Vida após a Morte escrita por Caty Bolton


Capítulo 3
Onde exatamente é aqui?


Notas iniciais do capítulo

...oi



Enquanto Pocket lhe mostrava o caminho para Pip, ele falou sobre várias e várias coisas. Desde a sua morte por hepatite, pouco tempo depois que o loiro se mudou para os Estados Unidos da América, até como era a sua nova "vida" no Inferno. E... Não era tão ruim assim, ao menos pelo que ele tinha falado, estava longe de ser o pior dos cenários. Satanás era bastante condolente com os condenados injustamente a viver no reino das trevas, garantia a segurança de todos que não mereciam realmente as torturas que o Inferno podia verdadeiramente oferecer.

Já que apenas os mórmons vão para o Céu, com raras exceções, o Inferno é bastante lotado e o Diabo precisa lidar com isso de alguma forma. Pip só não esperava que ele fosse tão justo assim e admitiu isso para Pocket, que sorriu e falou que, antes dele cair, Lúcifer já foi um anjo nascido e criado no Paraíso.

Havia algum tipo de lógica nesse pensamento, claro, mas ainda era bastante estranho lidar com a situação daquela forma. Saber que Satã tinha piedade.

Bem que o filho dele podia ter puxado mais daquilo do pai, mas Pip mantéu tal pensamento para si mesmo.

Depois que os garotos deixaram aquelas cavernas, o Inferno se mostrou ser um lugar bem menos claustrofóbico. Ainda havia aquele calor insuportável, fogo para qualquer lugar que olhasse, mas o ambiente era simplesmente mais amplo, mesmo com aquele tipo de céu escurecido.

Havia um tipo de cidade em meio ao mar de fogo e a terra vermelha e morta, haviam casas, comércios e muito que lembrava o mundo dos mortais. Pocket falou que Satanás se preocupava em manter os moradores do seu reino confortáveis. Aparentemente nem se comparava ao luxo do Paraíso, mas a familiaridade era reconfortante para a maioria das pessoas.

Pip pensou sobre o que aquela mulher loira falou, sobre como deveria estar no Céu agora, e uma ponta de raiva de Damien acendeu na sua alma com a percepção de que estava ali, no Inferno, por causa de um capricho do anticristo. Só porque ele quis impressionar Cartman e os seus amigos idiotas para entrar em uma festa de aniversário.

Parando para pensar, o jeito que o britânico havia sido condenado era bem patético e felizmente não teve oportunidade para refletir sobre isso por muito mais tempo, não quando Pocket lhe chamou animadamente:

— Bem, amigo, aqui estamos!

Phillip olhou para o prédio cinza, havia um campinho de futebol na frente e uma porção de brinquedos de parquinho. Também tinha algo estranho ali, algo que lhe lembrava o lugar onde o garoto viveu em South Park...

— Onde exatamente é aqui?

— Eu gosto de chamar de abrigo, para crianças como eu e você, que acabaram tragicamente aqui antes da hora. — O garoto ruivo encolheu os ombros. — Também é um tipo de orfanato, porém.

Era ali que estava a semelhança.

— Entendi.

Pocket deu um dos seus sorriso brilhantes, mostrando claramente os dentes tortos da frente:

— Nos chegamos bem a tempo da hora do chá, você gostaria de participar, também?

Pip pensou seriamente na oferta, pensou mesmo, mas se sentia apenas tão cansado. Estafado e cheio de tudo que havia acontecido nas últimas horas. Perguntou-se se, mesmo depois de morto, ainda precisava dormir e aquele parecia um bom momento para testar isso:

— Perdoe-me, companheiro, mas receio que terei que recusar o seu convite. — O sorriso de Pocket vacilou por um instante e ele pareceu realmente decepcionado. — Eu estou um pouco cansado, isso é tudo.

— Se esse é o caso, eu que devo me desculpar! — Ele não se deixou abalar, aparentemente. — Estou te segurando aqui, Jesus, vamos, acho que eu consigo arrumar para você uma cama!

Não demorou muito, Pocket conversou um pouco com uma senhorinha simpática na recepção daquele local e arranjar uma local para Pip ficar não foi difícil. Supostamente muitas crianças morriam antes dos pais e aquele era o local que elas ficavam, isso quando não tinham família lá embaixo, até que fosse a hora dos pais, também.

Por um instante Pip perguntou-se onde estariam os seus pais, mas foi muito rápido, não queria ficar deprimido pensando em algo que, naquele momento, não havia solução.

Dentro de um quarto compartilhado com mais seis meninos – infelizmente o rosto conhecido de Pocket não estava entre eles – o britânico descobriu que ainda era bem capaz de dormir, sim.

No abrigo não fez muitos amigos, mesmo no inferno as outras crianças não pareciam gostar muito de Pip, mas nenhuma delas realmente lhe intimidava em algum nível, então estava se provando ser uma experiência bem melhor do que viveu em South Park. Apenas o seu amigo de infância vinha todos os dias falar consigo, lhe chamar para brincar ou quando era, teoricamente, a hora do chá da tarde.

Era uma rotina reconfortante, podia admitir aquilo com facilidade. Durante o tempo que pareceu serem três dias – não existia realmente um modo de contar o tempo ali, porque, depois de morto, o conceito de tempo não fazia nenhuma real diferença. – o Inferno se mostrou bem menos infernal do que deveria ser. Pip estava apenas agradecido por isso, conseguiria lidar com essa sua nova "vida", estava bem com as coisas simples.

Mas parecia que a falta de sorte que tinha em vida havia lhe seguido até mesmo na morte...

O loiro estava no salão comunitário, sentado a uma daquelas longas mesas retangulares com um monte de crianças e pré-adolescentes juntos, todos comendo o almoço. Pocket estava sentado à sua frente, alegremente falando sobre alguns livros novos que haviam chegado na biblioteca e Pip estava feliz em escutá-lo, quando as grandes portas duplas se abriram subitamente, batendo com força na parede e fazendo um barulho um tanto estrondoso. Todos olharam naquela direção, para o menino de preto, e o ar ficou pesado de uma hora para a outra, mas ninguém ousou falar nada contra o filho de Satã, não com a reputação que ele tinha.

Os olhos vermelhos de Damien percorreram todo o salão e ele demorou bem menos tempo do que Pip previu para achá-lo. Ele franziu aquelas sobrancelhas grossas e apontou o dedo bem na sua direção antes de falar:

— Você, vem aqui.

O loiro sentiu um medo inevitável quando se levantou da cadeira, sendo observado por todos aqueles olhos desconhecidos e Pocket, mas não fez realmente o que o anticristo havia pedido. Ele havia destruído o seu bom humor:

— O que foi, Damien?

Pip escutou um som surpreso de Pocket e olhou na direção do amigo, vendo-o assustado, com os olhos arregalados, mas não teve tempo o suficiente para perguntar a razão daquela reação que lhe pareceu exagerada.

— Eu tô mandando você vir aqui.

Um garoto aleatório lhe empurrou para longe no mesmo instante, e uma menina qualquer gritou para que fosse logo, com medo na voz. Jesus, parecia que estava sendo mandado direito para o matadouro. Suspirou resignado e caminhou por entre as fileiras de mesas até chegar perto o suficiente de Damien, onde pensou perguntar o que ele queria, ou falar que estava muito bem ali e ele não tinha mais com o que se preocupar, mas o garoto mais baixo apenas agarrou a sua mão e lhe puxou para fora do salão, então as portas se fecharam magicamente.

Cada vez mais os dois se afastaram do salão e o loiro não estava entendendo nada quando decidiu chamar por ele:

— Damien...?

Você só atrapalha, você sabe disso, não sabe, Pip!

Por causa dessa explosão Pip puxou a sua mão para se soltar de Damien, mais sem entender o que estava acontecendo ali do que realmente assustado com algo. Abriu a boca para falar algo, mas nem mesmo teve a oportunidade.

— Você não deveria ter fugido! — Ele apontou o dedo bem no seu rosto. — Agora o meu pai tá puto comigo e a culpa é sua!

Com licença!?

O olhar irritado de Damien era algo a se temer, com certeza. Ele abaixou aquele dedo e bufou, parecendo tão zangado que Phillip teve a impressão de que sairiam fumaça das narinas dele. Mas isso não aconteceu, nem por isso o loiro estava pronto para o empurrão.

— Você e a sua ficha estúpida! Se as coisas fossem tão pré-determinadas como ele diz, você não estaria aqui, torrando a minha paciência!

— Desculpe-me, Damien, mas eu realmente não estou entendendo-

— Tá na sua ficha que você deveria ter ido para o céu!

— Eu sei, francamente, eu também escutei isso, eu estava lá! Lembra!? — Pip exaltou-se por um instante. — Mas, por sua culpa, eu estou aqui!

Damien pareceu querer voar no seu pescoço, as mãos do filho de Satã estavam em chamas, mas, por alguma razão, ele não fez nada. Nada que passasse de um olhar mortal, pelo menos. O fogo sumiu e ele deu um suspiro pesado, irritadiço, enquanto esfregava os olhos com os dedos para depois encarar Pip de novo, como se não soubesse o que diabos deveria fazer agora.

— Porra, o meu pai me mandou vir atrás de você porque você realmente não deveria estar aqui...

— E de quem exatamente é a culpa de eu ter sido condenado, mesmo?

De onde estava tirando coragem para falar assim Pip não tinha certeza, mas o olhar zangado de Damien era algo a se lembrar. Impressionantemente, tudo que ele fez foi empurrar um tipo de arquivo na direção do seu peito e o loiro agarrou a pasta com as duas mãos, sem entender de onde aquilo havia saído.

Então puxou os papéis ali de dentro, mas, antes que pudesse ler, Damien simplesmente resumiu:

— Tá escrito ai, era para você ter virado um anjo. Merda.





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