O Jogo do Desafio Duplo - Anna & Leo escrita por Leonardo Alexandre, Hastings


Capítulo 1
One da Anninha - Memórias de Verão


Notas iniciais do capítulo

Título: Memórias de Verão
Mínimo - Máximo de Palavras: 1208 - 3569
Música: More Than World - Extreme
Tema: Poliamor.
Personagens (1 - 4): Julia Salles, Nadia Borges,
Sandra Tenório e Fernando Vilela.



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Olá, eu sou a Julia. Julia Salles.

E sou completamente apaixonada por duas pessoas. Sim, duas.

Quando eu estava no ensino médio, conheci Nadia. Ela era minha melhor amiga. Pelo menos eu achava que era. Não que ela tenha sido falsa comigo, muito pelo contrário. Nadia é uma das pessoas mais honestas que eu conheço na minha vida. Eu olhava para ela e, a cada dia, eu ia me apaixonando cada vez mais.

Porém, eu não sabia disso. Ela descobriu primeiro.

Naquele dia, 18 de fevereiro de 2010, nós tínhamos saído para dar uma volta, tomar um sorvete. Coisas normais que amigas normais fazem. E então, num silêncio que fiz, ela se aproximou de mim e me beijou. Foi o meu primeiro beijo com alguém do mesmo sexo e eu posso dizer que foi incrivelmente bom. Naquele momento eu soube. Um filme se passara na minha cabeça e eu soube que eu estava apaixonada por ela. Droga, minha melhor amiga.

Ela tinha acabado de terminar com o namorado na época, o que apenas me deixou mais insegura. Talvez, num desespero para não ficar sozinha, tivesse me beijado.

Eu fiquei totalmente sem reação, enquanto ela deu um sorriso e continuou tomando seu sorvete normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Nas outras duas semanas, eu não sabia como agir perto dela. Quando ela vinha falar comigo, eu saía de perto. Talvez por medo ou insegurança. Eu apenas não conseguia olhá-la nos olhos e conversar. E eu queria muito me socar por conta disso. Burra, burra, burra e burra.

Por que tinha sido tão estúpida a ponto de me apaixonar? E pior, me apaixonar por minha melhor amiga. Quando digo “melhor”, talvez melhor e única. E agora eu mal podia encará-la.

Um dia, na aula vaga de física da escola, ela veio falar comigo. Eu tremia como nunca tremi antes. Ah, o amor faz isso com a gente. E ela me pediu desculpas. Disse que não queria acabar com a nossa amizade com aquele beijo. Pois havia sido só um beijo.

— Tudo bem, Nadia. Não há nada com o quê se preocupar. Eu gosto muito de você, mas nós somos amigas, apenas isso. Apenas amigas. — Foi o que eu disse, sorrindo um sorriso amarelo.

Eu passei dois anos da minha vida negando meu sentimento por ela. Eu a vi ir para festas e pegar quase todos que ela via pela frente. Eu a vi namorar durante 11 meses e chorar tanto quando o namorado foi embora. Eu a vi sofrer e sentia uma necessidade de protegê-la. De abraçar, cuidar... Beijar. Mas eu não podia, pois nem deveria estar apaixonada por Nadia. Éramos amigas. Eu tentava me convencer disso.

Até que no verão daquele ano, fomos acampar. Eu sempre odiei acampamentos, e minha mãe sempre me forçava a frequentá-los em todos os verões. Reclamando com Nadia que eu não queria ir, ela se ofereceu por companhia.

— Ei, pare de reclamar. Você ficaria melhor se eu fosse contigo? — Perguntou.

Meu coração palpitou.

— Sim, ficaria. Mas não quero te incomodar. Vai por mim, acampamentos são chatos pra caramba.

— Não sei, nunca fui em um. Mas sempre morro de inveja vendo as fotos que você posta quando chega em casa. Eu quero ir. Por favor, Ju, me deixa ir com você.

— Você tem que pedir para sua mãe, cara. Só após o “sim” dela que eu posso perguntar a minha se ela te leva junto.

Em um segundo, Nadia estava discando o número de sua mãe no telefone e ligando para a mesma.

— Oi, mãe, bença... Sim, tô bem. Sim, me alimentei direitinho. Calma, mãe. Só quero te pedir uma coisa... Calma que não é dinheiro. Então, será que a senhora se importaria de deixar eu ir acampar com a Ju. DEIXA? — gritou após uma resposta da mãe — AAAAAH, OBRIGADA, MÃE. EU TE AMO. — e desligou.

— Pelo visto ela deixou. — comentei.

— Sim, deixou. — ela riu — Ah, vai ser tão divertido. Falta a tia Karla querer me levar.

— A minha mãe não se importa. Já levei três amigos de uma vez. Uma pena que eles foram para outra cidade.

— Já que você não tem companhia, eu serei A companhia. — disse, dando uma super ênfase no “a”.

— Convencida nada. — Brinquei.

No fundo, estava realmente feliz que ela fosse comigo nesse verão.

Conversei com minha mãe e no outro final de semana nós fomos.

Minha mãe era a única pessoa para quem eu tinha contado sobre meu beijo com a Nadia. Ela ficou com medo, no início, de que eu me machucasse. Realmente, me machuquei. Mas ela shippa nós duas até hoje.

Sim, eu tenho a melhor mãe. E agradeço a Deus todos os dias por ter uma mãe não homofóbica. Obrigada, Senhor.

Chegando ao acampamento, Lívia com a mesma introdução de sempre. Música perto do lago, regras e mais regras, coisas de Lívia e sua equipe. Apesar de tudo, Lívia era maravilhosa. Quando estávamos montando a nossa barraca, encontrei dois de meus amigos que sempre iam comigo para lá.

— PARA TUDO, MEU BRASIL! SANDRA E FERNANDO! MEU DEUS! QUE SAUDADES! — Acabei pulando em cima dos dois. Eu realmente estava morrendo de saudades, não os via desde que foram embora depois do verão passado. — Onde está Bárbara?

— Ela resolveu ficar lá em nossa nova cidade esse verão. Mas nós viemos. — Sandra me respondeu.

Lembrando-me do último verão em que estivera lá, até que foi bom Bárbara ter ficado. Acabei me pegando com Fernando, meu crushzinho de décadas, e ela viu. Iria me zoar tanto, mesmo um verão depois, e eu não estava a fim de Nadia saber dessa história. Não mesmo. Queria ganhar pontos com ela, mas não pontos negativos.

— E nós temos novidades. Eu e Sandra estamos namorando. — Disse Fernando com um sorriso enorme, de orelha a orelha, no rosto.

Confesso que meu mundinho tinha acabado de desmoronar. Por mais que eu gostasse da Nadia, eu negava, e nunca realmente deixei de ter um crush em Fernando. Nós nos falávamos constantemente e ele me fazia esquecer Nadia em nossas conversas. Pelo menos por algumas horas.

— Ah, que bom. Parabéns. Eu fico feliz por vocês. — Forcei um sorriso, então peguei na mão de Nadia. — Essa é a Nadia, minha melhor amiga da escola. Nadia, esses são Sandra e Fernando, meus amigos do acampamento. — Os apresentei.

— Ah, então essa é a famosa Nadia. — Fernando sorriu — Prazer em te conhecer.

— O prazer é meu. — Então ela se virou para mim — Famosa, hein? O que você anda dizendo de mim para seus amigos, dona Julia?

Dei uma risada sem graça e ignorei a pergunta.

— Apenas coisas boas. Não se preocupe. — Sandra sorriu simpaticamente.

Nadia deu um sorriso envergonhado e jogou o cabelo liso e negro para o lado, tentando disfarçar a timidez. Eu sempre amava quando ela ficava envergonhada.

(...)

Anoiteceu. O toque de recolher já havia sido dado. Eu não conseguia dormir porque 1) eu estava em um saco de dormir, coisa que eu odeio e 2) eu estava ao lado de Nadia. Minha respiração descontrolada, meu nervosismo, meu frio na barriga. Tudo por estar ao lado dela. Dois anos e nada mudou.

Ela se virou, olhou para mim, que estava com os olhos já abertos, e sorriu. Apenas sorriu. Eu sorri de volta e então ela se aproximou. Devagar. Exatamente como dois anos antes. E me beijou. E foi bom como a primeira vez, mas eu senti que foi muito melhor.

— Eu nunca deixei de pensar em nosso beijo — Ela confessou. — Não foi apenas um beijo para mim, Julia. Foi tudo. Eu sou completamente apaixonada por você, garota, desde o dia em que nos conhecemos. Já namorei tantos, peguei tantos, mas nunca deixei de pensar em você. Me desculpa por isso agora, mas eu realmente te amo. E não quero ser apenas mais uma amiga.

Fiquei em estado de choque. Era recíproco. Eu estava apaixonada por alguém que também estava apaixonada por mim. Mas eu também gostava e muito de Fernando, não achava certo iludi-la. Então apenas a beijei. E nós passamos a noite nos beijando, até que eu caí no sono e ela também.

Foi um verão muito intenso. Aconteceram coisas que eu nunca poderia imaginar. No dia seguinte, Fernando apareceu chorando em nossa barraca, dizendo que havia visto Sandra com outro garoto. Traição. Ah, como eu queria ir lá e chamá-la de todos os nomes possíveis e espancá-la até a raiva passar. Ninguém merecia passar por isso. Muito menos o meu bebê, Fernando. Ele era incrível, e uma pessoa incrível não deveria sofrer.

Deixei Nadia com ele na barraca e fui até Sandra.

— Mano, você tem merda na cabeça? — Cheguei de uma forma super educada.

— Não, não tenho. Só fiz aquilo porque descobri que o Fernando gosta de você, sua vadia. Fiquei com tanta raiva que fiz por vingança. — Respondeu e eu fiquei bastante surpresa, mas não deixei transparecer.

— VOCÊ NÃO PODIA SIMPLESMENTE CONVERSAR COM ELE, BRIGAR COM ELE, PARA AÍ TERMINAREM? ELE PODE GOSTAR DE MIM, MAS EM CIRCUNSTÂNCIA ALGUMA FARIA ISSO COM VOCÊ. — Gritei, alterada

Ela me deu um tapa na cara.

— Ele me traiu da forma mais cruel. Seu amor por mim não era real.

— Quem te garante? Eu sei muito bem como é amar duas pessoas. E a vadia aqui é você. — Revidei o tapa e saí, quase cuspindo fogo.

Cheguei à barraca e encontrei Nadia e Fernando aos beijos. Fiquei atônita. Meu Deus, meus dois crush’s, se pegando, como proceder?

Pigarreei, para que notassem minha presença. Os dois interromperam o beijo e me olharam. Eu não sabia se ria ou se chorava. Nadia levantou-se depressa, pedindo desculpas ininterruptamente. Fernando apenas nos encarava.

— Eu juro que tudo o que te falei ontem era real, era verdade. Não desiste de mim, por favor. Me dá outra chance. Eu nem sei por que o beijei. Não fica brava, sério. — Ela estava muito nervosa, dava para perceber. Fernando me encarou chateado, mas ao mesmo tempo curioso.

Coloquei as mãos no rosto de Nadia.

— Nadia, eu amo você. Também sinto tudo o que você disse sentir. — Olhei para Fernando e fui até ele — Fiquei sabendo que o motivo da traição foi você gostar de mim. Isso é verdade? — Ele assentiu — Eu também gosto de você. Mais do que um amigo. — Afundei o rosto entre as mãos — Vocês me entendem? Eu gosto de vocês, eu quero os dois e não sei o que fazer.

— Você não precisa se decidir agora. — Fernando me consolou.

— Você não precisa nem mesmo se decidir. — Nadia saiu da barraca e eu pensei que ela estivesse muito chateada.

Dias se passaram e a semana no acampamento parecia ser interminável. Nadia mal falava comigo, assim como Fernando. Quis os dois e fiquei sem nenhum.

Porém, no último dia, o dia que eu tanto esperei para ir embora daquele inferno, eu entrei em minha barraca e encontrei Nadia e Fernando. Não, eles não estavam se beijando. Eles estavam de joelhos, segurando um mesmo anel feito de um tipo de folha. Não sabia o que imaginar.

— Eu sei como é amar duas pessoas. Não há alma gêmea, às vezes acontece de alguém entrar na sua vida e te amar, e acima de tudo, querer ficar com você para sempre. Você não precisa ter só uma. Você pode ter duas pessoas com quem contar. — Fernando disse.

— Eu estive conversando com ele essa semana. Nós dois concordamos em fazer isso, nós dois entendemos a sua situação e realmente não nos importamos de dividir você. — Nadia continuou.

— Então, a gente queria saber...

— Julia Salles, você aceita namorar conosco? — Disseram, em uníssono.

Eu fiquei muito feliz, mesmo. Eu queria os dois, eu poderia ter os dois. Então apenas disse “sim, eu aceito” e fui em direção à eles, que colocaram o “anel” em meu dedo anelar e me beijaram.

Fernando voltou para São Paulo depois daquele acampamento. Deixando Sandra e Bárbara para trás. Eu não queria mais falar com Sandra e Bárbara, ao mesmo tempo em que consolava a amiga, nos desejava muitas felicidades.

Quando fui conversar com minha mãe, achei que ela não fosse aceitar. Demorou um pouco para que ela compreendesse que seu bebê, de 18 anos, estava namorando. Com duas pessoas. Mas, como eu tenho a melhor mãe do mundo, ela logo permitiu que eu fosse feliz sem me preocupar com nada.

E, com o passar dos meses, acredito que Fernando acabou se apaixonando por Nadia e ela por ele, então sim, nós éramos realmente um trisal muito lindo. As pessoas nos viam e achavam aquilo inaceitável. Afinal, onde já se viu três pessoas namorando? Esse povo é ultrapassado demais. Então, eu terminei o ensino médio namorando as duas pessoas que eu mais amava depois da minha mãe (que é uma rainha, né gente?).

Os pais de Nadia não aceitaram e a expulsaram de casa. Infelizmente, um de nós teve que passar por isso. Foi aí que ela passou a morar comigo e com minha mãe. Fernando morava com o pai, que achou o filho muito foda por estar namorando duas mulheres. Era realmente muito machismo.

Depois do colégio, nós três fomos morar num apartamento só nosso. Era pequeno, mas nós éramos muito felizes lá.

Hoje, cinco anos depois, eu ainda continuo completamente apaixonada por duas pessoas. Nós adotamos um garotinho, o Gabriel. Gabriel Salles Borges Vilela, legalmente apenas Nadia e Fernando eram os pais, porém para nosso filhinho éramos os três. Para ele, estava tudo bem em ter duas mães e um pai. Com seus 3 aninhos, eu já era tão orgulhosa.

Sinto que os dois fariam qualquer coisa por mim, eles são maravilhosos.

Hoje, morando em nossa própria casa, eu me formei em psicologia, Fernando era professor e Nadia estava na faculdade de medicina. Tentávamos de tudo para que Gabriel, nosso filho, fosse um garoto muito feliz.

Nós somos incríveis por ter superado tudo para sermos felizes hoje. E todas as vezes em que eu escutar More Than Words, do Extreme, vou lembrar de tudo o que passamos, pois eles não precisam me dizer que me amam pois eu já sei. Eles me provam isso com mais do que palavras, com atitudes.

Agora, deitados no chão da sala com nosso filho, escutando essa música, Nadia vira-se para nós dois e diz:

— Eu amo vocês.

— Nós também te amamos. — respondemos.

Pulando em cima de nós, Gabriel diz, me fazendo morrer de amores. — Ei, eu também amo vocês, mãe, mamãe e papai.

E tudo o que eu posso fazer é agradecer por ter sido abençoada com duas pessoas maravilhosas e com uma metade de pessoinha dizendo que nos ama, no chão da sala.


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