Fehu escrita por Leanan Moriartti


Capítulo 4
Os aprendizes de Merlim


Notas iniciais do capítulo

ME PERDOEM PELA DEMORA

Mapa para um melhor entendimento da história/

https://imgur.com/a/zwqpP

Athame: https://cdn.shopify.com/s/files/1/0803/8523/products/Athame_Egyptian_1024x1024.jpg?v=1514340578 é uma espécie de punhal usado para rituais diversos.



A Grande Cecaelia, o navio, navegava sobre as águas calmas e escuras e Hellum, que por si só era um lugar sombrio, abandonado e esquecido, onde as flores não floresciam, o solo matava as sementes e os animais ficavam só de passagem. Mellyora vinha logo embaixo da grande Cecaelia, quase congelando naquelas águas. Os tripulantes se admiravam com a neve espessa que cobria as bordas do navio. O frio e a neve eram constantes naquele reino, um território tão frio quanto a zona abyssal de Nessteron. Hellum era o reino das Trevas, onde os elementais da escuridão habitavam em total harmonia, seres sombrios conhecidos por sua beleza… esotérica. O rei dali era um diplomata implacável, distribuía pactos formidáveis e invencíveis por toda Thea, graças a sua Conselheira… Merlim.

A terra já estava sendo vista, uma mistura de areia e neve que se encontrava com uma borda de gelo logo levando ao mar negro. Uma figurava estava parada no meio da neve, como se estivesse esperando o navio. Mellyora foi até a borda da praia e reconheceu a anciã. Mesmo para uma velha, a senhora tinha cabelos de ébano, tão brilhantes e sedosos quanto os de uma jovem. Os olhos eram uma mistura de violeta e azul, mas ainda assim escuros. O rosto carregado de marcas, da idade e da guerra. A velha caminhou até Mellyora, que manteve sua parte polvo dentro da água, estava nua da cintura para cima, cortesia da transformação. A imagem era como a de uma sereia esperando sua presa.

— Merlim. — disse Mellyora com um aceno de cabeça, uma espécie de comprimento.

— Só não perde a cabeça porque está grudada. — Respondeu a anciã com um sorriso. Merlim levantou uma moeda de bronze sobre dois dedos. — Dessa vez eu pensei em algo diferente, de… penduricos, colares, não dá certo com você.

A senhora ajoelhou-se na areia em frente à Mellyora, puxou sua bolsa de couro amarrada na cintura, e de lá tirou um pequeno athame, sem pedir autorização ou avisar, a mesma agarrou a mão da capitã e analisou por um tempo. A pirata não questionou nenhuma das ações, confiava na sabedoria de Merlim, que sempre sabia quando estavam tentando encontrá-la.

— Mas, sabe que não vim aqui para isso, na verdade isso foi um imprevisto. — explicou-se a sereia polvo.

— É eu sei. Veio aqui por Arthur, ele não está preparado, mas sei que não se importa com o que vou dizer e vai levá-lo igual. — Merlim disse enquanto abria um corte no espaço entre o dedão e o indicador da mão direita de Mellyora.

A mulher sibilou e xingou baixo, mas manteve sua dor contida. — Se a tal lenda for verdade, eu não acredito muito em lendas, entretanto, é a única esperança.

— Você falando de esperança?— Interrompeu a anciã, logo introduzindo a moeda no corte, à medida que a moeda ia entrando, a carne de Mellyora entre a pele e o músculo ia se rasgando e a Capitã só conseguia fechar os olhos e xingar.  

Com a moeda posicionada dentro da pele da pirata. Merlim passou uma linha por uma agulha que havia tirado de sua bolsa. — Se você está perguntando sobre Arthur ser um Elementar da luz… ele é. Não que isso seja grande coisa. Ele precisa… saber lidar, um motivo para o qual usar, se não vai ser mais uma Dorothea da vida.—  explicava a conselheira enquanto  a agulha perfurava a pele envolta do corte e passava a linha lentamente, puxando-a até a abertura ficar fechada. Mellyora sentia um arrepio quando a linha se arrastava por sua pele, uma sensação irritante e dolorosa, mas ainda assim boa.

— Dorothea...? — Ainda desconhecia aquele nome.

— A Domadora… —  Merlim falou e fez um nó na pequena linha, guardou sua agulha, limpou seu athame na saia escura que usava e logo esperou o feitiço fazer efeito enquanto colocava um manto negro e comprido sobre os ombros de Mellyora, segurando uma parte para que não molhasse na beira do mar.

— Como você sabe o nome dela?—  Pergunta a Capitã enquanto se arrasta para fora da água, seus tentáculos colossais ainda podiam ser vistos, mas não demorou para que começassem uma transição torturante de produzir os ossos das pernas. Por já estar acostumada segurou os gritos, mas a vontade de berrar era intensa, embora somente o suor se manifestasse. Merlim apertou o ombro da mulher polvo, um gesto de consolo.

Mellyora cobriu seu corpo nu com o manto que Merlim lhe ofereceu, aconchegando-se no mesmo. Logo ficou de pé, equilibrando-se em duas pernas recém criadas. Era sempre a pior parte, se acostumar novamente com as pernas.

— Dorothea já foi minha discípula… — revelou Merlim.

— Credo, há quanto você vive?— Questionou Mellyora incrédula.  

Foi respondida com um peteleco na testa. A anciã balançou a cabeça negativamente.

— Vou levá-la para Arthur, faça o que quiser, aquele menino não tem mais jeito. Mas não chame a atenção do Rei. Não quero ter de me explicar novamente.— falou a velha rapidamente enquanto caminhava em passos rápidos, que ainda assim eram lentos

— Quero levar as gêmeas comigo, Morgana e Nimueh.— disse a Capitã às pressas, como se estivesse com medo de dizer aquilo.

Merlim parou no lugar e não olhou para atrás. As gêmeas eram como suas filhas. Não estava surpreendida com a afronta da pirata, mas ainda assim chateada. Levar as irmãs era uma forma de garantia da Capitã. Afinal, acima de tudo, ela era uma mercenário de coração frio. Se Arthur não cumprisse o que quer que Mellyora o quisesse, e pagaria com a vida das irmãs.

Mellyora fez um sinal para os piratas do navio, que até então só assistiam, um deles desceu da zona de conforto e esforçou-se para acompanhar as mulheres.

— Leve-me até Arthur, e logo leve James até as gêmeas.— disse Mellyora à anciã. — Não quero que ninguém encoste nelas. Caso contrário, cortarei as mãos de quem assim fizer.—  concluiu para James, seu braço direito.

A velha voltou a andar novamente, devagar quase parando. A capitã irritou-se com o fato, mas se manteve quieta. Apenas acompanhando e observando o caminho da praia até os territórios do Castelo.

Hellum claramente queria manter sua imagem ligada às trevas, tudo ali parecia sombrio e sem vida, o castelo era de concreto escuro com torres pontiagudas e retorcidas. Mellyora teve quase certeza de que o chão do castelo era feito de mármore negro e deu um risinho com sua suposição. Mas não poderia comprovar naquele dia. Segundo o que sabia de Arthur, só visitaria a masmorra.

— Achei que você se importasse com as irmãs.— Mellyora tentou puxar conversa com a anciã, sentindo-se culpada com suas palavras.

— E me importo.

— Então por que não me impede ?! É mais forte que eu! Por que sempre se faz de desentendida?
A velha riu e respondeu com uma calmaria precisa, para que tudo ficasse claro. — Eu não posso mudar o que já foi escrito, princesa. Você vai tê-las se assim quiser, mas espero que saiba lidar com duas feiticeiras. Afinal, eu não irei reagir, entretanto, não garantirei nem escolherei nada por elas.  

Mellyora engoliu em seco com aquela resposta. Tinha quase certeza de que seu navio viraria um covil para aquelas feras gêmeas. A capitã respirou fundo, endurecendo mais os passos.

Não havia nada ao redor do castelo, apenas a tão aclamada Floresta Negra. Que por sorte, não teriam de atravessá-la. Merlim os levou até as costas do castelo, deu passagem para a entrada dos fundos, e logo apresentou-lhes uma longa escada em espiral, que levava para baixo da terra. Os piratas se entreolharam, mas sem dizer nada, desceram logo atrás da anciã. Foram longos minutos apenas ouvindo os passos um do outro. Mellyora sentia os pés congelarem sob as pedras geladas do chão, nada que não aguentasse, era apenas desconfortante, não tanto quanto o fato de ter um objeto embaixo da pele, nas costas da mão, a moeda lhe cutucava a pele, irritava-a, mas tinha certeza de que logo se acostumaria.

Chegaram a um corredor estreito com inúmeras celas separadas por barras de aço, onde braços de inúmeros formatos e tamanhos se jogavam para fora das barras, tocando-os enquanto passavam. Mellyora se esforçava para não quebrar ou arrancar algum braço. Respirava funda e olhava apenas para frente, apenas para Merlim, que parecia não se importar com as mãos lhe tocando.

Quando finalmente pararam em uma das celas, bastou algumas palavras da anciã para que todos ali se encolhessem e ficassem quietos nas suas celas. Um movimento de mão sobre o cadeado e o mesmo se abriu na mão da senhora, Merlim fez um gesto para que Mellyora entrasse e logo pegou James pelo braço, para o próximo destino, deixado a capitã com o prisioneiro.

A pirata fazia o máximo para que sua hesitação não transparecesse, então, sem demora entrou na cela. Ficando de frente para o homem que estava jogado no chão. O cheiro de rum era forte, e exalava daquele ser. Mellyora quase riu quando o viu naquele estado. A tão preciosa lenda de Hellum, não passava de um bêbado que causava confusão. Talvez fosse por isso que não deixavam ninguém vê-lo. Mas agora, não tinham escolha, todos estava com medo da Domadora sob os comandos de Raemos.

— Então… Você é o famoso Pendragon? Um bêbado.— Disse ela quando chutou a bota imunda do homem, que não se deu o trabalho de revidar ou responder, apenas gemeu e permaneceu jogado no chão, como se estivesse do mesmo jeito que o deixaram.

— Certo… Viajei pelas águas de Nessteron, para encontrar um verme.— insistiu a Capitã, rindo de escárnio.

Pelo menos conseguiu fazer com que ele a encarasse.

— Você se acha a tal, não é, Princesa? Acha que raspar a cabeça vai te deixar durona?— ele fez um som que pareceu ser uma risada debochada.

— Olha, o rato tem língua.— Mellyora teve de se esforçar para usar as palavras afiadas ao invés de sua mão.

— Por que você não dá o fora e vai brincar de pirata em outro lugar? Não quero ouvir suas mentiras de novo.— disse olhando, sem desviar dos olhos dela, nem por um segundo.

Mellyora observou o clarão que eram os olhos do bêbado, de uma amarelo claro, que lembrava a luz. Esforçou-se para lembrar dos olhos da Domadora, mas tinha certeza de que não eram nenhum um pouco parecidos.

Arthur sentou-se, os ossos de suas costas reclamaram e logo ele fez um movimento seguido do barulho de estalos.

— Infelizmente eu não fui a premiada com os poderes dos quatro elementos. Parece que os deuses gostam de brincar, afinal deram tudo para um nada que tirou uma espada de uma pedra.— respondeu por fim a Capitã.

O homem avançou na direção de Mellyora, que por alguns segundos se impressionou com a velocidade e controle do mesmo, mas não demorou para que sua mão estivesse no pescoço dele, parando-o a centímetros do seu corpo.

— Não me faça obrigá-lo a vir comigo, e você sabe que eu posso. Além disso. Estou com as gêmeas.

Ele a olhou com um ódio que a fez tremer por dentro.

— Ah qual é, se você se importasse com elas não estaria aonde está agora. Não passa de um lixo para qualquer um aqui.— Mellyora praticamente cuspiu as palavras nele, virou as costas e o fez sentir que tinha uma escolha.

Não demorou para que ela ouvisse os passos dele lhe acompanhando.

— Poderia ao menos ter vestido roupas para me ver. É meio constrangedor ver uma princesa coberta apenas em uma manto.— ele tentou ser engraçado.

— Ah, cala boca.— disse ela em um tom quase divertido.

— Então… É verdade? Sobre a Domadora? Ela voltou?— Arthur começou as perguntas para se atualizar.

— Sim. É verdade.

— É tão forte quanto dizem?— ele quase parecia preocupado.

— Se alguém pudesse descrever em palavras eu me surpreenderia. Ela venceu um soldado do fogo sem o mínimo de esforço, o melhor, sem nem sequer estar armada.

— E o que te faz pensar, que EU, conseguirei vencer aquele diabo?

— Como todo bom herói, você passará pelas velhas provações.— disse Mellyora com naturalidade, mas quando olhou para trás e viu a expressão dele, sentiu-se envergonhada.— Sim, provações.

— Ah me poupe. Provações?— ele riu alto.

— É claro que não, vamos jogar você no meio da arena e ver o que faz.— disse por fim.

— Isso é outra piada, né?

O silêncio se pôs e ela continuou subindo as escadas.

— Oh meus deuses, você está falando sério. Eu não sei o que você acha que vai acontecer na arena, mas se eu for eu vou morrer.

— Pelo menos vai ser como herói.— ironizou ela.

— Como se VOCÊ se importasse.— zombou ele

— Eu disse para amenizar. Mas eu espero encontrar outras pessoas. Pessoas citadas em músicas, sabe? A Lady do inverno, O Corvo, o Dragão de Núria…

— Dúvido que aquela megera ajude em algo.

Mellyora riu com desprezo. — Estava falando de Aodh.

— Ah sim, as vezes eu esqueço dele.— lamentou Arthur. — Juntar um bando de pessoas com títulos lendários… e depois, majestade?

— Olha, eu não sei ainda. Mas você conhece o Raemos, não conhece?

— Hm… O rei de Néring?— Arthur mostrou que não sabia mais sobre nada.

— O rei que ficou louco, o rei humarin que se casou com uma elemental e ela o traiu e blablabla.— Mellyora resumiu a história de forma grotesca.

—Credo, já não basta ser humarin, ainda é chifrudo… Mas o que ele tem haver com tudo isso?— nada estava fazendo sentido para Arthur, a princesa de Nessteron procurando-o junto com piratas, uma lenda renascendo das cinzas, um humarin se casando com uma elementar. Era muita coisa para e digerir. Quase ficou tonto com tanta informação.

— Ele está comandando a Domadora.

O homem ficou refletindo sobre os fatos por alguns segundos.

— Se o problema dele é a tal elemental… Por que não ir atrás dela?

— E usá-la como isca?— Mellyora tentou completar.

— Não! Apenas perguntar o que aconteceu, procurar algumas pista.

— Vamos usá-la como isca. Até que você é útil.

Arthur tentou fazê-la desistir, mas não tinha jeito, agora estava determinada a sequestrar uma selvagem. Ele respirou fundo e continuou seguindo-a quando finalmente terminaram de subir as escadas da masmorra. Ele ficou preocupado quando Mellyora começou a seguir para floresta negra.

— Escuta, você está vestida apenas com um manto, nem caçada está, e quer ir por ai? — Começou a argumentar, mas ela continuou andando.

— Não podemos ser vistos pelo rei, então faremos a volta pela floresta encantada.— Mellyora suavizou o termo.

Adentrando a floresta, Mellyora sentiu as folhas secas se chocarem com seus pés. Por sorte tudo era morto naquela floresta, o que tornaria um espinho menos doloroso. O trajeto foi silencioso, nenhum dos dois falaram mais, as ideias não se acertavam, e ela sabia que algo estava errado, ele havia aceitado tudo muito fácil, como se estivesse confiante demais.

Um grito ouvi-se do meio da floresta. Um grito de um dos seus piratas. Uma armadilha. A capitã engoliu em seco e virou-se bruscamente para conseguir resposta com Arthur, mas ele não estava mais lá. Mellyora tentava olhar em toda sua volta rapidamente, olhando em todas as direções. Os gritos aumentavam, como se não fosse de apenas uma pessoa e isso a desesperava. Para cortar a inércia em que a cena se encontrava uma carta pairou no ar, flutuando como uma pena sobre a cabeça da pirata. Mellyora esperou até que a carta chegasse na altura de seu peito para que finalmente a pegasse. A princípio era uma carta normal, o mosaico em preto no verso não chamava atenção. Até que a mesma resolveu ver a frente, era uma carta curinga. A capitã arregalou os olhos e jogou a carta longe que não demorou para virar uma pequena explosão que teria lhe deixado sem uma mão.

Mellyora franziu o cenho e esperou pelo próximo truque.

— Então você quer dar uma volta comigo, princesa?— a voz era de uma menina. — Ou prefere meu irmão?

A capitão apertava mais o seu manto, escondendo o máximo possível de seu corpo. Mas mantinha-se quieta, talvez fosse apenas um truque. Sua atenção se voltou para uma silhueta que saia das sombras. Uma moça, menor que ela arrastando pelo chão uma espada maior e mais pesada que seu corpo. A garota era esguia, a pele pálida e escura em voltas dos olhos, que era fundos, escuros e sem vida, não parecia mais do que pele e ossos, com certeza não mostrava ser uma ameaça, entretanto as pernas da capitã tremeram quando a menina levantou a espada como se não tivesse peso nenhum e correu na sua direção.












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