proposital.

— E que horas era isso, aproximadamente? – perguntou ele.

Hayes pensou por alguns segundos, respondendo:

— Ah, era cedo… Por volta das nove da noite.

— O que houve, depois? – tornou o policial.

Revirou os olhos disfarçadamente. Seria a segunda vez que repetia o ocorrido.

No entanto, antes que pudesse dizer alguma coisa, Ferrer se pronunciou ao seu lado, para a surpresa dos dois.

— Estávamos conversando – disse ela. –, e eu subi para tomar banho, deixando os dois no andar inferior.

O problema da situação era que Emily achava que Ellen não era uma mulher tão esperta assim, estando completamente errada contanto a isso. A especialização da mulher limitava-a a ter relações muito pessoais com seus pacientes, e a forma que a loira achava para escapar dessas situações era fingindo estar indiferente a situação. Em outras palavras, fazia com que pensassem que ela não estava sentindo o que realmente sentia. Usou dessa tática naquele momento, deixando de ficar nervosa para soltar as palavras, ludibriando o oficial facilmente.

Hayes olhou para ela, voltando-se para o outro.

— Isso, e depois de um tempo o celular do Garrett apitou – completou a morena, dando uma pequena olhada para o lado, onde avistou DeLucca sobre a maca e Peter ao lado dele. Engoliu em seco, sendo abalada, mais uma vez, pela culpa. – Ele disse que era da tatuadora, que o alarme de segurança havia sido ativado. Então, ele teve que ir até lá, deixando eu e a Ellen sozinhas na casa.

— Certo… – disse o barbado. – Então ele saiu para ir até a tatuadora, do qual é o dono? – Concordaram com a cabeça. – Vocês ficaram sozinhas em casa e… Foi quando aconteceu? – Novamente, balançaram a cabeça positivamente. – O que aconteceu? – Obviamente ele já sabia, só queria saber se a história não seria distorcida ao ser contada pela segunda vez.

Emily pensou e pensou, tentando não se esquecer de nenhum ponto importante. Se falhasse ali, o oficial poderia concluir que havia baleado o moreno propositalmente, e poderia ser presa.

— Depois que ele saiu – começou. –, eu fui para o quintal dos fundos para fechar a cerca da casa, que havia deixado aberta, e acabei por derrubar uma escada quando estava voltando. – Deu uma breve pausa. – A coisa caiu sobre a caixa de força ao lado da porta dos fundos e apagou todas as luzes da casa. Eu tentei concertar, mas estava saindo faíscas e fiquei com medo de levar um choque. – Podia sentir o olhar de Ferrer em si, encarando os olhos do homem. – Então, eu decidi voltar para dentro e chamar por um eletricista ou coisa assim, mas quando estava passando ao lado da porta do porão… Eu ouvi alguns barulhos estranhos e pensei que poderia ser um invasor, sabe? A porta dos fundos havia ficado aberta enquanto eu estava do lado de fora, e eu achei que alguém poderia ter entrado.

“Aí, com toda a situação da cidade, eu fiquei assustada e subi para o andar de cima, onde peguei a arma que eu legalmente tenho – Deixou claro que tinha os direitos sobre a pistola. – e chamei por Ellen. – Deu uma olhadela na psicóloga, que concordou com a cabeça de forma que o rapaz não percebesse.

— E onde a senhora estava nesse tempo todo, Srta. Ferrer? – O policial olhou para ela.

— Tomando banho, como já citei – respondeu, a voz mansa. – Mas… Quando a luz apagou, eu fiquei assustada pelo mesmo motivo que a Emily… A situação de Oakfield e tudo o mais… E como eu não escutei mais ela, corri para fora do banheiro e me tranquei no meu quarto, só saindo quando ela veio me chamar.

— Hm – concordou ele. – Entendido… Prossiga.

A sobrevivente coçou a garganta, então continuou:

— A gente começou a descer, com a intenção de sair pela porta da frente… E realmente fizemos isso, mas… Na hora em que eu abri a porta… Carregada de todo o medo e o receio de que pudéssemos estar em perigo… Eu me assustei quando vi uma figura, oculta pelas sombras, vindo na minha direção pela varanda da frente. – Suspirou fundo. – Eu não pensei direito, só disparei. Quando fui ver quem era, percebi que era o Garrett, provavelmente voltando da tatuadora.

Aproximando-se do fim, o policial encarou-a com força. Hayes disse:

— Foi quando chamei as ambulâncias.

Voltou a encarar DeLucca, a face de cenho franzido expressando sua preocupação. Talvez a sobrevivente nunca tivesse se sentido tão culpada, ou, pelo menos, não lembrava-se tanto assim do sentimento – tirando o fato de ter causado um massacre e o fatídico fim de algumas pessoas. Mal conseguia se segurar ali, querendo logo se aproximar do tatuador e implorar para que ele acordasse logo, implorar para que ele a perdoasse. Não sabia como havia se posto naquela situação, mas sabia que era horrível. Tinha medo de que ele, e até mesmo Peter, a culpassem eternamente e se afastassem de si, servindo como mais um jogo do assassino sobre consequências.

E para aumentar ainda mais o azar de Emily, ela ao menos tinha trocado uma palavra com Garrett desde o incidente. Ele já estava desmaiado quando se ajoelhou ao lado dele e começou a usar as mãos para estancar o ferimento, provavelmente por causa do choque. Depois, o seu estado desacordado se prolongou pela perda de sangue.

Era indescritível a forma como ela havia se sentido arrependida quando disparou a arma, assim como o choque e o medo do que aconteceria consigo e com os outros ao seu redor, incluindo o baleado.

Suspirou profundamente novamente, não se dando conta de que o policial já havia partido.

 

2

 

Molly sentou-se sobre o sofá de sua casa, acomodando-se para assistir um pouco de TV. Por suas feições, podia-se notar que, talvez, a garota sorridente e alegre de antes jamais voltaria. Ela estava mudada para sempre desde as acusações e o fato de ser um alvo do assassino mascarado, e isso ficava explícito na seriedade da garota, que ao menos forçava-se em colocar um sorriso na cara, nem mesmo levantar um pouco o canto dos lábios por achar graça de uma piada ruim contada por um dos personagens do programa que passava no aparelho à sua frente.

A casa dela era bem mais modesta do que a das sobreviventes, destacando-se por isso naquele extenso bairro. Ficando a três residências do lar de Emily e Jordana, a casa de Merriman tinha apenas um andar e quatro cômodos, sem necessidade de ser maior, desde que morava sozinha ali. A sala não era separada da cozinha, de forma que, atrás da garota, era possível ver o fogão, a geladeira, a pia e os armários que compunham-na, com uma mesinha pequena e circular entre as duas coisas. Na sala, apenas um sofá, uma poltrona e a estante da TV, sem nem uma mesinha de centro para enfeitar o local. À sua direita, a passagem que levava até a sala de jantar, e seguindo na mesma direção, rente a esse cômodo, estava o corredor que levaria ao seu quarto e ao banheiro.

Respirou profundamente, indiferente, parecendo entediada. Não tinha nada para fazer naquele dia, e isso piorava pelo fato do supermercado onde trabalhava ainda não ter sido liberado pela polícia. Assim, estava sem ir trabalhar temporariamente, sendo uma coisa que ela não gostava nada, desde que ser caixista era a sua única fonte de dinheiro e, até mesmo, de ter algo para fazer e não ficar se empanturrando de comida dentro de sua casa.

Aliás, o emprego parecia ter mais importância desde que se deu conta de que algo de errado estava acontecendo, que um perigo antigo havia retornado para Oakfield. Nunca foi uma pessoa que se liga ao perigo, sempre tentando atrair positividade e otimismo para a sua vida e para a vida dos outros ao seu redor, então estar sendo caçada por um serial killer ficava extremamente longe disso. Assim, Molly ficava, além de assustada, bastante estressada. Já havia começado a notar que a quantidade de cabelo que caía de sua cabeça durante o banho era maior, sendo sinais disso.

E sentada ali, de pernas cruzadas, com a bochecha apoiada no punho fechado das mãos, Merriman não podia deixar de pensar no assunto. Não se pode dizer que foi para a sua sorte ou para seu azar, mas as notícias do tatuador ter sido baleado por Emily ainda não haviam chegado aos seus ouvidos. Era desconhecido a forma como ela reagiria à situação.

De repente, teve a atenção desviada para seu celular, colocado logo ao seu lado, sobre uma das almofadas do sofá. Estava tocando e vibrando, com a tela virada para baixo. Por algum motivo, como já dito anteriormente, mais uma vez a morena foi atacada por aquele sentimento de negatividade e pessimismo, e a primeira coisa que cruzou a sua cabeça era que aquela era uma ligação do assassino. Por isso, sentiu um arrepio tomar seus braços e o sangue parecer, de repente, deixar de circular sobre suas veias. Estava apavorada.

Exitou por alguns segundos antes de tomar coragem para agarrá-lo, ao menos se movendo. Molly sabia o que aconteceria depois da ligação, caso realmente fosse quem pensava. Pensou em não atender, mas notou que, caso assim o fizesse, não teria a chance de prever os passos do mascarado e acabaria em uma vala, sem ter a chance de lutar por sua vida. Dessa forma, pegou o aparelho, suspirando de alívio ao perceber que não era o assassino.

No entanto, o remetente a deixava curiosa. Não era alguém que ela mantinha tanto contato assim e que, para falar a verdade, havia dado fora da cidade a algum tempo.

Passou o dedo pela tela, atendendo.

— Alô? – perguntou.

Alguns segundos se passaram, até que uma voz feminina surgiu na linha:

— Molly? Oi, sou eu… – disse Olivia, para a surpresa da caixista.

Estava curiosa. Por que Olivia Ree estaria ligando para si após ter deixado a cidade num ato de covardia que deixava claro a péssima pessoa que era, abandonando seus problemas e deixando para trás aqueles que ainda tinham um pouco de senso na cabeça?

Mesmo com certo receio e raiva da garota, não demonstrou esses sentimentos, dizendo:

— É, sou eu… – Deu uma pausa, e quando nada veio do outro lado, como se a asiática pensasse estar fazendo a decisão correta, continuou: – Olivia, nossa, onde você tá? Tá todo mundo preocupado com você… Não deu notícias nem nada… – Generalizou exageradamente, mas não se importou, de qualquer forma.

— Eu sei, eu sei… Sinto muito por isso, mas… – A voz dela era fraca, parecia estar arrependida ou triste, ou até mesmo assustada. – Eu não sei… Só… Eu só tive que ir embora, não me sentia segura aí em Oakfield…

— Você saiu do nada, sem ninguém ficar sabendo… Eu fiquei surpresa, para falar a verdade.

— Bem, essa era a intenção. – Ree deu uma risada fraca. – Se ninguém notasse, isso significaria que o assassino também não me notaria, então… É, foi isso mesmo…

Aprumou-se no sofá, preparando para o possível início de uma longa conversa. No entanto, realmente queria aquilo, queria saber sobre a situação de Olivia. Estava curiosa por ela.

— Mas você está bem? Onde você está? – perguntou, encarando um ponto da parede.

— Sim, sim… Eu estou ótima aqui, Molly… Me sinto realmente segura agora. – A frase terminou nisso, e Merriman notou como ela limitava-se a dizer sua localização.

— Me sinto mais aliviada – disse, não que fosse totalmente verdade. – E… Por que me ligou?

Mais alguns segundos de silêncio, até que a garçonete disse:

— Bom… Mesmo eu estando segura, não consigo parar de pensar em vocês aí… – Coçou a garganta. – Estou com muita saudades, sério, e acho que deveriam fazer a mesma coisa que eu, para ficarem longe do perigo.

Nós não fomos tão frouxos que nem você, pensou para si mesma, não dizendo.

— Mas esse não é ponto – continuou Ree. – O que eu quero com essa ligação é dizer que, não importa o quão segura eu esteja aqui, eu sei que o assassino vai dar um jeito de me encontrar.

Molly engoliu em seco, voltando a ficar receosa. Não esperava por aquilo, e o fato da amiga estar tendo tais pensamentos a deixou surpresa.

— Como assim? – questionou.

— Por algum motivo, eu tenho esse pressentimento de que vou ser encontrada por já ter sido escolhida como um dos alvos e… – Ela suspirou fundo. – Talvez algo de ruim aconteça.

— E o que pretende fazer, então?

— Foi por isso que eu liguei para você, Molly. Eu vou dizer onde eu estou, mas tem que me prometer que não vai contar para mais ninguém, tá?

A morena pensou muito antes de dar uma resposta. Se Olivia diria sua localização para si, poderia estar correndo um risco maior ainda, mais do que já corria, pois se o assassino soubesse que ela, Molly, tinha essa informação, poderia vim atrás de si para buscá-la, e, com certeza, não seria de uma forma amigável. Era uma responsabilidade muito grande, obviamente, e talvez não quisesse aceitar o risco. Contudo, não deixou de pensar no fato da asiática ter ligado especialmente para si, deixando claro que a outra mantinha uma certa confiança sobre sua pessoa, o que era admirável.

Engoliu em seco.

— Tá… Tudo bem… – A voz falhou ao que aceitou o acordo, pensando que se arrependeria mais tarde. No entanto, seria um risco preciso, pois, além de tudo, Merriman gostaria de salvar Olivia caso uma situação como a citada por ela surgisse. – Mas… Por que vai me dizer isso?

— Eu tenho um tipo de plano – respondeu Ree, parecendo mais empolgada, mas, ao mesmo tempo, mais temerosa. – Venho pensando nele desde que saí daí de Oakfield, e não tenho forma nenhuma de saber se ele vai funcionar ou não… Mas para ele ter chance de dar certo, eu preciso que mais alguém participe… E é aí que você se encaixa, Molly.

— Que plano?

— Você seria meu plano de fuga, Molly. Caso eu note qualquer sinal de perigo ou ameaça, ou se você perceba que, de alguma forma, eu esteja ameaçada, você viria até aqui para me resgatar. Eu sairia com um carro que aluguei e nós nos encontraríamos em algum lugar, sei lá… – Deu uma pausa. – Eu estou completamente sozinha nesse lugar, e não vou conseguir me salvar sozinha. – A voz de Olivia passou a ser um pouco chorosa.

Molly fechou os olhos por alguns segundos, tomando sua própria respirada profunda. Era algo extremamente arriscado, e ainda continha muitas falhas e pontas soltas.

— Tá, mas e depois disso? Para onde a gente iria? – tornou.

Ree pensou por alguns segundos do outro lado da linha, respondendo:

— Poderíamos despistar o assassino, até mesmo desmascará-lo.

— Mas que garantia temos de que ele não vá matar nós duas?

Mais segundos de silêncio se prolongaram. Olivia parecia perceber que o plano imaginado não era tão bom quanto pensava.

— Nós não temos, Molly – disse. – E esse é um risco que nós duas iríamos correr… Principalmente você, se aceitar me ajudar.

— Certo, então eu te resgataria aí e nós duas fugiríamos para algum lugar longe de tudo isso? Igual o que você já fez?

— Foi isso o que pensei, mas…

— Nada deixa claro que o assassino não nos encontre de novo, e para ser franca eu não quero abandonar os outros, Olivia… Você não está aqui, não sabe como está a situação da cidade… – Suspirou fundo. – A coisa tá feia…

— Molly, eu já entendi! – A asiática pareceu ficar um pouco irritada, mas a voz continuava como se estivesse prestes a chorar. – Eu já disse, se não quer participar disso, é só dizer, que eu encontro outra pessoa! Eu só… – A voz voltou a ficar mansa. – Só não consigo fazer sozinha, preciso de alguém para me ajudar… Por favor…

Pensou por mais algum tempo.

— Por que eu? – perguntou, curiosa.

— Porque… Porque eu confio em você… – respondeu a outra. – Talvez você não se importe tanto, mas eu realmente considero a nossa amizade e… Eu confio em você, Molly.

Não deixou de se sentir um pouco agradecida. Estava lisonjeada e até um pouco emocionada com as palavras de Ree. Não esperava por algo como aquilo.

Por fim, Merriman balançou a cabeça positivamente para si mesma, respondendo:

— Tudo bem, então… Eu aceito, Olivia.

Um suspiro de alívio foi ouvido do outro lado.

— Okey… Então… Você não pode contar para ninguém sobre isso, sobre nada disso, Molly… Eu só te chamei para isso pois realmente confio em você e acho que vai conseguir guardar esse segredo… – Uma pausa. – Eu quero voltar a me sentir segura, então, por favor, deixe isso somente entre a gente.

— Eu vou – disse, dizendo para si mesma que guardaria o segredo.

— Certo… Então, você realmente está preparada para fazer isso, né? – tornou a asiática, deixando a morena um pouco irritada pela enrolação. – Quando eu te disser onde estou, é um caminho sem volta.

— Estou, Olivia. Pode dizer.

Uma nova pausa surgiu, até que a voz da garota disse:

— Bem, eu estou em uma cidade chamada Capeside, fica a alguns quilômetros de Oakfield.

Molly virou-se para o lado, encontrando a pequena escrivaninha ao lado do sofá. Enquanto Olivia ainda falava em seu ouvido, estendeu os braços e abriu a primeira gaveta, de onde tirou um caderninho e uma caneta, começando a anotar as informações dadas com voracidade.

— Estou hospedada no New North Hotel, no quarto 180.

— Certo… Anotei tudo.

— Tudo bem, então… – Olivia parecia nervosa. – Obrigada, Molly… E fique ligada a qualquer sinal de perigo, assim como eu também vou ficar.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, a ligação foi encerrada, e Merriman deixou o celular de lado novamente, encarando as informações escritas no caderninho em suas mãos e pensando, mais uma vez, se havia feito a escolha certa.

 

3

 

As pálpebras fechadas de Garrett vibraram por alguns instantes, como se ele movesse os olhos sob elas, até que lentamente começaram a se abrir. A face relaxada dele tornou-se enrugada em certos pontos, principalmente no cenho, que se tornou franzido, assim que a luz solar vinda da janela ao lado atingiu os olhos acostumados com a escuridão. Os lábios vermelhos abriram-se um pouco e a língua se moveu dentro da boca, fazendo-o o perceber como estava seca, de forma que uma sede gigante tomou conta de seu corpo. As narinas sentiram o enjoativo cheiro do interior de um hospital, e passou-se poucos segundos até que ele pudesse se localizar.

— Hm… – grunhiu fracamente.

Tentou levantar um dos braços, sentindo-se extremamente tonto e dolorido, como se tivesse acabado de correr uma dúzia de maratonas, mas uma fisgada violenta o fez cessar a ação, voltando o membro, agora endurecido, de volta para o colchão macio de uma maca hospitalar. Foi incrível a forma como levantar o braço por menos de cinco centímetros fez DeLucca sentir uma das piores dores de sua vida, e isso fez com que ele começasse a investigar suas memórias numa tentativa de lembrar-se o que havia acontecido, e porque não lembrava-se muito da noite passada.

A primeira imagem que veio em sua cabeça foi a de Kai completamente alcoolizado em sua tatuadora, após ter invadido-a. Lembrava-se também de como ficou triste por alguma coisa que ele disse, um pouco revoltado até, não lembrando-se exatamente o que era. Após alguns milésimos de segundos, teve um estalo. Ah, sim, Zoe está morta, pensou para si mesmo. A mesma Zoe que estimulamos a não ligar para o assassino no mesmo dia em que foi morta. Engoliu em seco, sentindo uma sensação estranha tomar o corpo. Deveríamos ter estimulado mais.

Depois daquilo, recordou-se de levar o policial embora e ficar por alguns minutos com ele no apartamento do mesmo, até que Conway caísse no sono. E foi o que realmente aconteceu. Após isso, havia voltado para a casa de Emily. Verdade, eu deixei ela e a Ellen sozinhas. Mas essa parte de sua memória parecia corrompida, como se fosse uma fita cassete que teve a fita queimada em uma parte, de forma que, quando fosse colocada para ser assistida, o filme pararia em certo momento e os telespectadores teriam de se contentar apenas com o que tinham acabado de ver.

No entanto, um único resquício ainda sobrava em sua mente: estava andando pelo gramado da frente da casa das sobreviventes, e lembrava-se que tinha pensado duas vezes antes de ir até a porta pois a residência toda estava escura. Então pensou que elas, talvez, tivessem ido dormir e que Archie e Jordana houvessem finalmente chegado. Contudo, por algum motivo, talvez pela preocupação do momento, continuou indo até lá, e quando chegou na varanda a porta se abriu e de repente um brilho alto surgiu em sua frente. Não foi capaz de ver o autor da luminosidade e ao menos teve chance de perceber o motivo dela ter sido causada.

A única coisa que pôde ver além daquilo foi uma silhueta por trás da forte luz que surgiu momentaneamente e o pensamento de que poderia ser o disparo de uma arma. Recordou-se de pensar que Emily e Ellen poderiam estar em perigo, e que aquele era o assassino mascarado. Após isso, havia acordado ali, com o medo criado após as lembranças de que poderia ter sido acertado por um possível disparo. Por alguns segundos, chegou a pensar que poderia ter estado de coma por muito, muito tempo, e que nenhum de seus amigos havia sobrado vivo.

Um leve desespero aflorou-se em seu peito, mas isso mudou quando torceu a cabeça para a esquerda, percebendo a figura humana que estava sentada em uma das poltronas do cômodo. Reconhecia perfeitamente aqueles cabelos devidamente ajeitados com gel e o terninho usado, assim como a pasta preta e pesada que havia sido deixada encostada ao lado, ao pé do assento. Ficou um pouco mais aliviado, mas, de uma forma ou de outra, continuava preocupado com sua situação atual e com a das mulheres que havia deixado na casa na noite passada.

— Peter… – chamou, a voz fraca e falhando. A garganta doeu e coçou com uma intensidade gigante, que o fez franzir ainda mais o rosto, incomodado.

Com a cabeça encarando o chão, Cambridge foi atingido pela voz leve que repercutiu fracamente pelo quarto hospitalar. Levantou o olhar com rapidez e observou a forma como Garrett, acordado, olhava para si com uma expressão de cansaço. As olheiras sob os olhos e a forma como os lábios se apresentavam rachados deixavam claro o quão esgotado ele estava. Também, como parecia tomar cuidado para não mover muito o corpo, Peter constatou que estava sofrendo muitas dores. De qualquer jeito, o fato do melhor amigo ter acordado foi o bastante para fazer um sorriso se formar em seu rosto.

O moreno levantou-se, animado, feliz em ver que o tatuador estava bem, afinal. Deu alguns passos na direção dele. DeLucca ainda o encarava com aqueles olhos sofridos, esperando por algumas respostas.

— Garrett, oi… – disse. – Vai ficar tudo bem, não se preocupe. – Disse numa forma de tentar tranquilizá-lo caso estivesse com medo ou preocupado, talvez até com uma parte da memória faltando. Havia ouvido falar que perda de memória era muito comum em casos como aquele. – Você vai ficar bem… Espere só um segundo.

Agitado, Peter foi para o lado, na direção da entrada, e apoiou as mãos na porta de vidro, colocando parte do torso para o lado de fora. Naquele instante, Emily e Ellen, que continuavam ali após a recente partida do policial, voltaram o olhar para o rapaz. No entanto, não foi por elas que Cambridge foi até lá, e sim para contatar alguma ajuda médica.

Dessa forma, encarou a primeira enfermeira que passou à sua frente e chamou-a com um aceno de mão. A mulher olhou para ele e foi até lá.

— Meu amigo que foi baleado, ele acordou – disse para a moça uniformizada, que passou ao seu lado e entrou na sala. Ele a acompanhou para o lado de dentro.

Ouvindo aquilo vindo da boca do moreno, Emily logo pôs-se a andar até lá. O oficial que havia interrogado-a estava a alguns metros de si, ainda ali no corredor, esperando o ferido acordar para que pudesse questioná-lo também. Hayes apenas não havia entrado na sala de Garrett ainda pelo simples fato de estar ocupada até aquele momento.

Atrás de si, Ellen a seguiu, tentando acompanhar o ritmo da amiga.

— Peter… O que a-aconteceu…? – questionou o tatuador enquanto o amigo voltava para o seu lado e a enfermeira checava os monitores ao redor.

— Nós vamos explicar tudo depois, amigo – respondeu, calmo. – Agora, não se preocupe com isso, e não faça muito esforço.

Foi então que a sobrevivente passou pela porta com uma expressão de alívio e preocupação, seguida pela psicóloga. Garrett sentiu-se igualmente aliviado em ver que as duas estavam bem.

Hayes foi em sua direção agilmente, não sabendo como reagir ou o que falar.

— Garrett… Eu sinto muito… – disse.

— Eu aceito s-suas… Suas desculpas… – respondeu ele, fraco. – M-Mesmo não sabendo o que aconteceu… – Ela ficou surpresa. – Esse panaca não conta logo… – A notícia boa era que ele continuava com o senso de humor, fazendo Peter rir de lado.

Emily não soube como reagir, pensando no que falaria para ele. Mais difícil do que sentir a culpa pelo seu ato, era contar para a vítima qual era sua culpa e torcer para que não fosse culpada por ela.

— Eu… Eu te dei um tiro, Garrett… – Os olhos dele franziram-se. – Me desculpa… Achei que, que você fosse um invasor… Sinto muito, mesmo… – Trocou as palavras por conta da enfermeira, que continuava ali ao lado, examinando-o.

— Ah… – reagiu ele. – Então é por isso que o meu ombro dói tanto.

— Pelo menos não foi no peito – comentou Ellen, e DeLucca riu. – Então acho que a Emily merece as suas desculpas. – As duas se entreolharam, com a morena um pouco lisonjeada pelas palavras de Ferrer.

— Eu não te c-culpo, Emily… – disse ele.

— Nem eu – tornou Peter, de repente. – Você provavelmente pensou que eu estaria puto da vida com você, né? – Sorriu de lado, e Emily concordou com a cabeça, aliviada.

Segundos depois, a enfermeira deu as costas e saiu, dizendo que chamaria pelo médico do tatuador, deixando os quatro sozinhos na sala.

Quando ela saiu, Garrett aproveitou a chance para olhar profundamente nos olhos das mulheres, perguntando com seriedade:

— Foi o assassino?

Elas se entreolharam, sob o olhar preocupado de Cambridge.

— Foi – concordou Ellen, por fim. – Ele nos atacou depois que você foi embora.

— Estávamos saindo de casa quando você apareceu – completou Hayes.

DeLucca concordou com a cabeça, compreendendo o caso, mais sério agora.

— Mas t-tudo acabou… Bem? – tornou o moreno. – Alguém se feriu?

— Não, nós duas estamos bem, não se preocupe – respondeu a sobrevivente.

— O assassino fugiu? – perguntou Peter, ao lado.

— Sim, como sempre.

— Merda… – resmungou. – E… Vocês não contaram a história verdadeira para o policial, não é? Eu estava escutando…

Emily balançou a cabeça positivamente, concordando e suspirando fundo.

— Não, não contamos… Isso só iria piorar as coisas para todos nós… Foi assim da última vez… – Abaixou a cabeça.

— Por que? – questionou a loira.

— Ele se sente estimulado a matar cada vez que se torna mais reconhecido pelas pessoas… E, também, poderia matar alguém como consequência de termos envolvido as autoridades – explicou.

Repentinamente, o olhar de Peter e Garrett foi até a porta de entrada do quarto, atrás das garotas. Curiosas, elas se viraram, apenas para encarar o policial de antes parado diante de si. Ele olhou bem para todos eles, principalmente para o paciente, até que disse de forma dura:

— Tenho que interrogar o Sr. DeLucca agora. – Deu uma pausa. – Vocês podem sair por alguns minutos? Preciso que fiquemos a sós.

 

4

 

Os saltos da advogada batiam de forma forte e resistente pelo chão de concreto. Megan tinha a expressão dura e confiante de sempre no rosto, ao menos trocando olhares com os adolescentes ao seu redor, que hora ou outra encaravam-na com estranheza e curiosidade, se perguntando o motivo da mulher estar lá. E ele não ficava muito longe do que a maioria daquelas cabeças pensavam: ela queria tomar providências sobre o ataque sobre si ocorrido no mercado a dois dias atrás.

Estava em Oakfield High, lugar onde encontraria sua segunda suspeita. Após Molly ter sido inocentada e Steinfield ter aceitado sua derrota ao ver, com os próprios olhos, as filmagens das câmeras de segurança do estabelecimento, Megan não escolheu relaxar e esperar que as autoridades resolvessem o caso, pois sabia muito bem que o que havia acontecido consigo seria mais um caso jogado dentro de uma gaveta qualquer da delegacia. Dessa forma, teria de fazer ela mesma o trabalho sujo. Não que fosse algo ruim, pois a advogada gostava de botar a mão na massa e ferrar com a vida dos outros à sua volta, principalmente com alguém que tinha coragem de enfrentá-la de volta – mesmo que sentisse um pouco de receio sobre Linda.

Assim, ela ia a procura da professora pelo prédio do colégio, olhando de porta em porta e rezando para encontrá-la logo. Não estava em horário de aula, como todos os estudantes pelos corredores deixavam claro, e Megan achava que isso facilitaria seu trabalho. Já um pouco irritada, ela continuou seguindo seu caminho.

E não demorou muito para que seus desejos se tornassem realidade, desde que, assim que virou numa curva e bateu propositalmente contra as costas de uma jovem, pôde ter a vista focada em uma mulher adulta de costas para si, com os cabelos cor de caramelo caindo sobre as costas. Continuou seguindo até Sammuels, decidida.

Depois de Merriman ter sido inocentada, Steinfield percebeu que deveria continuar com as acusações até que chegasse a uma conclusão sobre o responsável pelo seu ataque. Para ela, a segunda maior suspeita era Linda. Vamos aos fatos encontrados pela advogada: primeiramente, a professora havia demonstrado estar completamente enraivecida com ela, chegando a ameaçá-la; em segundo lugar, a outra havia saído do mercado apenas minutos antes do assassino aparecer; e em terceiro lugar, Sammuels era uma das poucas pessoas que não havia mantido contato com Megan desde aquele dia, parecendo evitá-la toda vez que se viam juntas em algum lugar – grande parte disso era, provavelmente, pela raiva ainda guardada de Linda, mas, de qualquer jeito, continuava sendo algo grande o bastante para que a advogada considerasse como um motivo.

Sem pestanejar, Megan agarrou a mulher pelos ombros, ao menos mantendo contato visual com ela. A professora se assustou com um pulo e olhou para trás de forma instantânea, mas nada pôde fazer e, sem que percebesse, já estava sendo arrastada pelo pulso para dentro de uma das salas de aula próximas de si.

— Megan? – perguntou ao reconhecer o cabelo curto e liso, surpresa.

Não houve resposta por parte da morena, que continuou arrastando-a para dentro do cômodo, até que estivessem em seu interior. Após isso, fechou a porta e virou-se para ela, tão furiosa que parecia que fumaça iria sair de suas narinas.

— Que porra você tá fazendo?! – tornou Sammuels, pegando em seu pulso após ter sido solta, um olhar chocado no rosto.

— Eu estou tirando satisfações e tentando botar você na cadeia, cadela – vociferou a outra.

— Do que você tá falando, sua louca?! – questionou, com a voz já alterada, ficando brava ao ter sido chamada de cadela.

— Do que eu estou falando?! Ah, pelo amor de Deus, não se faça de sonsa! – Steinfield respirou fundo, se aproximando com o indicador apontando para ela. – Eu sei que foi você que me atacou naquela noite no supermercado.

Linda apenas parou, encarando-a. Estava sem reação, indignada pela acusação fortíssima. Sabia que Megan era louca e sabia que seu ataque foi proporcionado pelo assassino, então, em outras palavras, a advogada estava a acusando de ser a assassina.

— Você só pode ter perdido a cabeça, Megan… – disse, rindo de lado.

— Está achando graça disso? – Steinfield estava ruborizando.

— Só estou rindo para me controlar e não dar um soco nessa sua maldita cara – respondeu, voltando a ficar séria. Ficou claro naquele momento que Sammuels não aguentaria mais uma gracinha. – O que acha que está dizendo, sua vadia? Quem te atacou naquela noite foi a porra do assassino, está entendendo?! – Sua voz começava a ficar mais alta, e era possível ver uma ou duas cabeças observando através da janelinha da porta. – Então, se estiver tentando dizer que eu sou a assassina, é melhor calar a porra dessa boca antes que eu quebre a sua mandíbula.

A morena balançou a cabeça de um lado para o outro, por alguns segundos apenas encarando a rival, pensando no que dizer. Seus olhos estavam vidrados e queimando em chamas.

— Isso foi uma ameaça? – perguntou, abaixando o tom de voz e fazendo Linda perceber que, talvez, dizer aquilo não foi uma boa ideia. Agora, a advogada apenas teria mais motivos para acreditar no que dizia. – Sabe, eu pensei mais de uma vez se deveria vir aqui conversar com você… – Agora, dizia de forma mansa. – Porque, bem, eu fiquei com medo que eu acabasse só te estimulando a acabar comigo de vez. Aí, eu seria a nova vítima do Carrasco, e também a única que sabia de sua identidade.

O silêncio predominou entre as duas. Megan não estava ali para poupar as palavras, e isso ficou claro. Usaria de todas as suas artimanhas para incriminar a professora pelo que ela era realmente culpada. E sim, Steinfield acreditava que Sammuels era a responsável por ter lhe atacado. Talvez não fosse o Carrasco em si, apenas houvesse aproveitado a situação da cidade para tentar alguma coisa contra si e, até mesmo, deixar que a culpa fosse colocada sobre o verdadeiro assassino. Isso era até um pouco assustador para ela, saber que Linda seria capaz disso.

— Eu acho melhor você dar o fora daqui agora – disse a outra, os punhos cerrados ao lado do corpo. Estava farta.

— Só quando você me apresentar provas suficientes para eu acreditar no contrário.

— O que é isso? Um julgamento?

— Ah, pode considerar como um. Aliás, é o que faço de melhor. É a minha profissão. – Sorriu de lado, meigamente.

— Bom, então deixe-me ver… – Linda fingiu pensar, olhando para cima por alguns segundos, mesmo que já soubesse o que iria dizer. – Ah, sim, é… Eu fui atacada em minha própria casa a alguns dias atrás… Depois o assassino me aterrorizou aqui na escola também… Oh, Deus… Isso me faz lembrar de outra coisa também! – Fingiu surpresa. – Você era a única outra pessoa que poderia saber sobre o que aconteceu entre eu e o Owen! Olha, que estranho, não é? E, espera… Também foi uma ação do assassino! Logo, isso quer dizer que…

— Nem termine essa droga de frase.

Após ser cortada, Linda ficou sorrindo para ela, pensando que havia ganhado a discussão. Contudo, isso foi provado contrário quando Megan disse:

— Se acha que pode me incriminar por ser o assassino, então é melhor pensar suas vezes… Pois pense bem: quem acha que eles vão prender primeiro? Eu ou a mulher de quarenta e oito anos que fodeu com um garoto de dezessete?

— Provavelmente eles iriam focar mais na assassina em série. Ou seja, você.

Aquilo foi o argumento que fez Steinfield finalmente fechar a boca, ficando apenas encarando-a e percebendo que o que dizia, mesmo que fosse correto por um lado, não fazia o menor sentido contra as palavras de Linda.

Acabou sentindo-se imponente, e antes que pudesse se rebaixar ainda mais, deu o seu ultimato, vociferando contra a outra com a fúria carregada pelo inferno:

— Da próxima vez, você vai se arrepender profundamente.

Depois, deu as costas e saiu pela porta.

 

5

 

Garrett havia sido deixado no hospital com Peter e Ellen numa forma dos dois darem um pouco de tempo para que Emily pudesse voltar para sua casa, tomar um banho, se alimentar e recompor-se após os eventos da noite passada. Ela relutou no começo, mas acabou aceitando a proposta ao perceber que estava realmente precisando se ajeitar um pouco.

Havia sido buscada por Jordana no hospital, e as duas conversaram sobre tudo o que havia acontecido durante a viagem de carro. Archie também estava presente, e escutou todo o relato. No entanto, as duas haviam deixado o rapaz num mercado perto de sua casa no meio do caminho para que ele comprasse algumas coisas para o preparo de uma boa refeição, deixando as garotas sozinhas. O que foi uma coisa boa, pois Hayes tinha algo em mente para discutir com a albina, e deviam ficar a sós para isso.

Brammall já havia percebido que a sobrevivente parecia irritada pelos acontecimentos, talvez guardando um ódio pelo assassino que a fez atirar em DeLucca indiretamente, e preparou-se para algum tipo de chilique assim que sentaram-se no sofá, com a morena esbravejando um olhar decidido e raivoso.

— Você está bem? – perguntou para ela, preocupada. Jordana parecia até se culpar um pouco por ter demorado na volta à casa na noite anterior.

Emily olhou para ela, respondendo:

— É claro que não, acabei de atirar em um inocente. – A albina não pareceu se importar com as palavras grossas. – O assassino está começando a mexer com as nossas cabeças.

Voltaram a ficar em silêncio. Em partes, a sobrevivente estava certa. Talvez, ele esteja mexendo com a nossa cabeça desde sempre, pensou Brammall.

— Por que você não sobe e toma um banho? – tornou a albina, mansa.

— Não – disse Hayes, balançando a cabeça negativamente. Estava exausta, mas algo em seu olhar deixava claro que ela pretendia fazer outra coisa. – Existem coisas mais importantes para fazer.

No instante seguinte, com Jordana abrindo a boca para dizer algo e parando no meio do caminho, a morena virou o corpo para o lado e abriu a gaveta da escrivaninha ao lado do sofá. Era onde guardavam as tralhas da casa, e logo a mão dela voltou carregada de um caderninho pequeno e um lápis. A albina continuou encarando-a, até que Emily olhou para ela e explicou:

— Isso já tá indo longe demais… Agora, precisamos nos preocupar com os suspeitos.

Então era aquilo que causava a raiva explícita no olhar da garota, ela estava a procura de um culpado – mais do que antes, pelo jeito. Jordana não a impediu de abrir em uma página qualquer, apoiando o objeto nas pernas fechadas.

— Mas… Nós já investigamos todo mundo – disse Brammall. – Não faz diferença…

— Não, Jor – explicou a outra. – Nós apenas pegamos os alvos mais óbvios e tentamos tirar alguma coisa deles, sem evidência alguma daquilo… Agora, nós vamos encontrar essas evidências.

— Certo – concordou, percebendo que fazia sentido, aproximando-se da amiga.

Emily se aprumou no assento, pensando por alguns segundos antes de dizer:

— Em primeiro lugar, temos a Ellen.

Jordana encarou-a, curiosa.

— Ela ficou desaparecida durante todo o ataque da noite passada, não estava no banheiro quando eu fui procurá-la e, por algum motivo, parecia estranhamente arrependida de alguma coisa lá no hospital. – Encarou a amiga. – Além do seu trato com o assassino.

— Faz sentido – disse.

Hayes sorriu de lado, marcando o nome da psicóloga no topo da folha. Não sabia se estava fazendo uma espécie de lista do maior suspeito para o menor, talvez apenas quisesse colocar em um papel o nome daqueles com que deveria tomar mais cuidado e prestar mais atenção. À frente do nome, escreveu: “Desaparecimento suspeito/acordo com o Carrasco”.

— Tem mais alguém em mente? – perguntou para Jordana.

A albina pensou por alguns segundos. Sim, ela tinha alguém em mente, mas parecia absurdo demais, ainda naquele momento, e temia que isso colocasse Emily em ainda mais perigo – se fosse uma coisa possível de acontecer.

— O Archie – respondeu, firme.

A sobrevivente, tão surpresa quanto a própria garota, encarou-a, estagnada, procurando por informações. Curiosa, perguntou:

— Você conseguiu alguma coisa ontem? – Estava se referindo ao interrogatório de Brammall.

— Consegui… – Emily continuou olhando para si, esperando pelas informações, e ela prosseguiu: – Ele disse que não me encontrou aqui em Oakfield por acaso… Ele veio para cá justamente para me encontrar, dizendo que estava me seguindo pelas redes sociais. Eu não sei… Fiquei assustada, e foi estranho… Ele parecia… Avoado.

— Nossa… – comentou, sem questionar mais, apenas escrevendo “Archie – salker” na folha. – Você acha que ele tem mesmo algo a ver? Digo, pelo que vi, você parece gostar realmente dele.

— E gosto, Em… – Deu uma pausa. – Ele é da família, então, por algum motivo, já criei uma enorme confiança nele… Não é a coisa certa, mas… Agora eu comecei a ver ele de outra forma, mas… Sim, ele pode ter alguma coisa a ver, e o fato de ser meu primo pode ter feito ele achar que eu jamais desconfiaria dele.

Hayes concordou com a cabeça, não querendo se aprofundar mais no assunto. Pela forma como a amiga falava e pela expressão na cara dela, era claro que não queria dizer aquilo ou pensar daquela forma, sendo meramente obrigada a fazê-lo devido a situação atual.

E enquanto a morena terminava de escrever no caderninho, a albina já soltou seu próximo nome, dessa vez recomposta:

— O Tommy também se encaixa. – Hayes concordou com a cabeça, impressionada pela forma como a outra disse naturalmente. – Nunca mais vi ele, desde a morte do Logan.

— Talvez seja o luto – disse a outra. — A Sam me disse que ele se enfiou dentro da própria casa, triste demais para sair de lá.

— Entocado em casa, fora da vista de todos… É o cenário perfeito para ele matar todo mundo e ainda sair ileso.

— Porra, Jor… Não sei o que eu faria sem você… – Ela riu de lado, com a amiga fazendo o mesmo. – Certo… Então… Tommy, o entocado… – Engoliu em seco, terminando de anotar. Teria a chance de dar a sua próxima ideia. – E já que eu falei da Sam… Ela é a próxima.

Aquilo foi o maior motivo para fazer Brammall se surpreender, fazendo-a encarar Emily com certo receio. Não achava que a loira estaria no meio da lista, principalmente pela grande amizade e afeto que tinha pelas duas.

— A Sam? – tornou.

— Exatamente… A viúva-negra, Jordana. Não podemos descartar ninguém.

— E o que te fez pensar nela?

— Bom, ainda não tenho nada concreto, mas… Ter matado o próprio noivo foi uma jogada certeira para deixá-la livre de suspeitas.

— Nossa, mas ela parecia realmente amar ele.

— A Julia amava o Sean o bastante para matar todos os amigos dele, então a Sam é capaz de ter um sentimento de ódio guardado por nós e ser capaz de matar o próprio noivo para isso.

Jordana arrepiou, percebendo que fazia sentido. Era boa demais para levar a situação com a quantidade de calma guardada por Hayes, e em certo ponto não gostava muito da atitude levada pela outra e por ela mesma.

— Também tem a Olivia — continuou Emily. —, a garota que fugiu depois de ter, supostamente, recebido uma ligação do assassino, assim como o Logan contou para o Tommy e o Tommy contou para nós… — Engoliu em seco, séria. — Ela pode continuar em Oakfield, apenas arquitetando o massacre, escondida em algum lugar.

— Não existem provas de que ela recebeu mesmo a ligação?

— Não… Aliás, ela nem falou para ninguém que havia recebido, o Logan apenas constatou que era o assassino ligando para ela pela forma como saiu correndo e chorando.

— Se não me engano, o Max e o Owen ainda tem contato com ela.

— Continua não explicando nada, seria mais uma forma dela fazer os outros pensarem que ela está mesmo fora da cidade. — Terminou de escrever sobre ela. — E esses dois também não me escapam, não.

— Como?

Virou-se para ela. Era realmente bom, por algum motivo, fazer aquilo. Emily achava que estariam mais próximas de resolver o mistério daquela forma.

— Estão sempre juntos, mais estranhos a cada dia… E nunca estão por perto quando os crimes acontecem.

— Mas eles são adolescentes… Acha que conseguiriam derrubar um homem forte como o Lincoln, por exemplo? — Brammall estava com um pé atrás em relação a isso.

— Desculpa tocar no assunto, mas vou ter que falar de novo… — Suspirou fundo. — A Julia foi capaz de fazer todas aquelas coisas no passado… Está certo de que a maioria foi Connor, mas ela era muito magra e muito baixa até mesmo para fazer as pequenas coisas. E além disso, outra coisa que os fazem ser suspeitos, principalmente o Owen, é que a Linda foi atacada e perseguida com informações do passado em que apenas ele e ela sabiam.

A albina engoliu em seco, estava arrepiada.

— Por fim — continuou Hayes. —, ainda nos restam a Linda, o Kai, a Megan, a Molly e o Peter, os que não têm nada para comprovar sua culpa além do timing dos crimes e os ataques inesperados, no caso de Megan, para que fosse provada como uma vítima.

— O Kai acabou de perder a irmã… — Olhou para a amiga, recebendo um olhar de quem voltaria a dar o sermão do “psicopatas não têm sentimentos”. — Não que faça diferença, é claro — disse, para que não recebesse uma nova lição de moral.

Enquanto a sobrevivente terminava de colocar os nomes restantes na parte de baixo da folha, sob uma lista tortuosa e mal feita, Brammall recebeu um novo pensamento. Todos estavam ali, menos uma pessoa. Pensou se Hayes queria apenas protegê-lo por conta de sua culpa ou apenas não havia pensando na hipótese. De uma forma ou de outra, teria de falar, e abriu a boca para perguntar:

— E quanto ao Garrett?

Emily virou o olhar para ela, confusa.

— O quê? — questionou.

— Ninguém pode provar que ele estava realmente na tatuadora ontem — explicou Jordana. — O alarme e a saída repentina pode, muito bem, ter sido completamente encenado… E ele só deu a volta na casa para começar o ataque.

A morena abaixou a cabeça, notando que fazia total sentido. Não sabia o motivo de ter descartado-o de sua lista de suspeitos, mas era, com certeza, alguém com capacidade.

— E além disso — continuou Brammall. —, foi você que deu um tiro nele, não o assassino. — Deu uma pausa e encarou-a, nervosa.— Se ele for o assassino, você perdeu uma chance de matá-lo.

— Porra… — resmungou. — Faz sentindo…

— Ele disse que havia encontrado o Kai, não é? — Emily concordou com a cabeça, parecendo triste. — A gente não pode comprovar nada até que ele diga que realmente se encontrou com o Garrett noite passada. — Uma nova pausa. — É como você disse, Emily… Todos são suspeitos.

Relutante, a sobrevivente moveu os dedos pela última vez, anotando o nome de Garrett DeLucca na última linha da página, sob todos os outros.



Notas finais do capítulo

Suspiraram de alívio pelo Garrett estar vivo? Hahaha Eu até pensei em matá-lo, mas acabei percebendo que ainda não era a hora da Emily ficar tão revoltada assim hahaha Mas pudemos ter um gostinho dessa ira dela no final, e contanto a isso, o que acharam das hipóteses das nossas sobreviventes? De quem vocês desconfiam e quais são as suas teorias? E em relação ao plano da Olivia e a treta entre Megan e Linda? Espero receber seus comentários, galera sz
#Whoisthekiller?

Abraços, até a próxima!



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