Hello There 2 escrita por Weirno


Capítulo 11
Primeiro Interlúdio – Found Footage


Notas iniciais do capítulo

Okey, esse capítulo é um pouco diferente do que vocês estão acostumado (perceberam isso pelo nome e pela falta de sinopse? Exatamente hehe). Vou ser sincero em dizer que não sei explicar o que é um interlúdio, apenas sei o que é. Vocês podem pesquisar, se preferirem. Enfim, agora, daremos início aos interlúdios da história. Serão, no total, quatro ou cinco, narrando os eventos que serão citados nesse capítulo.
Bem, é uma coisa nova, então espero que gostem!




ALGUMAS HORAS APÓS A MORTE DE LINCOLN DAVIS

 

De faróis acesos, o carro tomava caminho pela escuridão. Vermelho e brilhante, o automóvel era iluminado apenas na parte da frente pelos faróis que ele mesmo tinha. A alguns metros à frente, a estrada escura e deserta era iluminada pela luz amarelada vinda dos faróis dianteiros do Volvo. Os quatro pneus negros deslizavam sobre o asfalto como se ele fosse manteiga, tamanha era sua velocidade, fazendo com que a água acumulada fosse jogada para trás no momento do giro. Além disso, os limpadores de para-brisa mantinham-se em constante movimento dos dois lados do carro, indo e vindo de segundo a segundo na velocidade média, expulsando dos para-brisas toda a água que caía sobre si por conta da garoa que despencava na estrada, com gotas fortes e consistentes, salpicando o interior do carro com o som parecido com o de disparos.

Dos dois lados da estrada vazia, pinheiros altos se enfileiravam por longos quilômetros, de forma que, se vistos de cima, perdiam-se no horizonte. A lua acima estava brilhante e grande, lua cheia, mas nem por isso iluminava o caminho do rapaz. Afora, o som era apenas da água caindo, do motor do carro em funcionamento e das rodas girando pelo asfalto escuro, mas dentro do automóvel era um pouco, senão muito, diferente. As janelas fechadas impediam que os sons do exterior entrassem, mas o ambiente não era de total silêncio, desde que o rádio cinza ressoava uma música qualquer que tocava no rádio em um volume baixo e o motorista imitava baixinho o ritmo da canção, não chegando a cantá-la.

Sozinho no carro, o homem tinha os dedos grudados no volante, trêmulos pelo nervosismo. A música tocava apenas para tentar lhe alegrar um pouco, mas não adiantava de muita coisa, desde que sua situação não mudaria de nada e, muito menos, seus sentimentos naquele momento.

De repente, uma luz repentina lhe comprometeu a visão traseira. Estreitou os olhos por alguns segundos, sua face inteira imersa pelas sombras do carro escuro, e levantou o braço direito. Seus dedos tocaram o retrovisor e com um único movimento ele foi ajustado, o espelho mudando de posição e tirando a luz de si. Nesse instante, o reflexo assustado de Robin Ritter apareceu ali, iluminado pelo farol de um carro, que surgiu-lhe por trás. Tirando a luz da face, tornou sua atenção para frente, e momentos depois o segundo carro aumentou a velocidade, aproximando-se de si. Estando em uma linha reta, o automóvel não hesitou em ultrapassar-lhe, passando ao seu lado para, segundos depois, desaparecer na escuridão.

O sobrevivente do primeiro massacre de Oakfield, temeroso, aumentou a velocidade mais um pouco. Quanto antes chegasse, melhor seria. O ponteiro no painel beirou os setenta quilômetros por hora. Ritter engoliu em seco. Inquieto e nervoso, a camisa social de pano fino que usava parecia ferver a cada segundo, formando grandes manchas de suor na altura do pescoço e das axilas. Suava frio. Então, Robin estendeu o braço na direção do banco do passageiro, remexendo-a sobre ele, a procura de seu aparelho celular. Com a palma aberta, apalpava uma parte do banco, sem tirar os olhos da estrada para evitar um deslizamento ou perder o controle. Não conseguia encontrar. Dessa forma, desviou a atenção da estrada por alguns segundos, olhando para o assento. E lá estava ele, em uma das extremidades do couro, jogado fora de seu alcance.

Estendeu mais o braço, inclinando o torso, e voltou a olhar para frente quando agarrou o aparelho, trazendo-o para mais perto de si entre os dedos, tornando a ficar ereto no banco, agora com uma das mão apoiada sobre o volante e não agarrando-o com a outra. Repentinamente, uma placa passou como uma sombra à direita da estrada, um vulto rápido e verde. Contudo, Robin já havia reparado nela antes, e foi capaz de lê-la antes que a mesma ficasse para trás. Em letras grandes e brancas, estava escrito: “Oakfield – 20Km”.

Suspirou profundamente, pensando duas vezes no que iria fazer.

As notícias sobre a onda de mortes na cidadezinha havia atingido grande parte do país, e para o rapaz não havia sido diferente. Assim como a volta de Emily e Jordana para a cidade apenas dias antes. Para Ritter, não havia coincidência. Duas sobreviventes voltam para sua cidade natal e auge de um massacre de onde saíram sobreviventes e novos corpos começam a ser encontrados. Ele havia lido todos os artigos encontrados na internet para ter certeza daquilo que pensava, mas grande parte das informações não saíam de Oakfield para evitar tumulto de pessoas curiosas querendo visitar a cidade ou pânico coletivo pelo país. A maior parte das notícias eram obtidas pelas redes sociais dos moradores de lá, que não temiam postá-las.

Em suma, o moreno havia descoberto que Jordana e Emily haviam retornado para a cidade, mas o motivo disso não veio a ser citado em lugar nenhum. Teorias haviam surgido, mas nada concreto, e dessa forma Robin teorizava que foi para um novo começo, como ele mesmo havia pensado anos antes. No entanto, desistiu da ideia antes de chegar a fazê-la. Após isso, ficou sabendo que o culpado não havia sido pego. Ninguém além da polícia sabia que era um Carrasco causando as mortes, desde que nenhum inocente havia presenciado-as e as únicas pessoas que sabiam da informação estava impedida de espalhá-la para todos. Kai havia contado para Zoe, Emily e Jordana, mas da mesma forma nenhuma delas chegou a falar para ninguém. Contudo, isso poderia passar a ser um pouco diferente, desde que Linda havia sido atacada e suas decisões sobre as coisas descobertas ainda não haviam sido tomadas.

Logo, constatou o retorno das duas, as mortes e um culpado não encontrado ao retorno de um assassino. As notícias da morte de Lincoln não haviam repercutido o bastante, então, para ele, apenas cinco mortes haviam sido constatadas até o momento. Assim, ele seguia sozinho de volta para a cidade, sem saber o que encontraria lá.

A ideia toda do retorno lhe assustava. Assim como Hayes e Brammall, Ritter não via as caras de Oakfield à sete anos, e voltar para reencontrar antigos demônios não era nada acolhedor. Parte de seu nervosismo se dava a isso, mas não todo. A outra parte que compunha sua sinfonia do terror era que estava prestes a correr pela vida pela segunda vez na vida. Todos os acontecimentos do antigo massacre ainda eram a causa de grande parte de seus pesadelos, lembrar tudo o que passou e pensar que poderia acontecer de novo era o bastante para aterrorizar o homem de vinte e cinco anos. No entanto, Robin sabia que era preciso, desde que não seria capaz de deixar a amiga e a antiga paixão adolescente lutar com o perigo sozinhas. Estava indo para lá para ajudar as amigas e para antecipar o derradeiro destino final que lhes foi prometido à sete anos atrás: a volta de um assassino em suas vidas.

Não sabia de que forma os eventos aconteceriam durante os próximos dias, mas esperava que a coisa fosse terminada logo, antes que mais alguém viesse a morrer. Uma cabeça a mais pensando seria, sem sombra de dúvidas, algo muito bom para as investigações, mas uma cabeça que já sobreviveu uma vez era melhor ainda, e Ritter estava disposto a dar essa ajuda, mesmo que não soubesse por onde começar, desde que não havia encontrado em lugar nenhum o paradeiro das sobreviventes. Ao chegar em Oakfield, teria de dar um jeito de encontrar Emily e Jordana o quanto antes, sem poder perder mais tempo.

Era perigoso, mas faria de tudo para ajudá-las a acabar com aquilo. Preferia morrer lutando do que sofrer com as consequências de não ter feito nada e encontrar os rostos de Jordana e Emily estampados num jornal com a data e a hora de suas mortes abaixo.

Mas antes disso, antes que chegasse na cidade, teria de fazer uma coisa, e foi por esse motivo que pegou o celular. Agora, com uma das mãos guiando a direção e a outra segurando o aparelho, Robin deslizou o dedo pela lateral e apertou um dos botões, acendendo a tela. No mesmo instante, um som chegou aos seus ouvidos, mais alto que o do rádio, e uma notificação apareceu na tela bloqueada, evidenciando que o celular estava com pouco bateria. Olhando no canto da tela, percebeu que estava com 15%. Não duraria o bastante para fazer o que queria nem em um milhão de anos e, além de tudo, teria de manter contato com o exterior. Aliás, era um contato muito importante, pois Ritter havia deixado sua mulher e filha.

Após sair de Oakfield com dezoito anos, o moreno havia se mudado para Houston, no Texas, onde continuou vivendo até aquele momento. Cursou empreendedorismo por cinco anos, e usou os dois restantes para fazer estudos para construir seu próprio negócio. Por sorte, estava chegando perto, quase na etapa de formar a empresa. Sua esposa, Anne Ritter, sempre o apoiou muito, sendo que se conheceram apenas um ano após sua saída da cidade. A mulher, que tinha dezoito anos na época, não tentou uma apresentação forçada, dizendo logo de cara que estava interessada em sua história e que gostaria de montar um trabalho de faculdade focada nela.

Pela beleza escruciante da garota, que tinha cabelos ruivos lisos e grandes olhos castanhos, ele cedeu ao pedido, mesmo que, naquela época, ainda não gostasse ou se sentisse bem ao tocar no assunto. Diferente de como era agora, que falava calmamente sobre os acontecimentos, percebendo que tudo estava bem e que não havia motivo para temê-lo (se estiver se perguntando, falar sobre o assunto e retornar para o local do assunto eram coisas extremamente diferentes, e Robin percebia isso agora). Então, os dois começaram com encontros marcados focados no trabalho de Anne e quando viram estavam saindo casualmente para papear sobre qualquer coisa que desse na telha.

Anne Whittle, que antes tinha esse sobrenome, era cursante de Cinema e formulava um curta-metragem sobre terror psicológico focado em traumas passados. Ela recrutava diversas pessoas que passaram por algum trauma e davam liberdade para ela expor aquilo para uma faculdade inteira. Robin, no entanto, foi o que mais chamou sua atenção. Whittle o achou bonito, elegante, gentil e todas outras características boas que conseguiu encontrar, apaixonando-se por ele de imediato. Ritter não foi diferente, desde que, dois anos depois, estavam casados e para ter uma filha.

A filha, Violet Ritter Whittle, uma doce menina de quatro anos de idade, era exatamente como a mãe, mas levava os olhos caramelo do pai e os cabelos enrolados dele, tendo a pele extremamente branca e não corada como a de Anne.

Ele havia deixado as duas em Houston, e de forma a não preocupá-las, disse que viajaria a trabalho para algumas reuniões, emitindo a verdade. Odiava mentir para as duas, principalmente para Whittle, mas não queria envolvê-la ou deixá-la preocupada consigo, muito menos queria deixá-las e seguir sozinho, mas, como já dito, o apego emocional que o moreno ainda mantinha sobre Emily e Jordana era grande demais, e ele não as deixaria lidando com tudo se podiam tê-lo ao seu lado para ajudar. Para que se sentisse mais mal ainda, Anne acreditou facilmente na mentira.

Olhou para os lados, procurando por algo que o ajudasse. Lembrou-se que havia um carregador para carros em algum lugar do automóvel. Após pegar dois voos, de Houston para Nashvilee e depois de Nashvilee para Cincinnati, e alugar um carro nessa cidade, foi lhe dito pela locadora de veículos que um carregador para carros vinha incluso. Se não lhe falhasse a memória, ele ficava no porta-luvas. Esticou o braço e mais uma vez entortou o corpo, abrindo o compartimento do outro lado do carro, e com os olhos e a mão explorou o lugarzinho de um lado para o outro. Revirou-o duzentas vezes, mas não havia nada além de alguns papéis e a sua carteira.

Irritado, olhou para todos os compartimentos extras do Volvo, mas todos estavam vazios. Irritado, Robin bateu com o punho fechado no volante do carro, com a mão que segurava o celular. Bufou de raiva enquanto gritava:

— Merda!

Uma certa ofegância lhe tomou o corpo por conta do ato. A face estava vermelha. O estresse da situação era demais para ele. De repente, ao virar numa curva aberta da estrada, uma forte luz tomou conta de seus olhos. Mais uma vez, Ritter foi obrigado a fechá-los para não ficar cego, e quando ele finalmente voltou a abri-los, percebeu que não eram os faróis de um carro. A luz branca vinha do logo de um posto de gasolina e das luzes que circundavam a parte de cima do mesmo. Era forte, feita realmente com a intenção de chamar a atenção de quem passasse. Respirou aliviado, como se suas preces tivessem sido atendidas e a sorte tivesse, enfim, ficado do seu lado. Dessa forma, começou a virar o volante do carro com cuidado, entrando à esquerda.

Sendo sua única opção no momento, mesmo que desse uma atrasada, a velocidade do carro foi abaixando enquanto Robin entrava no posto. Passou ao lado de uma enorme placa que marcava os preços dos combustíveis, até parar ao lado de uma das bombas de gasolina. Com o porta-luvas ainda aberto, ele se esticou e pegou a carteira no interior. Ainda segurando o celular, tirou a chave da ignição e desafivelou o cinto. Abriu a porta do carro e saiu do mesmo, dando uma boa espreguiçada e olhando ao redor. Robin reparou no lugar, percebendo como ele parecia isolado de tudo. Até chegar à Oakfield, passou por duas cidades, onde dormiu por uma noite, e então seguiu estrada. Estava viajando por mais de uma hora, se não se enganava, e com relação a isso, Oakfield seria a cidade mais próxima daquele posto. Havia parado de garoar.

Quatro bombas de gasolina estavam dispostas em duas fileiras, cada uma equipada por uma máquina de cartão de crédito, onde os clientes pagavam pelo combustível posto por eles mesmos antes de abastecer. O teto de plástico era sustentado por oito pilastras de concreto que se formavam ao lado de cada uma das bombas, no total duas pilastras em cada uma. Após alguns metros do lugar de abastecimento dos veículos, marcas no chão evidenciavam que os carros poderiam estacionar ali. Mas Robin preferiu parar diante de uma das bombas justamente por ter a intenção de abastecer o carro vermelho. À esquerda, após o local de estacionamento, uma espécie de lojinha formava-se. Era um típico estabelecimento de posto de gasolina, feito de tijolos laranjas e um telhado verde, onde vendia-se todo tipo de coisas, desde alimentos a até remédio e objetos diversificados.

Além disso, percebia estar sozinho, pelo menos ali fora. A estrada ainda não evidenciava sinal de outras presenças. Se perguntou o motivo disso, já que não passavam das 21:00. Ele realmente não se importou, preferia ficar sozinho pois teria mais tempo para pensar. Assim, foi até a bomba de gasolina, na qual estacionou o carro à frente, e abriu o compartimento de abastecimento do veículo, pagando cinquenta reais na máquina e colocando o tanque para encher. Esperou que os cinquenta reais tivessem sido marcados no visor e voltou a fechar a coisa. Prendeu a chave na alça da calça, guardou o celular sem bateria num bolso e a carteira no outro, caminhando na direção da lojinha com rapidez. Pela vitrine, era possível ver os itens vendidos e uma presença no interior.

Reparou que havia um banheiro do lado, mas não tinha vontade de usá-lo. Ao redor, todo o lugar era rodeado por árvores e mato, afastado de tudo. Uma moto estava presa à calçada em um dos lugares para estacionamento, e Robin constatou que seria do atendente no interior da loja. Indiferente, ele abriu uma das portas duplas de vidro e entrou, percebendo que um sininho posto sobre ela havia ressoado. Seu primeiro ponto de vista foi para a direita, encarando um homem gordo e careca que servia de caixista, do lado de trás de um balcão cinza, ao lado de um computador e uma caixa registradora. Cumprimentou com a cabeça, mas o sujeito não respondeu com nem um aceno, voltando seu olhar para o celular nas mãos após encarar o moreno.

Envergonhado pelo vácuo, Robin olhou ao redor. O lugar era pequeno e frio. Um ar-condicionado estava posto sobre a porta, logo acima de si, o que fez o rapaz arrepiar. Era composto por quatro estantes, uma em frente a outra, logo diante de si. No entanto, uma parte parecia ser separada da outra. Enquanto as duas estantes da esquerda, junto de um freezer de parede, eram carregadas de alimentos, as duas da esquerda e os ganchos na parede tinham apenas objetos e tralhas. Os remédios ficavam com o atendente de cara fechada, no balcão. O som era composto por uma TV pequena ligada do lado de trás da bancada.

Foi até as fileiras da direita, percebendo como uma delas tinha uma parte reservada apenas para carregadores de celular. Como podia ver, todos eram pirateados, com selos da China colados, mas não ligou nenhum pouco, desde que funcionasse por algum tempo. Procurou e procurou. Carregadores para Android, para iPhone, iPad, tablets, MP3 e, até mesmo, computadores, mas não conseguiu encontrar nenhum em que uma das extremidades se assemelhasse à entrada do de um carro. Balançou a cabeça negativamente, comprimindo os lábios.

O moreno virou-se para o caixista, perguntando:

— Vocês vendem carregadores de celular para carros? – Sua voz saiu como um disparo no quase silêncio da lojinha.

O homem voltou seu olhar para si e tornou a olhar para baixo. Dessa vez, no entanto, ele correspondia à pergunta. Deixou o aparelho sobre o balcão e remexeu-se do lado de trás, usando os braços para procurar alguma coisa ali embaixo. Segundos depois, retornou com o que Ritter procurava entre os dedos, depositando o objeto ao lado do celular.

— São dez dólares – disse ele, seco.

— Eu vou levar – afirmou, caminhando de volta para a bancada.

Enquanto ia até lá e o rapaz pegava uma sacola para colocar o item, Robin pegava a carteira no bolso de trás da calça, onde havia guardado-a anteriormente. Pela vitrine, via o carro alugado estacionado da forma como havia deixado-o. Enquanto explorava o interior da carteira em busca de uma nota de dez, teve a atenção voltada ao sujeito mais uma vez, quando ele perguntou:

— Indo para Oakfield?

Levantou a cabeça de forma curiosa, o cenho franzido.

— Como sabe? – questionou de volta.

— Ninguém usa essa estrada para ir para outro lugar no sentido que você está indo. Indo por ela, você só chega a um lugar, que é Oakfield.

Engoliu em seco, percebendo que fazia sentido.

— É, vou para lá, mesmo – disse. O careca riu. – O que tem? – perguntou, contanto à reação do atendente. Ele apenas balançou a cabeça como resposta enquanto Robin lhe entregava uma nota de dez e pegava a sacola. Quando percebeu que não haveria resposta, disse: – Obrigado.

O moço não respondeu, e Ritter virou-se na direção da porta. Começou a caminhar na direção dela, preparando-se para tirar a chave da argola da calça, quando, sobressaltado, o homem voltou a falar:

— Na minha opinião, você deve voltar o quanto antes – disse ele.

Estava a centímetros da porta, e virou-se para ele, curioso e um pouco transtornado.

— Como? – perguntou.

— A cidade virou o alvo de um serial killer, rapaz – respondeu o caixista, sorrindo de lado, de braços cruzados.

Com um arrepio perpassando seu corpo, constatando que era real, disse:

— Eu s-sei.

— Então sabe que é um enorme risco ir até lá, não é?

— Sim… Eu sei.

Eles se encararam por alguns segundos. O moço percebeu o medo genuíno nas expressões de Robin e a camisa suada, constatando que ele, de alguma forma, estava indo para lá justamente pelo que estava acontecendo. Nada disse, no entanto. Não era assunto seu.

Ritter, ao perceber que não haveria resposta, deu seu ultimato:

— Bem, tenha uma boa-noite.

Virou-se e abriu a porta, saindo para a noite mais uma vez, enquanto o caixista lhe encarava do interior da loja com um olhar de desaprovação.

 

1

 

De volta para o interior do carro, Robin seguia viajem após alguns minutos depois de ter saído do posto. O veículo estava abastecido e a noite continuava tão deserta e escura quanto antes. As árvores passavam como vultos dos dois lados do carro, e com a garoa tendo parado, a estrada estava mais calma, por algum motivo. Grilos eram ouvidos crocitando ao fundo, e a água do asfalto ainda era jogada para trás em fluxos fortes pelos pneus do automóvel. O rádio foi desligado.

Robin olhou para o lado, vendo o celular posto sobre o banco do passageiro. Acoplado a ele, o cabo do carregador comprado o interligava a uma das entradas do automóvel, que ficava ao lado da marcha do carro, com uma luzinha vermelha acesa. Liberou uma das mãos do volante, diminuindo um pouco a velocidade, e pegou o aparelho, levantando-o na altura do rosto. Ligou a tela e viu que a bateria estava em 70%. Agora, seria o bastante para fazer o que vinha pensando em fazer desde que saiu do hotel da última cidade onde ficou hospedado por algumas horas. Puxou o fio do carregador e arrancou à força da entrada do celular, deixando que ele caísse do outro lado. Ergueu mais um pouco o aparelho e mais uma vez apoiou a mão no volante.

Com o polegar, dividindo a atenção com a estrada e com a tela do aparelho, selecionou a câmera e a abriu, colocando na frontal. Ergueu a mão e ligou a luz do carro com um clique na parte superior do veículo, deixando que uma luminosidade amarela nem tão forte iluminasse seu rosto para a câmera. Colocou a mão sobre o volante e num ângulo que exibisse sua face. Era possível ver, ainda, um pouco do banco de trás do automóvel, mas, além de tudo, o verdadeiro foco estava na expressão em pânico de Ritter, a parte de baixo dos olhos molhada pelo suor e a testa escorrendo mais algumas gotas do mesmo. Olhando-se assim, percebeu que estava muito temeroso mesmo.

Sua intenção era gravar um último vídeo antes de chegar em Oakfield. Iria explicar suas intenções naquela viajem, o que pretendia fazer quando chegasse à cidade e quem era. Dessa forma, se algo de ruim acontecesse e chegasse a ser morto, pois provavelmente a ira do assassino cairia sobre si assim que ele soubesse que mais um sobrevivente havia chegado na cidade, pelo menos seu celular seria encontrado em algum lugar e sua mensagem poderia ser passada pelo mundo, para que suas decisões não fossem teorizadas e que todos soubesse o motivo de ter arriscado a vida.

Assim, apertou o botão vermelho na parte de baixo da tela, iniciando a gravação.

—Olá… — começou dizendo, a voz trêmula. Seus olhos estavam focados na estrada, não focando na tela. — Meu nome é Robin Ritter, tenho… 25 anos… Hoje é dia 14 de julho e… Nesse exato momento, estou numa estrada, a caminho da cidade de Oakfield, meu antigo lar, por onde morei durante seis anos da minha vida… — Deu uma pausa e engoliu em seco.

“Para quem ainda não percebeu ou, pelo menos, não reconheceu, eu sou um dos sobreviventes do massacre ocorrido lá a sete anos atrás. A todo esse tempo atrás, eu e mais três sortudos saíamos ensanguentados e suados dentro da casa de número 1642 da rua 7 do Condomínio de Luxo de Oakfield. Hoje o lugar nem deve existir mais… – Ele suspirou profundamente e olhou ao redor, voltando sua atenção ao caminho. Na tela, sua face suada encarava a estrada, quase oculta. – Mas o que importa é que… Agora, sete anos depois de toda essa história, da qual todos vocês devem saber exatamente o que aconteceu, eu estou voltando para Oakfield na tentativa de parar a nova onda de morte que se abateu contra a cidade.

“Duas das sobreviventes estão lá, Jordana Brammall e Emily Hayes. Elas eram minhas amigas, mas… Nós fomos separados pelo tempo. De uma forma ou de outra, o que importa é que elas estão sendo alvos mais uma vez. Se eu tenho alguma prova disso? Não, não tenho, mas… Não pode ser coincidência… Um assassino não identificado que começa a matar… O mesmo modo de agir… E está na mesma cidade onde duas sobreviventes do antigo massacre estão morando.

“Até agora, se não em engano, já foram cinco vítimas fatais. Cinco inocentes mortos por esse psicopata. Eu não conheço ninguém lá, não sei quem são os alvos da vez além das meninas, e por isso não posso sair apontando dedos.

“O que eu realmente quero com esse vídeo, é mostrar o que estou fazendo caso… Caso eu seja morto. A sorte não está ao meu lado, nunca esteve. Estou me lançando contra o perigo para efetuar um plano extremamente arriscado. Eu não sei quais são as intenções desse assassino ou quais as motivações dele. Pode ser qualquer um, como a sete anos atrás.

“Estou sozinho, além do mais… Não há ninguém comigo nesse carro. – Robin virou o celular por todo o automóvel, provando que estava sozinho. – Eu poderia ter contatado o outro sobrevivente… Sean Thompson… Mas eu não consegui encontrá-lo e, de uma forma ou de outra, não quero metê-lo nisso…

“O Sean provavelmente está levando uma vida incrível em algum lugar e… Eu não quero estragar isso, sabe? Não quero que ele pense nisso. Não quero que minhas intuições o levem a fazer o que não quer e eu acabe por destruir a vida dele. Prefiro que ele fique bem longe disso e, para falar a verdade, não é tão ruim estar nessa sozinho. Tenho muito tempo para pensar.

“A sete anos atrás… Julia Moss e Connor McGrath começaram o que até hoje aterroriza minha vida, puxando o gatilho para uma série de fatos. O Sean e a Emily foram os que mais sofreram, eu acho, pois a Emily foi tida como a responsável pelos assassinatos e o Sean… O Sean tinha uma louca psicopata e obsessiva na sua cola. Ele, mais do que ninguém, se sentiu responsável por aquilo. Os eventos que ocorreram naquela noite de outubro até hoje me assombram… Eu também pequei, eu… Eu… Eu fiz o que tinha que fazer… Ajudei a matar Connor McGrath… E acredito que alguém voltou para se vingar disso, mas foi para cima da Emily e da Jordana pois estavam mais vulneráveis do que nunca. Estão sozinha na cidade onde foram amaldiçoadas para sempre, as duas garotas que deram, de fato, um fim à vida da Julia e do Connor.

“Por tudo o que já passei, sei que o passado nunca morre. Estou indo lá para antecipar o meu destino. É questão de tempo até que algum psicótico apareça atrás de mim… Já vi isso em vários e vários filmes e, até então, achava que era bobagem. Mas as minhas amigas estão aí para provar o contrário. Se aconteceu de novo com elas, existem chances de acontecer comigo. Por isso, estou indo para lá para tentar acabar com isso de vez ou tentar ajudar nas investigações. Não sei se vou conseguir ou se vou ao menos conseguir encontrá-las.

“Tenho… Tenho que deixar marcado as minhas últimas palavras aqui também e… E vou aproveitar esse momento… Bem – Coçou a garganta. –, quero declarar o meu amor para Anne Whittle, minha amada esposa. Querida… Se as coisas derem certo, então você nem vai chegar a ver esse vídeo ou saber da existência dele… Vou apagá-lo, assim como farei com todas as minhas memórias dos dias que estão para surgir. Mas… Se não, se eu acabar sendo encontrado morto em algum lugar… Pelo menos estarei com esse celular e as pessoas vão saber o que estava acontecendo, então vou aproveitar para dizer o quanto eu te amo…

“Você deve estar me odiando nesse momento por ter tomado essa decisão sem te avisar, mas eu apenas não queria te arrastar para o perigo junto comigo. Isso é um assunto meu e… Anne, minha querida, saiba que eu te amo e sempre vou te amar, independente da situação ou do meu estado.

“Agora… Quero falar sobre… Sobre minha filha, Violet Ritter Whittle. Ela ainda é muito nova para entender qualquer coisa que está acontecendo no momento, mas… Espero que quando ela fique maior, você, Anne, explique para ela o que aconteceu. Não… Não esconda nenhum dos fatos, não oculte a verdade dela. Explique quem foi o seu pai, o que ele fez e como ele morreu lutando. Minha filha, eu te amo mais do que qualquer coisa nesse mundo…

Nesse momento, mais uma placa passou rasgando à direita e, novamente, Robin leu-a a tempo. Não percebia como sua mão estava trêmula, vibrando o celular. Dessa forma, respirou bem fundo, continuando:

— Certo… Eu acabei de ver uma placa na estrada… Estou a cinco quilômetros… – alertou. – Tenho que ser rápido, então, para terminar esse vídeo, quero dizer que vou documentar toda a ação que se prosseguir durante os próximos dias. Estarei gravando tudo o que eu fizer que ajude nas investigações, todo o meu caminho para terminar esse massacre. Manterei as autoridades informadas caso eu morra e, dessa forma, quando esses vídeos forem encontrados, podem servir de alguma coisa.

“Ficarei hospedado em uma pousada da qual não revelarei o nome agora em caso de alguém descobrir quem eu sou e decidir fazer alguma coisa com meu telefone… Eu não sei, talvez pegá-lo enquanto ando pela rua ou coisa assim… E dessa forma saber onde estou me hospedando. É um risco que não quero correr. Não correrei riscos dessa vez… Além desse, é claro.

“Estou assustado… Estou muito assustado… – Olhou diretamente para a câmera, os olhos com uma camada de lágrimas. – Desejem-me boa sorte”.

Dessa forma, Ritter, com o polegar trêmulo, levou-o de encontro a tela, onde clicou na bola vermelha e piscante na parte inferior do celular, encerrando a gravação.



Notas finais do capítulo

Espero de coração que tenham gostado da surpresa! O retorno do Robin foi algo totalmente desavisado, não foi? Era uma coisa que já estava planejada desde o início da história, mas eu não posso dar spoiler do destino dele haha As partes dele serão um pouco diferentes do restante da história, com capítulos exclusivos para a trama dele enquanto ele tenta resolver as tretas que ainda virão a acontecer.
Depois que tava lendo o capítulo, eu senti uma certa tensão nas cenas, como se a qualquer momento ele pudesse ser morto, mesmo não sendo a intenção... Vocês também sentiram? Tipo, na parte que ele entra no carro depois de sair do posto vocês não acharam que tinha chances do assassino pular do banco de trás e matar ele ou coisa assim? É estranho dizer por eu ter escrito o capítulo, mas eu senti muito isso hahaha
Enfim, espero que tenham gostado! Até!



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