Flores do Tempo escrita por HLedger


Capítulo 1
Capítulo Único


Notas iniciais do capítulo

Com vocês mais uma fic escrita em base da letra de uma música. A canção desta vez este também presente na trilha sonora do game Life is Strange. O título dela é: "Spanish Sahara". Ouçam se puder, pois é uma obra maravilhosa!



“Então caminhei através da neblina

E em um milhão de caminhos sujos

Agora eu vejo você deitado ali

Como uma boia perdendo ar, ar”

Clay abriu os olhos.

Como nas noites anteriores àquela semana, despertou encharcado de suor. Encharcado também pelas vagas lembranças de seus sonhos repetitivos e atordoantes que o assombravam as noites há muito... desde a primeira vez a ouvir Hannah depois de morta. Desde o fim de todo processo e as consequências que o mesmo causara em seu metafísico.

A paisagem melancólica da madrugada próxima ao amanhecer gesticulava como uma peça ensaiada o dia prestes a nascer. Toda neblina poluente à invasão solar recorria à memória do óbito de sua amada cujo agora se completava um ano. Permanecia deprimido e por não muito pouco poderia logo declarar sua também morte emocional.

Como muito preparado a fazer, Clay serpenteou pela brecha da janela como da última vez enquanto guiado e encorajado pela singela fala de Hannah. Agora, não muito diferente, agia conforme a lembrança de luto da garota.

Junto ao bolso de seu inseparável moletom guardava como uma cria seu tocador de fitas, o mesmo que utilizara para adentrar o mundo sombrio de Hannah, e agora, o mesmo que o fazia permanecer agregado à calorosa, porém tortuosa, saudade da amada enquanto confiava suas esperanças desprezíveis àquela música do baile... aquela maldita música.

Tony insistira ao amigo que permanecesse com o objeto, mas que o enxergasse como uma forma de recomeço ao momento que poderia sempre escutar como as gargalhadas alegres da garota através daqueles fones, e não mais as fitas vinculadas as declarações de dor da mesma. Clay assentiu, mas fora este um dos últimos contatos que prestara ao amigo. Sentia que agora tudo estava invertido, e que nada ou ninguém lhe traria novamente a bondade senão como um gesto discreto para manter sua atividade ao cotidiano.

Sentia como se não houvesse mais sinceridade, apenas um teatro a encorajar tomar os mesmos remédios que um dia recusara sequer saber sobre. Estes, por sua vez, agiam como perturbadoras ligações de seu mundo interior ao mundo que o tentavam convencer tornar novamente conveniente. A felicidade de Clay já não era movida mais à naturalidade, mas sim à naturalidade que o forçavam a conceber. Sabia que antes a tinha na palma da mão, mas não a enxergava e muito menos desfrutara pelo temor de não ser correspondido.

Convencido sequer por Sky que se transformara perante a transformação de Clay. A irritava as faltas constantes de seu amigo ao colégio, embora a mesma não passara de uma turista durante todo ano letivo. Durante os raros dias em que se esgueirava pelos corredores e armários daquele cenário de terror, Clay não passava de um fantasma em meio às multidões. Assim como Hannah nos últimos dias que lhe restavam esperança de vida.

Os motivos, agora embora devidamente punidos, davam ainda mais rancor ao ambiente assim que o caso viera à tona e público. Alguns mudaram-se, outros enjaularam-se perdidos na própria culpa e vergonha..., Mas Clay, como único e gentil, permaneceu conveniente a qualquer agressão que sofresse daquele momento em diante.

Precisava apressar sua caminhada até seu destino, porém com bastante cautela a fim de que suas repulsões não danificassem o buquê de flores brancas sufocadas no espaço de livros de sua mochila. Sentia como caminhar rumo ao enterro que nunca existira, rumo a reencontrar a garota que jamais reveria. Suas emoções afloravam gradativamente a cada passo pela calçada friorenta e fantasmagórica, a desfilar por debaixo de postes ainda acesos, casas sem vida, cruzamentos abandonados... Lembranças atordoadoras.

Os minutos de trilha ao cemitério pareciam recontados em horas intermináveis, cada segundo transcorria por sua percepção trazendo à tona a sensação de afogamento nas marés mais baixas daquele mar do tempo. Em nada refletia sua mente na verdade, o que ocorria era como um ciclo de visões distorcidas e construções irreais de seu passado, presente e futuro. Seu interior vibrava apenas conforme a melodia suave da música que colocara a repetir incontáveis vezes de seu caminho até a dita chegada de seu destino.

Como uma dor magnética, Clay passeou entre os demais túmulos até o momento em que pôde contemplar uma outra vez o sepulcro agora bem definido de sua amada. Uma bela lápide fora erguida defronte a cama gramínea que repousava e procriava uma melhor aparência ao perímetro. Não mais placas ou seu rabisco identificador em folha de caderno. Por fim, Hannah poderia ser reconhecida e dada como uma alma elevada, corajosa e que finalmente encontrara a paz que jamais vislumbrou ou merecera... ela merecia paz vívida, ao lado daqueles que a queriam bem e ao lado daquele que a queria agora ao seu lado, viva e sorridente.

Cauteloso, Clay abriu o zíper de sua mochila e retirou com tamanho cuidado o presente que trouxera a sua amada. Suas mãos seguravam o buquê com um esforço comparado que fizesse a um artefato de vidro. Eram lindas e deslumbrantes, assim como Hannah também era. Flores brancas e macias transmissoras de um perfume tão doce e viciante, mais que concreto a atordoar um indivíduo que as aspirasse com fulgor. Mas assim também era Hannah, e Clay sentira aquilo no momento em que gastara seus últimos míseros dólares ao comprá-las. Como Hannah, elas brilhavam embora humildes; como Hannah, elas hipnotizavam embora discretas; como Hannah, elas seduziam embora singelas e delicadas; como Hannah, Clay não pôde deixar de amar perdidamente, incapaz de arrancar uma folha ou pétala sequer, mesmo que esta estivesse defeituosa ou ferida. Clay amava por inteiro, juntamente a todos defeitos que a mesma poderia carregar.

Agachado, Clay não pôde deixar de notar a linda e notória descrição esculpida em belas letras na face recente e bem polida da lápide:

“Descansa aqui Hannah Baker, a garota que com seu sorriso inigualável fez com que todos sorrissem igualmente um dia.”

Naturalmente, as lágrimas brotaram por dentre seus cílios e escorreram perfeitamente por debaixo de suas pupilas cristalinas e marejadas. Depositadas as flores, o garoto ergueu sua consciência e permaneceu por mais alguns minutos de pé enquanto seus fones de seu tocador transmitiam inutilmente as palavras cantadas da música que o envolvera de fantasmas. Hannah era seu fantasma por detrás de sua cama, por debaixo de sua visão e principalmente acima de qualquer pensamento que viesse a sua mente.

Seu silencioso pranto, porém, gritante tristeza secou conforme transcorriam os minutos, nada mais podia ser ouvido naquele local senão o preguiçoso canto dos pássaros e o farfalhar das árvores enquanto movidas pela brisa gélida. O primeiro feixe solar atingiu seu rosto úmido ao tempo em que sentia fortemente seus sentimentos ganharem vida em sua garganta e seus olhos selaram em uma estrondosa declaração:

— Eu vivo com culpa, a culpa por não ter conseguido salvar sua alma do sofrimento. Eu estava com medo, deixei de lhe salvar pois estava com medo de lhe amar! — A paisagem marejada através de seus olhos azulejados denunciava a erupção de seus sentimentos. — E agora tudo que me resta é visitar o que não deveria representar você. Matei você, Hannah. Eu matei você... mas saiba, apesar de tudo, que eu te amo. Eu te amo, Hannah!

As lágrimas trilhavam caminho por seu rosto gélido que entre soluços discretos encorajava sua expressão melancólica. Não soube ao certo o tempo que passou ali, de pé, perante sua própria tristeza chorando o que não pôde impedir ou mesmo tentar de impedir a acontecer...

Clay abriu os olhos.

Ergueu o olhar e notou a claridade da manhã atravessar o clima nebuloso e amargo que anteriormente o acompanhara em sua jornada. Ao longe, podia vislumbrar uma massa de pessoas em frente à mais e mais túmulos, prestando homenagens e emoções ao também que partiram.

Fitou próximo a seu calçado e notou seu tocador espatifado tendo vomitado a fita que antes tocara sua dor. Pensou que o mesmo pudera ter caído enquanto disparava suas palavras perdidamente. Por alguns instantes, observou o objeto e absorveu toda sua essência. Absorveu toda sua representatividade em sua vida até aquele momento. Por fim, compreendeu as palavras de Tony ao referir-se a forma com que aquele objeto iniciou um novo ciclo à sua vida, como as fitas desembrulharam uma nova visão do universo aos envolvidos.

Agarrou o objeto e encaixou a fita novamente ao espaço do tocador. Permaneceu diante o túmulo de Hannah enquanto em pensamento rezava suas últimas homenagens à amada.

Fomentado pelas emoções que floresciam novamente através de seus olhos, Clay repousou os fones sob seus ouvidos e surpreendeu-se com a canção distinta a tocar a todo vapor. É provável que tenha colocado a mesma do lado contrário a que deveria, mas não esperava a existência de tal canção. A música estava na metade de sua performance, mas chocou o garoto novamente ao tempo que cada frase dita submetia seus sentimentos à situação com que estava atado a enfrentar.

O perfume das flores preenchia suas narinas enquanto olhava hipnotizado pela beleza das mesmas. Tão belas quanto Hannah.

Clay fechou os olhos.

 

“Esqueça o horror aqui, esqueça o horror aqui

Deixe tudo aqui

É o futuro enferrujado e depois é o futuro empoeirado

Coro de fúrias em sua cabeça, coro de fúrias em sua cama

Eu sou o fantasma atrás de sua cabeça”



Notas finais do capítulo

Não se esqueça de avaliar e comentar, se possível. A evolução do escritor se deve principalmente à críticas, elogios e sugestões de leitores. Obrigado!

Até mais!



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