Fehu escrita por Leanan Moriartti


Capítulo 1
Prólogo


Notas iniciais do capítulo

Para um melhor senso de localização, sugiro uma olhada no mapa:

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A arena estava lotada, vibrando com a luta prometida, as apostas corriam soltas, estavam bem equilibradas entre os dois lados, todos esperavam ansiosos por aquele dia, para ver o novo Campeão do Rei Raemos. Tanto suspense foi feito em cima disso que durante semanas foi o assunto de todos os reinos.

Todas as Casas de Néring estavam presentes, as mais importantes de outros reinos também marcavam presença. Na última disputa o antigo Campeão fora massacrado por um simples soldado de Vênus, a Rainha de Núria, desde que a mesma tomara Trono do Fogo, ninguém nunca a venceu nos torneios entre os Reinos.

Mas desta vez Raemos prometera uma luta na qual ele venceria. E por isso o Rei e a Rainha de Núria escolheram seu melhor soldado.

Os portões da Arena se abriram lentamente, um de cada lado, todo o barulho causado pelas pessoas na plateia cessou, apenas o ranger dos portões eram ouvidos, uma adrenalina crescente começava a borbulhar.

De um lado, o gladiador do fogo se revelou, a armadura dourada com entalhes em vermelho reluzindo sob o sol provava sua origem. Era o campeão de Vênus. Alto e robusto como um lutador para tal. O rosto escondido por elmo decorado com penas no topo, penugem rubra, como as penas na cabeça da Rainha. Os lábios de Vênus se curvaram para cima ao ver sua escolha na arena, seu melhor  e mais fiel soldado, indicado pelo próprio comandante.

Mas quando o outro campeão foi revelado, a Rainha do fogo tomou o impulso e levantou-se surpreendida. A expressão de ofensa estampava sua face. Foi preciso um puxão de Aodh, seu marido e rei de Núria, no braço da Rainha para que ela se recompusesse.  

Uma mulher era seu oponente. Uma mulher esperava o guerreiro de braços abertos e olhos vendados no lado contrário da arena, onde a bandeira verde e dourada sacudia violentamente pelo vento. Por algum motivo estético não usava um elmo, uma apresentação mais que marcante, o cabelo estava preso no alto da cabeça reluzindo como o brilho da lua, a pele era escura, confundindo todos sobre sua origem. Não vestia armadura, apenas um Kaftan que ia até as coxas e uma calça larga que ia se estreitando nos joelhos e panturrilhas, um conjunto verde escuro com espirais douradas. O que chamava atenção na mulher, eram as escamas prateadas em volta dos olhos e nas maçãs do rosto, parecia prata esculpida em sua pele, escamas de um dragão lendário.

Vênus estreitou os olhos tentando identificar quem seria a mulher. Nunca ouviu falar de nada do tipo, nem mesmo em Núria via-se os puros da linhagem dos dragões lendários.

O que aquela criatura estava fazendo no reino da terra?

A gladiadora deu um passo à frente, ainda de braços abertos, como uma provocação debochada. O homem correu urrando com a espada erguida na direção da mesma, que ainda vendada desviou como se tivesse previsto aquilo, sem dificuldade ela puxou o capacete do mesmo pelas penas que o decoravam no topo. O elmo virou gelo em suas mãos. A mulher balançou a cabeça em um movimento negativo e jogou o elmo congelado para trás, o objeto quebrou logo ao encontrar o chão.

O rosto assustado do Campeão de Vênus era nítido. O que mais assustava na mulher era a venda de couro. Como ela estava vendo? Ele percebeu que ela estava sem arma alguma. Engoliu em seco e apertou sua espada, as mãos já estava suando dentro das luvas de couro. O rosto dela estava virado na direção dele, sorrindo como um demônio. Ao desviar os olhos para as mãos de sua oponente, percebeu que estavam metalizadas até os cotovelos. As mãos e braços da Campeã de Raemos estava como puro metal cintilando sob o sol que cobria a arena.

Foi então que o soldado ligou os pontos. O cabelo branco simbolizava o ar, e o ar dizia para guerreira onde seu oponente estava.  A pele escura sugeria a origem da terra, e a terra permitia que ela manipula propriedades, assim ela havia conseguido metalizar as mãos. O elmo congelado mostrava suas habilidades para com a água. Mesmo com essa explicação, o soldado nunca vira alguém manipular os elementos daquela forma, nem os mestres de cada reino faziam aquilo, usar o máximo que o elemento tem a oferecer.

Ele estava lidando com uma mutação, uma besta, era a única explicação plausível na cabeça do gladiador.

A plateia gritava extasiada. Raemos com certeza havia cumprido sua promessa para com a tal surpresa. Murmúrios estava cada vez mais altos, todos com o mesmo assunto, todos querendo saber qual era a identidade da nova Campeã.

Vênus gritou de seu assento uma ordem para seguir em frente. O gladiador franziu o cenho e tentou atacar de novo, desta vez empunhando a espada com mais força. Mas a Campeã do Rei parou seu golpe usando apenas dois dedos, dando risinhos de sarcasmo.  A lâmina da espada brilhou em vermelho incandescente e derreteu como metal no calor extremo, apenas com o toque da lutadora.

O gladiador do fogo arregalou os olhos, derreter metal era uma manipulação do fogo.

Mas, ainda assim o soldado não desistiu. Contraiu o maxilar buscando alguma brecha. O que lhe sobrara era um escudo de metal. Quase riu de si mesmo. Conjurou uma bola de fogo e arremessou na direção da aberração de elementos. Ela nem se importou em desviar, quando a substância entrou a atingiu, apenas queimou as roupas, mas a pele dela permanecia ilesa. O soldado havia previsto isso, queria ao menos ter tentado.

A mulher avançou na direção do soldado.

— Eu matei dragões por séculos, você não conseguirá me arranhar nem se eu quiser. Poupe sua vida e fuja da arena.

— A rainha me matará se eu assim fizer. De qualquer jeito eu vou acabar morrendo.

— Aquele dragão está com os dias contados.

A lutadora ergueu o soldado da rainha pelo pescoço, grunhiu para si mesmo, como se estivesse se arrependendo da decisão e cravou os lábios no pescoço do homem. As pernas do mesmo se debatiam no ar, mas ela manteve seu braço firme até o último suspiro do mesmo. Jogou-o no chão como se fosse um saco de merda, cuspiu o pedaço do pescoço dele que ficará em sua boca.

Era difícil ser uma heroína naqueles tempos, as coisas haviam mudado muito.

Quando tirou sua venda, olhou diretamente para Vênus. A rainha estremeceu quando viu aqueles olhos, o mais raro dos pares, a mais rara das combinações, vermelho e outro azul, ambos brilhantes, identificáveis de longe como puros elementos da natureza. A pele escura, o cabelo prateado e os olhos como fogo e água. Vênus, ficou nervosa rapidamente, seu rosto estava ruborizado e o coração palpitava no peito. Mexia inquieta nas penas em sua cabeça, estava coçando com a dúvida que lhe rondava. Os belos olhos carmesim de Vênus desviaram dos da gladiadora. Até então a Rainha era a única que sabia domar dragões.  

Vênus era a rainha mais forte e poderosa que toda Thea já conheceu. Mas a Domadora era uma lenda. Uma lenda cuja a história foi contada para cada ser de Thea logo nos berços, algo muito além da compreensão, algo bestial. Toda a força que Vênus exalava não era nada comparada a um fio de cabelo da Domadora.





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