FUE: A Frente Unida Extraordinária WSU escrita por Natália Alonso, WSUniverse


Capítulo 3
Capítulo 2 – Sacrifício




 

Aposentos de Astaroth

 

Lilith está deitada nos lençóis de seda azul, a demônio de pele de canela tem seus longos cabelos negros cobrindo o travesseiro que Astaroth deixara vazio. O quarto espaçoso é preenchido pelo som de urros dos guerreiros em treinamento de Belzebu. Ela olha para o teto decorado imersa no tédio, suspira, se levanta e começa a desembaraçar as madeixas.

— Confesso que estou surpreso de você finalmente ter vindo até mim, Lilith. Ainda mais depois de tirar os privilégios que você e sua irmã tinham no círculo da Luxúria. — fala Astaroth, enquanto se banha no aposento ao lado. — Pensei que fossem ficar aborrecidas comigo.

— Eu apenas achei que o rei iria apreciar uma companhia, e eu também a dele. — fala ela, caminhando nua com os cabelos até os quadris. Ela vai até a mesa de Astaroth e observa mapas e anotações, possui selos e assinaturas que ela não conhece.

— Se está tentando me agradar por medo do que fiz a Sabnock, posso lhe tranquilizar que não pretendo usar o Círculo da luxúria. — Astaroth admira-se no espelho sua pele vermelha no corpo forte. — Quer dizer, apenas quero usufruir do que já me oferecem.

— Sabnock? O que aconteceu com ele? — responde ela fingindo tranquilidade.

Astaroth retorna para o quarto, seus olhos vermelhos fitam a graciosa mulher que já está de volta em sua cama.

— Ele apenas não será mais um problema.

O demônio de pele vermelha exibe seu malicioso sorriso repleto de presas.

 

 

 

1º Círculo do Inferno, o Limbo

 

Azazel caminha com suas sandálias romanas de um lado a outro, ele está tenso e assustado, deixa sua maça cair no chão e se senta em uma cadeira de vime. Então observa uma pequena fenda se formar no ar, ela aumenta e abre passagem para Mefistófeles e Metatron, essa é a forma que o Serafim de seis asas tem para se mover rapidamente. Pode levar quantos quiser consigo, é praticamente o que os humanos chamariam de teletransporte, mas ao invés de ser feito por uma máquina, é uma entidade divina.

— Metatron me mostrou o que aconteceu na Fraude. Os desgraçados mataram Sabnock, eles estiveram aqui também, Azazel? — pergunta Mefisto, estranhamente ele parece até preocupado, como se Azazel fosse seu amigo.

— Não vieram para cá. Mas eu não duvido que o façam, todos sabem que eu sempre fui aliado a Lúcifer, Astaroth deve me considerar o próximo da lista a ser cortado.

Metatron interveem.

— É provável que ele tenha receio, afinal, Astaroth fora gerado por apenas barro e penas por Moloch, assim como Mefisto e os outros. Mas você, Azazel, é diferente. Sua condição de ter sido um anjo de Deus, ainda mais tão próximo de Miguel...

Azazel se incomoda pela fala, sua asa queimada bate para trás.

— E sabemos muito bem o tratamento de Miguel, o preço que paguei. — retruca.

— A questão é que Astaroth sente-se ameaçado. Lúcifer foi feito da carne de Moloch, ele é herdeiro direto ao trono do inferno e os demônios valorizam uma linhagem pura.

— Tradições podem ser mudadas, Meta. — Mefisto fala. — Os demônios querem ordem no inferno, eles não irão apoiar nenhum rei que queira simplesmente destruir a ordem.

— Claro, mas também não irão confrontar Astaroth, todos sabemos do que ele é capaz. — Metatron caminha até Azazel e continua. — Eu fui até lá, vi o que a Legião de Belzebu fez com os raquíticos demônios de Sabnock. Os fossos foram tomados e transformados em masmorras.

— Eles simplesmente deixaram você entrar e ver tudo? — Azazel questiona confuso.

Metatron suspira antes de responder:

— Eu não apareci para eles, fui na forma de projeção. Meu corpo estava nas Colinas de Rochas, na Ganância.

— Eu não sabia que você podia fazer isso. — fala Mefisto, visivelmente surpreso.

— Eu posso fazer muitas coisas.

— Pode ser humilde? — Mefisto retruca irônico. — Desculpe, só fico preocupado o quanto você fica assistindo a tudo, Meta.

— Não se preocupe, não fico assistindo suas intimidades, Mefisto. Nem as tuas, nem de ninguém. — responde Metatron, com desdém ao demônio.

Azazel está irritado com ambos em sua competição de quem é o mais inconveniente ou poderoso. Ambos vencedores. O anjo caído olha para a entrada e vê Lilith finalmente entrar em suas vestes brancas, ela caminha pelas areias avermelhadas sorrindo para seu amado anjo de asa ferida.

— Isso já não importa mais, é tempos de fazermos sacrifícios. — Ele fala se levantando.

Lilith se aproxima e o abraça em um beijo carinhoso, é visível a entrega e lealdade entre eles. Mefisto arqueia as sobrancelhas e vira-se de costas ao casal, ele sorri para Metatron de forma debochada.

— Bem que eu desconfiava que ela gostava mesmo é do passarinho. Bom, cada um tem a sua outra metade...

— Do que está falando, Mefisto? — questiona Metatron, um pouco confuso com a fala do demônio. — Metade? Ambos estão inteiros...

— O que? Não... é uma forma de falar. Tem dificuldade de entender metáforas? — Mefisto se aproxima sorrateiro. — Você nunca se sentiu faltando um pedaço de si, Metatron? Falta de um par de braços para lhe dar aconchego, ou talvez seis braços para combinar com tuas asas...

Metatron quase franze a testa.

— Não, eu sou o que sou. — esclarece o serafim. — Ser a própria manifestação divina me torna...

— Vai começar a propaganda partidária? — interrompe Mefisto, levando a mão para a testa. — Tu não sabe nada, Jonh Snow.

Metatron não entendeu, mas isso não era realmente importante, mas sim o que Lilith trazia consigo.

— Enquanto eu estava com ele, sabia que não viriam até você. Foi uma forma de garantir sua segurança, meu amor. — fala a mulher com os olhos doces para Azazel. — Ele está tomando tudo, somente os que se aliaram a ele estão seguros.

— Não quero nem pensar nisso. — fala ele tocando o rosto da bela a frente. — Não acredito que concordei com isso, só de pensar nele tocando em você...

Ela o cala de forma doce com um dedo no seu lábio, se aproxima e beija de forma casta e então declara ao amado caído:

— Nós dois fomos feitos para servir a Deus, fomos punidos por ter características humanas. Eu errei em não ser servil como Ele esperava, tu erraste em me amar. Na época Moloch entendeu, nos abrigou, mas não acho que Astaroth nos veja da mesma forma. O tempo que fica aqui é perigoso demais, Azazel.

— Venha conosco, temos aliados na terra. Esse lugar será palco de uma guerra, muito em breve.

— Eu não sei lutar, anjo. — Ela fala olhando para a maça de Azazel caída no chão. — Lute por mim.

— Então apenas saia daqui, eu posso te esconder...

— Eu não posso ir sem a minha irmã, ela está cuidando do círculo sozinha enquanto eu estou aqui. — fala ela enquanto tira os pergaminhos que encontrou no quarto de Astaroth e entrega ao seu soldado angelical.

Ele pega, fecha os olhos por um instante em agradecimento a ela.

— Eu venho lhe buscar, diga a Súcubo não fazer nenhuma besteira. Preciso entregar isso para o padre e os outros do grupo que formamos.

— Não demore, estarei com saudades. — Ela fala em um sorriso.

Metatron levanta o braço e um ponto de luz se forma no ar, Azazel se aproxima, a luz toma uma forma arredondada e em um instante desaparece com os três.

Lilith tudo observa, ela fica aliviada de que é possível que eles finalmente fiquem juntos, sem os julgamentos de anjos e demônios. Mas seus pensamentos positivos são interrompidos por um grito tenebroso. Os portões do Limbo são colocados abaixo e Astaroth caminha sobre os metais retorcidos no chão. Belzebu e diversos demônios entram, junto deles, está Vlad, o primeiro Drácula, com diversos vampiros atrás. Astaroth para de frente a Lilith e a observa com os olhos semicerrados.

Ela percebe o que irá acontecer, tenta sair, mas é impedida por Vlad e cercada pelo outro lado por Belzebu.

— Onde estão. — Astaroth inquere.

— Eu não sei do que você...

— Eu sei que levou os mapas. Entregou para seu anjinho, Lilith?

Ela levanta o rosto devagar para ele, seus olhos estão marejados, porém não está arrependida. Ele precisava saber dos planos, precisava saber do exército de vampiros de Vlad.

— Se eu não tivesse feito isso, você teria me poupado? Ou a ele?

— É claro que não. — Astaroth fala com tranquilidade enquanto se vira.

Belzebu a segura pelos braços e ergue a mulher amaldiçoada, enquanto o vampiro a golpeia com as garras. O corte em diagonal separa seu braço e expõe seu ventre, ela sente uma dor descomunal, mas o grito sai falhado. Seus olhos vão ao alto, quase em súplica para que seja rápido, não que o Criador fosse a ajudar. No segundo golpe, suas vísceras vão ao chão, ela sofre pouco enquanto o vampiro a despedaça.

Os berros dos pagãos, dos pecadores do Limbo ecoam no local. Esse círculo era daqueles que pecaram por não saber o que fizeram, por pequenas blasfêmias e delitos menores. Eles não estão acostumados ao sofrimento, porém não irá durar muito. Este será um local para treinamento do exército de Astaroth, prontos agora para iniciar a tomada da terra.

 

 

 

São Paulo, cidade de Santa Maria

 

Um gato lambe as patas e massageia o próprio rosto sentado na calçada, ele observa os passos oscilantes da mulher que passa por ele sem nem mesmo o olhar. O felino cinza gosta da mulher e a acompanha sem qualquer motivo, ela anda aparentemente sem destino ou razão. Suas roupas estão um pouco sujas, mas não por ter suado ou estar a muito tempo de uso, mas por buscar comida. Ela levanta o rosto em seus óculos escuros, fareja algo que a interessa e muda o percurso, o gato a acompanha. Anda por mais um quilómetro até chegar em uma beira de estrada, lá encontra um cão atropelado caído no meio-fio.

Ela observa o animal que parou de respirar a pouco tempo, suspira em conformidade e se agacha pegando o cadáver. Anda até uma área arborizada para lhe dar privacidade, não quer mais ser atormentada por pessoas que não compreendem a sua condição. Na clareira, ela se senta com as pernas cruzadas na grama e finalmente tira seus óculos. A sombra é um alívio para suas pupilas dilatadas, seus olhos verdes são agora um pequeno aro com a grande abertura negra. Com a mão, ela quebra o crânio do cachorro e come o seu cérebro com voracidade. É a parte que mais lhe interessa.

Mastiga ruidosamente e assim que engole percebe que o pequeno ferimento de seu braço começa a se fechar, devagar. O gato tudo observa soltando um miado curto, ele senta e fica encarando ela mastigar o animal. Ela mira o vivo enquanto mastiga o morto.

— Não acho que ele esteja interessado na sua refeição. — fala o padre, aparecendo da árvore ao lado, logo após ele, Metatron o acompanha.

Ela olha o padre com uma lata de cerveja em mãos e o ser de seis asas com os olhos completamente brancos.

— Estão voltando de uma festa a fantasia ou são só esquisitos mesmo?

— Acho que só esquisitos. — fala o padre enquanto ri um pouco, ele dá uma golada na cerveja antes de continuar. — Desculpe, eu esqueci de perguntar o nome.

Sara, a Zumbi. — responde Metatron. — Será importante para o reestabelecimento da paz em terra.

Ela engole um grande naco de carne à seco e volta para os dois.

— É o que? Que diabos estão falando?

— É sobre o diabo mesmo. — completa o padre. — Digamos que precisamos de sua ajuda para impedir o apocalipse na terra e a escravidão da humanidade.

— Deixe-me nos apresentar. Sou Metatron, este é o padre Wellington Agostino.

— Porque eu iria querer fazer isso? — fala ela, com a boca cheia.

O padre abaixa a cerveja com as sobrancelhas arqueadas.

— Pois... pode salvar a humanidade?

— E?

Ela não está muito interessada. Metatron toma a frente.

— Eu tive uma visão com você, sua participação será importante para impedirmos o caos...

— Você já disse isso. Estão me falando porque precisam de mim, não do porque eu iria querer ir com vocês.

Metatron se aproxima, o gato cinza de olhos amarelos levanta a cabeça observando o gigante pássaro. Ela, apenas mastiga a carne crua para o ser à frente.

— Está confusa, suas memórias vêm e voltam. Não sabe muito bem quem é ou porque isso aconteceu com você. Está assim pois sua alma está perdida nos infernos.

— Eu fui pro inferno? Que loucura. A pouco tempo descobri que estou morta e agora, no inferno. Só comigo mesmo pra acontecer essas coisas. — resmunga.

— Eu sei que um dos nossos pode resolver isso para você. Ele não pode desfazer sua condição de morta-viva, mas pode dar um lugar certo à sua alma. Isso lhe traria uma maior estabilidade de suas memórias.

— Quem? — fala ela enquanto tenta alcançar um pedaço de carne preso no dente, faz força para puxar e acaba tirando o dente. O coloca no chão de terra.

— Mefistófeles. — fala Metatron, um pouco incomodado com o movimento da zumbi.

— Mefistófeles... você diz o diabo? Então seu grupo é com um diabo, um anjo, um padre e uma morta-viva? Isso é um grupo ou uma trupe de circo?

— Na verdade ainda temos uma vampira, um amaldiçoado, uma licantropa e um anjo caído. — responde o padre amassando a lata de cerveja. Ele se abaixa para acariciar o gato, mas o felino responde com um rosnado e Wellington recua mão assustado.

Ela se convence o suficiente, apoia a carcaça de cachorro no colo enquanto arruma os cabelos castanhos nas costas.

— Está bem. Quando faremos isso?

— Agora. — responde Metatron se levantando.

Uma luz surge a frente da meia-divindade, que se torna um círculo contornando todos. Eles desaparecem no mesmo instante, em poucos segundos a garota está sentada no chão do grande salão, o gato vocifera para o estranho transporte e corre para perto da zumbi. O padre olha em volta e vê Azazel e Mefisto que já os aguardavam. Manson leva um susto com o aparecimento repentino dos outros, Lucy e Daniele observam.

— Esse seu amigo sempre chega assim? Sem avisar? — fala Lucy para Mefisto.

— Sempre. Ele é pior que eu. — responde o demônio.

 

 

 

Em algum lugar de São Paulo, Capital

 

O amplo local tem uma mesa redonda, nas paredes, livros preenchem as estantes em madeira dourada. O chão branco em mármore decora o ambiente que não possui nenhuma porta.

— Que lugar é esse? — fala Sara observando em volta.

Azazel se aproxima em sua armadura desgastada. A asa quebrada está parcialmente tocando o chão, a outra ainda inteira tem parte de sua pele exposta, devido as penas arrancadas.

— Um local criado por Metatron para nos reunir, estamos em São Paulo, mas em seu cubo, uma sala móvel, em outro plano. Ele pode fazer esses construtos mentais, desde pequenos objetos, até espaços interdimensionais.

Daniele se choca.

— Isso é um cachorro?!

Sara olha um instante para o cadáver no colo antes de falar.

— Eu não o matei. — diz Sara enquanto deixa o corpo canino cair no chão ao se levantar. Anda um pouco, limpa a mão na calça e estende para Daniele. — Oi.

Eles se cumprimentam, cordialmente, como é possível, Manson sussurra algo em inglês para Lucy.

— Algum problema, policial? — fala Mefisto.

— A maioria aqui fala português, eu só sei inglês e espanhol... — Manson se explica com sua justa camisa social.

— Estou te entendendo normalmente. — fala Daniele, confusa por estar ouvindo o Sargento falando em português.

— Eu resolvi isso. — interrompe Metatron. — Sou o Mediador, sempre tive a função de comunicar entre céu e terra, anjos e demônios. Posso ligar nossas mentes de forma que tudo que seja falado será compreendido.

— Eu aprendi que você era um anjo, um Serafim. Desculpe, mas ainda estranho você estar ao lado de demônios nesse conflito. — fala Lucy, sentada no canto da sala.

A mulher veste uma camisa de seda branca, a calça bem cortada e sapatos finos compõe o traje social. Manson estranha a fala da vampira, arqueia as sobrancelhas, ela percebe e responde o que ele não chegou a perguntar.

— Eu tive educação religiosa... quando eu era criança... isso faz... muito tempo.

Metatron responde ao questionamento dela.

— Sou, e não sou. Ser Metatron significa que meu poder é a própria manifestação divina, não devo tomar lados, mas apenas mediar o equilíbrio. Tanto céu e inferno são necessários.

— Achei que precisasse sempre o “bem vencer o mal”...

— Mal como Mefisto? — Ele rebate a questão para a vampira e completa. — O mal não vem de demônios. Ele está presente em todos os seres. Os humanos fazem isso por que assim escolheram, os demônios são apenas a punição.

Ele percebe que muitos ficaram confusos com suas explicações.

— Como você mesma deve saber, nem tudo é como nas escrituras. O importante a saber é que represento e busco o equilíbrio, para ambas as partes. Não acho que a humanidade tenha ainda a capacidade de entender o que posso ser e fazer. E olha que você teve tempo o suficiente para aprender mais que todos aqui. Mas ainda é limitada por sua condição humana. — Ele ergue a mão a ela. — Sem ofensas.

— Oh! Claro que não. Me chamando de humana. Já me chamaram de coisa pior.

— Espera, Lucy Iordache? A Drácula? — O padre questiona tirando o cigarro da boca.

Ela fica incomodada.

— Apenas vampira, não sou rainha dos condenados. É um cargo que não pretendo exercer.

Manson se aproxima dele e pede o isqueiro para acender o seu próprio cigarro e completa.

— Acredite, melhor não perguntar muito sobre isso.

— E você... — o padre se vira para o robusto policial.

— Eu sou só um policial, não sei bem no que me transformaram. Apenas que fiquei diferente nos últimos tempos. — fala ele enquanto solta a fumaça tragada do cigarro.

— É um amaldiçoado. — completa Azazel que se aproxima e entrega ao padre os mapas e documentos que Lilith lhe trouxera. — Todos aqui são amaldiçoados de alguma forma, mesmo que por outros deuses. — fala se virando para Daniele.

O padre levanta o rosto no susto.

— Outros deuses? — fala com o cigarro grudado nos lábios.

— Sério mesmo? Já olhou para essa sala? É só isso que te surpreende? — fala Sara em tom sarcástico.

Manson ainda se vira rindo um pouco e olhando para a estante de livros na lateral, murmura baixo.

— Eu deixei de me surpreender faz algum tempo...

Metatron retoma a frente.

— Deuses são apenas diversas formas de manifestação. Tanto aqui, como em outras dimensões. Cada um de vocês é necessário e importante nesse conflito. Eu vi que muitas das possibilidades de como terminar esse caos está ligado a cada um de vocês.

— Se você pode ver todas as possibilidades, então porque não fala diretamente como resolver tudo isso? — inquere Daniele.

— Eu vejo as possibilidades, mas não sei qual delas irá ocorrer, ou se cada uma delas está na mesma linha de realidade.

— Ele não é vidente. — resume o padre. — Vamos agora ver o que temos aqui. Os mapas e documentos que Azazel trouxe nos dá mais pistas de... o que ele está fazendo?

O padre interrompeu a sua fala ao notar que Metatron está em um tipo de transe, seus pés flutuam no ar com os olhos parados e brilhante, sinistramente inerte.

— Está em projeção, provavelmente espionando alguém, ou apenas mostrando o quanto é poderoso. — fala Mefisto em desdém.

— Não está acostumado a não ser o centro das atenções, não é, Mefisto? — O padre responde.

O demônio não gosta da declaração, ainda mais por ser verdade. Azazel começa a organizar o grupo.

— A questão é que agora sabemos que Astaroth está organizando uma tomada da terra. Ele tomou um dos círculos do inferno, arrasou com os demônios mais fracos e elegeu Belzebu como general que comanda A Legião. São centenas de demônios e amaldiçoados fora que ele pode invocar o Leviatã.

O padre deixa cair o cigarro do lábio ao ouvir isso.

— O Leviatã? A besta gigantesca?

— Sim, mas ele precisa de um demônio poderoso para invocar, um que tenha derramado o sangue de alguém que morreu em grande sacrifício. Se ele conseguir clamar a besta, a terra estará perdida.

Mefisto intervêm.

— Mas nós temos o nosso exército, de todos que negociaram comigo. Além dos vampiros jovens mortos, os que não são fiéis a Vlad. Já os que Lucy matou, deixei de fora. — fala ele se virando para Lucy, ela apenas fecha os olhos.

— Foram tantos assim? — pergunta Manson para ela que parece um tanto constrangida.

— Foi por isso que me chamou, então. — fala ela em tom conformista.

— Na verdade, uma das previsões dele já se concretizou. — O padre levanta um documento que Lilith entregara, o mapas de São Paulo que estão estampados com marcações estratégicas, como o Parque Ibirapuera. — Eles criaram fendas para a saída e ataque, vão reunir o exército e começar invadindo corpos e aterrorizando pessoas. Quanto mais cidadãos fugirem e deixarem os espaços vazios, mais fácil será ocupar.

— Invadir corpos? — questiona Sara. — Não achei que isso fosse real.

— É bem real, sei muito bem disso. — responde o padre em tom culposo.

— Acontece que não são todos os demônios que fazem isso. — completa Mefisto. — Existe um conjunto de regras, Demônios devem respeitar criaturas divinas, até vocês primatas. Os demônios que fazem isso são os que jogam sujo, os Goetia. E há cartas aqui de um deles, líder de um grupo que quer retornar ao poder. Zagan fará tudo o possível... — Mefisto para pensativo.

— O que foi? — questiona o padre.

— É por isso da diminuição dos meus poderes, Zagan está se aliando com Astaroth para me tirar de lá. Eu sou um dos próximos da lista.

— E se você morrer? — Daniele se apoia na mesa central.

— Todos os contratos serão extintos. — Lucy e Manson se entreolham. — Não apenas um problema para as pessoas, mas foram milhares de anos. Desde Cain, cada um, veio até mim de alguma forma, países inteiros irão cair, vencedores irão retornar da ruína que mereciam. Eu não faço ideia do que será, mas a terra será muito pior do que o inferno.

— Já começou. — fala Metatron retornando de seu transe.

Todos em volta se questionam, o serafim se vira devagar olhando para Azazel.

— Eu desci até lá na forma de projeção, Astaroth invadiu o Limbo assim que nós deixamos o local, ele irá transformar o lugar em um centro de treinamento.

— Assim que deixamos? — Azazel questiona, percebe que Metatron está diferente, se aproxima e estende a mão para tocar o ombro dele. — Mostre-me o que viu, irmão.

— Eu te disse. Tudo foi destruído. — Metatron tenta se virar, mas é impedido pela maça erguida de Azazel.

— O limbo é minha responsabilidade, eu preciso saber o que... — Azazel percebe a relutância de Metatron lhe mostrar a visão. — Não é o Círculo que lhe preocupa.

— Você não terá condições de lutar adequadamente se...

Azazel usa a maça para prender Metatron na parede, o anjo levanta sua única asa inteira e parcialmente carcomida. Encurrala o mediador que nada faz.

— Não devemos fazer algo? — O padre sussurra para Mefisto.

— Não, se Metatron quisesse, jamais seria tocado.

— MOSTRE-ME!!! — vocifera Azazel para o serafim.

O ser de olhos brancos não quer compartilhar a visão, Azazel fica enfurecido e o ameaça com a maça. Não que ele pudesse realmente o ferir. Metatron lamenta, então levanta a mão devagar e toca lateralmente no rosto de Azazel. Como em um choque, o caído se curva com o corpo travado para trás, seu rosto aos poucos paralisa em horror de boca aberta e uma lágrima escapa de seu olho direito. Assim que Metatron desfaz o toque, o caído se recua cambaleante e cai de joelhos ao chão, a maça cai quebrando o mármore do piso com seu peso de chumbo compacto. Azazel se prostra e urra em dor, em lamúria pela visão de sua amada sendo despedaçada pelos subordinados de Astaroth.

Mefisto percebe o perigo. Afinal, a maça, uma simples arma de chumbo e ferro quebrou o mármore da construção mental do grandioso Metatron. Ele vê que o Serafim está estranho, ele fica zonzo e se escora na parede. Ele provou de algo que não estava acostumado, sentimentos.

 





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