O Protetor escrita por Pedro Haas, WSUniverse


Capítulo 5
Capítulo 4


Notas iniciais do capítulo

Cá estou eu aqui mais uma vez



Ela não estava brincando. Depois de algum tempo, chegaram à avenida Paulista, onde Duda disse que vinha sempre que queria comer melhor ou ter uma bela vista. Carlos, no entanto, nunca havia passeado por lá. Era estranho, parando pra pensar; mais de um ano em São Paulo e nunca havia visitado um lugar tão conhecido. Naquele dia, por sorte, a avenida não estava cheia de gente, pelo menos não naquele horário.

Enquanto andavam, Carlos observava todos os pontos que chamavam atenção: O MASP, os prédios que pareciam ser feitos de vidro, a avenida larga e bem cuidada, o clima ameno, bom para fazer caminhadas. Parecia estar em outra cidade, outro país. Tudo estava verde e amarelo, pessoas andavam na rua com a camisa da seleção, uma coleção de acessórios diversos para a grande torcida. Era o ano da copa do mundo no Brasil, e tudo parecia um pouco mais bonito do que de costume.

— Tu nunca veio aqui, né? – Duda perguntou, enquanto lambia um sorvete de casquinha. Carlos nem tinha visto o momento em que ela comprou isso, mas não se importou.

— Como sabe?

— Bem, você tá com essa cara de bobão olhando tudo. Muito caipira.

— Você sabe, eu vim do interior, mas, sei lá... – ele olhou em volta, estava infinitamente mais relaxado – Isso aqui me acalma, sabe?

— Certo... Continua um bobão – ela colocou a mão no rosto, segurando o riso.

A avenida, naquele dia, estava tomada de pessoas. Pessoas no meio da rua, nos cantos, vendendo miçangas ou outros acessórios. Pessoas cantando ou tocando algum instrumento inusitado. Se Carlos não tivesse acabado de passar pelo maior aperto da vida dele, poderia muito bem estar aproveitando o clima. No entanto, agora, ele era um homem procurado, um "criminoso".

— Não pense muito nisso... – Duda sussurrou em sua mente. Seus poderes ainda eram coisa de outro mundo para Carlos, mas já estava começando a se acostumar.

Ele se pegou imaginando que tipo de coisas ela havia passado por causa desse poder. Ele não era bobo, sabia que as pessoas eram más, sabia que uma criança como ela...

— Quem você tá chamando de criança? Seu bebê chorão! – ela disse mais alto em sua mente, Carlos riu.

Ela segurou a manga de sua camisa e o puxou, ajudando-o a se desviar de um ciclista que passava.

— Tome cuidado, trouxa.

Ela o levou aos arredores do parque Trianon, uma grande quantidade de pessoas estava ali, sabia que, se o agente e os FAN quisessem atacar, aquele não seria o melhor lugar. E, como bônus, também tinha muitas barracas vendendo todo tipo de lanche lá.

Carlos puxou o cartão para comprar um pastel, mas Duda segurou sua mão, preocupada.

— Me da esse troço aqui! – ela pegou o cartão da mão dele, sem deixar espaço para ele questionar – Toma – abriu um bolso da mochila e puxou uma nota de 20 reais.

— Mas, por quê?

— Quer mesmo que saibam o que você anda comprando? Ou, melhor ainda, onde você anda comprando? – ela olhou séria para ele, definitivamente não estava brincando – Vamos comprar só em dinheiro agora, nada de cartão. Eu diria até pra quebrar esse cartão, mas você ia resmungar de novo.

Ela foi até uma barraca e comprou dois hambúrgueres. Minutos depois, voltou e entregou a Carlos, que estava parado de braços cruzados.

— Duda, devolva meu cartão – ele pediu, estendendo a mão.

— Não seja chato Carlos...

Contudo, algo estava diferente dessa vez. Ele estava lá com o braço estendido, Duda resolveu entregar o cartão a ele.

Ele o pegou e o quebrou. Duda ficou surpresa.

— Carlos, eu...

— Você tem razão, Duda – ele disse, parecia determinado – Essa é uma nova vida agora, e eu tenho que entrar nela totalmente. Não vou ser um fardo pra você, eu prometo. Vamos acabar com esses caras e achar o bendito Lar!

Duda sentiu a onda de determinação saindo de seus poros; começou a se sentir determinada também. Carlos a encarou, esperando alguma resposta, recebeu apenas um sorriso de satisfação. De orgulho.

***

Maria Eduarda rodeou o perímetro do parque, saindo da avenida Paulista descendo por uma viela ou outra.

— Pra onde estamos indo, afinal? – Carlos perguntou, enquanto seguia Duda pelo percurso.

— Calma, garotão! 'Tamo chegando.

Carlos soltou um suspiro de conformação, é, ele não tinha exatamente uma escolha. Continuou a seguí-la por algumas quadras, até achar o que procuravam.

— Um salão de beleza? – Carlos perguntou, incrédulo.

— É unissex, te prometo – ela gargalhou ao ver o rosto de Carlos – Meu Deus cara! Você nunca acompanhou aquela fresca no salão? – por fresca, ela se referiu à Gisele, Carlos não se importava tanto. Também achava, no fundo, que ela era bastante fresca.

— Nunca... Bem, nunca tive o interesse.

— Não se preocupe, com certeza não é nada parecido.

Ela abriu a porta do estabelecimento e um pequeno sino anunciou sua chegada. Carlos encarou por alguns instantes o local; era agradável, um ar-condicionado leve deixava o local um pouco gelado, contrastando com a rua.

Era um pouco escuro também, com as cadeiras dos clientes de um lado, é um banco de espera do outro. E só tinha homens ali.

— Maria! – alguém exclamou, com um leve sotaque estrangeiro.

— Levi! Já pedi pra não me chamar de Maria, caramba! – Duda parecia irritada, mas Carlos não via raiva em seu rosto, ela estava alegre.

— Não se preocupe com coisas pequenas, Mariazinha – o tal Levi era um homem gordo, não, barrigudo, que vestia branco e tinha um cabelo encaracolado banhado em gel.

Levi tinha um rosto redondo, e parecia estar sempre sorrindo. Suas rugas meio que denunciavam isso.

— Preciso de um favorzinho seu, Levi – Duda se aproximou dele, enquanto Carlos procurou um lugar para se sentar. Não foi difícil, o salão só tinha um cliente naquele momento, e era a pessoa que Levi estava cortando o cabelo.

Carlos se sentou e colocou as mãos sobre os joelhos, balançando um pouco as pernas, ansioso. Duda não havia falado mais nada, apenas olhava para Levi; depois de alguns segundos, ele assentiu e deu um sorriso. Duda se sentou ao lado de Carlos logo após.

— Não se preocupe com ele – Duda disse, em seus pensamentos – Ele é dos nossos.

— Também tem poderes?

— Não exatamente... Digamos que ele conhece os meus poderes, eu confio nele, pode confiar nele.

Carlos não tinha nada a perder, de qualquer forma, apenas saber que existia outras pessoas em quem confiar já o deixava mais tranquilo.

— Afinal, o que pediu a ele?

— Ah! Você vai adorar. – Duda segurou o riso, deixando Carlos desconfiado.

Dez minutos se passaram, e agora, restavam apenas eles. Levi chamou Carlos para se sentar na cadeira do cliente, que foi relutante. Levi tinha um sorriso constante, mesmo não sendo de escárnio como o do agente, Carlos ainda se sentia um pouco desconcertado.

— Você é um homem procurado, Carlos – Duda disse, em voz alta. Aparentemente, Levi também já sabia – A gente precisa mudar teu visual, e o Levi é expert nisso.

— Você já descoloriu o cabelo?

— Como é? – Carlos olhou para ele, com o coração um pouco acelerado.

— Vamos pintar seu cabelo, deixar ele loiro, tirar essa barba feia. Você vai parecer um novo homem quando eu acabar! – Levi disse, mais sério. Estava em outro modo agora, saiu de um homem amigável para um barbeiro exigente e de qualidade.

Duda soltou um risinho.

— Vamos nessa... – falou Carlos, incerto.

***

Levi não era o tipo que ficava quieto enquanto trabalhava; no processo, contou a vida dele todo para Carlos, que apenas escutava enquanto acompanhava o passo a passo de sua "transformação".

Levi veio para o Brasil ainda criança, vindo da Itália, morou em Santa Catarina por alguns anos, e se mudou para São Paulo quando chegou à idade de ir para a faculdade. Conheceu sua mulher em São Paulo, na faculdade, com quem casou e teve duas filhas. A mais nova delas era uma "Não-Humana".

— Suas habilidades a deixava encantadora, era muito difícil negar um pedido dela, eu era o único que conseguia! – ele contou, sorrindo – Quando ela encostava a mão no meu ombro e me olhava no fundo dos meus olhos... Nossa, Alana, ela é demais!

— E onde ela está agora? – Carlos perguntou.

— Ela tá morando com a mãe, indo pra faculdade e tudo, vai se tornar psicóloga – ele respondeu, orgulhoso.

Ele olhou para Duda, e ela o encarou de volta. Não era o tipo de pessoa que pensava no que queria ser quando crescer, ela pertencia ao "aqui e agora". Única vez que se planejou a longo prazo, foi antes de fugir de casa, e, queria ela, que tivesse sido a última. Ela odiava se sentir ansiosa.

Sempre que passava pelo salão de Levi, ele tentava por juízo na cabeça dela. Desde a primeira vez, em que ela chegou com fome demais — por ter se planejado errado, aliás — ao salão dele, usou toda a força que tinha para influencia-lo a lhe dar algum lanche. Foi golpe do destino que ele já estivesse calejado sobre influências, logo percebeu que a garota estava mexendo em suas vontades, e, ao contrário do que Duda pensaria, ele a ajudou mesmo assim. Desde entao, se tornaram amigos. A garota passava por lá no mínimo uma vez por semana, sempre contando a ele suas novas descobertas, ou casos que aconteciam enquanto ela andava pelas ruas da grande cidade. Ela nunca aceitou dormir na casa dele, não queria envolver seu único amigo, portanto, ele deve estar a salvo das garras do Vazio e do outro agente.

— Tudo pronto! – Levi tirou a toalha ao redor pescoço de Carlos e o abanou para tirar os fios remanescentes.

Carlos saiu da cadeira como uma pessoa diferente. Antes, era um homem normal, com o cabelo castanho um pouco grande demais e a barba ainda por fazer. Agora, seu cabelo estava loiro claro, cortado de tesoura, sua barba estava feita, e Levi até arrumou uma lente de contato de olhos claros para ele. Carlos olhou no espelho por uma última vez, com certeza estava diferente do homem que estampava a manchete do jornal.

— Caramba... – ele estava surpreso, esse era o empurrão final que Carlos precisava para embarcar nessa nova vida.

— Vamos logo, não temos tempo a perder, já está ficando tarde – Duda se levantou do banco de espera apressadamente – Muito obrigada, Levi.

— Não há de quê, Maria! Por favor, tome cuidado, certo?

— Maria é o caramba! – ela exclamou, fingindo irritação. Seguido de uma risada insolente de Levi, saíram da loja.

***

O sol já se preparava para se pôr quando Duda e Carlos chegaram ao ponto indicado no mapa por Luiz, o mensageiro do Lar. O lugar era lindo, Duda havia passado por ali só uma vez, andando de bicicleta que alguém havia lhe "emprestado", tinha sido muito agradável, como estava sendo agora. A luz solar refletia na grande represa, as casas eram lindas e luxuosas, e o clima era fresco e agradável.

Quando chegaram, Duda pegou seu celular distraidamente, e percebeu que havia algo a mais nele agora. Um timer, uma contagem regressiva de dez minutos, tinha acabado de começar a rodar. Duda podia adivinhar os poderes do tal Luiz, de algum jeito, ele mexia em aparelhos eletrônicos. Mensagens não rastreáveis, aplicativos abrindo sozinhos, Duda poderia usar esse poder para muitas coisas. Agora ela estava muito mais aberta a ser amigável com ele, com esse pensamento em mente.

— Olha só, Carlos – ela disse, enquanto olhava ao redor – Quando eles chegarem, deixa que eu falo com eles.

Estavam em uma pequena praça; um bom local, aberto e com uma boa possibilidade de fuga se esse fosse o caso de uma emboscada, bem ao lado da casa que Luiz havia mandado o endereço, então veria ele chegar. Duda estava preparada para tudo, ou, queria sempre estar.

— Não sei se você lembra, Maria – ele disse, um pouco insolente – Mas eu também sou adulto.

— Não começa você também! – agora ela parecia realmente nervosa. Carlos riu.

— Quanto tempo até eles chegarem?

— Oito minutos – Duda checou em seu celular, guardando-o logo em seguida.

Logo depois, contou a Carlos mais detalhes sobre Luiz, e o que achava dos poderes dele.

— Não acho que exista um X-men com esses poderes – ele coçou a barba inexistente – Eu imagino até onde os poderes dos Não-Humanos vão.

— Claro que não, seu Nerd – ela disse, ríspida – Primeiro: isso aqui é a vida real – ela cruzou os braços – Nenhuma obrigação tem com a ficção. Segundo: eu tenho certeza que você não é o único que fica comparando Não-Humanos com qualquer outra coisa. Imagina só, uma sala cheia de nerds como você – ela suspirou – Desastre...

— Não seja tão chata – ele deu um sorriso simpático – Olha, se você teorizou sobre os poderes desse Luiz, por que não me ajuda a descobrir o que causa minha explosão?

Duda olhou para ele meio preocupada.

— Digo, não é só a vontade de lutar, quando... Quando Samuel apareceu lá em casa, eu quis quebrar a cara dele em pedaços – ele disse sem remorsos, Duda achou estranho – Mas não aconteceu nada, não foi como das outras vezes. Eu não me senti invencível, minha mente não trabalhou mais rápido, não fiquei imune a dor nem nada disso.

Duda não ouvia o que ele falava, estava perdida em seus pensamentos. Claro que tinha uma teoria sobre a funcionalidade de seus poderes, mas, contar para ele envolvia também contar sobre seu poder de influência. E, contar sobre seu poder, envolvia a possibilidade de Carlos nunca a perdoar. Não podia... Não queria que isso acontecesse.

— Eu não entendi, também – ela disse, um pouco baixo, querendo acabar com o assunto.

— Será que envolve meu passado misterioso contigo? Digo, quando te vi, meu corpo não reagiu sozinho, eu, de fato, quis te proteger. Será que tem a ver com isso?

— Não sei, Carlos – ela disse, mais alto do que queria.

Carlos ficou quieto, olhando para ela atônito. Duda conseguiu sentir sua mente trabalhando, pensando no porquê de tudo aquilo, mas, antes que pudesse perguntar, viu três homens vindo em sua direção.

Dois deles pareciam atrapalhados, e um, o mais velho, estava coordenando os dois. Não se assemelhavam em nada com os dois agentes que Duda já havia encontrado, mas, naquela praça vazia no fim da tarde, pôde sentir que eram eles.

— Vocês... – Duda se aproximou dos homens – São vocês, não são? O Lar Arsalein.

O mais velho assentiu.

— Olá, Maria Eduarda... Duda – disse o mais velho, estendendo a mão para a cumprimentar – Eu sou Henrique, prazer em conhecê-la.

***

Antes que Duda percebesse, estavam a caminho da casa em questão. Henrique caminhava na frente, ombros largos e passos confiantes, Duda nem precisou mexer em sua mente para entender que ele era o Líder, ou, pelo menos, tinha autoridade sobre os outros dois que o acompanhavam. O que estava a sua direita chamava-se Lucas, ele parecia ter quase a mesma idade que Carlos, ou seja, era um velhote também. Tinha os olhos escuros e um cabelo descuidado, parecia-se com Carlos antes de sua transformação visual. Porém, algo em seu jeito a lembrava do novo agente que encontraram naquele dia mais cedo. Ela resolveu manter o pé atrás sobre ele.

O terceiro era bem menor, da mesma idade de Duda, Luiz andava um pouco cabisbaixo, na frente da garota. Ele era bem mais novo do que ela imaginava, era negro e usava um óculos desajeitado. Muito diferente da imagem que ela tinha dele, mas, se concentrou em seus objetivos. Ser amiga dele, aprender sobre a localização do Lar e seus requisitos. Fugir de uma vez por todas da perseguição do Hospital.

A casa não era igual a nenhuma outra que Duda já havia dormido antes. Era grande, com um belo quintal e uma luxuosa fachada. Duda nem imaginava como era lá dentro, Carlos também não. Ele olhava ao seu redor como se estivesse em outro mundo, Duda riu disso.

— Podem ficar a vontade – disse Henrique, sentando-se numa mesa de piquenique que havia no quintal.

Lucas ficou em pé ao seu lado, de braços cruzados e com um rosto indecifrável. Parecia incomodado...

Luiz sentou-se numa cadeira de balanço que tinha ali perto, enquanto Duda sentou-se do outro lado da mesa, encarando Henrique com seus olhos questionadores.

— Primeiro de tudo – disse a garota – Quero saber como vocês me acharam. E depois, como saber se posso confiar em vocês? Os agentes do Hospital me perseguem desde o primeiro dia, como eu vou saber se vocês não são só outra versão da mesma coisa? E, se vocês são tão bons assim, o que eu tenho que fazer pra me juntar a vocês?

Carlos olhou para Duda um pouco aflito, nao tinha pensado nisso, sua cabeça tinha assumido diretamente que as pessoas do Lar Arsalein eram os bonzinhos, enquanto, os do Hospital, os malvados.

Te disse, Carlos, sempre tome cuidado, sempre.

— Antes de tudo, Duda – Henrique falou, não parecia estar ofendido pelas declarações de Duda, pelo contrário – Ao contrário do Hospital, não vou forçar sua participação. Claro que adoraria que viesse, mas, se você não se sente a vontade conosco...

— A questão não é bem essa – ela respondeu, um pouco sem jeito – Digo, não estou mais sozinha, e...

— Com a gente, você nunca mais vai precisar se sentir sozinha – ele disse, interrompendo ela – Somos todos uma família, não concordamos com o Hospital e seus métodos violentos, também. Eles nos chamam de Não-Humanos, nós nos chamamos de irmãos.

O ar pareceu tenso por uns instantes.

— Olha, eu sei bem como alguém que vive nas ruas pode ser um pouco "paranóico" – ele deu uma risadinha – Não precisa ser nesse sentido, okay? Somos todos iguais aqui. O Luiz, o rapaz ali que te encontrou, tem uma habilidade extraordinária com computadores.

Ele apontou para o garoto, que pareceu extremamente constrangido.

— Só se concentrar um pouquinho que ele consegue encontrar qualquer outro "Não-Humano" que estiver usando um aparelho eletrônico! Não é demais?

Ele pareceu entusiasmado de repente.

— Esse mau-humorado aqui – apontou para Lucas – Pode se teleportar para qualquer canto que estiver afim... E eu... Bem. Não é algo que eu possa demonstrar agora, mas, digamos que eu...

— Se transformar em animais nem é tão grande coisa assim – Lucas disse, rindo.

— Ah, não é realmente tão importante assim! Mas, veja – ele se aproximou um pouco mais de Duda – Somos amigos, irmãos, a gente se ajuda.

Ela ficou sem palavras, olhando para o rosto empolgado de Henrique.

— Você perguntou, agora a pouco, sobre nossas "condições" – ele sorriu – Só queremos que você nos ajude. Ajude outros que podem estar passando pelo mesmo problema que você agora. Só continuar com o propósito já está bom o suficiente, essa é minha condição.

— Parece bom para mim... – Carlos comentou, falando pela primeira vez.

— Você vai estar segura, Duda, finalmente – Henrique completou.

Tudo parece bom demais... Bom demais... Ela encarou o rosto simpático de Henrique e vasculhou por seus pensamentos. Não havia mentiras, não havia segundas intenções. No entanto, não foi assim que ela havia sido ensinada.

— Ótima proposta – ela começou a falar, se espreguiçando – No início, eu realmente estava afim de procurar vocês, acha-los e poder me juntar a vocês. Mas... – Henrique pareceu ansioso – Estou em uma guerra agora, você acha que pode lidar com isso?

Lucas lançou-lhe um olhar intenso.

— Dois agentes me perseguem de perto. Vocês, com certeza, já viram os estragos que eles fizeram ao meu amigo – ela apontou para Carlos – Mesmo se eu for para o Lar agora, eles me achariam, eles sempre acham. Vocês estão preparados para lutar contra eles?

Henrique olhou de relance para Lucas, um olhar desaprovador. Duda percebeu que eles estavam a par da situação, e pareciam já ter discutido sobre isso. Luiz ainda estava cabisbaixo, sem se expressar, Duda não sabia se ele estava constrangido ou qualquer outra coisa, decidiu não ficar fuçando na cabeça dele. Seus olhares se encontraram pela primeira vez, nesse relance, Duda sentiu que ele concordava com ela. Não era constrangimento, era medo.

— Somos uma Família – Henrique disse, por fim – Se você estiver em perigo, nós passaremos por isso juntos! – ele estendeu a mão, esperando que ela o cumprimentasse – E então?

Duda sabia que essa era uma decisão e tanto. Poderia discordar de seus instintos e apertar a mão dele, mas, também poderia estar errada. Ela precisava tentar.

— Acho que deveríamos aceitar – Carlos comentou – Digo, quanto mais pessoas nos ajudando, melhor.

Ele olhou para Duda com um olhar condescendente, qualquer que fosse a escolha dela, ele a seguiria. Tanto por que gostava dela, quanto por querer entender mais sobre seus poderes.

— Eu... – sua cabeça estava cheia com todos os argumentos.

Estava dividida, queria aceitar, queria recusar. O que eu faço... O que eu...

Seus pensamentos foram interrompidos com um vulto. Saindo do nada, sem nenhum barulho, um homem loiro de sobretudo invadiu o quintal, correndo como o vento, parou em pé em cima da mesa, entre Duda e Henrique. Antes de qualquer reação, apontou uma pistola para os dois.

— Se eu fosse você, garotinha, ficaria com bastante medo agora. – ele disse, ainda com uma arma apontada para ela e para Henrique.

Instantes depois, aquela velha sensação voltou à sua mente. O Vazio caminhou de braços cruzados pelo quintal, passando ao redor de cada um, inibindo seus pensamentos com seu poder sufocante.

— Agora, vocês poderiam me atualizar sobre os negócios – ele disse, com seu sorriso sarcástico habitual – Afinal, Maria Eduarda vai ou não com vocês? Isso me pouparia um belo trabalho.

Duda rangeu levemente os dentes. O Vazio continuou a andar de um lado ao outro, enquanto Duda o encarava. Ela viu de relance os olhos de Carlos ficarem prateados lentamente.

Sorriu. 



Notas finais do capítulo

RIP



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