Chess escrita por Pan Alban


Capítulo 11
A Rainha


Notas iniciais do capítulo

Olá!!!
Cheguei de madrugada, mas cheguei sahuhsuahsuahsa
Peço desculpas por ainda não responder os comentários, vou passar amanhã respondendo todo mundo ;)

Este capítulo é dedicado à duas pessoinhas maravilhosas que deixaram recomendação para Chess ♥ To numa felicidade que não cabe em mim!! Obrigada mesmo minha rainha Akemihime e Namie pelas lindas palavras! Eu só tenho mesmo a agradecer e espero que o capítulo esteja a altura do que vocês merecem ♥

Atendendo a pedidos, ponto de vista diferente hoje ;)

Boa leitura!



 

“A feniletilamina, cujo nome sistemático feniletan-2-amina e cuja fórmula molecular é C8H11N, similar à anfetamina, promove a libertação de noradrenalina e de dopamina, hormônio que por sua vez é responsável pela sensação de prazer…”

Era uma daquelas vezes em que ele se via diante de uma situação em que informações úteis e inúteis inundavam sua mente lhe trazendo as justificativas para o que acontecia ao redor e dentro dele. Entretanto, aquele era um daqueles momentos em que seu raciocínio era cortado e tudo parava de fazer algum sentido. Aquilo poucas vezes acontecia, mas mesmo que fossem em situações diferentes, havia sempre uma constante: Temari.

E de todos os momentos que já perdeu o raciocínio na frente dela, de todas as vezes que seu cérebro pareceu virar geleia apenas com o sorriso dela, de todas as vezes… parecia que agora ele havia sucumbido.

Ele estava beijando Temari.

Nem se fosse o homem mais otimista do mundo - o que com certeza ele não era - imaginaria que algo assim acontecesse, que ambos chegassem a fazer aquilo sem que ele tivesse que agarrá-la a força, uma situação que só acontecia na cabeça dele, em noites em claro, onde se sentia no mínimo corajoso para ao menos pensar aquilo, mesmo tendo em vista o quão violenta ela poderia ser.

Ele jamais pensou que Temari também queria.

Agora ele não sabia o que fazer!

— Abre a boca, Shikamaru! Não esqueça de abrir a boca e mexer! Não fica parado deixando ela fazer todo o serviço. Sabe chupar laranja? Hmmm, é quase igual. Mas mexe a língua!

— Ninguém vai beijar ninguém, Ino. O encontro é do Chouji, a gente vai só para dar uma força.

— Claro, Shika. Então por que veio aqui para eu te ajudar com o que usar hoje a noite? Cadê os brincos?

Abriu a boca acomodando a dela sobre a sua. Como agradecia Ino nesse momento pela breve ajuda que deu, mas e depois? Não queria acabar aquilo.

Temari riu sobre seus lábios quando ele hesitou um momento sem saber o que fazer, não estava tão nervoso como pensou até ela soltar aquele som raro e se distanciar.

— Relaxa — ela sussurrou apoiando as mãos em seu peito para se levantar. Ela se sentou e ele não sabia o que fazer. Então, Temari fez sinal com o dedo para que ele se levantasse também. — O que achou?

Ele achou que queria mais.

Se sentou ao lado dela completamente ignorante ao que seria dali para frente. Ele não esperava nada, ao mesmo tempo que esperava tudo. Por isso, foi surpresa para ele quando ela voltou a se aproximar e beijou seus lábios delicadamente duas vezes.

— Pode melhorar. — ele respondeu sussurrando assim como ela.

Seu coração nunca havia acelerado tanto e sua cabeça nunca pareceu mais inútil quanto naquele momento.

Shikamaru odiava não saber o que fazer, estava acostumado a entender tudo muito rápido, pegar insinuações no ar e saber o que a maioria das pessoas ao seu redor nem faziam ideia. Era desconfortável estar fazendo algo que não envolvesse teoria para aprender antes e ter que ir direto para a prática, ainda mais quando a probabilidade de fazer certo era tão baixa…

Temari soltou um riso que pareceu tímido aos ouvidos que zumbiam de Shikamaru, e segurou o rosto dele com as duas mãos.

— Pode.

A troca de olhares que se seguiu foi algo importante para Shikamaru. Ali ele tentava desvendar o que aqueles olhos claros queriam dizer, colocava sua mente em ordem e salvava em sua memória cada detalhe do rosto dela tão próximo. Era importante também para saber se ela queria desistir.

Mas ela não desistiu, não se afastou.

Daquela vez havia sido mais lento, mais certo. Encaixou como peças de um quebra cabeças que nem era tão complicado, aquelas peças que ficavam nas bordas e eram as primeiros a se acertarem para montar a imagem.

 

♚♛

 

— Não dormiu bem essa noite, Shikamaru? — Chouji perguntou depois do longo e terceiro bocejo de Shikamaru naquele pós almoço. Os três estavam sentados na beira da piscina com apenas os pés dentro da água.

— Que pergunta indiscreta, Chouji! — Ino censurou em voz baixa olhando por cima do ombro para onde sua mãe, a de Chouji e Yoshino conversavam. Shikamaru olhou agradecido para Ino. — Ela dormiu aqui, Shikamaru?

O garoto cuspiu a limonada que bebia e Chouji estourou em uma gargalhada.

— Qual o problema de vocês? — reclamou tirando a camiseta molhada de suco.

— Não precisa ficar tão nervoso. — Ino piscou e o cutucou com o ombro provocativa — E aí? — Shikamaru não acreditava que Ino estava insistindo naquilo e seu olhar disse tudo na direção da amiga. — Mas pelo menos um beijinho vocês deram, né?

Ele sentiu seu rosto queimar e virou o suco que ainda tinha no copo. Chouji voltou a rir e Ino deu um gritinho agudo quase inaudível, mexendo as mãos como uma criancinha.

— Nosso plano deu certo, Chouji! Eu disse que ia dar! — Ela fez uma careta para Chouji que só levantou os ombros voltando a tomar sorvete. Shikamaru olhou os dois não acreditando. Plano? — Só para você saber, Shika, o Chouji disse que você desistiria na hora H, mas eu falei que não, porque seus olhos brilhavam com as chamas da paixão e…

— Plano? O que vocês… Argh. — Shikamaru bateu na própria testa e nem precisou de resposta, tudo ia se encaixando em sua mente e o sorriso maquiavélico da amiga só confirmava que o convite de Chouji para sair com Karui foi só uma encenação. Apertou os olhos na direção do amigo e ele deu um sorriso pequeno e daqueles que não dava para ficar bravo com Chouji. Shikamaru respirou fundo e estalou a língua, não valia a pena ficar bravo com nenhum dos dois. — No fim você não saiu com a Karui?

— Claro que sai. — Chouji respondeu naturalmente e Ino quase se desequilibrou. — O que foi?

— Chouji! Como assim? Seu safado! Como você faz uma coisa dessa e nem me conta?

Shikamaru jogou o corpo para trás e deixou que Ino começasse uma discussão com Chouji, cobriu os olhos com o braço e relaxou até que sentisse seus pés movendo sozinhos ao ritmo da água. Ele estar morrendo de sono e dormir mal a noite não era novidade, mas naquela noite foi quase impossível pegar no sono.

Três cigarros, a luz da lua e uma cigarra barulhenta foram seus companheiros de insônia na noite anterior.

Um dos irmãos havia mandado uma mensagem logo após o segundo beijo e ela disse que era melhor ir embora. Ali não era a Temari que ele estava acostumado, era uma Temari tímida, com os olhos sempre no chão e o rosto vermelho. Shikamaru não sabia que existia um lado assim nela. Levou-a para casa tendo apenas umas músicas pop e um locutor extremamente empolgado no rádio ligado para desfazer o silêncio. Era um silêncio de constrangimento que pairava sobre os dois, como se finalmente tivessem se dado conta do que haviam feito.

O primeiro pensamento dele foi que ela havia se arrependido. Ele ficou apavorado. Certamente havia sido horrível, ele não sabia como fazer aquilo.

O segundo, e mais louco, era que ela gostava dele. Isso era justificativa para que ela estivesse tão desconcertada quanto ele.

Ele alegou ser improvável, no dia anterior, quando Ino disse toda animada que Temari havia perguntado dele e de uma suposta namorada para Sakura. Ele argumentou que ela queria material para tirar uma com a cara dele, mas Ino negava o chamando de inocente. Então, no mesmo momento ele se lembrou da vez que ela foi grossa com ele quando levou a mãe para o hospital para levar ponto no dedo, Temari achava que ele estava se divertindo com alguém. Também tinha o fato dela sempre dar um jeito de desmerecer Shiho quando a grudenta e pobre garota tentava impressionar ele… Aquilo tudo era ciúmes? Parecia que sim.

Ino também falava sobre uma fonte que dizia que Temari não parava de falar dele e que se comportava diferente quando estavam juntos. Achava que aquilo era invenção de Ino, mas seu interior se aqueceu com uma esperança que começava a aflorar.

Buscando alegações de que estava certo e não louco, ele se lembrava que Temari olhava para o corpo dele, era algo até descarado, mas ele não levava aquilo como uma atração até então, só curiosidade. No entanto, só para garantir, passou a malhar sozinho em casa para se manter em forma, mesmo que exercícios físicos fossem um saco e ele tivesse muita preguiça.

Temari o motivava, como não fazia com mais ninguém.

Não só no condicionamento físico, mas ela também o motivava a ser mais inteligente, a estudar mais, a ser mais, mesmo que fosse de forma inconsciente da parte dela, mas ele acatava conscientemente e aquilo tinha um porquê: ele era apaixonada por aquela mulher desde os 13 anos.

Que problemático havia sido ser um pré-adolescente apaixonado pela irmã mais velha dos amigos. Tinha que fingir não se importar quando Kankuro falava algo sobre ela, fingir que não prestava atenção e que não estava interessado. Mas, Kankuro era uma fonte ruim de informações, só repetindo diversas vezes como ela era chata e maluca, e batendo nos caras que a elogiavam.

Shikamaru fez uma careta com essa lembrança.

Bom, ele era um garoto magrelo, que não era bonito e se entediava muito facilmente. Até que jogaram xadrez pela primeira vez. Temari era violenta até mesmo no xadrez, fazendo movimentos ousados e desafiando o oponente com os olhos. Ele nem queria estar lá naquele dia, mas ela tomou sua atenção e depois daquilo não passou mais despercebida. Mas, foi quando ela o salvou de uma tentativa de assalto que tudo mudou. Ousada e violenta, foi como ela chegou atacando a garota. Foi também como ela saiu dirigindo aquele carro até a casa dele.

No final, aquele sorriso foi a ruína dos planos simples de um garoto simples que só queria uma vida simples.

— Está vendo esse sorriso, Chouji? É o sorriso de um homem apaixonaaaaaaaaaah…

Com uma perna, Shikamaru empurrou Ino na piscina e Chouji engasgou de tanto dar risada.

Ignorando os insultos e promessas de vingança vindos de Ino, Shikamaru foi até uma espreguiçadeira e fechou os olhos tirando o isqueiro do bolso, abrindo e fechando ele para relaxar, queria fumar, mas sentia os olhos da mãe o fulminando de longe.

De olhos fechados ele podia lembrar claramente do pai, há três anos atrás, o abraçando pelo ombro e dando aquele sorriso sacana apontando com o queixo para a garota loira sentada no pergolado onde naquele momento estava sua mãe.

Desde os tempos remotos, os homens Nara são atraídos por mulheres mandonas. — Shikamaru se lembrava de rolar os olhos e o pai rir mais um pouco.

Não viaja, velho. Mulheres já são difíceis por si só, mas essa aí se supera. Ela é a mais problemática de todas, me venceu no último torneio de xadrez.

Shikaku olhou surpreso para o filho e puxou novamente um sorriso ambíguo. Shikamaru o olhou com tédio.

Não faça essa cara, você ainda é um moleque, mas um dia vai descobrir que até mesmo a mulher mais difícil não tem medo de ser gentil com o homem que ama.

Shikamaru se lembrava de, naquele exato momento, Temari olhar para os dois e ele se sentir envergonhado como se estivesse sendo pego no flagra. E se seu pai queria saber algo com aquela conversa estúpida, ele havia conseguido com a sua reação.

Use o xeque do pastor, Shikamaru. Foi assim que conquistei a sua mãe.

Abriu os olhos quando gostas de água molharam ele, e viu Ino chacoalhando os cabelos longos e molhados em cima dele. Estalou a língua reclamando e ela sorriu satisfeita se sentando na espreguiçadeira ao lado. Na piscina, Chouji digitava no celular em cima de uma boia.

— Conversa comigo. — Ino se deitou fechando os olhos para tomar um sol. Ela tinha aquela mania de se achar uma psicóloga e atormentava os amigos pedindo para que desabafassem. Shikamaru não tinha nada para desabafar com ela. Ino, percebendo que ele não ia falar nada, abriu um olho azul e o olhou rapidamente antes de continuar como se nada tivesse acontecido — Gaara sabe.

Shikamaru arregalou os olhos e olhou apavorado na reta de Ino.

— Por que você contou?

— Me respeite, garoto. Eu não contei nada, eu hein — ela esticou os braços satisfeita em ter a atenção dele — Ele veio comentar comigo que achava que estava rolando algo entre você e a irmã dele. — Shikamaru passou a mão no rosto e resmungou. Ino sorriu. — Vocês não são muito discretos.

— O que ele falou? — Shikamaru virou a cabeça na direção de Ino, sua mente já criando maneiras de se salvar da fúria dos irmãos dela. Já havia visto Kankuro tirar sangue com socos de caras que fizeram muito menos que ele.

— Ele disse que Temari estava muito estranha. Relapsa, sabe? — Ino dizia com naturalidade, enquanto Shikamaru estava apavorado e curioso — Aí ele começou a jogar indiretas para cima de mim, veja bem — ela abriu os olhos só para revirá-los. Então se sentou empolgada com a fofoca — Ele disse que vocês dois andavam muito juntos, que a Temari ficava diferente perto de você e que toda hora ela fica falando sobre você. Bom, isso eu já te falei.

— Mas eu não sabia que era o Gaara a “sua fonte”. Merda…

— Não precisa ter medo do Gaara, eu faço ele aceitar. — Ino inclinou o corpo para frente e sorriu confiante, mas Shikamaru não acreditava que aquilo ia funcionar. Por que não se envolveu com uma garota mais simples? Por quê? Além do mais, não havia nada para Gaara aceitar ali. — Então, meu ruivinho me mandou mensagem agorinha enquanto eu tirava a água do meu ouvido.

Ino estendeu o celular para Shikamaru com a mensagem curta de Gaara.

“Eu vi os dois ontem.”

Shikamaru leu aquelas cinco palavras sete vezes antes de balançar a cabeça e apertar as têmporas com as mãos. Quando a deixou em frente a casa, ela se aproximou rapidamente e ele pensou que ganharia mais um beijo, mas ela desviou o rosto no último segundo deixando um beijo no rosto dele e saindo rápida da caminhonete. Gaara teria visto aquilo e já ligado tudo?

Aquilo estava ficando problemático.

Certamente Kankuro ainda não sabia, senão já teria aparecido na casa de Shikamaru furioso, mas aquilo não ajudava Shikamaru a se acalmar. Um dia ele ia saber, ainda mais se aquela coragem toda dele permanecesse para conquistar Temari de vez.

— Shika, você se lembra quando tínhamos doze anos e participamos daquela gincana no acampamento? — Ino perguntou voltando a se deitar. Shikamaru a olhou sem entender o que ela queria dizer, mas obviamente que ele se lembrava daquilo. Um acampamento que Ino os obrigou a ir e uma gincana que Ino os obrigou a participar para ganhar o prêmio. Ela não esperou nenhuma resposta dele e voltou a falar — Nós éramos o pior time daquele lugar, lembra? Nem decidiamos se íamos ser o time Ino-Shika-Cho ou Time da Ino. — riu sozinha e Shikamaru soltou um riso anasalado concordando. — Estávamos com a bandeira branca e tínhamos que pegar a preta com outro time para podermos passar de fase. Mas todo mundo saia na porrada e a gente ficou escondido nas moitas praticamente a gincana inteira para não apanhar também.

— Aquele pessoal do hip-hop batendo no time do Naruto ainda me dá arrepios.

— Nem me fala, apanhei para salvar a testuda. — Ino rolou os olhos e riu no fim. — Mas não é disso que eu quero falar. Quando eu vi que a gente não tinha chances, comecei a chorar, lembra? O que você fez? — Shikamaru puxou um canto da boca se lembrando daquilo. Odiava ver mulheres chorando e quando era uma amiga como Ino então… Ela, no entanto, não deu tempo para ele responder. — Por causa de você conseguimos a segunda bandeira e fomos para as eliminatórias individuais. Você nem queria estar lá e ganhou de todo mundo só por causa de mim. Percebe o quanto você se esforça para fazer algo pelos outros, mas quando é com você se limita?

Shikamaru suspirou e voltou a se deitar.

— Nunca disse que desistiria da Temari.

Ino estava pronta para retrucar, mas engasgou com uma interrogação que fez Shikamaru rir.

— O… que? Meu Deus! Eu estava pronta para dar um sermão. — Ino riu desacreditada e se sentou novamente empolgada — Foi tão difícil fazer você tomar coragem para falar com ela… Estou orgulhosa dos meus maninhos. — fingiu enxugar uma lágrima e Shikamaru voltou a fechar os olhos colocando o braço por cima. — O que você vai fazer?

Shikamaru sorriu um pouco, guardando retratos em sua memória de todos os momentos que passou ao lado de Temari como amigo, matando suas próprias ilusões tendo em mente que ainda não era um cara bonito, que era patético e mais novo. Como ela poderia se interessar por ele? Mas foi ela quem o beijou, quem havia dito que ele estava bonito...

— Vou fazer minha jogada.

 

♚♛

 

Desde que voltara, Shikamaru havia percebido que seus amigos não haviam mudado tanto quanto pensou que mudariam. Talvez apenas tivessem mudado seus focos de jogos para mulheres, mas isso era compreensível com os hormônios agitados. Naruto era o que menos havia mudado, até mesmo em relação às mulheres. Shikamaru refletia sobre aquilo enquanto observava o amigo hiperativo jogar bexigas de água em todo mundo na beira da praia, enquanto Hinata Hyuga o observava sem piscar.

Fechou os olhos quando sentiu o ardor na perna direita e logo ela ser molhada por ser atingido por uma bexiga de Naruto, o garoto ria descontrolado voltando a correr enquanto os outros mandavam ele parar. Naruto era mesmo um idiota, mas era um cara legal.  

— Naruto, senta aqui. — Chamou alto vendo o loiro com um sorriso alucinado ameaçar as meninas que corriam gritando para o mar.

Naruto fez uma cara de desconfiado e atirou a última bexiga com água nas costelas de Kiba.

Shikamaru odiava a praia e aquilo era algo de conhecimento geral, mas havia um complô nada discreto entre os amigos e a mãe dele para que o arrastassem para se distrair. Não havia como ele despistar Naruto quando apareceu o acordando de um cochilo naquela tarde e pulando por cima, quase o colocando, literalmente, nas costas para saírem de lá.

Mesmo que fizesse careta e repetisse o quanto aquilo era problemático, ele admirava a força do amigo em reunir as pessoas e motivá-las. Naruto seria um grande líder se empenhasse mais.

— O que tá querendo? — Naruto se sentou folgadamente na areia ao lado da cadeira que Shikamaru mantinha na sombra.

Os dois assistiram Sasuke e Kiba voltarem a jogar bola na beira do mar e Sakura e Hinata deitarem na areia para tomar sol.

Shikamaru faria uma bondade para Naruto naquele dia, já que ele se esforçava tanto para não deixá-lo relaxar.

— O que você acha da Hinata? — perguntou naquele tom despretensioso, puxando a atenção de Naruto completamente para a menina que negava a tirar o shortinho e ficar só de biquíni.

Shikamaru era um cara observador, e não precisava ser muito inteligente para chegar na conclusão que ele havia chegado há muitos anos, de que Hinata gostava de Naruto desde que eram crianças.

Naruto torceu o nariz uma vez sem entender e virou os olhos azuis para o amigo.

— Estranha, ela sempre fica quieta e quando tento colocar ela na conversa fica vermelha e gagueja. Mas eu gosto dela. Por quê?

Shikamaru quis dar um tapa na testa do Naruto. Não era possível.

Shikamaru nunca foi uma criança comum. Talvez fosse pelo cérebro prodigioso que diziam que ele tinha, fosse pela educação dada pelos pais… Fosse o que fosse, Shikamaru tinha um jeito de pensar diferente, mais adulto, desde que era criança. Ele questionava tudo, tentava compreender as coisas que o cercava e criava reflexões para si mesmo. Nunca deixava nada passar sem uma dose de racionalidade. Na pré escola, por exemplo, achava que todos os amigos eram selvagens.

Talvez por isso foi tão fácil para ele entender o que era aquela coisa louca que acontecia com ele quando se pegava pensando em Temari. Não teve dúvidas, estava gostando de uma garota pela primeira vez e aquilo era tão problemático quanto pensava ser.

— Hey, você está a fim da Hinata? — o processador lento de Naruto chegou a conclusão mais improvável possível, o que não era surpresa para Shikamaru. Naruto era o Imprevisível #1. Os olhos arregalados do Naruto na direção dos apáticos e descrentes de Shikamaru na direção dele provavam que até mesmo ele achava aquilo louco — Cara, eu sempre achei — ele olhou para os lados e se inclinou aproximando-se de Shikamaru para sussurrar — que você estava a fim da irmã do Kankuro e do Gaara.

Shikamaru arregalou os olhos para ele. Estava tão na cara assim que até mesmo Naruto percebia?

Ficou um pouco abobalhado sem saber o que responder na hora, salvo por um grito de Sasuke para Naruto que respondia no mesmo tom. Shikamaru não sabia o que fazer, e a situação só piorou quando ele ouviu o que Sasuke gritou de volta:

— Se o Gaara jogar, você entra para fazer time.

Virou o rosto na direção do estacionamento como se fosse um boneco com articulação limitada e engoliu em seco. Gaara e Ino vinham de mãos dadas na direção deles.

E Gaara olhava direto em sua direção.

Sério.

Pensou rápido, não adiantava fingir que não sabia que Gaara sabia. Apesar de não parecer, ele era outro observador inteligente. No entanto, não era possível continuar encarando, não quando sabia que havia quebrado a lei número um do clube dos garotos: Nunca pegue a irmã do outro.

Eram palavras chulas, Shikamaru não diria algo assim independente da garota que fosse, mas ele não discutia por entender o significado do que queria dizer. Nada de se relacionar com a irmã do amigo.

— Sasuke é um pau no cú, eu não vou jogar merda nenhuma. — Naruto resmungou para si mesmo e cutucou a perna de Shikamaru, ainda em transe, com o cotovelo — Mas, fala aí, o que tem a Hinata?

Shikamaru limpou a garganta e respirou fundo. Moveu apenas uma mão quando Ino passou gritando um “olá” e não desviou os olhos do desenho da sua bermuda até que seus pensamentos fizessem sentido.

— E aí, Naruto? Shikamaru…

Droga.

Gaara estava ali, na frente dos dois, com os braços cruzados e não parecia contente. Nenhum pouco. Aos poucos Shikamaru foi se lembrando do medo que ele e Naruto tinham de Gaara em sua época gótica quando ainda não tinham amizade, da vez que ficaram congelados por encontrarem ele na escada e pensarem que ele poderia tirar uma faca do sobretudo e matar os dois… Era a mesma sensação.

— Senta aí, Gaara. Shikamaru vai falar algo sobre a Hinata. — Naruto terminou sussurrando e dando risadinhas safadas. Shikamaru quis enfiar ele na areia.

— Que ela gosta de você desde antes de você ter pêlo no saco? — Gaara soltou impaciente e Shikamaru gemeu baixinho como se sentisse dor física.

Foi a vez de Naruto congelar.

— É… Sério? Tipo. Mano, você tá brincando, né? — Naruto riu de nervoso e Shikamaru mexia os dedos do mesmo jeito, ainda mais quando Gaara se sentou ao lado de Naruto e mostrou não estar disposto a sair de lá tão cedo.

O combate com Gaara era inevitável, Shikamaru pensou.

— Claro que é sério. Não lembra quando você estava apanhando daquele cara de cabelo laranja e ela entrou na sua frente? A garota falou que amava você, imbecil.

— Mas… mas… não achei que fosse esse tipo de am… Ah, o que eu faço?

Naruto surtou, puxava os cabelos com as mãos e balançava o corpo para frente e para trás. Shikamaru não sabia daquela informação, devia ter acontecido antes dele voltar, mas nem deu a devida atenção que normalmente dava, estava usando o que restava de seu raciocínio para bolar um plano para fugir dali.

— Ela não gosta de covardes. — Gaara disse baixo e Naruto deu um salto.

— Eu sou um covarde, não é? Meu Deus! Ela gosta de mim! Uma garota gosta de mim! A Hinata! Olha, pensando bem…

Shikamaru sabia com quem Gaara estava falando. Relaxou na cadeira e nem se ligou no que Naruto falava sobre Hinata ser bonita e ser muito legal, não, ele só pensava na cara brava de Temari censurando a atitude covarde dele. Fácil vê-la estreitando os olhos claros e colocando a mão na cintura.  

Que problemão, estava virando um pau mandado igual ao pai…

— Ok, eu vou chamar ela para sair e… depois eu não sei! Shikamaru? Me ajuda!

Ele fechou os olhos por um momento. Sério que Naruto queria conselhos amorosos naquele momento?

— Um passo de cada vez. — respondeu fazendo o possível para olhar somente para Naruto, mas sua visão periférica pegava Gaara o encarando firme. Naruto assentia apavorado. Respirou fundo e continuou — A menina gosta de você desde que éramos crianças, é verdade, mas isso não quer dizer que você deva ficar com ela só para ser legal. Algo que é a sua cara fazer. — Shikamaru entortou a boca e Naruto não sabia se ficava ofendido com aquilo. Decidiu ficar confuso. — Vai conhecer ela e não dê esperanças se não rolar nada, seja sincero com ela e com você. E vai com calma.

— Eu acho que to passando mal. — Naruto choramingou colocando a mão na barriga. Não era algo habitual ver Naruto nervoso daquele jeito. — Ok, vou lá. — mas era normal vê-lo ser impulsivo e fazer o que dava na telha.

Agora só estavam Shikamaru e Gaara embaixo do guarda-sol olhando Naruto andar todo homenzinho decidido na direção das meninas deitadas se bronzeando. Shikamaru ficou estático, olhando aquilo com se a distração pudesse acalmar o monstro que deveria estar pedindo sangue dentro de Gaara naquele momento. Para seu alívio momentâneo, Gaara também ficou em silêncio vendo a cena.

Naruto parou perto delas com as duas mãos na cintura e o peito estufado, Shikamaru e Gaara não conseguiam ouvir o que ele dizia, mas dava para se ter uma ideia do que acontecia só assistindo. Hinata se sentou e tampou a frente com a toalha completamente vermelha, enquanto Sakura arregalava os olhos e Ino batia palmas rindo. A risada de Ino eles ouviam. Então Naruto coçou a nuca e Hinata balançou a cabeça afirmativamente duas vezes escondendo o rosto na toalha. As duas meninas que estavam lá pularam por cima da pobre garota quando Naruto deu as costas e pareceu um pouco perdido, desistiu - para o terror de Shikamaru - de ir até eles e pulou no mar.

— “Seja sincero com ela e com você” — Gaara repetiu as palavras dele e Shikamaru fez uma careta de dor antes de olhar para Gaara. No entanto, Gaara não o olhava, olhava para o mar e parecia estar sereno. Shikamaru continuou atento, aquela família era louca e ele já não sabia mais o que esperar. Gaara, então, respirou fundo e olhou para o pé que cutucava a areia branca — Você está sendo sincero com ela?

Não era uma acusação, parecia até que Gaara não queria falar sobre aquilo. Bom, Shikamaru também não queria. Mas, os dois não tinham escapatória, pelo jeito.

— Não tive oportunidade de dizer o que sinto. — respondeu baixo passando uma mão pelo rosto. Gaara permanecia olhando para o pé, agora parado, prestando atenção — Mas se o que quer saber é se é sincero… Sim, é.

— Há quanto tempo?

Era uma pergunta delicada aquela. O que Gaara queria saber? Há quanto tempo “estavam juntos” ou há quanto tempo ele gostava dela? Pensou muito e decidiu qual seria a melhor resposta para aquilo.

— Desde os 13 anos.

Gaara balançou a cabeça, pelo jeito era aquela resposta que ele queria. Shikamaru estava nervoso, como achava que seria quando fosse pedir a mão de sua futura namorada - uma garota comum - ao pai. Agora, pensando nisso, quase entrava em pânico imaginando que Gaara fosse o menor dos problemas quando ainda havia mais um irmão para encarar e o pai…

— Temari não parece, mas é uma pessoa fácil de conviver. — Gaara disse de repente, e Shikamaru não esperava aquilo. Olhou para Gaara como se ele fosse um alienígena. — Ela, bom… — começou a fazer desenhos aleatórios na areia com o dedo — Ela é certinha, sabe? Gosta de ter as coisas sob controle. Mas ela é cuidadora, ela é sensível… Merda, por que eu to falando isso? Não fode tudo, ok? — Se virou de repente para Shikamaru com uma careta de desgosto — Você é um cara diferente, gênio e tudo mais, e ela deve gostar mesmo de você, então não ferra com a minha confiança, cara.

Shikamaru balançou a cabeça lentamente, olhando firme nos olhos de Gaara. Não iria desrespeitar o que Gaara fazia ali, ele estava sendo um irmão de verdade, cuidando dela e se preocupando. Ele faria o mesmo, por isso não suspirou e nem fez qualquer tipo de careta cansada, ele encarou Gaara.

— Se ela gostar mesmo de mim — Shikamaru inclinou o corpo para frente e olhou sério para Gaara — eu vou deixar de ser preguiçoso e fazer por merecer.

Gaara puxou um canto da boca mais simpático, mas ainda parecia digerir toda aquela informação. Passou a mão pelo cabelo vermelho com um pouco de brutalidade e se levantou limpando a bermuda com a mão.

— Ela estava cantarolando hoje de manhã. — Gaara disse já de costas e Shikamaru esperou querendo sorrir igual um besta — E Temari não é de fazer isso.

 

♚♛

 

Ela não havia mandado mensagem para ele e Shikamaru também não mandou, mas ele tinha um propósito com aquilo. Estava sozinho e já passava das dez da noite, ele acendeu um cigarro e apoiou uma perna no poste atrás de si.

Olhou para a casa da esquina e viu as luzes acesas, mas sabia que ela não estava ali. Os contatos de Ino haviam dito que Temari estaria na casa de Itachi e por volta daquele horário ela voltaria para casa.

Soltou a fumaça para o alto e observou-a dançar para o céu feito nuvem. Ele nem deveria estar fumando, não queria estar com cheiro de cigarro, mas estava nervoso e precisava estar com a cabeça no lugar.

Poucos minutos e ele viu a silhueta de Temari aparecer virando a rua. Desencostou do poste, jogou o cigarro apagando-o com o pé e passou a mão pelo cabelo, não gostava de usar ele solto porque ficava entrando na sua boca, mas parecia que ela gostava e ele estava naquela maldita fase de querer impressionar ela de todas as formas.

Temari parou de andar quando se deu conta que era Shikamaru ali, ele percebeu a respiração dela ficando mais forte e o rosto surpreso sendo desviado para o chão.

Ele não iria se acovardar. Se todo mundo estivesse louco e ela não sentisse nada por ele, ele seguiria adiante, mas se tivesse uma mínima centelha de sentimento dentro dela por ele, uma esperança… Bom, ele continuaria no jogo.

Deu o primeiro passo na direção dela e não parou até estarem de frente.

Ela ergueu a cabeça e Shikamaru segurou a respiração. Ele tinha se acostumado com a amizade dela e era fácil ser amigo de Temari, mas agora era tudo diferente.

— É muito tarde para comermos alguma coisa?

Os olhos dela se arregalaram levemente e Shikamaru mordeu o lábio esperando o que quer que fosse.

Ela limpou a garganta e mudou um peso de uma perna para outra.

— Um encontro de casais para ajudar o amigo a ficar com a garota? — perguntou daquele jeito sarcástico que ele conhecia, mas havia um sorriso diferente no rosto dela.

Shikamaru riu e coçou a nuca desconcertado com sua própria ingenuidade no dia anterior.

— Só você e eu.

Ergueu os olhos para ela e a viu sorrindo delicada, parecia feliz. Esticou a mão para ele e ergueu uma sobrancelha quando ele encarou aquilo com surpresa.

— Vamos fazer certo dessa vez.



betado por Mrs.Fox



Notas finais do capítulo

Aaaaah meus nenéns TT me abracem que eu não guento esses dois ♥
Coisas lindinhas!!!
E as referências? Quais vocês pegaram? hehehehehe
O próximo capítulo vai voltar a ser no ponto de vista da Temari e vamos ver como vai ser esse encontro deles ;)
Espero q tenham gostado *-* E prometo que posto muito mais rápido que da última vez hehehehehe

Quero deixar aqui uma recomendaçãozinha maravilhosa!
https://www.spiritfanfiction.com/historia/suna-no-hebi-11545319

Um cheiro e um beijo!



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