Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 15
S02EP14 - Don't Be Afraid of the Dark


Notas iniciais do capítulo

Não Tenha Medo do Escuro

O assassino acaba por testar Emily em um ataque repentino, enquanto Garrett, desprovido de qualquer segurança, se encontra em uma situação aterradora e perigosa.




Ellen mantinha-se em uma posição bastante confortável sobre o sofá da sala de estar, mesmo que ele não fosse seu, e sim de Emily e Jordana. As pernas estavam dobradas ao lado do corpo, enquanto os braços ficavam apoiados no encosto lateral do mesmo. As mãos frias vinha acompanhadas do pano fino de uma camisa larga, e as pernas estavam cobertas por uma calça legging. Os pés mantinham-se descalços. A psicóloga tinha os olhos confusos, não sabendo para onde olhar exatamente, mudando seu foco de segundo a segundo. Os cabelos loiros dela estavam um pouco bagunçados por ter desmanchado o penteado apenas alguns minutos antes, ao voltar de seu consultório. No entanto, além do cansaço e da fadiga, Ferrer continuava apreensiva com seu futuro e o futuro dos outros à sua volta.

Ela não gostaria de folgar ainda mais sobre as anfitriãs da casa, por isso mantinha-se restringida a mostrar seus sentimentos ou procurar consolo nelas, então ficava praticamente sozinha, tentando ingerir o amargo gosto do medo.

Ao seu lado direito, estava Hayes. A morena estava sentada de forma comportada, com as pernas cruzadas e um dos braços colocado sobre o encosto e a mão apoiando a cabeça cansada. Diferente de Ellen, ela parecia mais fatigada. Suas expressões eram indecifráveis para quem não a conhecesse, a mesma face que a perseguia todos os dias desde que tudo começou.

E não estavam sozinhas, desde que no outro sofá, de braços e pernas cruzadas, estava Garrett. O tatuador estava apenas esperando a volta de Archie e Jordana até a casa para que Ferrer e Emily não ficassem sozinhas ali, como um protetor. Tinha o cenho franzido, pensativo. Desde que havia chegado, o assunto discutido pelos três não se distanciava muito do novo massacre, e com a noite caindo do lado de fora da residência, as mentes trabalhadeiras do trio continuavam focadas nesse exato mesmo ponto da história de suas vidas.

A algum tempo discutindo sobre isso, DeLucca abriu a boca e olhou para as duas ao perguntar o que estava em sua mente desde que haviam começado a falar sobre aquilo:

— Vocês acham que algum de nós é o responsável por isso?

— Com certeza – respondeu a sobrevivente, encarando-o de volta. – O assassino sempre vai ser alguém já frequente na vida dos atacados. Ele gosta disso, parece apreciar quando a reviravolta é maior e pode ver que os alvos se sentiram totalmente traídos.

Garrett tremeu pela frieza dela.

— Mas nada explica que também não possa ser alguém completamente desconhecido – argumentou a psicóloga, um pouco temerosa ao dar sua opinião. – É com certeza mil vezes mais difícil ser um assassino em série e ainda tirar as suspeitas de si quando anda lado a lado com os alvos… Ou sobreviventes… Seja lá a forma como vocês prefiram chamar…

— A Julia e o Connor conseguiram – respondeu Hayes. – E muito bem, para ser franca.

— Mas acha que o assassino arriscaria estar tão próximo de todo mundo? – questionou o tatuador. – Principalmente agora que há enormes chances dele ser realmente um de nós, como já foi provado ser possível no seu passado, Emily. Ele já sabe que você e a Jordana desconfiariam de todo mundo, então… Pode ser que ele não arrisque-se.

— Você tem um ponto, Garrett – concordou Emily, e ele sorriu de lado, desanimado.

A loira suspirou profundamente, encarando o lado de fora da janela descoberta a alguns metros diante de si mais uma vez, observando com temor a noite escura do exterior. Era estranho para ela que os primos Brammall ainda não tivessem chegado, e temia que algo houvesse acontecido a eles. Coçou de forma aflita as próprias pernas e questionou:

— Já tem alguma ideia do motivo disso tudo? – Olhou para a sobrevivente, deixando claro que o alvo da pergunta era ela.

— Não – respondeu, imediatamente, sem mudar sua posição. – É sempre uma surpresa, fica para o grand finale. – Deu uma pausa. – Da última vez, o motivo foi dado para a gente só no final, quando sobravam poucas pessoas vivas e as mortes estavam ocorrendo como nunca… E além disso, mesmo que o assassino tenha deixado claro a motivação, nós continuávamos não fazendo ideia do que se tratava. A Julia deixava pistas nas ligações, mas nunca trazia a história toda.

— E vocês só foram ficar sabendo na noite em que tudo aconteceu? Digo, as revelações e tal? – tornou o moreno.

— É – afirmou.

— Não sei se consigo aguentar tanto assim. – Ele pareceu ser atingido por uma série de calafrios pelo corpo, enrugando o rosto de forma desesperada.

— Realmente, você pode morrer antes disso – disse Ellen, atraindo todos os olhares para si por conta da dura afirmação feita. Ela pareceu se arrepender ao perceber como a outra garota parecia brava e Garrett um pouco chocado. – Foi mal, eu só… É muita coisa para mim.

No instante seguinte, a psicóloga se levantou em um pulo do sofá, calçando seus sapatos diante do mesmo com agilidade e dando uma última olhada nos amigos antes de dizer:

— Vou tomar um banho agora. – Começou a caminhar na direção do corredor, sem ao menos esperar por alguma argumentação dos outros dois, desaparecendo da sala de estar.

Deixados sozinhos, Garrett e Emily se entreolharam, estranhando a reação de Ferrer. DeLucca, sempre mais curioso, não conseguiu segurar a língua ao perguntar, enquanto os passos da loira desapareciam ao subir as escadas:

— O que deu nela?

Hayes deu de ombros, desinteressada.

— Só está sobrecarregada – respondeu. – Ou tá só nervosa por conta do trato com o assassino.

— Nossa, essa história ainda tá rolando?

— Eu acho que nunca terminou de rolar.

— E você confia nela?

A sobrevivente olhou para ele, fixando sua atenção no tatuador. Séria, respondeu:

— Não.

O moreno pareceu ficar impressionado, abrindo alguns centímetros da boca. Mas, além de tudo, estava curioso.

— Mas… Por que deixa ela ficar aqui, então? – questionou.

— É bem arriscado, mas é a única chance de acharmos alguma pista da identidade do assassino. Se ela está trabalhando para ele, se aceitou aquele trato, então ainda mantém contato com o assassino, e eu espero conseguir alguma coisa com isso.

Emily não estava tão certa se deveria compartilhar tais informações com o moreno, mas ao pensar mais uma vez percebeu que o que dizia era quase óbvio para todos que prestavam atenção em sua relação com Ellen. Estava impressionada que o tatuador ainda não tivesse percebido.

— Você é louca – comentou ele.

— Pois é. – Riu de lado, e o garoto a acompanhou por alguns segundos. Então, voltaram a ficar em silêncio, encarando o chão, ainda meio apreensivos com a história.

Sob a falta de sons que se prosseguiu, eles repensaram suas ideias.

— Quem você acha que é? – perguntou Garrett repentinamente, chamando a atenção de Hayes para si. A sobrevivente encarou-o novamente, pensando.

— Eu não sei – respondeu com firmeza, um pouco decepcionada. – Eu e a Jordana tentamos algumas coisas, tipo investigar quem a gente achava suspeito, mas não deu certo, então paramos. – Ocultou a parte de que ainda faziam as interrogações. Pelas expressões de Garrett, ele pareceu ficar um pouco assustado, como se pensasse se já havia sido submetido a tal tratamento.

— Por que não adiantou?

— Não conseguimos nada. – Suspirou fundo, aprumando-se no sofá. – Parece que continuamos sem muita sorte em descobrir a identidade do assassino.

De repente, um som alto de água caindo surgiu do segundo andar, ultrapassando a camada de concreto e madeira que separavam os pisos. Era o chuveiro ligado, proporcionado por Ferrer, que acabava de entrar no banho. Os dois olharam para cima por alguns poucos segundos, apenas reparando no novo som, e Hayes até sentiu um certo temor da psicóloga ter ouvido o que dizia sobre ela. Voltaram a abaixar os olhos.

— Isso é uma investigação? – perguntou o tatuador, irônico, sorrindo para ela. Mesmo que abafasse a situação com um sorriso e um tom zombeteiro, ele questionava com uma certa vontade de saber a verdadeira intenção da sobrevivente.

— Eu não sei, talvez seja – respondeu, rindo também. Havia percebido que DeLucca queria saber da verdade, mas foi na onda dele, não deixando claro se era ou não. Naquele momento, perguntou para si mesma a mesma coisa, e não conseguiu uma resposta certa. Para ser franca, não havia pensado na hipótese, e agora parecia uma boa oportunidade para isso.

Uma risada nervosa saiu de Garrett, então ele ficou quieto, assim como Emily. Tornaram-se a ficar em silêncio, apenas com o som do chuveiro ligado e das gotas finíssimas de chuva que batiam na janela. O vidro era salpicado pelas gotículas, e ao perceber isso, a morena se perguntou se a garoa havia começado a pouco tempo ou não.

— Você se lembra da última vez em que estivemos em segurança? – tornou o rapaz, perdido em pensamentos, encarando o chão. A garota percebeu que ele pareceu ficar um pouco decepcionado, quase assustado. No entanto, antes que pudesse responder, ele disse: – Para mim, parece que foi a milhões de anos… – Deu uma pausa, onde Hayes nada disse. – É incrível como a gente não aproveita os momentos e, em um piscar de olhos, nossa vida inteira muda.

— Depois de um tempo você se acostuma a ser perseguido o tempo todo, correr perigo todos os dias e sentir medo de ser morta a cada esquina que vira. – Mesmo com as palavras não sendo nada tranquilizantes, Emily preferiu ser mais realista do que otimista.

Garrett parecia se preparar para dizer alguma coisa, quando um som alto e agudo surgiu na sala de estar, repetindo-se a cada dois segundos em uma sinfonia irritante aos ouvidos. A sobrevivente levou os olhos até a direção do barulho, constatando que vinha de um dos bolsos do amigo, mais especificamente de seu celular. DeLucca remexeu-se por alguns segundos, até que tirou o aparelho e olhou para ele, cessando o alarme ao desbloquear a tela. Fez uma expressão de desgosto, franzindo o cenho.

Curiosa, esperando por uma resposta, Hayes esperou por uma explicação.

— É o alarme da tatuadora – disse ele, teclando com os dedos de forma ágil.

— O que?

— O alarme de segurança foi ativado, preciso ir para lá.

O tatuador se levantou do sofá, ficando ereto. Emily concordou com a cabeça e se levantou também, ficando olhando para ele por alguns segundos.

— Quer que eu vá junto? – perguntou, apenas para ser educada, mesmo que não tivesse vontade de acompanhá-lo e sair do conforto de sua casa.

— Não, não… Não precisa. Fique com a Ellen. – Começou a dar passos largos até a porta de entrada, passando diante da sobrevivente e saindo para o corredor, enquanto guardava o celular de volta no bolso. Parecia extremamente preocupado, um pouco nervoso. Hayes foi atrás.

Os dois desembarcaram no corredor central da casa, diante da porta grande de entrada. O rapaz estendeu os braços e alcançou a sua blusa no cabideiro, vestindo-a para se proteger do frio do exterior.

— Acha que o Archie e a Jordana ainda vão demorar muito? – perguntou para ela.

— Não, não vão – disse. – Provavelmente já estão chegando, não precisa se preocupar com isso. – Cruzou os braços.

— Eu queria ficar aqui com vocês, pra ser mais seguro, mas… Pode ser um ladrão ou coisa assim, espero que entenda.

— Garrett, sério, tá tudo bem. Pode ir, nós vamos ficar bem.

Ele foi até a porta, girou a maçaneta e trouxe a grande placa de madeira para si, abrindo-a de uma vez só. A corrente de vento frio que entrou fez todos os pelos de Emily se arrepiarem.

— Ei, toma cuidado, tá? – avisou ela.

O moreno deu uma última olhada para si, sorrindo de lado, gratificado pela preocupação, antes de passar para o lado de fora e fechar a porta, deixando a residência novamente envolta do quase silêncio. Hayes suspirou profundamente, esfregando os braços para tentar se esquentar. Estava congelando. Olhou ao redor, sozinha no meio daquele extenso corredor.

Para falar a verdade, a sobrevivente sentia-se, sim, um pouco mais exposta sem a presença de Garrett, que era alguém que lhe trazia uma certa segurança por ser alto e forte. E mesmo que Ferrer estivesse no segundo andar, não era a mesma coisa. Além disso, já começava a sentir o tédio por não ter nada para fazer e ninguém para conversar. Pensou em Jordana e na demora dela, e preferiu dizer para si mesma que ela e Archie haviam parado em algum lugar para passar o tempo e aproveitar a presença um do outro. A última coisa que queria pensar era que a albina, de alguma forma, estivesse em perigo, que o Brammall masculino realmente fosse tão perigoso quanto temia.

Então, teve os pensamentos interrompidos assim que o telefone tocou. Estava logo ao lado dele, e o som alto a fez pular de susto. Engoliu em seco e o tirou do gancho sem pestanejar, colocando-o na orelha sem preocupação alguma.

— Residência das Brammall-Hayes – disse ao atender. – Quem fala?

Alguém com sede do sangue das duas.

A voz articulada e robótica fez o coração de Emily gelar, ao que ela notou estar numa conversa com o psicopata. Era a segunda vez, desde que chegaram à cidade, e a sobrevivente ainda não estava acostumada a ter um papo com o maníaco. De uma forma ou de outra, precisava saber das intenções dele, e por isso não desligou, apenas sentiu o sangue subir quente pela face.

— O que você quer? – perguntou, firme.

Acalme-se, Emily, eu ainda nem tive a chance de dizer “hello there”.

— Enfia esse “hello there” no rabo, filho da puta. – Curta e grossa, não pensava muito no que dizer, apenas despejava sua ira sobre o remetente.

Uma risada longa surgiu ao que o mascarado debochou dela.

Aconteceu alguma coisa? Pela sua voz, você não parece tão bem…

— Vai se ferrar, desgraçado. Me diga logo o que quer!

Ah, Emily, apenas dar as minhas congratulações a você…

Franziu o cenho, questionando:

— Do que está falando?

Ora, dar os meus parabéns pela sua inutilidade no caso, pois enquanto estava fazendo sei lá o que, houve eliminações no time dos sortudos.

Engoliu em seco, nervosa, encarando fixamente um ponto da parede, não se movendo.

— Desgraçado… – sussurrou.

Estou começando a achar que você está aqui apenas para correr da minha faca e não descobrir nada, assim como foi no passado. – Uma pausa. – Tenho que dizer que está sendo um pouco chato brincar sem você, Emily…

— Vai vir atrás de mim?

Ah, de você não, mas de alguém que pode ou não ser de sua importância.

Ela parou e pensou por alguns segundos. A primeira pessoa que surgiu em sua mente foi a albina, que ainda não havia voltado para casa. Diferente da raiva, o que preencheu seu corpo foi o nervosismo em relação a amiga.

— Você está falando de quem?

Eu tive a sorte de te encontrar sozinha está noite, então vou usar essa oportunidade. – A forma como o assassino não respondia às suas perguntas era frustrante.

— O que você tá querendo dizer? Está vindo atrás de mim ou não?!

Bom, não necessariamente de você, Emily… Mas, quem sabe, você também pode acabar morta essa noite. Não está nos meus planos, mas… Quem sabe…

Repentinamente, novas informações surgiram em sua mente. Lembrou-se de Garrett, que havia acabado de sair, e como havia dito que o alarme de segurança de sua tatuadora havia sido disparado. Uma armadilha, pensou consigo mesma.

— Deixe o Garrett em paz, tudo bem? – disse, firme.

Uma nova risada grotesca surgiu.

— Uma chance e tanto, mas também não é dele que eu estou atrás… – Uma pausa. – Então você está eliminada e Garrett está eliminado… Jordana também não se aplica… Quem sobra?

Pense, Emily, pense! Nada vinha em sua mente, era um enigma que era incapaz de desvendar.

— Enquanto você pensa e tentar encontrar suas respostas, eu vou dar início a mais uma rodada. – Uma pausa. – Espero que não tenha medo do escuro, Emily. Bem-vinda ao nosso jogo.

No instante seguinte, um estalo alto repercutiu por seus ouvidos, e ao que todas as luzes foram apagadas, a residência foi banhada na mais tenebrosa escuridão.

 

1

 

O alarme alto não parava de tocar. Garrett tinha o cenho franzido pelo esforço incômodo que tentava fazer em evitar os ouvidos de escutar o som alto. Tinha acabado de estacionar o carro diante da tatuadora, e tinha sorte de que ela ficava em uma rua comercial e já estar tarde o bastante para todos os estabelecimentos estarem fechados, pois se fosse o contrário, as pessoas, com certeza, já estariam incomodadas e seria um problema do qual ele não gostaria de resolver.

Vendo-se do lado de fora, o interior parecia normal, como sempre era. Contudo, o moreno tinha quase certeza de que via uma luminosidade estranha ao fundo, após o corredor que levava às salas de tatuagem. No entanto, essa luz poderia estar sendo proporcionada pelo logo neon que estava aceso em cima de sua cabeça, na parte de cima da loja, um reflexo no vidro. Só poderia tirar suas conclusões checando mais de perto, e foi exatamente isso que começou a fazer, sem hesitar, dando passos largos e decididos até a porta de entrada, que ficava no meio das duas grandes placas de vidro, formadoras da vitrine da tatuadora, sendo possível ter, para quem estivesse do lado de fora, uma ampla visão do interior do lugar.

Ele tinha na cabeça o fato de que poderia ser um ladrão ou, até mesmo, o assassino, então passou a ser mais cauteloso ao ficar a apenas alguns centímetros do interior. Parou por alguns segundos, entortando a cabeça para os lados para ter uma boa visão do lado de dentro. Estava escuro, e daquela distância já era possível notar que a luz ao fundo não se tratava do neon acima de si, e sim de uma possível lâmpada acesa, algo que ele tinha certeza de não ter deixado em tal estado.

Já estava com as chaves em mãos, pegas dentro do carro, e posicionou-as na fechadura da porta de vidro com extrema preocupação em não fazer barulho, afinal, preferia pegar o responsável pelo delito do que fazer com que ele fugisse. Mas de uma forma ou de outra, deveria ser rápido, pois o alarme alto começava a fazer seus ouvidos latejarem, literalmente.

Todavia, no primeiro toque da chave na fechadura, um leve ranger deixou claro que a porta não estava tão trancada como pensava, e com um aperto no peito ele usou de um empurrão com o polegar para deixar sua preocupação aumentar, ao que a placa de vidro começou a, lentamente, abrir para o lado de dentro.

Olhou ao redor, curioso. Guardou as chaves no bolso da calça, trocando-as pelo celular. Deixou que a porta terminasse de abrir sozinha para dar seu primeiro passo para o lado de dentro. DeLucca sentiu um arrepio momentâneo no corpo quando o som do alarme ficou mais alto. Uiu! Uiu! Uiu! Uiu! Se houvesse uma luz piscando, aquilo se tornaria a cena perfeita de um seriado policial. Tirou o pensamento da cabeça e continuou entrando.

A primeira coisa que fez, antes mesmo de parar para observar se havia alguém escondido atrás de alguma poltrona ou do balcão, foi ir até a lateral esquerda do lugar, onde deu a volta na bancada de madeira.

Garrett olhou ao redor, até encontrar o pequeno quadrado de plástico branco que estava ao lado do computador desligado, abrindo a tampa que havia em cima dele e deixando à mostra os botões do ativador e desativador do alarme. Com agilidade, os dedos do rapaz teclaram o código correto e, ao pressionar o botão “confirmar”, o estabelecimento foi envolto do silêncio completo. Antes de sair dali, ele ainda abriu uma das gavetas, tomando cuidado para não fazer muito barulho, e de lá tirou um canivete suíço, propositalmente colocado naquela posição caso situações como aquela acontecessem.

Agarrou-o com firmeza na palma da mão, usando de seus dotes com a arma para deixar a lâmina em evidência, que saltou para o lado de fora, brilhando sob a fraca luz da lua, afiada como os dentes de um tubarão. Voltou para o centro do cômodo, percebendo como até sua respiração revelava sua posição, e como isso era perigoso se houvesse alguém ali, o que era quase certeza, se a mesma não tivesse indo embora após destrancar a porta.

Estava nervoso, além de tudo. Agora, no completo silêncio, era quase como se sua visão tornasse-se mais aguçada, e mais uma vez teve o foco levado para a luminosidade que vinha de alguns metros diante de si. O corredor estava todo escuro, se não fosse por uma das portas no final dele. Esta parecia aberta, e era de onde a luz branca saía, formando uma marcação clara no meio daquela parte escura. Engoliu em seco, sentindo uma linha de suor escorrer pela nuca.

O tatuador olhou para baixo, encarando o próprio celular, ainda em uma das mãos. Sem hesitar e sem se mover, parado no centro do lugar, de frente para o corredor e de costas para a porta de entrada aberta, desbloqueou o aparelho, entrando no discador de chamadas, pronto para ligar para a polícia. No entanto, antes que pudesse fazê-lo, teve a audácia de se certificar de que não se tratava apenas de algum conhecido ou coisa assim. Poderia muito bem ser Peter.

Diante da escuridão, ele soltou uma frase tão clichê quanto o grito de espanto das vítimas do Carrasco:

— Tem alguém aqui?

 

2

 

— Emily! — Ouviu-se um grito vindo do andar de cima, quase ao mesmo instante em que as luzes se apagaram, um pouco fraco pela distância. — O que aconteceu?!

A sobrevivente olhou para cima, terminando de colocar o telefone no gancho. Engoliu em seco, nervosa, e em resposta gritou para Ellen:

— Fique aí em cima, Ellen! Tranque a porta e não saia até eu mandar! — Decidiu ocultar a parte de que o assassino estava, possivelmente, dentro da casa.

— O que está acontecendo?! — Outro grito veio, dessa vez mais preocupado, acompanhado do chuveiro sendo desligado.

Hayes começou a tatear os bolsos a procura do celular, sentindo-se desconfortável no meio daquela escuridão. Olhou ao redor enquanto fazia, percebendo os fracos feixes de luz que vinham das janelas descobertas.

— Apenas faça o que eu mandei! — berrou.

Não houve resposta dessa vez.

No meio tempo em que pegou o celular e começou a ligar a lanterna, Emily pensou na opção mais racional do momento. Havia uma caixa de força no quintal dos fundos que tinha poder contra todas as luzes da casa, sem exceções. Existiam grandes chances do assassino ter usado a que ficava do lado de fora da casa, desde que, até o momento em que chegou na residência, não havia notado nenhuma porta ou janela se abrindo ou fechando, então o mascarado não havia entrado. Ainda, o porão era composto, também, por um gerador de energia, que não havia sido ativado até aquele momento pois as garotas não haviam se dado ao trabalho de deixá-lo no modo automático, então a única forma de fazer as luzes voltarem a se acender seria por ele, desde que Hayes não queria arriscar a sorte na caixa de força do lado de fora da casa, onde o assassino provavelmente estava.

Clicou no símbolo de lanterna na parte superior do celular e imediatamente um feixe de luz surgiu em seus pés. A morena trouxe o aparelho mais para cima, e dessa forma a luminosidade foi capaz de atingir mais partes da casa, iluminando o corredor por completo. Daquela maneira, os cômodos tomavam grandes sombras assustadoras, o que fez ela arrepiar.

Virou-se sobre os tornozelos, encarando a porta de entrada da casa. A primeira coisa que fez, lutando contra a enorme vontade de sair de lá, foi ir até a passagem e girar a chave na fechadura. A opção mais racional em casos como aquele era sair da maldita casa, mas duas coisas a impediam disso: o fato de Ellen continuar no andar de cima e o de sua vontade indescritível de acabar com a raça do maníaco. Ele já havia deixado claro que não estava atrás de si — se fosse confiável, é claro —, então se estava em sua residência, a única outra pessoa que poderia estar em sua mira era Ferrer. Logo, também teria de protegê-la para que não acabasse morta. Dessa forma, trancar a casa toda, desde que sua intuição dizia que ele continuava do lado de fora, era a melhor ação preventiva.

Certificando-se de que estava trancada, deu meia volta e entrou na primeira passagem à esquerda, a cozinha. Deu uma boa inspecionada ao redor, antes de se dirigir à janela. Emily chegou próxima o bastante a ela para reparar que já estava trancada e virou-se, indo na direção do balcão. Tomando sua direção através da lanterna do celular, o caminho parecia aparecer magicamente em sua frente. De coração acelerado e atenção aguçada, abriu uma das gavetas e tirou de lá uma grande faca de cozinha, que chegou a riscar na madeira em um som afiado. Encarou o objeto em suas mãos, olhando para o seu próprio reflexo na lâmina por alguns segundos. Estava certa de que usaria todas as oportunidades da noite para enfiar a lâmina no psicopata, mas mesmo que a faca fosse uma arma e tanto, ainda tinha uma coisa melhor guardada em seu quarto.

Saiu da cozinha e voltou ao corredor, não se dando ao trabalho de checar a janela da sala, já que tinha-a trancado ao chegar em casa. Por isso, começou a dar passadas lentas pelo corredor, na direção que a levaria à porta do porão. O caminho foi rápido, pois realmente não se importava em ser silenciosa. De certa forma, gostaria que o assassino encontrasse sua posição de uma vez, para que pudesse matá-lo — ou, pelo menos, tentar. Chegou, então, ao lado das escadas, ficando diante da porta que levaria ao quintal dos fundos. Haviam duas, uma de tela e uma de madeira com uma parte de vidro. Por lá, ela encarou o exterior, percebendo como a única árvore do lugar balançava com a força do vento, que aparentava estar extremamente frio. Ficou olhando por alguns segundos, mas não havia literalmente nada lá. Ele provavelmente estaria escondido. Trancou-a também.

Seu plano estava bem mapeado em sua mente: ligaria as luzes e iria para o segundo andar buscar Ellen, e em grande parte trancava as portas do andar inferior pelo simples motivo de não querer correr o risco de, na volta para o primeiro andar, dar de encontro com o maníaco.

Olhou para o lado, agarrando o cabo da faca na mão direita e o celular na esquerda, e com um pouco de dificuldade usou uma das mãos para girar a maçaneta, abrindo a porta. A lanterna apontou para o interior, e foi como se um buraco negro sugasse toda a luminosidade provinda dela, desde que os degraus só eram iluminados até a metade, deixando o final no completo breu. Mais uma vez naquela noite, Emily se arrepiou por inteira. Não tinha medo do escuro, mas aquela era uma visão que faria qualquer um cagar nas calças. Engoliu em seco, dando seus primeiros passos para o lado de dentro do cômodo, descendo alguns centímetros ao tocar o primeiro degrau.

A escadaria velha rangeu ao ser atingida por seu peso, e logo parou, devolvendo o angustiante silêncio para os seus ouvidos. Atrás de si, a casa voltou a ficar escura quando desceu com mais vontade, um passo atrás do outro, indo cada vez mais para baixo. Do lado de dentro, um ponto de luz era visto à frente da silhueta da sobrevivente. Os cabelos de Hayes pulavam a cada degrau descido, e finalmente pararam quando ela atingiu o chão de concreto.

Poderia contar nos dedos a quantidade de vezes que havia descido ali, desde que o porão não era um lugar do qual apreciava tanto assim. Olhou ao redor, observando o cômodo pequeno e recheado de tralhas. Era um único quadrado, nem tão grande assim, que ficava ainda menor por conta da quantidade de objetos espalhados pelo chão e pelas prateleiras ao redor. Todas as paredes tinham grandes estantes compostas de caixas, e no chão as coisas que não tinham onde ser guardadas eram deixadas, formando uma trilha de objetos velhos e quebrados. Emily se lembrava da localização do gerador, que era ligado a diesel, e o primeiro ponto para onde olhou foi exatamente o que ficava do lado paralelo à si, no canto de uma das paredes.

Sentiu o coração bater mais forte e uma estranha sensação de temor passou por ser corpo no instante em que percebeu a fina fumaça branca e balançante que saía de um dos cantos do grande quadrado metálico, recheado de botões e válvulas. Aquilo não estava certo, não devia ter fumaça, assim como não devia estar extremamente amassado em um dos cantos, quase como se tivesse sido atingido por uma bomba nuclear. O impacto na lateral do objeto foi tão forte que abriu uma fenda na parte de baixo, provavelmente por onde o ar do interior saiu, e a ruptura deve ter seguido para o interior do gerador, desde que uma grande poça de um líquido meio amarelo se estendia pelo chão. Era o diesel que compunha o objeto, a única coisa que o faria funcionar, todo espalhado ali.

Emily engoliu em seco, aflita, de cenho franzido, e ainda carregando as duas coisas em suas mãos, se aproximou, sentindo o nariz queimar pelo forte cheiro do combustível assim que chegava mais perto. Pulou algumas tralhas do chão até chegar do outro lado, onde se abaixou ao lado do gerador, desesperada, percebendo que, talvez, diferente do que pensava, o perigo estivesse, sim, dentro de sua casa esse tempo todo, e que trancar todas as portas e janelas só fez com que ela tivesse trancado a si mesma dentro da jaula do leão.

Nem tocou na coisa, apenas grunhiu de raiva, percebendo que não haveria nada que pudesse fazer, e então voltou a ficar ereta. Teria de pular essa parte do plano e voltar para a fase dois: resgatar Ellen.

Dessa forma, começou a voltar para a escadaria que a levaria para o andar de cima, dessa vez de forma mais rápida, apertando a faca com mais força em sua mão. Contudo, algo a impediu de continuar — ou, até mesmo, a fez apressar-se ainda mais.

Um barulho estrondoso ecoou do andar superior, próximo o bastante para que Hayes constatasse o fato dele vir da porta do quintal dos fundos. Estalou os olhos no susto estarrecedor que fez seu corpo vibrar, fazendo-a parar por alguns segundos no lugar. O barulho foi seguido do forte impacto de diversos objetos contra o chão, como se fragmentos deslizassem pela madeira. Emily, ligada ao perigo, pensou por alguns milésimos de segundos antes de tomar uma ação, até que deixou de hesitar e pulou o restante de concreto que lhe separava das escadas, virando a cabeça para cima apenas momentos depois do barulho alto, a tempo de ver, mesmo com a fraca luz, apontando a lanterna do celular para cima, como uma sombra passou da direita para a esquerda no andar de cima, ao menos se importando com o porão, desaparecendo tão rápido quanto surgiu e embrenhando-se na escuridão da casa.

Para o azar de Emily, ela conhecia muito bem aquele sobretudo negro e o andar imponente do sujeito, e sem que pudesse pensar duas vezes, deu seus primeiros passos para cima.

 

3

 

DeLucca se aproximou do corredor vazio quando não obteve resposta. No entanto, teve certeza de que havia ouvido um som vindo da sala iluminada, como se houvesse realmente alguém lá e essa pessoa tivesse notado que não estava mais sozinha. A curiosidade, unida pelo leve receio, juntou-se ao corpo do rapaz, que engoliu em seco, empunhando o canivete em frente ao corpo como forma de proteção, o braço todo tremendo pela extrema força proporcionada sobre o objeto cortante. O celular na mão esquerda já havia sido esquecido, mesmo que não desgrudasse dos dedos do rapaz, ainda com o discador de chamadas aberto e os números 911 teclados ali.

Os olhos dele estavam vidrados, eram tão negros que, se visto de longe, só poderia se reparar na parte branca dos globos oculares, que também não tiravam o foco do ponto luminoso. A mandíbula estava enrijecida, e mesmo que não quisesse avançar até lá, Garrett estava disposto a enfrentar o que quer que houvesse a alguns metros de si, aliás, era o dono do lugar e não deixaria que algo de ruim acontecesse com o estabelecimento e com os seus bens, quase como se uma fúria tivesse se abatido contra si. Por isso, deus mais alguns passos à frente, até que foi capaz de alcançar o interruptor de luz do corredor. Deslizou os dedos pelo objeto sem tirar os olhos do ponto de visão, ainda empunhando a arma, e com um único clique o lugar diante de si se acendeu.

Por alguns segundos, teve dificuldade em manter os olhos completamente abertos, mas logo eles se acostumaram à luminosidade e o tatuador pôde continuar sua tarefa em paz. Continuou avançando, tomando cuidado com as portas em suas dianteiras, prestando atenção em cada uma delas e tentando prever caso alguma coisa saltasse do interior dos cômodos. Por sorte, estavam todas fechadas, e ele achava que seria capaz de prever qualquer movimento que houvesse do lado de dentro das salas antes de algo acontecer. Mordeu a parte inferior dos lábios e continuou a avançar.

Do lado de dentro do peito, o coração mantinha-se acelerado. DeLucca adentrava em um ambiente completamente iluminado, e deixava a escuridão do restante do lugar para trás, agora sendo possível observar toda a sua feição destemida. Seus passos mal eram ouvidos, e foi uma questão de segundos até que ele pudesse chegar perto o bastante da passagem. Naquele momento, chegou a colocar o celular de volta no bolso, deixando o braço livre na frente do torso, como um lutador pronto para começar um novo round, de forma que seus dois membros quase formavam um X. Agora, tinha de pensar se entrava de vez ou ia lentamente.

O risco de ir lentamente era que, quem quer que estivesse ali, poderia prever sua aproximação — isso, se já não tivesse previsto — e surpreender ao próprio rapaz, o que seria uma desvantagem para ele. E aparecer repentinamente, pular na frente da passagem e entrar, seria o bastante para surpreender o sujeito, mesmo que as chances dele já estar preparado para o ataque fossem altas. De qualquer forma, não seria bom o que aconteceria, então ele se decidiu de uma vez.

Respirou fundo antes de impulsionar o corpo para frente e saltar diante da porta aberta, ficando cara a cara com o interior do cômodo, a face retorcida numa expressão de ataque, o braço direito pronto para golpear com o canivete num grito de guerra. No entanto, parou no exato momento, franzindo o cenho de forma curiosa, ao reconhecer a figura ali dentro. Era uma costa larga, unida a um par de braços e uma cabeça negra, vestida de uma farda policial da cor azul. Kai.

Garrett abaixou a guarda imediatamente, aproveitando o fato do rapaz estar de costas para colocar o canivete no bolso traseiro da calça, para não assustá-lo ou coisa assim. Deixou que os músculos voltassem a relaxar e se aproximou com passos hesitantes, sentindo o forte e ardente cheiro de álcool no segundo em que entrou no cômodo, um cheiro amargo que tomou conta de suas vias nasais. E foi o som dos passos do tatuador que fizeram Conway notar a presença, finalmente, virando-se para ele de forma animada e meio relutante.

— Kai? — questionou, retoricamente.

— Ei, Garrett! — gritou como resposta, sorrindo abobadamente. Chegou a dar dois passos na direção do outro, e cada um deles foi extremamente tortuoso e desorientado, de forma que o policial quase caiu, tendo de se apoiar numa das mesas ao lado. Ali era o escritório de Garrett. — Eu estava te procurando… — A voz de bêbado se mostrou presente.

— O-Oque você tá fazendo aqui? — perguntou, curioso, quase sendo asfixiado pelo cheiro de bebida. Olhou ao redor, mas tudo estava nos conformes.

O negro desfez a face de alegria por alguns segundos, ficando sério e olhando para baixo, pensativo. Em seguida, encarou o moreno.

— Muita merda acabou de acontecer… Sabe? — perguntou ele. — Eu… Eu s-só precisava de alguém pra me fazer esquecer isso… — O olhar de Kai foi para a direita, e o tatuador o acompanhou, encontrando duas garrafas de cerveja e uma de vinho colocadas, vazias, sobre uma das estantes do lugar. — Foi mal, eu achei elas numa das suas gavetas… Espero não ter incomodado.

— Kai… — Garrett parecia mais chocado com a presença dele do que curioso com o “muita merda acabou de acontecer”. — Foi você que arrombou a porta? — Encarou-o.

— Foi… — respondeu, inocente. — Desculpa… De novo.

Enquanto DeLucca continuava com a boca aberta, sem falar nada pela falta de crença no que havia acontecido e pela raiva momentânea de, na verdade, não ser nada sério, Conway deu mais alguns passos em sua direção, como se fosse sair da sala, as pernas bambeando e se entortando enquanto sua face de tristeza mostrava-se presente. No meio do caminho, sem que o moreno fizesse nada para ajudar, ele tropeçou em si mesmo e foi para frente, começando uma queda. Estalou os olhos, com medo de cair, mas logo foi apanhado por Garrett, que se mostrou bastante prestativo em evitar que ele caísse, segurando o negro pelos braços.

O hálito de cerveja foi atirado contra sua cara, o que o fez quase vomitar. Diferente disso, apenas revirou os olhos, querendo socar o amigo na face.

— O que você tá fazendo aqui, Kai? — questionou.

— Eu vim te procurar… Estava tentando achar um telefone pra te ligar, mas… Não achei. — Riu de forma boba. — Quero alguém pra sair pra beber comigo, Ga-Garrett. Topa?

— Eu não posso… E, de qualquer jeito, parece que você ia começar sem mim. — A voz saiu falhada pelo esforço do peso do outro.

— Me empolguei um pouco, é que a merda foi grande mesmo e… Não podia ficar são.

Garrett o deixou em pé.

— O que aconteceu, afinal? — Olhou para ele.

Kai franziu o rosto, dizendo:

— Zoe está morta…

— Quê?! — tornou DeLucca, quase gritando, de olhos estalados. Não poderia estar ouvindo aquilo, parecia impossível, quase como se o outro estivesse brincando. — Do que você tá falando, Kai?!

Eles se encararam, e Conway pareceu incapaz de responder.

 

4

 

Hayes tinha acabado de chegar no topo das escadas do porão, desembarcando no primeiro andar, onde parou por alguns segundos, olhando para os lados para se orientar. Virou o rosto para a esquerda, direção pela qual o mascarado havia seguido, e foi capaz de ver um pouco do momento em que ele virou-se para subir as escadas que levariam ao segundo andar. Ficou claro que o psicopata estava atrás de Ellen, pela forma como recusou Emily e pareceu saber exatamente onde ela estava. E pela visão tida, a sobrevivente percebeu que a luminosidade na parte de cima não era tão precária quanto imaginava, podendo ver o caminho traçado pelo outro. Assim, largou o celular em cima da mesinha em frente a porta do porão e desfez–se de mais um atraso em seu caminho. Olhando para o lado, percebeu como a porta do quintal dos fundos havia sido arrombada. Estava certa pelo fato dele estar mesmo no exterior da casa, pelo menos.

Portando apenas a faca na mão direita, voltou a correr com a maior velocidade que conseguia, forçando os pés contra o chão de madeira e fazendo os cabelos esvoaçarem na direção contrária a qual seguia. Já começava a ofegar, o coração acelerado no peito. A face da garota era a de uma ira inexplicável, fechada como a de um guerreiro e vermelha de raiva. Naquela escuridão do primeiro andar, Emily tomava caminho pelo curto espaço que a separava das escadas, percorrendo todos aqueles metros para alcançar o temido Carrasco, sem temê-lo.

Chegava a ter medo de que a faca acertasse sua barriga pelos movimentos da corrida, mas passou a apenas se importar em usá-la para esfaquear o desgraçado. Dessa forma, não parou de correr nem por um mísero segundo, até que teve de fazer uma curva brusca para a esquerda, onde agarrou o corrimão de madeira com força para manter a estabilidade, ouvindo os passos pesados que passavam logo ao seu lado, subindo. As pernas viraram na direção contrária de onde seguiam em uma curta freada, atingindo os degraus cobertos por um carpete beje. Hayes olhou para cima, localizando seu alvo, e foi capaz apenas de ver as costas do mascarado, que ao menos se importava com sua presença, mesmo que a sobrevivente achasse que ele havia notado-a.

E foi encarando aquele sobretudo esvoaçante que quase se misturava ao escuro da residência, de coração acelerado e nervosismo no peito, focada em seu objetivo, que Emily não deixou de subir aquela escada, sem hesitar nem por um segundo. As pernas vibravam junto do restante do corpo enquanto uma fúria vingativa tomava seu ser. Naquele momento, ainda foi capaz de lembrar de todas as vezes em que temeu o mascarado, de todas as suas decisões erradas e burras durante o massacre e a forma como se condenou por elas, vendo que ali seria o instante perfeito para fazer justiça a essas coisas. Se salvasse Ellen ou derrotasse o Carrasco, já estaria feliz.

— Ei! — gritou quando alcançou uma boa distância dele, separados por cinco ou seis degraus.

O movimento sobre si foi imediato, ao que o assassino pareceu notar sua proximidade com a sobrevivente e virou-se para ela de supetão, tão rápido que Hayes ao menos foi capaz de se preparar para o golpe que veio em sua direção. Em um piscar de olhos, aquela enorme faca de sobrevivência projetou-se sobre um dos ombros do maníaco, erguida em riste em sua direção. Levada pelo susto, a única coisa que a morena foi capaz de fazer foi golpear também, entrando em desespero pelo fato de não ter sido capaz de desacelerar o passo durante o ato. Sua mão portadora da faca de cozinha golpeou na horizontal, enquanto a do assassino foi na vertical.

O peito do mascarado bateu de encontro à sua face sem que nenhum dos dois pudesse evitar, desde que Emily continuou correndo na direção dele. O corpo do mesmo se envergou para a esquerda, levado pelo impulso do forte empurrão, e sua faca não foi capaz de se enterrar na garota, passando de raspão em suas costas e deixando apenas um rasgo fino e imperceptível na camisa. Isso, ao que a arma da sobrevivente cortou-o na altura da barriga, nem um pouco o bastante para ser considerado um corte profundo, um leve arranhão que ao menos liberou sangue. Mas nenhuma dessas coisas foi notada pelos dois, que estavam distraídos demais com a estabilidade de suas próprias pernas para pensar em algo como isso, acompanhados pelo som de grunhidos.

Hayes gritou de raiva ao avançar sobre ele, não sentindo nenhuma dor, e usou o braço livre para empurrar a cintura do maníaco. No instante seguinte, não sentiu mais nada à sua frente, desde que o psicopata pareceu desaparecer da escadaria. No entanto, foi capaz de notar um coturno negro raspando em sua perna, subindo, e em seguida ele sumiu também. Agoniada pela falta de orientação na situação, a sobrevivente olhou para trás, a tempo de ver as pernas desesperadas do Carrasco sumirem para o primeiro andar, acompanhadas de um alto som de impacto que fez ela mesma vibrar de euforia. Pela força de seu empurrão, mesmo que não tivesse percebido, foi capaz de derrubar o mascarado, que virou sobre o corrimão das escadas e despencou no primeiro andar.

Chegou a dar um sorriso de lado, e olhou para baixo, apenas para ver o assassino remexendo-se no chão, inaudível pela altura. Era alto o bastante para ter machucado-o seriamente. Hayes virou a cabeça para trás, percebendo que estava no topo da escada, separada dela por dois degraus. Agora, teria de tomar uma nova decisão: resgatar Ferrer ou continuar sua caça ao assassino?

Ela lembrou-se de todas as mortes, do porte grande de Logan e Lincoln e da forma como os dois foram vencidos, dos ataques, de como foi difícil com Jordana, das ligações e do horror levado por aquela figura. Então, encarou a faca de cozinha em sua mão, percebendo como ao menos foi capaz de acertá-lo letalmente. Era óbvio que não teria chances contra ele, mesmo que tentasse, e pensando mais, tinha uma coisa muito melhor no segundo andar.

— Porra! — gritou para si mesma, terminando de subir para o andar superior.

Virou-se na direção de seu quarto, lembrando-se que Ellen estaria lá dentro, desde que lhe foi instruído para usar o banheiro de seu quarto, sendo que não haviam outros mais reservados quanto o dito cujo. Era a segunda porta à direita, e Emily percorreu o trajeto o mais rápido que conseguiu, sendo esperta ao não querer que o assassino escapasse novamente. Se fosse ágil o bastante, conseguiria pegá-lo ainda lá dentro.

A adrenalina percorria seu corpo, o coração batia como nunca no peito e Hayes achava nunca ter ficado tão ofegante. As mãos chegavam a tremer pelos sentimentos, nervosa.

Terminou a corrida e abriu a porta de uma única vez, adentrando seu quarto. Fechou a passagem com destreza para não fazer barulho e passou a mão pela trinca sobre a maçaneta, voltando-se para o interior do quarto. Era grande, com uma cama de casal ao lado de uma janela grande, um guarda-roupas do lado contrário a ela e uma estante onde guardava livro e pertences à frente da mesma. E no espaço entre a cama e o guarda-roupas, estava uma outra porta, que levava ao banheiro. Ela estava fechada, como já era o esperado.

Contudo, antes de ir até Ellen, Emily foi em direção ao criado-mudo ao lado de sua cama, abaixando o torso para ficar na altura do móvel.

— Ei, Ellen, pode sair! — gritou, enquanto abria uma das gavetas e vasculhava entre as tralhas do lado de dentro dele. Quando não obteve resposta, persistiu: — Ellen, vamos! Nós temos que ir agora, o assassino está na casa!

Suas mãos remexiam no interior da gaveta, a faca largada em cima do criado-mudo, e foi entre uma balançada e outra que uma pistola negra foi deixada em evidência. Séria e confiante, Hayes agarrou a arma entre os dedos e ficou ereta, não se importando em fechar a gaveta. A luz da lua que vinha da janela descoberta era o bastante para ela encarar com cuidado o objeto, certificando-se de que estava carregado. E obviamente estava, desde que nunca foi usada. Era uma arma adquirida alguns anos antes por ela e Jordana para proteção pessoal, e aliás, foi uma ótima ideia que, no começo, acharam não servir de muita coisa e que, naquele instante, era o seu gatilho entre a vida e a morte, literalmente.

Um pouco irritada pela demora de Ferrer, a sobrevivente marchou até a porta do banheiro, dando três socos fortes na madeira.

— Ellen, vamos, agora! — gritou. — Abre a porta! — Ainda nenhuma resposta.

Precisando se apressar, a garota girou a maçaneta, não se importando com a situação da psicóloga, e escancarou o pedaço de madeira, apenas para encontrar o pequeno banheiro vazio, sem nenhum indício da loira. Uma espessa nuvem de vapor cobria-o por inteiro, deixando claro que havia sido usado a pouco tempo. Pelo menos ela havia estado ali.

Engoliu em seco, curiosa e temerosa pelo paradeiro de Ellen. Se não estava ali, significava que estava mais exposta e desprotegida do assassino do que nunca. Deu meia volta, apressando-se até a porta de entrada do quarto, deixando-o para trás, ainda com a pistola em mãos. Destravou a porta com um longo suspiro e hesitou alguns segundos antes de abri-la, tentando perceber se havia algum ruído do outro lado ou não. No entanto, o seu nervosismo parecia aplacar tais sentidos, e sem que tivesse outra escolha, abriu a passagem de uma única vez, apontando a arma para a frente do corpo.

O corredor vazio e escuro se mostrou presente. Por sorte, sua visão começava a se ajustar à escuridão, podia perceber a silhueta dos objetos agora, e o lugar parecia vazio. Saiu do quarto, ainda com os braços apontados para frente, mirando com a arma, o indicador próximo do gatilho para disparar a qualquer instante. Estava tudo estranhamente silencioso, e Hayes sabia que, a qualquer momento, o perigo iria se mostrar presente. Tinha medo de que o Carrasco tivesse ido embora, e agora começava a se arrepender por não ter persistido na caça e eliminá-lo do jogo quando derrubou-o das escadas. Aquela foi uma chance de ouro mal aproveitada.

E foi parada ali, castigando a si mesma, que uma vozinha ressoou pela escuridão do corredor, vinda de uma origem desconhecida, sussurrando:

— Emily.

Em estado de alerta, a sobrevivente virou-se instantaneamente para trás, dando de cara com os poucos metros escuros que lhe sobravam até a parede do final do corredor, que guardava uma janela tampada por uma cortina azul. Ou estava ficando louca, ou havia realmente ouvido alguém chamar seu nome. A origem e a quem a voz pertencia foram indecifráveis para ela naquele momento, estava perdida. Por alguns segundos, pensou na possibilidade do assassino ser o responsável pelo chamado, mas seria impossível dele ousar revelar sua identidade, a não ser que tivesse certeza de que fosse matá-la. Começou a tremer, temendo ser morta. Ele poderia estar bem ali, atrás de alguma daquelas portas, esperando ela passar ao lado para pular em sua direção e enfiar uma faca em sua garganta.

Arrependeu-se, além de ter escolhido buscar a arma, de não ter saído da casa quando teve a chance. Sua sede por vingança valeria tanto assim? Ellen valeria tanto assim? Tinha certeza de que a psicóloga não se arriscaria de tal forma para salvá-la, e agora odiava a si mesma.

— Emily, aqui. — O chamado se repetiu, e dessa vez a morena encontrou sua origem.

Hayes olhou para uma das portas da esquerda, a alguns poucos metros. Havia uma frestinha de cinco centímetros em uma das extremidades, virada para ela, e por essa fresta, um olho verde e amedrontado aparecia, encarando-a. Ela reconheceu de imediato quem era, aproximando-se e abaixando a arma.

— Ellen? Que porra! — disse, sussurrando também.

A porta abriu-se ainda mais, revelando a loira por inteiro, que continuou do lado de dentro do quarto de hóspedes, onde estava alojada desde sua chegada. Emily reparou que ela estava apenas com uma toalha ao redor do corpo e os cabelos ainda úmidos, por ter acabado de sair do banho.

— Me desculpa — disse ela, a voz falhando. — Eu fiquei assustada e corri para cá depois de ouvir os seus gritos e os sons de luta. — Deu uma pausa, olhando para a pistola carregada pela morena. – O que está acontecendo?

— O assassino está na casa, e nós precisamos sair agora.

— Ai, meu Deus! — exclamou, um pouco mais alto.

— Shh! — alertou a outra. — Fique em silêncio e não saia da minha cola.

Ainda foi capaz de estender a mão para Ferrer, trazer um pouco de segurança para ela, fazendo qualquer coisa para que a mulher se acalmasse um pouco. E sem relutar, Ellen agarrou sua mão, apertando-a com força. Dessa forma, as duas seguiram com passos rápidos pelo corredor, indo na direção das escadas. Foi até impressionante a forma como a psicóloga se manteve quieta, não questionando nada, apenas com aquela expressão aterrorizada de quem está prestes a ter um colapso no rosto. Ela temia que o mascarado estivesse ali por ela.

Emily, imbatível, liderava a dupla, indo na frente, com a única mão livre segurando a arma em frente às duas, a outra agarrando a mão molhada da loira. Não podia mentir que estar com outra pessoa realmente era mais aliviante.

As duas chegaram às escadas, parando ao lado do corrimão que antecedia os degraus, como se fosse um parapeito de varanda. Olharam para baixo, lado a lado, reparando na forma como estava tão escuro no primeiro andar que era quase impossível perceber alguma coisa. Mas pelo pouco que conseguiram captar, estava vazio e sem sinal do Carrasco. Assim, voltaram a andar, descendo os degraus com cautela para não fazer barulho nem chamar atenção. As pernas das duas chegavam a ficar um pouco dobradas, andando na ponta dos pés, nervosas. O coração de ambas pulava no peito, enquanto Hayes tentava controlar a respiração ofegante para não chamar atenção. Tinha os membros doloridos, também. Atrás da sobrevivente, Ellen percebeu o rasgo na camisa dela e engoliu em seco, pensando na origem do mesmo.

Sob a escuridão do interior da residência, Emily e Ferrer pareciam dois ratinhos esgueirando-se pela casa para roubar comida, tão silenciosas que pareciam deslizar pelo chão, de lábios selados. Chegaram ao final da escadaria, começando a percorrer o corredor em direção à porta da frente após darem uma olhada para a direção contrária, de onde a porta estourada dos fundos parecia uma ótima armadilha, por onde o assassino poderia, ou não, ter saído e ficado esperando por elas passarem, por ser a saída mais fácil do momento.

Enquanto Hayes seguiu pela frente, prestando atenção no caminho percorrido, a psicóloga ficou olhando para trás, na direção da passagem aberta, que liberava um pouco da luz da lua, atenta. A apreensão das duas era indescritível, pareciam estourar de nervosismo. O pensamento de que poderiam ser mortas era a única coisa que ficava em suas mentes.

Para a sorte das duas, nenhuma ameaça apareceu durante a caminhada. Suas mãos unidas tremiam no ar, e a sobrevivente parecia ter deixado de lado suas desavenças com a loira no momento mais decisivo de suas vidas. Era quase impossível manter a calma, mas por sorte haviam chegado à porta da frente. Naquele momento, soltaram as mãos para que Emily tivesse liberdade para destrancar a porta.

Alguns centímetros separada dela, Ellen estava de costas para a garota, encarando com espanto nos olhos a porta dos fundos ainda aberta, como um olho encarando-a, ao menos se dando conta sobre as outras passagens aos seus lados, como a da sala e a da cozinha.

A morena, ainda agarrando a arma, manteve um pouco de distância da porta ao girar a chave e destrancá-la. Não olhou para a companheira, achando que ela estaria logo atrás de si, e apenas girou a maçaneta e trouxe a placa de madeira para sua direção. No exato mesmo segundo, teve o relance de uma silhueta negra se aproximando do outro lado da porta, vindo em sua direção, ocultada pela escuridão. Sem pestanejar, levada pelo impulso e por seu instinto de sobrevivência, ergueu o braço portador da pistola e o estendeu na direção do inimigo, franzindo o cenho durante o susto estarrecedor ao apertar o gatilho do objeto. O coração estourou no peito.

A arma vibrou em suas mãos, um clarão forte atingiu seus olhos e o som tremendo do disparo pareceu ensurdecê-la por alguns segundos, fazendo com que Ellen, atrás de si, virasse-se em completo espanto pelo barulho repentino, quase deixando sua toalha escorregar pelo corpo. Virou-se para a direção do disparo, encontrando a sobrevivente estática, com o braço ainda esticado, praticamente sem reação ao acertar em cheio a figura.

E diante de Emily, o corpo de Garrett caía em direção ao chão, atingido em cheio pelo tiro instintivo da garota, a face sem expressão estando relaxada. DeLucca despencou sobre a madeira da varanda, fazendo a estrutura vibrar com força, os braços e pernas moles balançando por alguns segundos, antes de ficarem completamente imóveis.

Quando a luz da lua finalmente iluminou o rosto do rapaz, Hayes deu um longo e estridente grito, largando a arma de suas mãos e fazendo-a pingar no chão, colocando ambas as mãos sobre a boca, chocada. Atrás de si, Ellen estalou os olhos em choque. Ambas haviam percebidos o enorme erro cometido, enquanto encaravam o corpo estirado de Garrett e a grande poça de sangue que começava a se formar ao redor do mesmo.



Notas finais do capítulo

Esse capítulo foi um pouco difícil de escrever, então eu espero que tenham gostado! Por algum motivo, acho que tô perdendo o jeito com cenas de ação, então me digam suas opiniões sz O que acham do futuro de Garrett? E o de Kai e sua bebedeira? E o da proposta do assassino com Ellen? Até a próxima, galera!



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